©️2026 Andreia Soares Calçada
As férias escolares costumam ser um dos momentos mais aguardados pelas crianças e adolescentes. É tempo de descanso, viagens, encontros familiares e novas experiências. No entanto, para pais separados, esse período também pode trazer disputas e conflitos relacionados à convivência com os filhos. Mesmo em a guarda compartilhada, o planejamento e o diálogo são fundamentais para que as férias cumpram seu objetivo que é proporcionar momentos de felicidade e fortalecer os vínculos familiares.
É natural que os pais desejem passar mais tempo com os filhos durante as férias e em datas especiais, como Carnaval, Natal e Ano Novo. Porém, após a separação, torna-se necessário compreender que a convivência precisa ser compartilhada. Os filhos não pertencem exclusivamente a um dos genitores, e o direito dos dois participarem de suas vidas deve ser preservado, sempre considerando o melhor interesse da criança.
Quando existe uma relação minimamente harmoniosa entre os pais, a organização antecipada faz toda a diferença. Definir com antecedência como será a divisão das férias e dos feriados prolongados evita frustrações, reduz conflitos e permite que todos se programem. Alternar os anos para determinadas celebrações ou estabelecer um sistema de revezamento costuma ser uma solução equilibrada.
Mas como imprevistos acontecem, uma adaptação no calendário inicialmente combinado pode se fazer necessária.
Nesses momentos, a comunicação aberta, o respeito e a flexibilidade são muito mais eficazes do que a rigidez ou a disputa por direitos. O foco deve permanecer na busca de soluções que beneficiem a criança, e não na satisfação de interesses pessoais dos adultos.
Embora muitos acordos sejam feitos de maneira amigável, é importante que eles sejam registrados por escrito, ainda que por WhatsApp ou e-mail. A formalização reduz a possibilidade de interpretações diferentes e oferece maior segurança para ambos os lados.
Na maioria dos casos, já existe uma regulamentação judicial da convivência, especialmente quando a separação ocorreu de forma litigiosa. Nessas situações, o cumprimento do que foi estabelecido pela Justiça é essencial para evitar novos conflitos. Já quando há capacidade de diálogo, ajustes e negociações podem ser realizados de forma consensual, respeitando as necessidades de cada família.
Já quando os filhos já são adolescentes, essa conversa pode incluir também os próprios. À medida que crescem, eles desenvolvem maior autonomia e podem expressar seus desejos sobre como gostariam de dividir o tempo entre as duas casas. Ouvi-los, sem transferir a eles a responsabilidade pela decisão, demonstra respeito à sua individualidade e favorece relações familiares mais saudáveis.
As férias escolares costumam envolver períodos mais longos de convivência, muitas vezes divididos em 15 dias consecutivos com cada genitor. Nesses casos, também é importante combinar previamente questões práticas, como viagens, horários de retorno e a possibilidade de manter contato com o outro pai ou mãe durante esse período. Infelizmente, ainda existem situações em que um dos genitores dificulta ligações telefônicas, impede vídeo chamadas ou cria obstáculos para viagens, comportamentos que frequentemente acabam sendo resolvidos apenas pela via judicial.
Esse tipo de atitude, geralmente motivada por sentimentos de posse, ressentimento ou desejo de controle, acaba atingindo quem menos deveria ser afetado: a criança. Viver em dois lares já exige adaptação a diferentes rotinas, regras e formas de convivência. Acrescentar disputas entre os pais torna esse processo ainda mais desgastante e pode trazer prejuízos ao desenvolvimento emocional dos filhos.
Outro aspecto que merece atenção é que as férias não representam apenas o direito de convivência com os pais. Elas também são uma oportunidade para fortalecer os laços com a família extensa. Avós, tios, primos e demais familiares exercem papel importante na construção da identidade, do sentimento de pertencimento e da rede de apoio emocional das crianças e adolescentes. Sempre que possível essa convivência deve ser incentivada.
A guarda compartilhada não significa apenas dividir dias no calendário. Ela pressupõe corresponsabilidade, cooperação e maturidade para construir um ambiente emocionalmente seguro para os filhos. Quando os pais conseguem colocar o bem-estar das crianças acima dos conflitos do relacionamento, as férias deixam de ser motivo de tensão e passam a representar exatamente o que deveriam ser: um tempo de descanso, afeto, convivência e boas lembranças que acompanharão esses filhos por toda a vida.
ANDREIA SOARES CALÇADA
- Psicóloga clínica e jurídica;
- Graduada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (1992);
- Pós -graduação em psicologia jurídica, psicopedagogia e psicologia clínica além de neuropsicologia pelo CRP-5 (1996) ;
- Mestrado em Sistemas de Resolução de Conflitos, Negociação e Resolução de Conflitos pela Universidad Nacional de Lomas de Zamora (2015) e
- Autora do livro "Perdas irreparáveis - alienação parental" e "Falsas acusações de abuso sexual"
Nota do Editor:
Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.


Nenhum comentário:
Postar um comentário