sábado, 22 de agosto de 2026

IA é uma nova cultura ou um novo desafio?


 ©️2026 Maria Cristina Marcelino Bento

O advento das tecnologias digitais nos impulsiona em dois longos debates: a essência humana e o uso de modo ético das tecnologias digitais, ou seja, que não possa ferir a essência humana. A velocidade em que estas tecnologias aumentam/ aperfeiçoam e se instalam em nosso cotidiano, às vezes dão o tom de filme de ficção científica.

Vamos relembrar que a inteligência artificial ou IA, é um dos campos da ciência da computação que busca criar sistemas capazes de simular a inteligência humana para realizar tarefas complexas, aprender com dados e tomar decisões.

Para algumas pessoas, a IA surgiu com o lançamento do ChatGPT; entendo que esta ferramenta de IA pode ser marco da revolução em educação escolar. Aprendi com meus alunos do curso de Licenciatura em Computação que Alan Turing pode ser considerado o Pai da IA - um matemático, lógico, criptoanalista e cientista da computação britânico, e seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da ciência da computação e da inteligência artificial.

No ano de 1950, esse matemático britânico publicou um artigo chamado "Computing Machinery and Intelligence" (Máquinas Computacionais e Inteligência), onde ele fazia uma pergunta que ecoa até hoje: "As máquinas podem pensar?".

Para responder questão acima, ele propôs o famoso Teste de Turing. A ideia era simples: uma pessoa conversaria por texto com duas entidades, uma delas um humano e a outra uma máquina. Se a pessoa não conseguisse distinguir qual era a máquina, então a máquina poderia ser considerada inteligente. Ainda não me adaptei a afirmativa, embora esteja imersa no mundo da IA, tento utilizá-la o mínimo possível, e com muita ética e responsabilidade.

O Teste de Turing não foi perfeito, de acordo com a literatura, mas foi considerado revolucionário. Ele tirou a discussão sobre o pensamento de um campo filosófico e a trouxe para a prática, focando no comportamento observável da máquina. O trabalho de Turing não apenas lançou as bases para a inteligência artificial, mas também nos propôs refletir sobre o que realmente significa "pensar" ou ser "inteligente", tanto para nós quanto para as máquinas.

Durante a 2ª guerra, Alan Turing trabalhou em Bletchley Park - casa de campo histórica conhecida por ter sido o principal centro britânico de decifração de códigos durante a Segunda Guerra Mundial e é hoje um museu interativo, ou seja, o centro britânico de criptoanálise. A missão dele e da sua equipe era quebrar os códigos da máquina Enigma, usada pelos alemães para criptografar suas mensagens militares. O desafio era gigantesco, pois a máquina Enigma tinha bilhões de combinações possíveis. Decifrar uma única mensagem manualmente levaria anos.

Turing, com sua equipe, desenvolveu uma máquina eletromecânica chamada "Bombe". O propósito da Bombe não era "pensar" como um humano, mas sim automatizar o processo de testar rapidamente as combinações da Enigma, descartando as erradas até encontrar a configuração correta. Era uma corrida contra o tempo. A Bombe não era uma inteligência artificial como a gente conhece hoje. Ela não aprendia, não criava e nem se adaptava. Era uma máquina lógica e programável, projetada para executar uma tarefa específica com uma velocidade e eficiência sobre-humanas. Podemos, então, considerar que a Bombe é a "avó" do computador moderno, e a teoria de Turing sobre o pensamento das máquinas foi a "mãe" da inteligência artificial. Ele não usou a IA para decifrar códigos, mas o sucesso em decifrá-los com a Bombe foi o que o fez sonhar e, mais tarde, teorizar sobre as máquinas inteligentes.

O trabalho de Turing foi crucial para decifrar os códigos da Enigma, o que deu aos Aliados uma vantagem estratégica enorme e, segundo muitos historiadores, encurtou a guerra em alguns anos.

De lá para cá, ou considerando que o teste de Turing foi sendo aprimorado, o teste não, mas ampliou o debate sobre: o significa "pensar" ou ser "inteligente", tanto para nós quanto para as máquinas.

Atualmente, 2026 temos vários app e plataformas de IA, no celular que sugere a próxima palavra que você vai digitar, na plataforma de streaming que recomenda o seu próximo filme e até no carro que estaciona sozinho. Será a IA uma ameaça – ao nosso ofício ou mais uma possibilidade de facilitar as tarefas do cotidiano?

A IA pode ser uma extensão das nossas habilidades, uma ferramenta que nos ajuda a ser mais criativos, a resolver problemas complexos e a economizar tempo para o que realmente importa. Para isso é importante conhecer os tipos de IA existentes no momento, embora corra o risco de ao escrever este texto e já termos outros tipos, me arrisco a citar alguns tipos:

  • IA Reativa: São as IAs mais básicas. Elas só conseguem analisar o presente, sem memória de experiências passadas. Um exemplo é o Deep Blue da IBM, o computador que venceu Garry Kasparov no xadrez, pois ele se concentra apenas nas peças no tabuleiro no momento atual;
  • IA de Memória Limitada: Este tipo de IA tem a capacidade de usar experiências e dados passados para tomar decisões no momento presente. A maioria dos sistemas de IA que usamos hoje, como carros autônomos e assistentes virtuais como a Alexa, se enquadram aqui. Eles usam dados recentes para aprimorar suas respostas;
  • Teoria da Mente (Theory of Mind): Uma IA mais avançada que seria capaz de entender as emoções, crenças, desejos e intenções humanas. Ainda é um conceito teórico e estamos longe de atingir esse nível;
  • Autoconsciente (Self-aware): A IA mais avançada de todas, que teria consciência de si mesma. Este tipo de IA não existe e é mais um conceito de ficção científica;
  • Processamento de Linguagem Natural (PLN): É a área da IA que permite que as máquinas entendam, interpretem e gerem linguagem humana, seja escrita ou falada. A Alexa usa intensamente o PLN;
  • Aprendizado de Máquina (Machine Learning - ML): É um subcampo da IA onde os computadores aprendem a partir de dados, sem serem explicitamente programados. O ML é usado para criar modelos que podem prever ou tomar decisões;
  • Aprendizado Profundo (Deep Learning - DL): Um subcampo do ML que utiliza redes neurais artificiais com muitas camadas para processar dados de forma mais complexa. É a tecnologia por trás do reconhecimento de imagem e fala. O ChatGPT e o Gemini, por exemplo, usam DL; e
  • Visão Computacional: Permite que computadores "vejam" e interpretem imagens e vídeos do mundo. É usada em sistemas de reconhecimento facial e carros autônomos.
E como está o uso das IAs por nós humanos? Alguns de nós temem a chegada dos robôs; outros vivem no bate papo com a Alexia como se ela fosse a amiga ou consultora. Já vi amigos apelidando os assistentes de IA, encontro professores propondo sua ideia de aula ao assistente de IA tendo como resultado a aula, avaliação e a correção de avaliações, pessoas estudando e buscando aprender a utilizar a IA, conhecidos que cairão em golpes ditos serem IA por meio da IA.

Na escola, o caso não é muito diferente, o debate, no Brasil, se alonga aos desafios sobre utilizar ou não a IA. O Jornal da Band, edição de 09 de setembro de 2025, no jornal da noite, apresentou que alunos da educação básica encontraram jeito de burlar a plataforma de estudos, como forma de obter nota máxima em todas as atividades. Na mesma matéria o Secretario de Educação alerta que é possível identificar os "arteiros de plantão". A UNESCO lançou, neste ano, 2 documentos direcionadores do uso da IA: marco referencial de competências em IA para estudantes e o marco referencial de competências em IA para professores.

