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domingo, 27 de setembro de 2026

E se você não for o problema?



Imagem Criada pela IA

©️2026 Cláudia Alaide da Silva Siqueira

Sobre a necessidade de compreender antes de corrigir

Talvez uma das perguntas mais comuns quando alguém procura psicoterapia seja: "Qual é o meu problema?”

Às vezes, ela aparece de forma explícita. Outras vezes, vem disfarçada em perguntas aparentemente diferentes: "Por que eu sou assim?", "Por que não consigo controlar isso?", "Por que todo mundo consegue e eu não", "O que há de errado comigo?"

Há algo interessante nessas perguntas. Antes mesmo de compreendermos aquilo que estamos vivendo, muitas vezes já partimos da ideia de que existe alguma coisa em nós que precisa ser corrigida.

É como se a experiência de sofrer precisasse, necessariamente, apontar para uma falha.

Talvez eu precise ser menos ansioso. Mais confiante. Mais produtivo. Menos sensível. Mais organizado. Menos dependente. Mais resiliente. Preciso aprender a dizer não, controlar minhas emoções, deixar o passado para trás, superar uma perda, mudar um comportamento.E, quando não conseguimos fazer essas mudanças, uma conclusão ainda mais difícil pode aparecer:

"Talvez o problema seja eu."

Mas será que precisa ser assim?

Por que precisa haver um problema?

Vivemos em uma época profundamente marcada pela ideia de aperfeiçoamento.

Quase tudo pode ser melhorado: nossa produtividade, nossos relacionamentos, nosso corpo, nossa alimentação, nosso sono, nossa autoestima, nossa comunicação, nossa carreira e até a maneira como sentimos.

Não há nada de necessariamente errado em desejar mudanças. Há situações em que mudar é importante e outras em que o sofrimento exige cuidado, tratamento e intervenção.

A questão é outra.

Quando foi que começamos a acreditar que toda experiência que nos incomoda precisa ser transformada em um problema a ser resolvido?

Essa pergunta pode parecer simples, mas abre uma reflexão importante.

Porque, quando organizamos a vida apenas pela lógica do certo e do errado, do adequado e do inadequado, do saudável e do problemático, corremos o risco de transformar diferenças, mudanças e sofrimentos em evidências de que há algo defeituoso em nós.

E talvez seja justamente nesse ponto que a pergunta deva ser suspensa:

Por que precisa haver um problema?

Não para negar o sofrimento. Não para dizer que tudo está bem. Mas para permitir que, antes de corrigirmos alguma coisa, possamos compreender o que está acontecendo.

Quando a diferença passa a ser vista como defeito

A vida não permanece igual.

Mudamos de trabalho, terminamos relacionamentos, começamos outros, perdemos pessoas, fazemos escolhas, nos arrependemos, descobrimos desejos que não conhecíamos, abandonamos projetos, encontramos novos caminhos.

Aquilo que fazia sentido em determinado momento pode deixar de fazer sentido em outro.

E isso não significa necessariamente que alguém esteja quebrado.

Significa que a vida mudou.

Ainda assim, diante dessas transformações, muitas vezes tentamos recuperar rapidamente uma sensação anterior de estabilidade.

"Eu preciso voltar a ser quem eu era."

"Eu preciso parar de sentir isso."

"Eu preciso me adaptar."

"Eu preciso conseguir funcionar novamente."

Talvez, em algumas situações, seja mesmo necessário reconstruir uma rotina ou desenvolver novas formas de lidar com o que aconteceu.

Mas talvez também seja necessário perguntar:

Quem disse que precisamos voltar a ser exatamente quem éramos antes?

Algumas mudanças não são problemas que precisam ser eliminados. São experiências que precisam ser atravessadas e compreendidas.

Nem tudo aquilo que precisa ser compreendido precisa ser corrigido

Essa talvez seja uma das diferenças mais importantes entre olhar para o sofrimento apenas como algo que precisa desaparecer e olhar para ele como uma experiência que pode ser compreendida.

Uma pessoa pode chegar dizendo:

"Eu preciso parar de sentir isso."

Mas talvez possamos perguntar:

O que esse sentimento significa para você?

Alguém pode dizer:

"Eu preciso controlar minha ansiedade."

