segunda-feira, 23 de março de 2026

O outro GG




©️2026Benedito de Godoy Morone

Esta é uma história real. Alteramos as identidades a fim de evitar eventuais constrangimentos.

Na cidade de Abaetetuba, havia um rapaz, membro uma família rica, com o nome Gilberto Gomes de Oliveira. Para diferenciar-se e dar glamour a seu nome, resolveu passar a apresentar-se como GG Oliveira (ou simplesmente GG). Essa maneira de identificá-lo torna-se conhecida e utilizada na cidade quando se referiam ele.

A moda "pegou". Logo o José Bernardo passa a apresentar-se como JB, José Rubens torna-se JR, Mauro Couto vira MC e assim por diante.

Carlinhos, um rapaz simples, semialfabetizado, ouve pessoas falando sobre GG e comentando os feitos dele, com foco na sua privilegiada situação financeira e social. O jovem acha aquilo bonito e resolve que seu nome, a partir daquele momento, mesmo sendo Carlinhos, passará a ser, também, GG. De início praticamente ninguém o chamava assim, mas com o tempo e insistência de Carlinhos, este nome passa a existir e passam a chamá-lo de GG, como ele queria.

A vida de Carlinhos, então com o nome de GG, tem passagens interessantes.

Vamos a algumas delas:

Como gostava de participar de grupo musical, conseguiu tornar-se integrante da banda da escola de samba. Seu "instrumento" era a frigideira que, diga-se de passagem, ele se saia bem, pois tinha ritmo e, no grupo, estava sempre alegre e animado.

Frequentemente ele encontrava-se com Cidinho, proprietário de um posto de gasolina, com o qual conversava sobre todos e tudo. A ele GG, certo dia, contou:

- Sabe, no meio da semana atrasada, uma família, que iria viajar no sábado daquela semana e ficar 15 dias na praia, ofereceu um "bico pra mim vigiar" a casa deles, enquanto eles estavam fora. Ofereceram uma "grana" boa e o serviço era moleza.

- E você aceitou?

- Não pensei duas vezes e aceitei. A família viajou no sábado e eu lá, vigiando a casa. Malandro, o senhor sabe, existe em toda parte. Por isso fiquei "ligadão para não dar bandeira ou moleza” a nenhum sacana. No sábado, no domingo, na segunda-feira e na terça-feira, tudo foi tranquilo e correu bem, sem nenhum problema. Na quarta-feira, enquanto eu esperava o tempo passar, pensei: a casa "tá pouco utilizada", que tal se eu aproveitasse o sábado para fazer um "bailinho" e ganhar uns trocados a mais?

- Mas você pensou nisso GG? Usar a casa que você estava sendo pago para vigiar e fazer nela um “bailinho”? – perguntou Cidinho.

- É claro, "os dono” disseram que só "vortavam" no final da outra semana. Assim eu fazia o "bailinho" e depois da festança deixava tudo em ordem "pra quando eles chegasse nem notarem nada.

- Mas e daí, como foi? Perguntou Cidinho, sobre o desenrolar do caso.

- No sábado a turma convidada começou a chegar, até mais cedo do que o combinado. Eu pedi "pro" Joãozinho "ficá no barzinho" do quiosque perto da piscina. Usei o frízer e a geladeira da casa para as bebidas. Até uns salgadinhos arrumei. O Joãozinho "tava" perfeito como garçom. As caixas de som do aparelho da casa, passei pela janela e coloquei "elas virada pra piscina". Os discos e fitas eram dos mais variados tipos de música que a molecada gosta.

- Mas você é maluco GG? Não ficou preocupado com a possibilidade de acontecer algum imprevisto e "melar" tudo? perguntou Cidinho.

- Que nada, "pra mim, tinha certeza: tudo ia dar certo". E assim foi, das 10 h oras da noite até as duas horas da manhã. Aí, "queimou a fita" e a coisa ficou preta...

- Como assim? perguntou Cidinho.

- Advinha quem entrou na casa e viu aquela bagunça que até parecia uma bacanal... "OS DONO DA CASA" que "viero" antes do combinado! "Deu ruim geral". A turma saiu correndo, com alguns deixando até o chinelo. Teve outros que precisaram pular o muro para não ouvir os gritos "dos dono" da casa. Foi terrível.

-E daí? – quis saber Cidinho.

- Acredite! “Os dono me xingáro e não pagáro os dia” que trabalhei. Até ameaçaram chamar a polícia. Seu Cidinho, vou “dizê uma coisa pro senhor”: tem gente ingrata que não sabe “valorizá o serviço dos outro e nem cumpri com o combinado”. Eu senti isso na minha pele...
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Certo dia GG contou a Cidinho que haviam acusado sua mãe, Dona Cláudia, de manter uma casa de prostituição na cidade e já tinham marcado para ele depor na delegacia. Esclareceu, também, que nem sabia o que e como fazer nesse caso.

Condoído pela situação em que GG encontrava-se, Cidinho reuniu alguns amigos para ajudar GG.

Contrataram um advogado experiente para orientar GG, a fim de conseguir, ao menor, minorar a pena da mãe dele.

Com o cartão do causídico, GG foi até o escritório do mesmo.

Após esperar a saída do cliente que estava sendo atendido, GG foi convidado a entrar na sala do advogado para conversarem.

O advogado falou a GG que, a pedido de Cidinho, já lera atentamente todo o processo e o caso precisava de muito cuidado, pois a acusação do Ministério Público era forte e poderia resultar na prisão de Dona Cláudia.

- O senhor prestou bem atenção ao que contei? - arguiu o advogado.

