©️2026 Manuela Dias Arello
Toda volta às aulas carrega uma expectativa dupla. De um lado, o frescor de um novo semestre, listas de chamada em branco, planejamentos recém-revisados. De outro, para muitos professores, um nó no estômago que começa alguns dias antes do primeiro sinal tocar. Esse contraste, normalmente silencioso, tem ficado mais visível e muito mais grave, diante de uma sequência preocupante de notícias envolvendo violência e sabotagem contra educadores em sala de aula.
Quando um professor lê que um colega, em outra escola, precisou se afastar após um episódio de violência, algo se ativa nele também. Não é exagero, nem fragilidade: é o sistema nervoso reconhecendo que o ambiente que deveria ser previsível, a sala de aula pode não ser mais seguro. E é esse tipo de percepção, mais do que o fato isolado, que desgasta a saúde mental de uma categoria inteira.
Do ponto de vista psicológico, retornar de um período de descanso já exige uma readaptação: o corpo e a mente saem de um ritmo mais livre para retomar a rotina. Isso, por si só, já gera uma carga de ajuste. Quando se soma a esse processo natural um pano de fundo de insegurança, notícias de violência, sabotagem, desrespeito à autoridade docente, a readaptação deixa de ser apenas cansativa e passa a ser ansiosa.
Muitas escolas concentram o planejamento de início de semestre em logística: calendário de eventos, novos materiais e rematrículas. É natural e necessário. Mas quando o acolhimento emocional da equipe fica de fora dessa pauta, a mensagem implícita que se passa é: "o que importa é o sistema funcionando, não como você está chegando nele".
Isso tem um custo. Professores que não se sentem vistos como pessoas, e não apenas como função, tendem a desenvolver uma despersonalização: um distanciamento afetivo que, a longo prazo, é uma das portas de entrada para o burnout.
Acolher não precisa significar grandes estruturas ou orçamentos altos. Pequenos gestos, quando institucionalizados, fazem diferença real: abrir espaço de fala antes de abrir a pauta pedagógica. Uma reunião de início de semestre que começa perguntando "como vocês estão chegando", já sinaliza que a pessoa se importa antes da função e -reconhecer publicamente o trabalho docente como algo mais amplo do que entrega de conteúdo, validar o peso emocional da profissão é parte do cuidado, não um extra.
Cuidar da saúde mental do professor não é uma pauta paralela à qualidade do ensino,é condição para ela. Um profissional que se sente inseguro, invisível ou desamparado não consegue sustentar, por muito tempo, a presença emocional que a docência exige todos os dias. A pergunta que toda escola deveria se fazer no início do semestre não é apenas "estamos prontos para receber os alunos?", mas também: "estamos prontos para receber quem vai cuidar deles?".
MANUELA DIAS ARELLO
-Pedagoga pela UNIP (2000);
-Especialista em Docência pela UNIFMU e Gestão de pessoas pela FGV (2003);
- Bacharel em direito pela UNIFMU (2006);
- Graduada em Psicologia pela UNIFMU(2024);
-Atua na rede particular de São Paulo como professora do Ensino Fundamental I.
- Escritora
-Autora do livro: Beijos de Luz , contos do cotidiano e da Antologia poética : Uma poesia para cada noite,lançada este ano na Bienal de São Paulo.
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Excelente artigo !
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