E talvez seja importante também perguntar:

O que tem acontecido na sua vida para que estar onde você está tenha se tornado tão difícil?

Outra pessoa pode dizer:

"Eu preciso deixar de ser tão dependente emocionalmente."

E podemos nos perguntar:

O que essa relação representa? O que você encontra nela? O que teme perder?

Essas perguntas não significam que a pessoa não precise mudar.

Significam que não precisamos decidir o que deve ser mudado antes de compreender aquilo que está acontecendo.

Há uma diferença entre cuidar de uma experiência que produz sofrimento e transformar a própria pessoa em um problema que precisa ser consertado.

E se a pergunta pudesse mudar?

Talvez a psicoterapia não precise começar pela pergunta:

"O que há de errado comigo?"

Talvez ela possa começar por uma pergunta diferente:

"O que está acontecendo comigo?"

A diferença pode parecer pequena, mas não é.

A primeira pergunta procura um defeito.

A segunda procura compreender uma experiência.

Quando perguntamos "o que há de errado comigo?", podemos acabar olhando para nós mesmos como objetos que precisam ser ajustados.

Quando perguntamos "o que está acontecendo comigo?", abrimos espaço para considerar nossa história, nossas relações, nossos desejos, nossas escolhas, nossas perdas, nossos limites e as circunstâncias que atravessamos.

Não se trata de retirar da pessoa a responsabilidade por sua própria vida.

Ao contrário.

Talvez compreender seja justamente uma maneira mais profunda de assumir essa responsabilidade.

Porque só podemos escolher com mais liberdade aquilo que conseguimos perceber.

Talvez você não precise chegar com uma resposta

Nem sempre quem procura terapia sabe exatamente o que está procurando.

Às vezes existe uma sensação de vazio.

Às vezes existe um cansaço que não passa.

Uma relação que deixou de fazer sentido.

Uma perda que continua presente.

Um comportamento que se repete.

Uma escolha que parece impossível.

Uma mudança que ainda não conseguimos nomear.

Ou simplesmente a sensação de que a maneira como estávamos vivendo já não parece possível.

Não é necessário chegar à psicoterapia sabendo qual é o problema.

Talvez seja possível chegar justamente com a pergunta.

E permitir que, no encontro com outra pessoa, aquilo que ainda está confuso possa ganhar espaço, linguagem e compreensão.

A psicoterapia pode ser esse lugar: não necessariamente um espaço onde chegamos para descobrir o que precisa ser consertado, mas um espaço onde podemos olhar com mais cuidado para aquilo que estamos vivendo.

Porque compreender não significa justificar tudo.

Não significa permanecer no sofrimento.

Não significa abandonar a possibilidade de mudança.

Significa apenas não transformar a mudança em uma obrigação antes de compreender sua necessidade.

Às vezes, o primeiro passo não é descobrir o que precisa ser consertado. É encontrar um lugar onde aquilo que você está vivendo possa finalmente ser compreendido.


CLAUDIA  ALAÍDE DA SILVA SIQUEIRA















  • Graduada em Psicologia pela FMU (2020);
  • Especialista em psicologia fenomenológico hermenêutica pelo Instituto Daisen (2022) com foco nos fenômenos relacionais;
  • Atua na clínica acompanhando pessoas em diferentes momentos de suas existências, especialmente quando aquilo que antes parecia possível de sustentar já não encontra o mesmo lugar na vida. Seu trabalho parte do interesse pela experiência singular de cada pessoa e pela construção de sentidos possíveis diante das mudanças, dos sofrimentos, das perdas, dos desejos e das escolhas que atravessam uma existência;
  • Além da clínica particular, atua no contexto de internação psiquiátrica, acompanhando processos agudos de sofrimento psíquico, e desenvolve trabalhos em grupo a partir da biblioterapia, aproximando literatura e cuidado como possibilidades de encontro, reflexão e elaboração da experiência;
  • Em seu trabalho, interessa-lhe menos oferecer respostas prontas sobre como alguém deveria viver e mais construir, junto à pessoa, um espaço onde ela possa se aproximar das próprias perguntas — inclusive daquelas que ainda não sabe formular.
  • *São suas palavras*
  • *Porque, antes de perguntar o que precisa ser mudado, talvez seja preciso compreender o que a vida está nos pedindo para olhar.*

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

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