Eis o desafio, qual será a melhor forma para o uso da IA? Utilizar a IA de modo consciente significa entender o que ela faz, o que ela não faz e, mais importante, como podemos usá-la de forma ética e responsável. Vejamos a IA a partir de 3 aspectos: IA como copiloto, não como piloto automático, questionar e verificar sempre as respostas obtidas pela IA e a ética em primeiro lugar.

A IA tem que ser compreendida como apoio, um "copiloto". Ela pode sugerir ideias, escrever rascunhos e analisar dados, mas a decisão final, o toque humano, a crítica e a criatividade, vêm de você. Não deixe que a IA faça o trabalho por você, use-a para aprimorar o seu trabalho.

Lembremos a todo momento a IA é alimentada por dados, ela não é uma ser humano amigo ou inimigo. É um banco de dados e pode, às vezes, cometer erros ou apresentar informações enviesadas. Por isso, é fundamental questionar e verificar o que ela produz. Pense como um editor que revisa um texto: a IA pode dar o primeiro rascunho, mas você é quem garante a qualidade e a precisão.

Usar a IA de forma consciente também é pensar nas consequências. Como a IA impacta a privacidade? Como podemos garantir que ela não reproduza preconceitos? Essas são perguntas que todos nós, como sociedade, precisamos fazer. Retomo aqui a matéria assinada por Yuri Vasconcelos, na revista da FAPESP- marco/2025 que trata dos impactos do mundo digital no ambiente. Necessitamos rever as verdadeiras prioridades ao uso das tecnologias digitais. Yuri apresenta no texto, entre outros não menos importante, que "Programas de IA generativa demandam elevada carga energética e altos volumes de água".

Necessitamos ter consciência de que somos filhos do Criador, somos parte deste lindo Planeta Azul denominado Terra. Compreender que tudo que tem vida precisa de cuidado. Plantas e animais devem ser cuidados e respeitados, assim como todo Ser Humano. E partir deste cenário... será mesmo a IA inteligente? Enquanto seres humanos, somos seres capazes de pensar; refletir; criar; imaginar desenvolvendo a habilidade de usar esse pensamento de forma eficaz para alcançar objetivos e entender o mundo ao redor, ou seja, somos inteligentes. Assim, é humanamente impossível imaginarmos a amizade com a IA.

Referências:

BUOLAMWINI, Joy. How I'm fighting bias in algorithms. In: TED. TEDxBECONSTREET, 2017. 1 vídeo (11 min). Disponível: https://www.ted.com/talks/joy_buolamwini_how_i_m_fighting_bias_in_algorithms. Acesso em: 18 ago. 2025;

CRAWFORD, Kate. Atlas da IA: poder, política e os custos planetários da inteligência artificial. Tradução de Humberto do Amaral. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2025;

Hodges, Andrew. Alan Turing: The Enigma. Simon and Schuster, 1983;

LEE, Kai-Fu. Inteligência Artificial. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2018;

MITCHELL, Tom M. Inteligência Artificial: Uma abordagem de aprendizado de máquina. Rio de Janeiro, RJ: LTC, 2011;

RUSSELL, Stuart J.; NORVIG, Peter. Inteligência Artificial: Uma abordagem moderna. 3. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013;

SANTAELLA, Lucia. A inteligência artificial é inteligente? São Paulo: Edições 70, 2023;

Turing, Alan Mathison. "Computing Machinery and Intelligence." Mind, vol. 59, nº 236, p. 433-460, 1950; e

TEGMARK, Max. Vida 3.0: O ser humano na era da inteligência artificial. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

MARIA CRISTINA MARCELINO BENTO
















  • Graduada em Pedagogia pela UNISAL Lorena/SP (1989);
  • Mestra em Educação pela UMESP SBC/SP (2008);
  • Doutora pelo TIDD PUC/SP(2016);
  • Docente, atua no Programa Institucional de Formação de Docentes -PIFORD;
  • Coordenadora Adjunta do CEP, Docente no PPG - Design, Tecnologia e Inovação, no UNIFATEA;
  • Membro do Conselho Técnico da Associação Brasileira de Tecnologias –ABT; e
  • Membro da Academia de Ciências de Lorena/SP – Cadeira nº 3, Patrono Carlos Mario Alexandrino da Silva

Lattes: http://lattes.cnpq.br/7723002210560216

Nota do Editor:

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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

O que fazer quando a IA não resolve e você ainda quer falar com uma pessoa?



 

©️2026 Alice Lemos de Lara



"Uma resposta instantânea que não resolve o problema pode ser pior do que uma resposta humana que demora alguns minutos, mas realmente entende a situação."
Durante muito tempo, as empresas buscaram tornar o atendimento cada vez mais rápido, automático e eficiente, e com isso vieram os Chatbots, respostas automáticas, menus digitais, entre outras ferramentas de IA que passaram a ocupar um espaço cada vez maior na relação entre empresas e clientes.

A promessa de atendimento 24 horas, respostas instantâneas, redução de custos e capacidade de atender milhares de pessoas simultaneamente é tentadora, mas existe uma questão que merece cada vez mais atenção: O cliente realmente quer conversar com uma máquina o tempo todo?


O brasileiro ainda quer atendimento humano


Em 2024, o Procon-SP realizou uma pesquisa para entender como os consumidores estavam percebendo o uso da Inteligência Artificial no atendimento das empresas, e o resultado chama atenção: 97% dos participantes disseram ainda precisar de atendimento humano para interagir com as empresas.

Além disso, 24% afirmaram já ter sofrido golpes ou fraudes relacionados ao uso dessas ferramentas. A pesquisa ouviu 824 pessoas que responderam ao questionário disponibilizado pelo órgão.

Em outro levantamento do Procon-SP, realizado anteriormente com 1.043 consumidores, a situação também foi preocupante, pois 66% afirmaram que não conseguiram obter a informação procurada ou resolver a reclamação por meio do atendimento automatizado.

Entre os problemas relatados estavam respostas incompletas ou insatisfatórias, falta de informações e dificuldade da Inteligência Artificial para compreender o pedido do consumidor.

O dado talvez mais importante seja este: 60% disseram que sempre precisam recorrer ao atendimento humano para resolver suas questões.

Apenas 7,48% declararam conseguir resolver tudo por meio de atendentes virtuais, chatbots e ferramentas semelhantes.

Esses números mostram que existe uma diferença importante entre automatizar o atendimento e melhorar a experiência do cliente.

O caso da Vivo mostra que a preocupação já chegou aos reguladores

Em 2024, a Anatel solicitou informações detalhadas à Telefônica Brasil sobre o algoritmo de Inteligência Artificial utilizado na central de atendimento da Vivo, a ferramenta, chamada I.Ajuda, era utilizada por aproximadamente 11 mil agentes de atendimento.

O questionamento da agência não era simplesmente sobre a utilização da IA, mas a preocupação estava em garantir que as decisões produzidas pelo sistema fossem compreensíveis, auditáveis e justas, preservando os direitos dos consumidores.

Esse caso traz uma reflexão importante para qualquer empresa, pois se uma IA influencia uma decisão que afeta o cliente, a empresa consegue explicar por que aquela decisão aconteceu? Se a resposta for não, existe um problema de gestão.

IA também pode melhorar o atendimento

Mas seria um erro transformar esse debate em uma guerra entre tecnologia e seres humanos, pois a IA pode, sim, melhorar significativamente a experiência do consumidor.

Um exemplo brasileiro é a LATAM. A companhia passou por uma transformação em seu atendimento e começou a utilizar Inteligência Artificial para análise de sentimentos nas interações com clientes.

Segundo a empresa, a tecnologia ajudou a identificar e direcionar demandas de maneira mais eficiente, encurtando processos que anteriormente poderiam levar até duas semanas para chegar a uma solução.

