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domingo, 1 de fevereiro de 2026

A desinteligência artificial sobre a falta genuína


 @Jonathan Souza Melo

Em um período da humanidade em que valorizamos a persona e os atalhos que a nutrem, naturalmente perdemos contato com a própria essência.

Vivemos uma era em que eliminar os sintomas é mais atrativo do que compreendê-los. Somos inundados com propagandas para o bem-estar, para a felicidade incondicional e para a recusa das dificuldades. Naturalmente, há algo benéfico nisso: estamos mostrando que queremos melhorar a qualidade de vida, e adquirir maior felicidade. O curioso paradoxo é que, na busca da felicidade, encontramos grandes obstáculos que nos tornam constantemente insatisfeitos. Vencê-los faz com que encaremos novamente a falta predecessora da satisfação, o que nos empurra de volta para o aspecto árduo de estar vivo e de sermos humanos, assim como a barragem impede a completude do fluxo da água que barra. Nisto, põe-se uma grande questão: onde esse fluxo conseguiria chegar?

As dificuldades não cessam nessa questão: podemos descobrir que o esforço para superar a barreira são hercúleos, e sim, dignos de reverência. Porém, a cada superação, encontramos novas frustrações que podem nos retirar o sentido primário do investimento de energia e de vida nesse empreendimento. Nisto, como é de se esperar, surgem novas questões e novas inquietações. Nossa máscara cai, e custa-nos ainda mais energia e vida para atendermos essa reincidência sobre a necessidade de propósito, e o paradoxo se renova: como buscamos sentido, se a cada passo o antigo senso é perdido e abrem-se inúmeros outros?

A resposta é — e só pode ser — única: o sentido existe apenas dentro de cada um, e não pode ser plenamente alcançado em uma referência que nos distancie de nós mesmos.

Em um mundo tecnológico, no qual substituímos a evolução cognitiva (e pior, a liberdade sobre o desejo) pelas facilidades que a evolução tecnológica nos traz, somos convidados à preguiça, à estagnação e à procrastinação. Conseguimos resultados práticos e (supostamente) uma vida funcional, porém nos esvaziamos de nós mesmos. Temos tudo o que queríamos, mas nos tornamos vazios sobre o que precisamos. Diferentemente de automações e robôs, não somos automáticos e robóticos: carregamos a necessidade de um sentido nas veias, um senso visceral e autoral, que conduz nossas ações e necessidades.

Se podemos nos perguntar a razão pela qual estamos vivos, então comecemos pela nossa história. É nela que está ancorada tanto a nossa falta quanto o nosso prazer, tanto o nosso anseio quanto a satisfação que o sacia. Não é um crime usufruir da tecnologia (sintoma tão pungente da evolução humana), para que a vida melhore e seja, necessariamente, mais farta e acessível. Porém, vigiemos nossas ações e intenções para algo que seja melhor e mais alto, autoral e autêntico, de forma a transmutar a dependência tecnológica em liberdade e vivacidade, em vez de exilarmos a natureza da condição humana dentro de nós mesmos.

 JONATHAN SOUZA MELO

 









-Psicólogo graduado pela FMU-SP (2019);

-Pós-graduado em Psicologia Hospitalar e da Saúde pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Psicologia e Saúde - CEPPS (2022); e

Pós-graduando em Neurociência, Comportamento e Psicopatologia pela PUC-PR. 

São suas palavras:

"Sou entusiasta de artes escritas e e visuais,especialmente pinturas.Vejo o mundo sob viés psicanalítico/psicodinâmico, enriquecendo assim minha experiência na clínica psicológica e na vida."

Contato: (11) 95901-5355

Nota do Editor:

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