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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Misoginia


 

©️2026 Sergio Luiz Pereira Leite


O Senado Federal aprovou no dia 24 de março de 2026, pelo voto de 68 senadores, Projeto de Lei 896/2023, que equipara a misoginia ao crime de racismo, previsto na Lei nº 7.719/89. Resta, para a sua vigência, a revisão pela Câmara dos Deputados e, se aprovada, a sanção presidencial para a sua efetiva aplicação.

Mas o que é misoginia? A palavra misoginia tem sua origem no grego "misero", que significa ódio. No Brasil, essa conduta pode ser definida como a aversão, o desprezo ou o ódio extremado direcionado simplesmente pela condição de mulher e pode manifestar-se com atitudes de hostilidade, discriminação, objetificação e violência física ou psicológica contra as mulheres.

Será um crime imprescritível, inafiançável e prevê a pena de reclusão de 1 a 5 anos, além de multa. Essa conduta, enquanto não se converte em lei, não é tipificado como um crime específico na lei brasileira, sendo tratada por meio de crimes correlatos como injúria, difamação ou violência psicológica.

Amiúde, vemos a rotulação de misógino às percepções de toda e qualquer fala que alguma mulher que as entenda ofensivas, discriminatórias ou preconceituosas. Caso emblemático do que aqui se assevera é a constante designação de misógino a todo aquele que discorde de alguma das ideias expressas por mulheres, mormente àquelas que contenham um cunho político e social.

O citado Projeto de Lei está tramitando na Câmara dos Deputados em regime de urgência e terá o condão, se aprovado, de alterar vários artigos da Lei nº 7.716 de 8 de janeiro de 1989, que terá a seguinte redação no seu artigo 1º, verbis:  "Serão punidos na forma da lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional ou praticado em razão de misoginia".

Também será acrescentado o § 3º ao artigo 141 do Código Penal, que passará a ter a seguinte redação: "Se o crime é praticado contra a mulher no contexto de violência doméstica e familiar, aplica-se a pena em dobro".

Atualmente o texto do PL 896/2023, encaminhado pelo Senado Federal, se encontra em discussão na Câmara dos Deputados, sem ainda existir, na data da elaboração deste artigo, uma redação final para ser submetida para sua aprovação.

SERGIO LUIZ PEREIRA LEITE










-Advogado graduado pela Faculdades de Ciências Jurídicas e Administrativas de Itapetininga (1976) e

-Militante há mais de 45 anos nas áreas cível e criminal na Comarca de Tietê, Estado de São Paulo.

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

domingo, 16 de agosto de 2026

Por que é tão difícil simplesmente parar o vício em jogos de azar?


 

©️2026 Valéria Carvalho Ribeiro


Com a popularização das apostas esportivas e dos cassinos on-line, jogar ficou muito mais fácil. Hoje, basta um celular para apostar a qualquer hora do dia. Para algumas pessoas, isso permanece como diversão ocasional. Para outras, porém, o jogo começa a ocupar cada vez mais espaço, trazendo dívidas, conflitos familiares, ansiedade e a sensação de não conseguir parar.

Para quem observa de fora, uma pergunta parece inevitável: se a pessoa já perdeu tanto dinheiro e sabe que o jogo está fazendo mal, por que continua apostando?

A resposta não é tão simples quanto falta de responsabilidade ou de força de vontade. Quando uma pessoa desenvolve uma relação compulsiva com o jogo, muitas vezes já sabe das consequências. Ela promete que vai parar, sente culpa depois de perder e reconhece os prejuízos. Ainda assim, em algum momento, volta a apostar. A psicanálise nos ajuda a compreender justamente essa contradição.

Freud percebeu que nem sempre repetimos apenas aquilo que nos faz bem. Às vezes, repetimos situações que nos causam sofrimento, mesmo sabendo que elas nos prejudicam. Ele chamou esse fenômeno de compulsão à repetição. No caso das apostas, isso pode ser percebido naquele conhecido ciclo: a pessoa perde, se arrepende, promete parar e, pouco tempo depois, acredita que uma nova aposta poderá recuperar o dinheiro perdido.