Nesse caso, a IA não precisa necessariamente substituir o ser humano, mas pode ajudar o ser humano a trabalhar melhor, e talvez esse seja o modelo mais interessante para o futuro.

O melhor atendimento pode ser híbrido

Imagine que um cliente entra em contato para saber o prazo de entrega de um pedido, a IA pode responder imediatamente.

Outro cliente quer alterar um endereço, a IA pode orientar o procedimento.

Mas um terceiro cliente está indignado porque recebeu uma cobrança indevida, talvez essa situação precise de outra abordagem e não necessariamente porque a IA seja incapaz de produzir uma resposta, mas porque existe algo além da informação, existe uma relação.

O cliente quer explicar o que aconteceu, quer ser compreendido, quer saber se alguém assumirá a responsabilidade pelo problema, quer ter a segurança de que sua situação será analisada, e é justamente nesses momentos que a presença humana pode fazer toda a diferença.

O perigo de confiar demais na resposta da IA

Existe ainda outro problema, pois a Inteligência Artificial pode produzir respostas convincentes e, mesmo assim, estar errada.

Esse fenômeno é especialmente perigoso no ambiente empresarial porque uma resposta errada pode parecer extremamente profissional.

Imagine uma IA fornecendo uma informação incorreta sobre algum dos assuntos abaixo:
  • política de cancelamento;
  • prazo de pagamento;
  • contrato;
  • garantia;
  • legislação;
  • segurança;
  • procedimento interno;
  • especificação de um produto.
O cliente não sabe que a informação foi "inventada" pela IA, para ele, aquela informação veio da empresa, e por isso quanto maior o risco de uma resposta errada, maior deve ser o nível de supervisão humana.

O verdadeiro problema não é a IA

As empresas não deveriam se perguntar se devem ou não utilizar Inteligência Artificial, provavelmente, a resposta para muitas organizações já é sim, mas precisam definir onde a Inteligência Artificial pode atuar com segurança e onde precisam manter a participação humana, e essa diferença muda completamente a estratégia.

A humanização pode se tornar um diferencial

Quanto mais empresas automatizarem seus canais, mais comum será encontrar consumidores dizendo: "Eu só quero falar com alguém." E isso pode transformar o atendimento humano em um diferencial competitivo, não porque as pessoas rejeitem a tecnologia, mas porque, quando existe um problema complexo, o consumidor valoriza aquilo que uma máquina tem dificuldade de oferecer, que é a empatia, contexto, julgamento e responsabilidade.

A empresa que entender isso poderá utilizar a IA de uma maneira muito mais inteligente, não para eliminar o relacionamento humano, mas para liberar as pessoas das tarefas repetitivas e permitir que elas se concentrem justamente nas situações em que sua presença é mais importante.

O futuro não é IA ou pessoas. É IA com pessoas.

A Inteligência Artificial veio para ficar e ignorá-la pode significar perder oportunidades de eficiência, produtividade e inovação, mas adotá-la sem critérios pode criar novos riscos, gerar frustração e até prejudicar a relação com o cliente.

O caminho provavelmente está no equilíbrio, pois a tecnologia deve facilitar o relacionamento, e não impedir que ele aconteça.

Porque, no final, o cliente não está necessariamente interessado em saber se foi atendido por uma Inteligência Artificial ou por uma pessoa, ele quer ser ouvido, compreendido e ter seu problema resolvido.

Referências

PROCON-SP / Agência SP. Consumidores ainda não se sentem à vontade com atendimento por chat e IA, mostra Procon-SP. 2024. O levantamento ouviu 824 consumidores e apontou que 97% ainda precisam de atendimento humano;

PROCON-SP / O Globo. O que fazer quando a inteligência artificial atende, mas não entende o consumidor? 2023. Pesquisa com 1.043 consumidores sobre atendimento automatizado;

ANATEL. Conselheiro Alexandre Freire solicita informações detalhadas sobre algoritmo de Inteligência Artificial utilizado pela Vivo. 25 jun. 2024;

EXAME. Como a Latam usou a IA para ser a companhia aérea com menos reclamações do Brasil. 17 jun. 2024;

ANPD – Autoridade Nacional de Proteção de Dados. Por que Inteligência Artificial? Exemplos de utilização de IA no Brasil, incluindo Banco do Brasil, TCU, STJ, UFMG e Serpro;

ANATEL. Aval-IA: projeto de verificação da qualidade das respostas das prestadoras de telecomunicações aos consumidores. 2026. A iniciativa utiliza IA para avaliar a qualidade das respostas dadas pelas prestadoras às reclamações dos consumidores.


ALICE LEMOS DE LARA













-Graduada em Engenharia Quimica pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) - 2017;

- Pós-graduada em Gestão de Pessoas, Liderança e Coaching pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) – 2020;

- Diretora da Lemali Consultoria e Certificações, especializada em prestação de serviços para empresas, com foco em gestão da qualidade, melhoria contínua, liderança e certificações e

- Atuação na indústria desde 2008, acumulando mais de 16 anos de experiência no desenvolvimento de soluções estratégicas e certificações para organizações.

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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Inovação e avanço da Câmara de Mediação Racial


©️2026 Águida Arruda Barbosa


Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo[1] cujo título anuncia a criação de Câmara de Mediação Racial: Inovação e Avanço é portador de importante reflexão acerca do lugar da mediação e sua amplitude nas mais variadas expressões das relações sociais, desta feita inovando o foco no racismo estrutural.

A matéria faz referência a um julgamento paradigmático em Ação de Arguição de Descumprimento de Preceito Constitucional, em dezembro de 2025, conhecido como Vidas Negras, reconhecendo a existência e a proeminência do racismo.

Embora a Lei Áurea esteja comemorando 138 anos, observa-se que o tecido social ainda está impregnado de eventos de constrangimento aos afrodescendentes, principalmente em situação de relações de consumo, nas quais o comprador negro corre riscos, perigos e insegurança para a sua integridade física e mental, no exercício de cidadania e acesso ao direito de lazer, convivência e afirmação social, como bem exalta o festejado autor José Vicente, Reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.

O referido julgamento do STF representa grande avanço, pois contém forte potência para impor efetividade e fazer valer os princípios constitucionais que rejeitam toda espécie de discriminação[2].

A Câmara de Mediação Racial constitui um passo decisivo para tornar a potência do julgamento da Suprema Corte em práticas, como um lugar protegido para que o negro, vítima de discriminação, possa ter voz e expressar a sua dor quando sofrer atos que o condenem a uma categoria de cidadão de segunda classe em decorrência de sua cor.

Esta iniciativa terá o papel precípuo de acolhimento dos protagonistas do racismo estrutural, constituindo uma prática de conteúdo sobretudo pedagógico, pois poderá criar um lugar de reflexão para aqueles que cometem estes desatinos, afinal, é preciso compreender que existe um preconceito inverso, qual seja, que há quem não se reconhece como pessoa preconceituosa. Isto é, dentre aqueles que cometem racismo estrutural, uma parte não tem consciência de que é preconceituoso, consubstanciando-o em atitudes muitas vezes silenciosas...

Neste sentido esta Câmara de Mediação Racial, altamente especializada, representa inovação e avanço e poderá dar efetividade na implantação de Cultura de Paz, não como pacificação social, mas como reconhecimento das diferenças entre os sujeitos de direito, respeitando o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana.

Isso porque cultura de paz não pode ser confundida com o conceito de paz, esta enunciada nos dicionários, como ausência de lutas, violências ou perturbações sociais, de conflitos entre pessoas, ou conflitos íntimos. A concretização mais habitual da "pacificação" está nos tratados de paz celebrados entre Países, quando se coloca fim às guerras, em nome da paz. Afinal, paz é compreendida, pelo senso comum, como ausência de conflitos.

