©️2026 Marcio Cavalcante
Quando começo uma aula, uma das primeiras coisas que percebo é que, antes mesmo de falar sobre o conteúdo, muitas vezes preciso "chamar" a turma para aquele momento. É aí que percebo aquilo que estou chamando, provisoriamente, de "automação pedagógica": quase no piloto automático, começo pelo tradicional — "senta", "guarda o celular", "copie", "presta atenção", "faz silêncio". Esses comandos fazem parte da rotina e ajudam a organizar a sala. Dar comandos técnicos também faz parte do trabalho do professor: organizar a turma, estabelecer limites, pedir silêncio, orientar a cópia e explicar o que precisa ser feito. Isso não significa que essas práticas estejam erradas. O desafio aparece quando elas se tornam praticamente a única estratégia para conseguir a atenção.
Porém, o estudante precisa de algo além de saber "o que fazer"; ele precisa encontrar algum sentido naquilo que está fazendo. Nesse ponto, entre as várias discussões sobre neuroeducação e aprendizagem, cito as apresentadas e discutidas por Gustavo Marçon (@gustavoomacon) que nos ajudam a ampliar nosso olhar: a atenção não depende apenas de uma ordem, mas também pode ser favorecida pelo significado, pela curiosidade, pelo desafio e pela participação. Entender e principalmente aceitar que conseguir que o aluno fique sentado e em silêncio não significa, necessariamente, que ele esteja conectado com aquilo que estou ensinando. E foi aí que comecei a me perguntar: como fazer esse aluno realmente entrar na aula?
Essa pergunta também pode ser pensada a partir de outras perspectivas pedagógicas. Vygotsky nos ajuda a compreender a importância da interação e da mediação do professor. Paulo Freire, por sua vez, nos incentiva a pensar em uma educação baseada no diálogo, na participação e na construção de sentidos. Essas ideias não significam abandonar o conteúdo, a autoridade ou a organização da aula. Significam pensar em maneiras de fazer com que o estudante se envolva intelectualmente com aquilo que está sendo apresentado.
Não, não vou dar solução pronta, vou buscar dialogar e adaptar a minha vivência em sala de aula e lhe incentivo a fazer o mesmo. Talvez esse seja o ponto mais importante: não precisamos transformar a aula em um show para conseguir a atenção do aluno, assim como não precisamos transformar a sala em um espaço baseado apenas em comandos. O que já fazemos — explicar, organizar, cobrar, orientar e estabelecer limites — continua tendo valor. A questão é ampliar o repertório pedagógico. Em vez de apenas dizer "preste atenção", podemos lançar uma pergunta que desperte curiosidade. Em vez de somente "copie", podemos mostrar por que aquele conteúdo merece ser compreendido. Não se trata de abandonar a autoridade do professor, mas de utilizá-la para criar condições para que o aluno pense, participe, questione e aprenda. No final, talvez a melhor atenção seja aquela que não precisamos pedir o tempo todo, porque nasceu do interesse, do sentido e da vontade de compreender.
MARCIO CAVALCANTE
-Graduação com Licenciatura e Bacharelado em História - PUC - SP -(2012);
-Graduação em Licenciatura em Geografia EAD – Facuminas - MG( 2021);
-Graduando em Licenciatura em Ciências Sociais EAD – UNIMAIS – SP;
-Graduando em Licenciatura de Filosofia EAD – FAMAR - MA;
-Pós-Graduação em "Neuroeducação: Neurociência e Educação" – Faculdade Metropolitana – SP - (2025);
-Pós-Graduando em Direito e Processo o Trabalho – Faculdade Metropolitana – SP e
Curso de Extensão em andamento- Estudos em Cultura Visual: imagens e circuitos – USP – SP
-Professor de História, Geografia, Sociologia e Filosofia no Colégio Moderno ligado ao Sindicato dos Estivadores de Santos.
Nota do Editor:
Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

Olá caro Márcio, suas reflexões acerca da "automação pedagógica" é um colírio para a nossa "solidão" em sala de aula. Muitas vezes supomos que para atrair o alunado, e trazermos para aula, se faz necessário algo além daquilo que planejamos, mas A visão socrática da ironia e da maiêutica é o suficiente. Perguntar é a única maneira de estabelecermos um diálogo constante de ensino -aprendizagem em sala de aula. Salve Sócrates e Paulo Freire!
