@Jonathan Souza Melo
Em um período da humanidade em
que valorizamos a persona e os atalhos que a nutrem, naturalmente perdemos
contato com a própria essência.
Vivemos uma era em que eliminar
os sintomas é mais atrativo do que compreendê-los. Somos inundados com
propagandas para o bem-estar, para a felicidade incondicional e para a recusa
das dificuldades. Naturalmente, há algo benéfico nisso: estamos mostrando que
queremos melhorar a qualidade de vida, e adquirir maior felicidade. O curioso
paradoxo é que, na busca da felicidade, encontramos grandes obstáculos que nos
tornam constantemente insatisfeitos. Vencê-los faz com que encaremos novamente
a falta predecessora da satisfação, o que nos empurra de volta para o aspecto
árduo de estar vivo e de sermos humanos, assim como a barragem impede a
completude do fluxo da água que barra. Nisto, põe-se uma grande questão: onde
esse fluxo conseguiria chegar?
As dificuldades não cessam nessa
questão: podemos descobrir que o esforço para superar a barreira são hercúleos,
e sim, dignos de reverência. Porém, a cada superação, encontramos novas
frustrações que podem nos retirar o sentido primário do investimento de energia
e de vida nesse empreendimento. Nisto, como é de se esperar, surgem novas
questões e novas inquietações. Nossa máscara cai, e custa-nos ainda mais energia
e vida para atendermos essa reincidência sobre a necessidade de propósito, e o
paradoxo se renova: como buscamos sentido, se a cada passo o antigo senso é
perdido e abrem-se inúmeros outros?
A resposta é — e só pode ser —
única: o sentido existe apenas dentro de cada um, e não pode ser plenamente
alcançado em uma referência que nos distancie de nós mesmos.
Em um mundo tecnológico, no qual
substituímos a evolução cognitiva (e pior, a liberdade sobre o desejo) pelas
facilidades que a evolução tecnológica nos traz, somos convidados à preguiça, à
estagnação e à procrastinação. Conseguimos resultados práticos e (supostamente)
uma vida funcional, porém nos esvaziamos de nós mesmos. Temos tudo o que
queríamos, mas nos tornamos vazios sobre o que precisamos. Diferentemente de
automações e robôs, não somos automáticos e robóticos: carregamos a necessidade
de um sentido nas veias, um senso visceral e autoral, que conduz nossas ações e
necessidades.
Se podemos nos perguntar a razão
pela qual estamos vivos, então comecemos pela nossa história. É nela que está ancorada
tanto a nossa falta quanto o nosso prazer, tanto o nosso anseio quanto a
satisfação que o sacia. Não é um crime usufruir da tecnologia (sintoma tão
pungente da evolução humana), para que a vida melhore e seja, necessariamente,
mais farta e acessível. Porém, vigiemos nossas ações e intenções para algo que
seja melhor e mais alto, autoral e autêntico, de forma a transmutar a
dependência tecnológica em liberdade e vivacidade, em vez de exilarmos a
natureza da condição humana dentro de nós mesmos.


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