domingo, 15 de março de 2026

Como manter o coração aberto, diante de tanta dor?


 @Clara Slywitch de Santi

Hamnet (2025) é um drama histórico ficcional, baseado na vida real de Shakespeare. Inspirado em um livro com o mesmo nome, o filme busca explorar sua vida familiar e relacionar eventos de sua biografia com a criação da peça Hamlet, sem ter um compromisso com a fidelidade histórica dos fatos. Foi dirigido por Chloé Zhao e estrelado por Paul Mescal e Jessie Buckley.

O filme trata de muitos assuntos, à primeira vista, sobre William Shakespeare e sua esposa Agnes Hathaway, mas olhando mais de perto, fala sobre muito mais do que isso: família, perdas, amor, luto. O início do filme aborda como os dois se conheceram e o encantamento inicial do casal. Agnes é uma mulher extremamente conectada à natureza, assim como sua mãe e avó eram, acreditando no poder das ervas medicinais; e até mesmo escolhendo dar à luz à sua primeira filha sozinha na floresta. Já Will é um homem das letras, interessado pela história e literatura, em busca de uma profissão que o realize. De início, essa diferença entre eles é o que os encanta, mas quando Will decide se mudar para Londres, para tentar ter uma carreira, a relação dos dois se abala um tanto.

Algum tempo após terem a primeira filha, Agnes engravida de novo, dessa vez de gêmeos. Durante o parto, Will está em Londres, e a irmã e mãe dele a auxiliam. A menina, Judith, quase morre durante o parto, o que resulta em a mãe se tornar superprotetora em relação a ela, levando em conta que sempre havia tido a visão de que teria dois filhos em seu leito de morte, o que a deixa preocupada ao estar com três crianças.

Os anos se passam e o filme retrata a vivência familiar, sempre com muito amor entre todos eles. Will aceita finalmente que Agnes não vai querer se mudar para Londres com as crianças, decidindo comprar uma boa casa no campo para eles, nesse meio tempo, sua carreira está começando a engatar. O menino do casal de gêmeos, Hamnet, é muito sensível e encantador. Ao ir embora para Londres, Will pede para que ele seja corajoso para estar junto das irmãs e da mãe.

Pouco tempo depois, Judith pega a peste negra, Agnes faz tudo o que pode para salvá-la, mas cada vez mais ela parece mais fraca e com dificuldade de manter sua consciência. À noite, seu irmão se deita ao seu lado, diz que a Morte está lá para buscá-la e que ele trocaria de lugar com ela, dando sua vida à irmã, sendo corajoso, assim como seu pai pedira a ele. Essa cena é intercalada com outra do menino sozinho, em uma floresta de cenário de peça de teatro, andando e chamando sua mãe, chorando. No dia seguinte, Judith está curada e Hamnet morre em agonia. O desespero que Agnes experimenta é de partir o coração.

Will chega no final do dia, aliviado em ver sua filha, mas logo percebe que Hamnet morreu. Depois disso, Agnes entra em um duro processo melancólico, muito ressentida pelo marido não ter estado lá para se despedir do filho. A relação dos dois fica extremamente abalada, com esse grande rancor de Agnes pela ausência do marido. Ele pensa muito no filho, se questiona para onde ele foi e que de alguma forma, gostaria de encontrá-lo.

Para Freud, luto não é um estado patológico, apesar de causar um grande afastamento da conduta normal de vida, que, com o tempo, será recuperado, podendo trazer um desinteresse geral pelo mundo externo. Como cada pessoa lida com o processo de luto, é muito singular. Assim, muito é possível se pensar a partir desse filme, a forma em que os dois lidam com a perda do filho é muito diferente. De início, a primeira cena do menino na floresta de cenário do teatro - que acontece antes de ele morrer -,é a mesma da peça Hamlet, o que pode de alguma forma simbolizar o lugar em que os pais acham que o menino está, perdido, sozinho, desamparado, chamando pela mãe.