- Sim senhor. – respondeu GG.

- O senhor tem boa memória? Não se esquece se combinarmos o que deve falar quando estiver com o juiz? – continuou o advogado.

-Minha cabeça é muito boa e, se combinar pra dizer uma coisa, fique tranquilo, eu não esqueço, não senhor. – afirmou GG.

- Então, quando o juiz perguntar ao senhor alguma coisa, basta responder para ele o seguinte: QUE EU SAIBA, NÃO!

- Só isso, doutor?

- Só isso, não tagarele que em boca fechada não entra mosca. – concluiu o advogado.

- Pode deixar doutor, no fórum vou seguir direitinho sua orientação, pode ficar tranquilo. – arrematou GG.

Chegando o dia designado, a audiência é realizada.

Após a mesma, no posto de gasolina de Cidinho, os amigos aguardam ansiosos por saber como GG saiu-se no tribunal.

Ele chega e fala:

- Pessoal, vou contar direitinho como foi lá no fórum.
Eu e o advogado “ficamo" na sala de espera e ele "falô" baixinho pra mim:

- O senhor não se esqueceu do que deve "falá" quando o juiz "perguntá as coisa pro senhor", certo?

- Fique tranquilo. Treinei bem em casa. – respondi.

- "Passa uns minuto" e começa a audiência. Depois eles “chamaro eu”. Entrei e sentei na cadeira que "mostraro". Depois o juiz começou a"perguntá":

- O senhor sabe se Dona Cláudia vende bebida alcoólica na casa dela?

- Que eu saiba, não. – respondi.

- O senhor sabe se Dona Cláudia aluga, na casa dela, quarto para casais? – "continuô" o juiz.

- Que eu saiba, não. – respondi.

- Por acaso o senhor sabe se na casa de Dona Cláudia já houve briga ou brigas de pessoa ou pessoas que estavam lá? - "perguntô" o juiz.

- Que eu saiba, não. – respondi de novo.

- Vendo a filiação do senhor que consta aqui no processo, o senhor é filho de Dona Cláudia? – "perguntô" o juiz.

- Respondi firme e confiante, conforme tinha combinado com o advogado:

- Que eu saiba, não!

Como se fosse uma só voz e ao mesmo tempo, os amigos perguntaram:

- E daí, GG, o que aconteceu?

- "A véia ficô em cana!" – respondeu ele.
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Um dia GG chegou no posto de gasolina com o braço em uma tipóia.

Cidinho, dono do posto, todo preocupado quis saber qual o motivo desse machucado.

GG, cochichou para ele:

- "Psiuuuu, não é nada não. É só pra fazê tipo. Tô só fazendo que tô machucado pra consegui tapeá troxa e ganhá uns trocado sem precisá trabalha".

E assim foram outras vezes em que GG aparecia com a mão enfaixada ou o rosto cheio de esparadrapo. Tudo para ficarem com dó dele, darem alguns trocados, e ele não precisasse trabalhar.

O tempo foi passando, e GG não mudou seu modo de vida. Só "fazia um bico" quando ficava completamente sem dinheiro.

Certa manhã um freguês do posto de gasolina, conversando com Cidinho, contou estar sabendo que GG morrera naquela noite e o corpo estava no velório municipal.

Cidinho ficou consternado, afinal era o falecimento de uma pessoa divertida e querida. Depois de deixar tudo em ordem no seu estabelecimento e avisar amigos sobre o acontecido, dirigiu-se ao velório. Lá chegando, triste, foi prestar sua homenagem ao falecido. A funerária havia colocado flores no caixão em torno do corpo, quatro velas acesas em volta do caixão e até uma coroa com os dizeres "Saudades dos Amigos. GG, descanse em paz".

Entretanto, olhando bem o morto, Cidinho notou o que parecia um leve sorriso no rosto de GG. Afastou-se e ficou olhando, certo de que logo, logo, GG levantaria do caixão e diria que era brincadeira, rindo do susto de todos:

- Enganei todo mundo, NÃO MORRI AINDA. Vocês "vão ter que aguentá eu por muito tempo".

Claro que seria um grande susto, mas coisa bem próprio de GG.

Contudo, o tempo passava e só silêncio no velório. Porém, aquele leve sorriso que GG apresentava, deixava Cidinho inquieto.

Isto foi aumentando a dúvida de Cidinho, que pensava:

- Será que é agora que o GG vai levantar do caixão? Se é mesmo brincadeira, ele já está levando isto por muito tempo.

Cidinho pensou no que fazer para ter certeza de que, realmente, GG estava morto ou brincando.

Aí teve a ideia de fazer uma coisa que já vira em um filme: espetar a mão do falecido com um alfinete para confirmar se ele estava realmente morto. Até procurou pelo local um alfinete, entretanto não achou nenhum. Viu que era melhor abandonar essa ideia louca.

Todavia, o sorriso maroto ainda estampado por GG estava deixando Cidinho quase maluco. Foi quando viu no chão um palito de dente. Discretamente, como quem está arrumando os cordões dos sapatos, ele pega disfarçadamente o palito. Fica em pé e, em um momento que parecia ninguém estar prestando atenção, chega ao lado de caixão, colocar suas mãos sobre as mãos de GG, como que para despedir-se dele, pega o palito e espeta-o nas costas da mão do morto, esperando ouvir um grito do "morto" que pararia aquela encenação.

Nessa hora, quem quase dá um grito é Cidinho.

GG estava morto mesmo.

BENEDITO DE GOODOY MORONE












-Graduado em Direito  pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Universidade de São Paulo(1972); e

-Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Venceslauense de Letras. 
Nota do Editor:
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