ResponderExcluirParabéns para todos os alunos que os tem e aos que os tiveram como professor .
ResponderExcluirForte abraço nobre educador
Muito interessante essa reflexão. Acho que um dos maiores desafios está justamente em diferenciar silêncio de atenção. Um aluno pode estar quieto e completamente desconectado, enquanto outro pode estar perguntando, questionando e até parecendo inquieto, mas totalmente envolvido com o que está sendo discutido. Talvez o ponto esteja mesmo nesse equilíbrio entre autoridade, organização e a capacidade de despertar interesse. Fiquei pensando: na prática, quais estratégias você percebe que mais funcionam para fazer a turma realmente “entrar” na aula?
ResponderExcluirQue alento ler um artigo escrito "de dentro" da sala de aula.
ResponderExcluirPorque especialista em metodologia é aquela figura que nunca precisou colocar um sexto ano em ordem antes de começar a aula. Rs.
Obrigada por dividir o que a neurociência e Vygotsky nos sussurravam há tempos: engajamento não se decreta, se constrói — e você constrói na sala de aula! Artigo perfeito!
É professora, essa galera que não sabe lidar com o dia a dia é embaçado. Não que eu tenha que me reinventar, mas a docência é materialmente dialética....com bem entendemos.
ExcluirProf. Márcio, excelente reflexão, especialmente pelo momento em que vivemos. Momento que enfrentamos a tentativa continua de sucateamento e desvalorização da educação e da cultura.
ResponderExcluirTemos que persistir e resistir.
Prof. Márcio, excelente reflexão, especialmente em um momento em que enfrentamos as contínuas tentativas de sucateamento e desvalorização da educação e da cultura brasileiras.
ResponderExcluirOs desafios da educação são eternos e cada época tem a sua particularidade. Vivemos no tempo do imediato, do descartável das redes sociais, das famas efêmeras. Conheço o professor Márcio e admiro com veemência o trabalho dele, bem como a postura inovadora e humana, e sua sinceridade. O artigo presente nos faz reafirmar muitas atitudes e repensar outras tantas para trilharmos o caminho do aprimoramento do exercício da docência. Este texto merece ser lido e relido e meditado com a mente e o com o coração por cada professor do nosso país.
ResponderExcluirRodrigo Fontanelli
ResponderExcluirMárcio, parabéns pelo texto e pela reflexão! Uma leitura que nos faz pensar muito sobre a prática docente e, principalmente, sobre como despertar no aluno o interesse genuíno em aprender. Grande contribuição, meu amigo! 🖤💙🤍
ResponderExcluirParabéns pelo artigo, Márcio! É muito gratificante ler uma reflexão honesta de quem realmente conhece a dinâmica da sala de aula. Você resumiu com precisão: limites e comandos continuam necessários, mas o verdadeiro salto pedagógico acontece quando despertamos a curiosidade e o engajamento ativo do aluno. Obrigado por compartilhar essa perspectiva tão enriquecedora!
ResponderExcluirParabéns pelo artigo.
ResponderExcluirGrata por compartilhar suas reflexões.
Muito boa reflexão prof°! É uma realidade visível e vivenciada dentro da sala de aula, muito por causa da dopamina rápida das redes sociais, os alunos precisam de muito estímulo para reter a atenção
ResponderExcluirSuas ponderações fizeram-me lembrar de uma aula onde a professora chegou dizendo que estava com sono pois havia ficado até tarde vendo um filme que tanto a encantou que não conseguiu pegar no sono logo depois. Obviamente, todo mundo quis que ela contasse esse filme, depois percebemos que era o tema da aula.
ResponderExcluirEra aula numa pós graduação! Numa pós graduação! Lugar onde já somos adultos e estamos ali por interesse e escolha e, mesmo assim, a introdução da forma que foi conduzida despertou maior engajamento na turma.
Acredito que, como você citou, sob a luz da neurociência, ela criou as condições cognitivas e emocionais para que os alunos quisessem recebê-lo. O cérebro precisa de atenção, relevância, curiosidade e significado para aprender.
Sigamos nessa tentativa!
Opa professor. Ótima reflexão. Ao mesmo que está cada vez mais difícil essa parte da organização da sala, encontrar um meio comum com os alunos, significando o ensino para eles, é essencial. Precisamos persistir e trazer esses alunos para a aula. Aprender é muito bom, só precisam aprender isso!
ResponderExcluir