Merece destaque a definição de cultura de paz de Jean Marie Muller, no Projeto A Cultura de Paz aqui referida é o conhecimento transdisciplinar acolhido pela UNESCO intitulado "Vers Une Culture de la Paix[3]": "A não violência não pressupõe um mundo sem conflitos: só se pode falar de ação não violenta em situação de conflito. Os diversos discursos pacifistas, sejam jurídicos, sejam espiritualistas, enganam-se quando estigmatizam o conflito em proveito de uma apologia exclusiva do direito, da confiança, da fraternidade, da reconciliação, do perdão e do amor".

Eis os contornos dos debates em busca de uma implantação de cultura de paz, que não se reduz à “pacificação” dos conflitos, negando-os, mas busca reconhecê-los como inerentes ao humano, o que envolve educar para a paz.

O objetivo da Câmara de Mediação Racial é criar um lugar protegido pelo sigilo para instaurar o diálogo entre os protagonistas visando ao reconhecimento da dor do ofendido, por meio da palavra, para que o ato atentatório possa ser transformado pela consciência de cidadania.

É relevante destacar que a mediação racial não exclui a aplicação das penalidades conquistadas pela legislação, se assim entender o ofendido. Trata-se de diferentes linguagens para o enfrentamento da ofensa, afinal, mediar é uma linguagem de natureza ternária capaz de criar muitas alternativas por meio do diálogo e pela criatividade humana.

REFERÊNCIAS

[1] O Estado de S. Paulo, edição de 13 de maio de 2026, A5, data comemorativa da Abolição da Escravatura, de autoria de José Vicente, Reitor da Universidade Zumbi dos Palmares;

[2] Constituição Federal, artigo 3º , IV "promover o bem de todos , sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação"; e


ÁGUIDA ARRUDA BARBOSA














-Advogada especializada em Direito de Família;
- Graduada em FADUSP (1972);
- Mestrado pela FADUSP (2003);
- Doutorado pela FADUSP(2007);
-Professora de Direito Civil e Mediação Familiar Interdisciplinar;  
-Pesquisadora do tema Mediação na França desde 1.989, com participação em congressos, cursos e simpósios na França, Canadá e Portugal e
-Mediadora familiar interdisciplinar;

Nota do Editor:

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A fadiga constitucional quando a forma permanece e o poder escapa

 


 ©️2026 Antonio Augusto César

O artigo é dedicado a Antônio Nabor Areias Bulhões, cuja trajetória e valiosas contribuições ao Direito consubstanciam a vertente epistemológica que alenta esta construção jurídica.

INTRODUÇÃO

Há faróis que prosseguem girando a sua luz sobre o mar muito depois de os navegantes haverem deixado de orientar-se por ela. O mecanismo continua a cumprir o ofício, o edifício permanece erguido sobre o rochedo, a claridade continua a varrer a noite na cadência exata de sempre; e, não obstante, os navios que passam já não ajustam a rota àquela luz. Algo continua a funcionar — e deixou, silenciosamente, de orientar. As instituições conservam seus nomes, os procedimentos continuam a ser observados, as competências permanecem formalmente distribuídas, as autoridades empossam-se, os textos são solenemente invocados; e, não obstante, alguma coisa essencial pode deslocar-se no intervalo entre a existência formal da ordem e sua capacidade efetiva de produzir reconhecimento, previsibilidade e adesão. Não é ainda, necessariamente, o colapso da forma. É algo mais insidioso: a possibilidade de que a forma continue operando depois de começar a perder a força orientadora que justificava sua permanência como ordem.

É precisamente nessa zona intermediária — entre a continuidade formal e a erosão da capacidade de orientar — que se situa o problema deste artigo. Uma Constituição pode permanecer vigente e, ainda assim, experimentar progressiva redução de sua eficácia institucional; instituições podem continuar funcionando sem que sua atuação produza a mesma confiança; comandos podem continuar sendo cumpridos sem que o cumprimento exprima reconhecimento; decisões podem conservar força coercitiva sem conservar, na mesma medida, autoridade; e a legalidade pode subsistir como forma enquanto a legitimidade que a fazia socialmente vinculante se torna mais rarefeita. A aparência de continuidade, portanto, não constitui prova suficiente de continuidade substantiva. A permanência da estrutura não permite, por si só, concluir pela permanência da relação política que a estrutura deveria organizar.

O paradoxo é propriamente constitucional porque não se manifesta necessariamente quando a Constituição deixa de vigorar, mas justamente quando ela continua vigente enquanto alguma das condições que tornam sua vigência socialmente orientadora começa a enfraquecer. Como uma ordem pode conservar seus textos, seus procedimentos e seus órgãos e, ainda assim, experimentar progressiva perda de sua capacidade de produzir consensos, orientar condutas e sustentar a obediência que torna efetiva a autoridade? A pergunta pressupõe que entre a vigência da norma e a capacidade de orientação da ordem existe uma distância que o formalismo jurídico, tomado isoladamente, não consegue explicar. A Constituição pode continuar juridicamente presente enquanto a relação social que lhe emprestava eficácia política se transforma; pode continuar sendo invocada como fundamento enquanto deixa de operar, para parcelas crescentes dos destinatários do poder, como horizonte suficientemente confiável de expectativa e coordenação.

Por isso, é necessário separar categorias que a linguagem corrente tende a amalgamar. Vigência jurídica, eficácia institucional, legitimidade, confiança social e obediência não são nomes diferentes para uma mesma realidade. São dimensões distintas de uma ordem política, relacionadas entre si, mas não reciprocamente implicadas por necessidade lógica. Uma norma pode permanecer vigente sem que sua eficácia institucional permaneça intacta; uma instituição pode conservar capacidade operacional sem conservar a mesma legitimidade; uma autoridade pode obter cumprimento sem produzir confiança; e uma ordem pode assegurar obediência sem obter consentimento. Obediência não é consentimento; cumprimento não é confiança. É justamente essa possibilidade de dissociação que torna possível uma crise que não assume imediatamente a aparência de ruptura.

A questão-fio do artigo nasce desse intervalo: onde termina a Constituição e onde começa a política? Não se trata de procurar o instante em que uma substituiria a outra, mas de investigar o que ocorre quando o Direito continua a oferecer a forma da autoridade, enquanto já não consegue, sozinho, explicar por que essa autoridade deve ser reconhecida como tal. O problema, portanto, não está apenas em saber quem pode mandar, mas em compreender as condições pelas quais aquele que recebe o comando continua a reconhecê-lo como razão para agir.

É nesse deslocamento — do poder como capacidade de produzir efeitos para a autoridade como pretensão de orientar legitimamente a conduta — que a análise deixa de ser puramente institucional e passa a envolver, simultaneamente, Direito, moralidade política, sociologia da dominação, mecanismos de produção da obediência e formas de contenção do poder. A autoridade não aparece mais como simples atributo de uma posição institucional; torna-se uma relação cuja estabilidade depende da correspondência entre a forma que pretende legitimá-la e a experiência daqueles que vivem sob ela.

Adverte Russell: as palavras pelas quais as instituições se apresentam não podem ser tomadas como descrição suficiente do que efetivamente fazem. Entre a palavra institucional e a relação efetiva de poder existe o espaço crítico que este artigo investiga. É nesse sentido que a expressão fadiga constitucional será empregada, provisoriamente, como hipótese de trabalho — a ser conquistada, precisada ou refutada no curso da investigação.

