©️2026 Cristina Marques Motta
Você já teve a sensação de que fez
tudo "certo", mas ainda assim algo parece faltar?
Trabalhou, estudou, construiu uma
carreira, cuidou da família, cumpriu responsabilidades... e, mesmo assim, em
alguns momentos surge um incômodo difícil de explicar. Uma inquietação. Um
vazio. Uma pergunta silenciosa: "Era isso?"
Talvez essa experiência seja mais
comum do que imaginamos.
Há quase cem anos, Sigmund Freud
escreveu um livro chamado O Mal-Estar na Civilização, tentando
compreender por que os seres humanos continuam sofrendo mesmo vivendo em
sociedades organizadas, com avanços científicos e inúmeras possibilidades de
conforto.
Para Freud, existe um conflito
inevitável entre aquilo que desejamos e aquilo que a vida em sociedade exige de
nós.
Desde cedo aprendemos que não
podemos fazer tudo o que queremos. Precisamos esperar, dividir, respeitar
regras, controlar impulsos e considerar o outro. Essas renúncias tornam
possível a convivência humana, mas também geram frustração.
Em outras palavras, o sofrimento
seria, em certa medida, o preço que pagamos por viver em comunidade.
Essa é uma visão profunda e, ao
mesmo tempo, bastante realista da condição humana. Nem sempre conseguiremos
satisfazer todos os nossos desejos. Nem sempre a felicidade será completa.
Viver implica limites.
Mas existe uma outra forma de olhar
para esse mesmo mal-estar.
As abordagens humanista, existencial
e fenomenológica concordam que o sofrimento faz parte da vida. No entanto,
propõem uma pergunta diferente: e se esse desconforto não for apenas um
problema a ser suportado? E se ele também puder ser compreendido como uma
mensagem?
Ao invés de perguntar apenas "O
que foi reprimido?", essas abordagens perguntam:
Como você está vivendo essa
experiência?
O que perdeu sentido?
O que esse sofrimento está
tentando comunicar?
Às vezes, a angústia aparece quando
estamos vivendo uma vida distante de quem somos. Outras vezes, ela surge diante
de escolhas importantes, mudanças inevitáveis, perdas, transições ou da
necessidade de redefinir prioridades.
O vazio pode revelar cansaço.
A ansiedade pode denunciar excesso
de exigências.
A tristeza pode apontar para algo
que precisa ser elaborado.
O incômodo pode indicar que chegou o
momento de olhar para si com mais honestidade.
Isso não significa romantizar o
sofrimento ou acreditar que toda dor traz ensinamentos. Há dores que precisam
de cuidado, acolhimento e tratamento. Mas significa reconhecer que nem sempre o
objetivo é eliminar rapidamente qualquer desconforto. Em alguns momentos, é
justamente a capacidade de escutar aquilo que sentimos que possibilita
transformação.
Imagine uma mulher que alcançou
sucesso profissional, é admirada pelas pessoas ao redor e, ainda assim, sente
um vazio constante.
Freud talvez perguntasse:
"Quais desejos seus precisaram
ser sacrificados para que você chegasse até aqui?"
A perspectiva existencial poderia
perguntar:
"O que esse vazio está lhe
mostrando sobre a maneira como você tem vivido? Que vida deseja construir daqui
para frente?"
Nenhuma dessas perguntas está
necessariamente certa ou errada. Elas iluminam aspectos diferentes da
experiência humana.
Talvez a grande contribuição de
Freud seja nos lembrar de que não somos tão livres quanto gostamos de imaginar.
Nossa história, nossas relações e os conflitos internos influenciam
profundamente a maneira como vivemos.
Por outro lado, a abordagem
humanista-existencial nos convida a reconhecer que, apesar das limitações,
sempre existe algum espaço para escolha. Podemos atribuir novos significados às
experiências, rever caminhos e assumir maior responsabilidade pela forma como
desejamos existir no mundo.
Entre aquilo que nos determina e
aquilo que podemos escolher, construímos nossa história.
Por isso, talvez o mal-estar não
seja apenas o preço inevitável da civilização. Talvez ele também seja um
convite.
Um convite para desacelerar.
Para revisitar escolhas.
Para reconhecer limites.
Para resgatar desejos esquecidos.
Para construir relações mais
autênticas.
Para viver com mais presença e
coerência com aquilo que realmente importa.
A vida provavelmente nunca será
isenta de dor, dúvidas ou conflitos. Mas talvez o sofrimento deixe de ser
apenas um inimigo quando nos dispomos a escutá-lo com curiosidade e compaixão.
Quem sabe algumas das perguntas mais
importantes da nossa existência não surjam justamente nos momentos em que algo
dentro de nós insiste em dizer:
"Do jeito que está, já não é
possível continuar."
E talvez seja aí que a transformação
comece.
Psicóloga clínica;
Graduação em Psicologia pela PUCPR – 2021 e
MBA em Constelações Sistêmicas pela Faculdade de Ampere – FAMPER ( 2024)

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