Mais de um ano depois, Agnes escuta pela cidade que seu marido está fazendo uma peça, com o nome do filho perdido, mas em outra grafia: Hamlet. Um tanto relutante, ela vai assistir junto de seu irmão. A história da peça diz respeito a um filho, que busca entender quem matou o seu pai e vingar sua morte, que aparece para ele como um fantasma. Assim, Agnes se emociona e vê como a peça foi uma forma do marido lidar com a perda do filho, trocando de lugar com ele, sendo que é ele mesmo quem morre. No enredo da peça, ele consegue se despedir do filho, pensar no que ele sentiu ao morrer, já que o filho também morre no final da peça. Ao fim, Agnes e Will olham para o Hamnet, no cenário das árvores, e ele se despede e segue em direção à escuridão; os pais dão um leve sorriso.

Pensar no que acontece na pós-vida fez com que Will criasse sua peça, podendo processar o seu luto, simbolizando a perda, encenando, criando o roteiro, colocando vida em suas angústias e questionamentos sobre o que aconteceu com o menino. De alguma forma, pode-se considerar que ocorreu uma sublimação desse processo tão difícil, ao atuar uma situação, que, mesmo que um tanto diferente, muito tinha de ser similar ao que havia ocorrido em sua vida. Até mesmo de uma forma reparatória, já que na morte do filho ele não esteve presente e , com a peça, ele pode estar e colocar na prática as suas fantasias e dores sentidas Na peça, é o pai quem morre antes do filho, como se ele tomasse o lugar de Hamnet.

É possível considerar que Agnes entrou em um processo melancólico, levando em conta que Freud define este estado como desânimo doloroso, havendo uma suspensão de interesse pelo mundo externo, suspensão da capacidade de amar, inibição de toda a atividade, rebaixamento da autoestima e até mesmo podendo haver uma expectativa de punição para a própria pessoa; e principalmente pela falta da possibilidade de simbolizar a perda. Ou seja sem conseguir começar o processo do luto. Agnes teve todo esse processo de um fechamento para o mundo externo, apenas conseguindo pensar na morte do filho, como lhe doía não ter podido salvá-lo, a culpabilização do marido, por ele não ter estado lá junto da família, se tornando até mesmo agressiva com ele, coisa que antes não ocorrera. Isso fez com que Agnes não conseguisse viver a vida como antes, não estando tão presente com seus familiares, praticamente incapaz dos afetos que antes eram mais importantes em sua vida. De fato, foi como se uma parte dela tivesse sido perdida, e ela não conseguia lidar com isso e seguir em frente desse fato.

O que fez as coisas mudarem para Agnes foi ela ter assistido à peça. Ela pôde entender como a criação e encenação dessa foi uma ferramenta do marido para se colocar no lugar do filho e lidar com suas angústias diante do seu luto, se oferecendo à Morte, no lugar do filho. Ainda, parecendo reconectar o casal, como se pela primeira vez em muito tempo, os dois estivessem falando a mesma língua e compreendessem as diferenças de cada um, vendo suas semelhanças no meio de toda essa dor.

A cena final é muito bonita, pois fica claro que o menino andando pelas árvores da peça, de fato, era o lugar em que os pais o haviam colocado simbolicamente. No último momento do filme, ele consegue ir embora e se despedir dos pais. Ou seja, eles finalmente conseguem processar aquela perda e Agnes pode começar o processo do luto, aceitando a morte do filho e podendo ter a capacidade de começar a simbolizá-la. Assim, ela deixa o filho sair daquele cenário em que ele estava sozinho nas árvores, que era uma espécie de limbo, que simbolizava também a falta de capacidade de processar a perda dele e deixá-lo ir.

Algo que ressoou muito foi a pergunta: como manter o coração aberto, diante de tanta dor? Repetindo uma parte do que a mãe de Agnes e Bartholomew dizia. Quando Agnes estava passando pelo seu processo melancólico, o seu coração estava fechado para viver qualquer coisa que não fosse remoer a perda de Hamnet, impossibilitada de seguir em frente, sentir afetos positivos em relação às pessoas e coisas. Entretanto, ao assistir à peça, ela conseguiu de alguma forma ter uma visão diferente da situação, sentindo-se menos sozinha, ao perceber que o marido também sofreu com a morte do filho, o que possibilitou o início do seu luto, podendo processar a perda. Assim, é possível pensar que a única saída para aquela família se manter de coração aberto à vida era poder processar o acontecimento.

CLARA  SLYWITCH DDE  SANTI











Quintoanista de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP);

Atua a partir da abordagem psicanalítica, com interesse na escuta clínica e na compreensão dos processos subjetivos sob a perspectiva da Psicanálise.

 Nota do Editor:


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