1. O PROBLEMA DA AUTORIDADE

A tradição moderna oferece respostas diferentes para a questão do que torna possível a autoridade, e sua força para este artigo reside justamente no fato de que nenhuma delas, isoladamente, esgota o problema. Hegel recoloca o Estado ao interior da Sittlichkeit (Eticidade) , como efetividade da liberdade concreta, recusando a compreensão da obediência como mera submissão exterior a uma força estranha: a relação política adquire inteligibilidade quando a universalidade institucional pode ser reconhecida como dimensão da própria liberdade.¹ A consequência é poderosa: a legitimidade não aparece como adereço externo ao poder, mas como dimensão inscrita na própria racionalidade ética da ordem. A obediência, nessa perspectiva, seria reconhecimento de uma ordem que o sujeito poderia identificar como sua própria liberdade objetivada.²

Mas precisamente aí surge a primeira insuficiência. Aquilo que pode ser concebido como liberdade objetivada nas instituições pode deixar de ser experimentado como liberdade por aquele que vive sob sua autoridade. A distância entre a liberdade institucionalmente afirmada e a liberdade efetivamente vivida introduz uma dimensão que não pode ser resolvida apenas pela arquitetura normativa da ordem.

Duguit desloca o problema para a realidade social do poder. Ao desmontar a soberania como fundamento metafísico, reconduz o poder político às condições concretas de sua existência e submete sua juridicidade à regra de Direito fundada na solidariedade social e orientada pela função do serviço público.³ ⁴ O deslocamento é decisivo: o poder não é legítimo simplesmente porque existe, tampouco porque se autoproclama soberano. A juridicidade da autoridade exige uma condição que lhe é exterior — sua submissão à regra de Direito e sua orientação para uma função social determinada.

Ainda assim, a função social não explica integralmente por que os homens reconhecem como obrigatória a decisão daquele que governa. O serviço público pode justificar a utilidade do poder, mas não esgota o fundamento de sua autoridade.⁵ É nesse espaço que Joseph Raz introduz uma exigência de natureza diferente: a autoridade legítima deve colocar o sujeito em melhor posição para cumprir as razões que já lhe são aplicáveis do que se tentasse agir diretamente segundo seu próprio juízo.⁶ A diretiva autoritativa, apoiada nas teses da preempção e da dependência, não é simplesmente mais uma razão a ser pesada pelo indivíduo; pretende substituir determinadas razões sobre as quais esse juízo deveria incidir.⁷ A competência formal para decidir, portanto, não basta para transformar uma decisão em decisão legitimamente autoritativa.

Dworkin acrescenta outra exigência. O Direito não é apenas um conjunto de regras emanadas de fontes reconhecidas, mas uma prática interpretativa que exige integridade. A decisão jurídica deve satisfazer a dupla exigência de adequação ao histórico institucional (fit) e de melhor justificação moral da prática.⁸ ⁹ A autoridade, assim, não se sustenta apenas na fonte formal; depende também da capacidade de a decisão integrar-se coerentemente ao tecido moral da comunidade política.

Raz e Dworkin não constituem, portanto, polos de uma oposição escolar. Um ilumina a estrutura lógica da autoridade e sua função mediadora; o outro introduz a exigência de integridade interpretativa que impede que o Direito seja reduzido à emissão de diretivas por uma fonte formalmente competente. Mas a articulação de ambos deixa aberta uma distância decisiva: a distância entre aquilo que é normativamente justificável e aquilo que é efetivamente reconhecido.

É nesse ponto que Weber desloca a investigação para o terreno sociológico. A distinção entre poder (Macht) e dominação (Herrschaft) revela que a estabilidade da autoridade não depende apenas da capacidade de impor a vontade, mas da probabilidade de encontrar obediência a determinado comando e, sobretudo, da crença que sustenta sua legitimidade.¹⁰ ¹¹ A consequência é estrutural: a obediência observável não constitui medida suficiente da vitalidade da legitimidade. Uma ordem pode obter cumprimento por hábito, interesse ou coerção enquanto a crença que a sustentava se esvazia.¹²

É aqui que a cadeia conceitual fundamental do artigo adquire plena função explicativa: vigência jurídica ≠ eficácia institucional ≠ legitimidade ≠ confiança social ≠ obediência. Essa distinção impede uma inferência aparentemente intuitiva, mas teoricamente equivocada: a de que, porque as pessoas continuam obedecendo, a autoridade permanece necessariamente íntegra. Obedecer não é consentir; cumprir não é confiar. A obediência pode sobreviver precisamente quando outras dimensões da relação entre indivíduo e ordem já começam a se deteriorar.

Parsons permite compreender como essa deterioração pode ocorrer sem ruptura imediata. A ordem social depende de expectativas recíprocas suficientemente complementares para tornar previsíveis as condutas dos participantes.¹³ O Estado não apenas exige obediência; também produz expectativas de previsibilidade, proteção e estabilidade. Quando aquilo que a instituição promete deixa de encontrar correspondência suficiente na experiência de seus destinatários, o sistema não precisa desaparecer. Pode continuar formalmente existente enquanto opera sob condições crescentes de strain.¹⁴ A tensão institucional pode, assim, preceder a ruptura institucional.

Foucault acrescenta uma dimensão indispensável a esse percurso. O poder não se reduz à posição formal de quem possui competência para decidir; circula por práticas, classificações, vigilância, exame e normalização, produzindo sujeitos e regimes de verdade dentro dos quais determinados comportamentos se tornam previsíveis, aceitáveis ou desviantes.¹¹⁵ ¹⁶ ¹⁷ A jurisdição, nessa perspectiva, não apenas resolve litígios: participa também da produção das categorias através das quais a realidade social pode ser percebida, classificada e julgada.

Mas a capilaridade do poder não pode dissolver a autoridade na mera capacidade de produzir efeitos. Se o exercício da jurisdição pretende continuar sendo exercício de autoridade e não simples manifestação de vontade institucional, precisa permanecer submetido a uma fronteira normativa. É nesse ponto que Vicente Greco Filho inscreve o processo no interior das garantias constitucionais da liberdade: contraditório, defesa, fundamentação e revisão não constituem adornos procedimentais, mas mecanismos destinados a submeter o exercício do poder de julgar a razões publicamente controláveis.¹⁸ A distância entre julgar e comandar é uma distância civilizatória produzida pelo Direito.

A cascata teórica conduz, assim, a uma proposição que será decisiva para o exame da Constituição brasileira: a autoridade não é uma propriedade que a instituição simplesmente possui; é uma relação que precisa ser continuamente sustentada entre a forma que pretende legitimá-la e a experiência daqueles que vivem sob ela.

A forma pode permanecer; a competência pode permanecer; o comando pode permanecer; a obediência pode permanecer. E, ainda assim, a relação política que conferia sentido a todas essas permanências pode já não ser a mesma.

2. A FADIGA CONSTITUCIONAL BRASILEIRA

Quando essa premissa é deslocada para o constitucionalismo brasileiro, a questão deixa de ser apenas teórica. A Constituição de 1988 oferece um campo particularmente expressivo para observar a relação entre permanência formal, mutabilidade normativa, expansão interpretativa e confiança.

Em 38 anos de vigência, a Constituição foi objeto de 139 emendas constitucionais numeradas — a última, a EC 139/2026, de 5 de maio de 2026 —, além de seis Emendas de Revisão aprovadas em 1994.¹⁹ O ritmo corresponde a aproximadamente 3,7 emendas por ano. A Constituição dos Estados Unidos, elaborada em 1787 e ratificada entre 1788 e 1789, recebeu 27 emendas em aproximadamente 238 anos, média próxima de 0,11 por ano.²⁰

A comparação não pretende estabelecer hierarquia entre os sistemas, cujas arquiteturas, extensões, mecanismos de alteração e histórias institucionais são profundamente diferentes. O dado permite apenas identificar uma característica quantitativa expressiva da experiência brasileira: a extraordinária frequência com que o texto constitucional tem sido formalmente alterado.

