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domingo, 14 de junho de 2026

O mal-estar é o preço da vida ou um convite à transformação?


 ©️2026 Cristina Marques Motta

Você já teve a sensação de que fez tudo "certo", mas ainda assim algo parece faltar?

Trabalhou, estudou, construiu uma carreira, cuidou da família, cumpriu responsabilidades... e, mesmo assim, em alguns momentos surge um incômodo difícil de explicar. Uma inquietação. Um vazio. Uma pergunta silenciosa: "Era isso?"

Talvez essa experiência seja mais comum do que imaginamos.

Há quase cem anos, Sigmund Freud escreveu um livro chamado O Mal-Estar na Civilização, tentando compreender por que os seres humanos continuam sofrendo mesmo vivendo em sociedades organizadas, com avanços científicos e inúmeras possibilidades de conforto.

Para Freud, existe um conflito inevitável entre aquilo que desejamos e aquilo que a vida em sociedade exige de nós.

Desde cedo aprendemos que não podemos fazer tudo o que queremos. Precisamos esperar, dividir, respeitar regras, controlar impulsos e considerar o outro. Essas renúncias tornam possível a convivência humana, mas também geram frustração.

Em outras palavras, o sofrimento seria, em certa medida, o preço que pagamos por viver em comunidade.

Essa é uma visão profunda e, ao mesmo tempo, bastante realista da condição humana. Nem sempre conseguiremos satisfazer todos os nossos desejos. Nem sempre a felicidade será completa. Viver implica limites.

Mas existe uma outra forma de olhar para esse mesmo mal-estar.

As abordagens humanista, existencial e fenomenológica concordam que o sofrimento faz parte da vida. No entanto, propõem uma pergunta diferente: e se esse desconforto não for apenas um problema a ser suportado? E se ele também puder ser compreendido como uma mensagem?

Ao invés de perguntar apenas "O que foi reprimido?", essas abordagens perguntam:

Como você está vivendo essa experiência?

O que perdeu sentido?

O que esse sofrimento está tentando comunicar?

Às vezes, a angústia aparece quando estamos vivendo uma vida distante de quem somos. Outras vezes, ela surge diante de escolhas importantes, mudanças inevitáveis, perdas, transições ou da necessidade de redefinir prioridades.

O vazio pode revelar cansaço.

A ansiedade pode denunciar excesso de exigências.

A tristeza pode apontar para algo que precisa ser elaborado.

O incômodo pode indicar que chegou o momento de olhar para si com mais honestidade.

Isso não significa romantizar o sofrimento ou acreditar que toda dor traz ensinamentos. Há dores que precisam de cuidado, acolhimento e tratamento. Mas significa reconhecer que nem sempre o objetivo é eliminar rapidamente qualquer desconforto. Em alguns momentos, é justamente a capacidade de escutar aquilo que sentimos que possibilita transformação.

Imagine uma mulher que alcançou sucesso profissional, é admirada pelas pessoas ao redor e, ainda assim, sente um vazio constante.

Freud talvez perguntasse:

"Quais desejos seus precisaram ser sacrificados para que você chegasse até aqui?"

A perspectiva existencial poderia perguntar:

"O que esse vazio está lhe mostrando sobre a maneira como você tem vivido? Que vida deseja construir daqui para frente?"

Nenhuma dessas perguntas está necessariamente certa ou errada. Elas iluminam aspectos diferentes da experiência humana.

Talvez a grande contribuição de Freud seja nos lembrar de que não somos tão livres quanto gostamos de imaginar. Nossa história, nossas relações e os conflitos internos influenciam profundamente a maneira como vivemos.

Por outro lado, a abordagem humanista-existencial nos convida a reconhecer que, apesar das limitações, sempre existe algum espaço para escolha. Podemos atribuir novos significados às experiências, rever caminhos e assumir maior responsabilidade pela forma como desejamos existir no mundo.

Entre aquilo que nos determina e aquilo que podemos escolher, construímos nossa história.

Por isso, talvez o mal-estar não seja apenas o preço inevitável da civilização. Talvez ele também seja um convite.

Um convite para desacelerar.

Para revisitar escolhas.

Para reconhecer limites.

Para resgatar desejos esquecidos.

Para construir relações mais autênticas.

Para viver com mais presença e coerência com aquilo que realmente importa.

A vida provavelmente nunca será isenta de dor, dúvidas ou conflitos. Mas talvez o sofrimento deixe de ser apenas um inimigo quando nos dispomos a escutá-lo com curiosidade e compaixão.

Quem sabe algumas das perguntas mais importantes da nossa existência não surjam justamente nos momentos em que algo dentro de nós insiste em dizer:

"Do jeito que está, já não é possível continuar."

E talvez seja aí que a transformação comece.

 CRISTINA MARQUES MOTTA











Psicóloga clínica; 

Graduação em Psicologia pela PUCPR – 2021 e

MBA em Constelações Sistêmicas pela Faculdade de Ampere – FAMPER ( 2024)

Nota do Editor:


Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

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