©️2026 Mariane Maia Brasil Faria
Por que algumas pessoas conseguem encontrar forças para transformar suas vidas mesmo diante de grandes dificuldades, enquanto outras se sentem paralisadas pelas circunstâncias? Embora fatores como renda, acesso à educação e moradia sejam fundamentais para responder a essa pergunta, eles não contam toda a história. As emoções, a forma como enxergamos nossas possibilidades e a capacidade de imaginar novos caminhos também desempenham um papel importante.
A psicóloga social Bader Sawaia propõe uma reflexão sobre como as emoções e a criatividade podem se tornar ferramentas de transformação social. Inspirada nas ideias de Espinosa e Vigotski, ela argumenta que a desigualdade não afeta apenas as condições materiais de vida, mas também
limita as possibilidades de desenvolvimento das pessoas, restringindo suas capacidades de agir, criar e transformar a própria realidade.
Essa perspectiva desafia a ideia de que apenas necessidades básicas, como alimentação e moradia, são importantes para o bem-estar humano. Embora essas condições sejam fundamentais, o sofrimento emocional também tem um impacto profundo na vida das pessoas. Sentimentos como medo, impotência e desesperança podem reduzir a capacidade de enxergar alternativas e de buscar mudanças.
Nesse sentido, Sawaia destaca a importância do desenvolvimento emocional e criativo como caminhos para fortalecer a autonomia dos indivíduos. Quando as pessoas reconhecem suas potencialidades, tornam-se mais capazes de participar ativamente da construção de suas trajetórias e
da transformação de seu contexto social.
A autora também procura compreender a relação entre subjetividade e desigualdade social. Em vez de separar o indivíduo da sociedade, ela mostra que ambos estão profundamente conectados.Nossas experiências, pensamentos e emoções são influenciados pelas condições sociais em que vivemos, ao mesmo tempo em que também influenciam a forma como percebemos e respondemos à realidade.
Por outro lado, a fragilidade emocional pode aumentar a vulnerabilidade das pessoas a relações de dependência e submissão. Quando alguém não reconhece suas próprias capacidades, tende a depositar em outras pessoas ou instituições a responsabilidade por sua felicidade e realização. Esse processo pode fortalecer relações marcadas pela dominação e pela falta de autonomia.
Para compreender essa dinâmica, é importante recorrer às contribuições de Vigotski. O autor defendia que o pensamento não surge de forma isolada, mas é construído nas relações sociais. Aquilo que pensamos, sentimos e acreditamos possível está diretamente relacionado às experiências que vivemos e ao contexto em que estamos inseridos. Por isso, ampliar a consciência sobre a própria realidade é um passo fundamental para a conquista da liberdade.
Uma das contribuições mais conhecidas de Vigotski é o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, que destaca o potencial de crescimento existente quando o indivíduo recebe apoio para desenvolver habilidades que ainda estão em processo de construção. A aprendizagem, nesse sentido, não se limita à aquisição de conhecimentos, mas também envolve o fortalecimento da imaginação, da vontade, da reflexão e da capacidade de agir.
Na prática, isso significa que transformar uma realidade desigual não depende apenas de mudanças externas. Também envolve criar condições para que as pessoas reconheçam suas capacidades, desenvolvam autonomia e participem ativamente da construção de suas próprias histórias.
Quando o trabalho psicológico promove experiências que favorecem a consciência emocional, a reflexão crítica e o desenvolvimento de novas possibilidades de ação, as pessoas podem passar de uma posição mais passiva para uma atuação mais ativa diante dos desafios que enfrentam. Essa transformação não elimina automaticamente as desigualdades sociais, mas amplia a capacidade de compreender a realidade, agir sobre ela e buscar mudanças individuais e coletivas.
MARIANE MAIA BRASIL FARIA
- Psicóloga cínica graduada pela Universidade de Mogi das Cruzes (2021);
- Pós-graduada em Psicopatologia pela CEEPS (2024) ;e
- Atuação na abordagem da Psicánalise.
Nota do Editor:
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