O número, entretanto, não autoriza diagnóstico. Uma Constituição extensa, detalhada e politicamente central pode ser mais frequentemente modificada do que uma Constituição sintética e de alteração mais difícil. Frequência de alteração é indício; não demonstração. O problema começa na pergunta que o número torna possível formular: por que uma Constituição precisa ser tão frequentemente modificada?

O recorde de 14 emendas em 2022 e a concentração de 53 emendas na última década acrescentam uma dimensão temporal ao fenômeno.²¹ Não se trata apenas de mutabilidade, mas de momentos de aceleração da alteração formal. E é nesse ponto que a cadeia das cinco categorias retorna: a vigência jurídica permanece; as instituições continuam funcionando; a legitimidade não se confunde com validade; a confiança não se confunde com obediência; e esta última pode sobreviver às demais.

A partir daí surge a hipótese de um constitucionalismo da desconfiança: uma ordem que, diante da dificuldade de estabilizar expectativas por meios ordinários, aumenta a densidade formal do próprio texto constitucional. A hipótese não afirma que toda reforma seja sintoma de desconfiança, mas pergunta se a sucessão de reformas, associada a outros fenômenos, pode revelar uma dependência crescente da própria Constituição como instrumento de estabilização de conflitos que permanecem recorrentes.

É nesse contexto que pode ser introduzida a categoria de inflação constitucional. Ela não deve significar simplesmente muitas emendas. Mutabilidade e inflação não são sinônimas. A inflação somente adquire utilidade analítica se designar a possibilidade de que problemas que poderiam ser absorvidos pela política, pela legislação ou pela administração sejam reiteradamente deslocados para o próprio texto constitucional. A tese da "corrosão pela abundância", desenvolvida na discussão de Ana Carla Abrão e associada à formulação de Carlos Ari Sundfeld, fornece uma chave doutrinária complementar para essa hipótese.²²

A distinção é essencial porque mutabilidade não é inflação; inflação não é necessariamente erosão; e erosão não exige mutabilidade. São fenômenos relacionados, mas não equivalentes. O que importa, portanto, não é apenas quantas vezes a Constituição muda, mas que espécie de expectativa essa mutabilidade produz.

A questão desloca-se, então, da alteração formal do texto para a interpretação da Constituição. A estabilidade de uma ordem não depende somente da permanência de suas palavras, mas também da possibilidade de seus destinatários reconhecerem critérios relativamente estáveis mediante os quais essas palavras continuarão a ser interpretadas e aplicadas. A Constituição orienta não apenas porque contém comandos, mas porque permite formar expectativas acerca da continuidade das razões que estruturam sua aplicação.

3. EXPANSÃO JURISDICIONAL, SEGURANÇA JURÍDICA E CONFIANÇA

O Supremo Tribunal Federal constitui um dos lugares privilegiados para observar a tensão entre competência institucional e estabilidade dos critérios mediante os quais essa competência é exercida. Sua centralidade normativa é estrutural no constitucionalismo brasileiro contemporâneo; seria, portanto, equivocado transformá-lo em causa isolada de um fenômeno mais amplo. A questão é outra: em que medida a extensão da autoridade jurisdicional pode afetar a previsibilidade da própria ordem que essa autoridade pretende proteger?

A função contramajoritária da jurisdição constitucional é essencial à democracia. Mas a existência da competência não elimina a necessidade de justificar sua extensão. A ADPF 635/RJ, relativa à letalidade policial, e a ADI 5.709/DF, relativa a medidas provisórias, constituem pontos concretos de observação da tensão entre intervenção judicial e necessidade de critérios capazes de preservar coerência e estabilidade ao longo do tempo.²³ ²⁴

O problema não é, portanto, chamar de ilegítima a expansão jurisdicional. É mais preciso: examinar o efeito que alterações na extensão interpretativa das competências podem produzir sobre a capacidade dos destinatários de antecipar como os critérios jurídicos continuarão a operar.

É nesse sentido que a segurança jurídica deixa de ser apenas estabilidade abstrata das normas e passa a envolver a capacidade de formar expectativas razoavelmente confiáveis acerca do comportamento futuro da ordem jurídica. Há diferença entre uma incerteza localizada — a dúvida sobre como um tribunal decidirá determinado caso — e uma incerteza estrutural, na qual a dificuldade alcança os próprios critérios pelos quais futuras decisões serão produzidas.

A confiança aparece, então, em pelo menos três planos. Há uma dimensão normativa, protegida pelo Direito; uma dimensão experiencial, relacionada à capacidade dos destinatários de perceber a ordem como suficientemente estável; e uma dimensão social, que pode ser apreendida por instrumentos empíricos. Nenhum desses planos pode ser convertido automaticamente no outro. A existência de proteção jurídica da confiança não prova confiança social, assim como uma pesquisa de opinião não transforma percepção social em categoria jurídica.

Os dados disponíveis tornam essa distinção empiricamente relevante. Em março de 2026, 43% dos brasileiros declararam ao Datafolha não confiar no Supremo Tribunal Federal, contra 38% em dezembro de 2024; tratava-se do maior índice da série iniciada em 2012.²⁵ A desconfiança no Judiciário alcançou 36%.²⁶ O Congresso Nacional registrou 45% de desconfiança, enquanto apenas 14% avaliaram como ótimo ou bom o trabalho dos congressistas.²⁷ No caso do STF, apenas 23% avaliaram positivamente o trabalho dos ministros, e a maioria declarou apoiar limites à atuação ministerial.²⁸ A pesquisa Genial/Quaest registrou queda da confiança no Parlamento de 54%, em 2022, para 45%, em 2025.²⁹ O Rule of Law Index 2025, do World Justice Project, colocou o Brasil na 78ª posição entre 143 países no índice geral e na 74ª posição no fator relativo às restrições ao poder governamental.³⁰

Nenhum desses números permite concluir pela ilegitimidade das instituições. Não confiar não é considerar ilegítimo; avaliar negativamente não é desejar ruptura; defender limites não é rejeitar a instituição. Cada indicador mede uma dimensão específica da relação entre cidadão e instituição. Tomados conjuntamente, porém, eles permitem identificar algo mais restrito e metodologicamente defensável: uma erosão mensurável da confiança em instituições centrais da ordem constitucional.

É nesse ponto que o princípio da confiança, tal como delineado pelo Supremo Tribunal Federal no MS 24.268/MG, adquire relevância jurídica. A Corte reconheceu a confiança como elemento do princípio da segurança jurídica, associado a componente de ética jurídica nas relações de Direito Público.³¹ Mas essa formulação normativa não pode ser convertida automaticamente em prova de confiança social. A confiança protegida pelo Direito e a confiança experimentada pelos destinatários são planos distintos, embora relacionados.

A importância da distinção está precisamente em impedir uma falsa conclusão. Uma ordem pode continuar juridicamente legítima e institucionalmente funcional enquanto sua capacidade de produzir confiança se reduz. O cidadão pode continuar votando, recorrendo, pagando e obedecendo, mas já não experimentar as instituições como referências suficientemente previsíveis para orientar escolhas de longo prazo.

4. PLANEJAMENTO, CONSENSO E A CONQUISTA DA FADIGA

Se mutabilidade, interpretação, jurisdição e confiança são dimensões distintas, o elo que pode conectá-las é uma experiência concreta: a capacidade de formar expectativas e, a partir delas, orientar decisões presentes em direção a um futuro suficientemente inteligível.