É aí que surge uma das maiores armadilhas do jogo: "Só preciso recuperar o que perdi e depois paro." A nova aposta passa a representar a possibilidade de consertar a anterior. Se perde novamente, precisa tentar mais uma vez. Aos poucos, o próprio jogo que criou o problema começa a parecer a única maneira de resolvê-lo.

Mas existe algo além do dinheiro nessa relação. O jogo também oferece expectativa. Entre fazer uma aposta e descobrir o resultado existe um momento em que tudo parece possível. A pessoa pode imaginar que finalmente terá dinheiro, pagará suas dívidas ou mudará de vida. Por alguns instantes, existe a sensação de que uma grande transformação está muito próxima. Por isso, muitas vezes, não é somente ganhar que prende alguém ao jogo. A própria expectativa pode se tornar envolvente.

Jacques Lacan, psicanalista francês, utilizou o conceito de gozo para falar de experiências em que satisfação e sofrimento podem aparecer misturados. É uma ideia que pode parecer estranha inicialmente, mas que ajuda a compreender comportamentos compulsivos. Algo pode causar sofrimento e, ainda assim, existir alguma satisfação naquela repetição.

No jogo, há medo, ansiedade, expectativa, euforia e frustração. É uma experiência emocionalmente intensa. Para algumas pessoas, essa intensidade pode funcionar como uma maneira de escapar temporariamente do vazio, do tédio ou de outras angústias. Enquanto está apostando, a atenção fica concentrada no próximo resultado. Problemas pessoais, conflitos familiares, dificuldades financeiras ou sentimentos dolorosos podem ficar temporariamente em segundo plano. O jogo acaba funcionando como uma espécie de fuga.

O problema é que esse alívio dura pouco. Quando a aposta termina, a realidade continua ali - muitas vezes acompanhada de um novo prejuízo. Então surge novamente a vontade de jogar.

Outro aspecto frequente é a sensação de controle. Mesmo sabendo que existe acaso envolvido, o jogador pode acreditar que encontrou uma estratégia, percebeu um padrão ou que, depois de tantas perdas, "agora precisa vir uma vitória". Essa sensação alimenta a esperança de que, dessa vez, será diferente.

É justamente por tudo isso que dizer apenas “é só parar de jogar” costuma ser insuficiente. Quando existe compulsão, é importante compreender o que aquele comportamento passou a representar para aquela pessoa.

O que ela sente antes de apostar? O que encontra naquele momento de expectativa? Do que o jogo permite que ela se afaste? O que significa ganhar - e o que significa perder - em sua história?

Na psicoterapia, essas questões podem começar a ser colocadas em palavras. O objetivo não é julgar o jogador, mas compreender por que o jogo passou a ocupar um lugar tão importante em sua vida e ajudá-lo a construir outras formas de lidar com aquilo que sente.

Em situações mais graves, esse cuidado pode precisar envolver também acompanhamento médico ou psiquiátrico, grupos de apoio, participação da família e medidas concretas de proteção financeira.

O vício em jogos de azar é um problema complexo. Por trás da aposta, nem sempre existe apenas o desejo de ganhar dinheiro. Pode existir uma busca por alívio, emoção, controle, reconhecimento ou pela esperança de reparar aquilo que já foi perdido.

Talvez por isso a pergunta mais importante não seja apenas "por que essa pessoa não consegue parar de jogar?", mas também "o que ela encontra no jogo que está sendo tão difícil encontrar fora dele?"

É a partir dessa compreensão que se torna possível olhar para a compulsão não como uma falha moral, mas como um sofrimento que precisa ser escutado e tratado.

Referências

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914);

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920);

FREUD, Sigmund. Dostoiévski e o parricídio (1928); e

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise.

VALÉRIA CARVALHO RIBEIRO

























- Graduada em Psicologia pela PUC RR (2014);

- Pós- graduanda em Fundamentos da Psicanálise teoria e clínica pelo Instituto Superior em Psicologia e Educação - ESPE;

- Utiliza desde 2018 a escuta psicanalítica em consultório;

-Com experiência no atendimento clínico, ajudando seus pacientes a explorarem suas questões emocionais profundas, oferecendo suporte através de uma compreensão baseada nos princípios da psicanálise.

Nota do Editor:

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