Planejar é, nesse sentido, uma forma prática de confiar. Indivíduos, empresas e instituições não precisam conhecer antecipadamente todos os acontecimentos futuros; precisam acreditar que determinadas regras, competências, critérios e promessas conservarão estabilidade suficiente para que escolhas presentes não se tornem arbitrárias diante de alterações que não podiam razoavelmente antecipar. A previsibilidade não elimina a mudança; torna a mudança suportável porque permite distingui-la da arbitrariedade.

É nesse ponto que os elementos anteriormente examinados começam a convergir. A instabilidade normativa pode reduzir a previsibilidade; a redução da previsibilidade pode afetar a confiança; a erosão da confiança pode encurtar horizontes de planejamento; e a retração do planejamento pode alterar a própria relação prática dos indivíduos com a ordem jurídica. Essa sequência não constitui cadeia causal automaticamente demonstrada. É uma hipótese relacional, cuja força depende da convergência das dimensões formal, normativa, institucional e experiencial.

A primeira via da fadiga, se confirmada, seria a do planejamento: uma retração progressiva da confiança necessária para projetar escolhas no tempo. A segunda seria a do reconhecimento: quando a confiança nas mediações ordinárias se enfraquece, pode crescer a procura por soluções extrainstitucionais que prometam resultados mais imediatos do que aqueles produzidos pelas instituições destinadas a processar o conflito. A insurgência, nesse desenho, é hipótese-limite, não ponto de partida.

É entre a "folha de papel" de Lassalle e a "força normativa" de Hesse que o problema constitucional adquire sua formulação mais delicada.³² ³³ Não se trata de escolher entre uma Constituição absolutamente impotente e uma Constituição cuja normatividade seja automaticamente eficaz. Trata-se de perguntar o que acontece quando a Constituição conserva sua força normativa formal, mas as condições sociais que tornam essa normatividade capaz de orientar expectativas começam a enfraquecer.

Essa pergunta permite distinguir a fadiga da constitucionalização simbólica de Marcelo Neves.³⁴ A constitucionalização simbólica aponta para um déficit de concretização: o texto permanece formalmente vigente, mas sua realização social é estruturalmente bloqueada (o texto-sem-efeito). A fadiga designa fenômeno diverso: um déficit de agregação — uma Constituição que permanece vigente e, em larga medida, eficaz e obedecida, mas que perde progressivamente a capacidade de produzir consenso, de ser percebida como referência confiável de orientação e de composição do poder (o texto-sem-consenso).

A distinção não é meramente terminológica. O déficit de concretização pode existir sem que a confiança social na Constituição se encontre igualmente deteriorada; inversamente, uma ordem pode alcançar níveis relevantes de concretização institucional e, ainda assim, experimentar erosão da confiança em sua capacidade de orientar e limitar o poder. A fadiga desloca, portanto, o foco do texto para a relação entre forma, funcionamento e experiência.

É a partir dessa convergência que a categoria pode ser formulada: Fadiga constitucional é a erosão acumulativa das condições que tornam a Constituição uma fonte confiável de orientação e limitação do poder, perceptível na dissociação progressiva entre suas dimensões formal, normativa, institucional e experiencial.

A definição precisa ser entendida em toda a sua consequência. A fadiga não descreve uma Constituição que deixou de funcionar; descreve a possibilidade de que ela continue funcionando enquanto perde gradualmente parte de sua capacidade integradora, orientadora e justificadora. O fenômeno é essencialmente relacional: não reside exclusivamente no texto, nas instituições ou nas percepções sociais, mas na relação entre aquilo que a ordem constitucional promete, aquilo que suas instituições efetivamente fazem e aquilo que seus destinatários conseguem razoavelmente esperar delas.

É então que a pergunta deixada ao início retorna em sua forma mais precisa: qual consenso está sendo perdido? Não necessariamente o consenso institucional mínimo. Os cidadãos continuam votando, recorrendo aos tribunais, utilizando mecanismos administrativos e participando das instituições. A questão é anterior e mais silenciosa: quanto da confiança necessária para que essas práticas sejam experimentadas como instrumentos de uma ordem comum permanece efetivamente disponível? A fadiga pode começar muito antes da recusa das instituições. Pode começar na perda progressiva da confiança que torna racional, legítimo e suportável continuar recorrendo às próprias instituições.

5. QUANDO A CONFIANÇA SE ROMPE

Entre a desconfiança e a ruptura existe a mediação. Voto, recurso judicial, processo legislativo, representação política: são os canais pelos quais o dissenso continua sendo processado. A ruptura somente se torna concebível quando essas mediações deixam de produzir confiança e reconhecimento em grau suficiente para sustentar sua própria autoridade. Esta distinção é fundamental porque impede que qualquer queda de confiança seja tratada como prelúdio inevitável da ruptura. A insurgência é hipótese-limite da fadiga, não sua manifestação inicial.

Mas, uma vez rompido o substrato experiencial que sustenta o consenso mínimo, surge outro fenômeno: a procura por uma autoridade capaz de ocupar o espaço deixado pela erosão das instituições. A história oferece exemplos nos quais uma ordem constitucional pode ser apresentada como incapaz de realizar aquilo que promete e, sob o argumento de sua própria salvação, ser substituída por uma autoridade pessoal. Mussolini e Hitler podem ser compreendidos, nesse plano, não como biografias, mas como tipos ideais de uma transformação em que a legitimidade carismática se apresenta como resposta ao esvaziamento da autoridade institucional.³⁵

O "salvador da pátria" ocupa precisamente esse espaço. A inversão é reveladora: o salvador não precisa apresentar-se contra a Constituição; pode apresentar-se em nome daquilo que a Constituição teria deixado de entregar. A ruptura, desse modo, não precisa anunciar-se como ruptura. Pode apresentar-se como salvação, restauração ou correção de uma ordem que as instituições formais já não conseguiriam garantir.

Russell oferece, para o fechamento desse percurso, a chave da domesticação do poder e da psicologia da servidão.³⁶ A forma pode subsistir sem conseguir conter, de maneira convincente, a força que nela se abriga. A servidão voluntária não precisa nascer do amor à submissão; pode emergir do esgotamento da confiança nas formas que deveriam proteger a liberdade. O "salvador" seria, nessa hipótese, simultaneamente resposta à fadiga e confirmação de sua gravidade: ele ocupa o espaço que se abriu quando a ordem deixou de produzir a confiança necessária para sustentar sua própria autoridade.

6. O "OVER GOD" E O LIMITE DA CONTENÇÃO

A hipótese final desloca a questão para um terreno ainda mais radical. Se a perda de confiança nas instituições humanas pode levar à procura de um salvador, o que ocorre quando a tecnologia oferece uma alternativa que promete eliminar justamente aquilo que passou a ser percebido como origem da falha: a imperfeição humana? O salvador do nosso tempo pode não assumir a forma carismática do século passado. Pode apresentar-se como dados, processamento, inteligência artificial e promessa de uma contenção que não se corrompe nem se cansa.

O homem que deixa de confiar nas instituições que criou para conter o poder não escapa da servidão: apenas escolhe o senhor. Se escolhe o salvador, serve a um homem; se escolhe a máquina, serve a um sistema. Em ambos os casos, a liberdade não é recuperada: é transferida.

Contudo, essa promessa contém sua própria contradição. Na hipótese aqui examinada, um poder que não se corrompe é também um poder que não responde; um poder que não se distrai é também um poder que não se explica. Um sistema que decide sem contraditório, sem recurso e sem revisão transforma eficiência em opacidade. Um poder sem revisão é o poder absoluto. A contenção que dispensa o diálogo é a dominação definitiva, aquela que já não precisa sequer de um rosto.

A servidão ao salvador pessoal seria visível e humana; a servidão ao "Over God" poderia ser impessoal e potencialmente invisível. O perigo não reside simplesmente na tecnologia, mas na tentação política de entregar a uma instância não humana aquilo que as instituições humanas deveriam continuar obrigadas a justificar. A questão decisiva não é saber se uma máquina pode decidir melhor em determinado domínio técnico, mas quem poderá questionar sua decisão, segundo quais razões, mediante qual procedimento e perante qual instância de revisão. Se essas perguntas desaparecerem porque a máquina "decide melhor", o problema já não será tecnológico. Será constitucional.

Confiar na máquina porque já não se confia nos homens não significaria necessariamente superar a fadiga; poderia constituir sua forma mais radical, porque a renúncia à imperfeição humana poderia trazer consigo a renúncia à própria possibilidade de questionamento. A pergunta que permanece, portanto, não é qual poder é mais eficiente. É qual poder permanece capaz de ser questionado.

A autoridade que não pode ser questionada deixa de se apresentar como autoridade juridicamente limitada e aproxima-se da força. A liberdade entregue em troca de contenção deixa de ser liberdade para tornar-se privilégio concedido por quem controla a instância decisória. A alternativa não está em encontrar um poder absolutamente infalível, mas em preservar instituições capazes de errar, responder, justificar-se, ser contestadas e corrigir-se.

7. A LUZ E A ROTA

A fadiga constitucional não é o colapso da Constituição. É uma possibilidade anterior, mais silenciosa e, por isso mesmo, potencialmente mais difícil de reconhecer. Ela surge quando a ordem permanece formalmente vigente, institucionalmente operante e juridicamente reconhecida, mas começa a perder as condições relacionais que a tornam uma fonte confiável de orientação e limitação do poder.

Seu primeiro sintoma, por isso, não precisa ser a desobediência. Pode ser o descrédito; pode ser a retração da confiança; pode ser a diminuição dos horizontes de planejamento; pode ser a percepção de que as instituições continuam funcionando, mas já não oferecem a mesma previsibilidade; pode ser, enfim, a obediência sem confiança e o cumprimento sem reconhecimento. É nesse ponto que a fadiga se distingue tanto da ruptura quanto da constitucionalização simbólica. Ela não pressupõe que a Constituição tenha deixado de produzir efeitos, nem que suas normas sejam meramente decorativas. Ao contrário: sua hipótese mais perturbadora é que a Constituição continue funcionando depois de começar a perder parte de sua capacidade de orientar.

A Constituição limita o poder por aquilo que prescreve, mas também pela confiança de que suas formas continuarão suficientemente estáveis para tornar possível o planejamento, a contestação, a expectativa e o reconhecimento de que o poder permanecerá submetido a razões. Quando essa confiança se deteriora, a forma pode sobreviver enquanto sua autoridade perde densidade. E, quando a autoridade se esvazia, o espaço que ela deixa não permanece necessariamente vazio. Pode ser ocupado pelo salvador; pode ser ocupado pelo sistema; pode ser ocupado pela máquina. Em todos esses casos, a tentação é semelhante: substituir a liberdade imperfeita da ordem constitucional pela promessa de uma contenção perfeita. Mas uma contenção que não pode ser questionada pode tornar-se a própria forma da servidão.

O problema constitucional fundamental não é, portanto, encontrar o poder que nunca erra. É conservar uma ordem na qual aquele que exerce o poder possa ser questionado, obrigado a justificar-se e submetido a revisão. O artigo termina onde começou: no cidadão. Não no cidadão abstrato da arquitetura normativa, mas naquele que vive sob a Constituição, planeja sua vida sob suas regras, recorre às suas instituições, suporta suas decisões e precisa acreditar que amanhã elas continuarão suficientemente reconhecíveis para que suas escolhas de hoje não se tornem arbitrárias.

É nele que a fadiga primeiro se torna experiência. E é nele que a ruptura finalmente se revela.

O farol continua girando.
A luz continua acesa.
A questão é saber se a rota ainda a segue.

Que estrela seguirão os navegantes quando a luz deixar de orientar?

 

NOTAS FINAIS

1. HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Linhas Fundamentais da Filosofia do Direito. São Paulo: Loyola, 1997, p. 222-223 (§ 260).

2. Ibid., p. 217; §§ 257 e 268.

3. DUGUIT, Léon. Traité de droit constitutionnel. 2. ed. Paris: Fontemoing, 1921. t. 1, §§ 34-39.

4. Ibid., t. 1, §§ 2-5.

5. Ibid., t. 1, § 6; § 47.

6. RAZ, Joseph. The Morality of Freedom. Oxford: Clarendon Press, 1986, p. 53.

7. Ibid., p. 46-47.

8. DWORKIN, Ronald. O Império do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 67.

9. Ibid., p. 291; Law's Empire, pp. 225-258.

10. WEBER, Max. Economia e Sociedade. Brasília: Editora UnB, 1999. v. 1, p. 139-141.

11. Ibid., v. 1, p. 141.

12. Ibid., v. 1, p. 141-144.

13. PARSONS, Talcott. The Social System. Glencoe: Free Press, 1951, p. 36.

14. Ibid., Cap. VII, pp. 249-297.

15. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 187.

16. Ibid., p. 164; p. 179.

17. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 2014, p. 44; p. 183.

18. GRECO FILHO, Vicente. Tutela Constitucional das Liberdades. São Paulo: Saraiva, 1989, p. 18-21.

19. BRASIL. Quadro das Emendas Constitucionais. Planalto; LexML.

20. The Constitution of the United States of America. National Archives.

21. SENADO FEDERAL. Senado Notícias; MIGALHAS, 03.10.2025.

22. ABRÃO, Ana Carla. Inflação constitucional. O Globo, 08 ago. 2026.

23. BRASIL. STF. ADPF 635/RJ. Rel. Min. Edson Fachin; Pleno, 03.04.2025. Homologação parcial do plano de redução da letalidade policial.

24. BRASIL. STF. ADI 5.709/DF. Rel. Min. Rosa Weber; Pleno, 27.03.2019. Inconstitucionalidade da reedição de MP na mesma sessão legislativa (art. 62, § 10, CF).

25. DATAFOLHA
. Pesquisa de março de 2026. Desconfiança no STF: 43%.

26. DATAFOLHA. Op. cit. Desconfiança no Judiciário: 36%.

27. DATAFOLHA. Op. cit. Congresso Nacional: 45% de desconfiança.

28. DATAFOLHA. Op. cit. STF: 23% avaliam como ótimo/bom.

29. GENIAL/QUAEST. Confiança parlamentar: 54% (2022) → 45% (2025).

30. WORLD JUSTICE PROJECT. Rule of Law Index 2025. Brasil: 78º de 143 no índice geral; 74ª em restrições ao poder.

31. BRASIL. STF. MS 24.268/MG. Rel. p/ acórdão Min. Gilmar Mendes; Pleno, 05.02.2004.

32. LASSALLE, Ferdinand. A Essência da Constituição. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2001.

33. HESSE, Konrad. A Força Normativa da Constituição. Porto Alegre: Fabris, 1991.

34. NEVES, Marcelo. A Constitucionalização Simbólica. 3. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

35. WEBER
, Max. Economia e Sociedade. Brasília: UnB; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1999. v. 1, pp. 141-144; 158-164.

36. RUSSELL, Bertrand. O Poder: Uma Nova Análise Social. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, pp. 21-27; 173-195.

37. O 'Over God' é apresentado como hipótese especulativa do próprio artigo, não como previsão tecnológica nem como tese atribuída a autor citado.

Documento elaborado em 17 de agosto de 2026. As informações contidas são de responsabilidade do solicitante.


ANTÔNIO AUGUSTO CÉSAR













Advogado graduado pela Faculdade de Direito da USP  (1972)
Atuação nas áreas do Direito Civil, Constitucional e Tributário.

Nota do Editor:

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