Autora:Taís Morais(*)
Todos os dias, ao acordar, reparo nas rugas que envolvem o meu olhar. A cada dia, me parece, nasce mais uma. Mais fininha, mais marcada, mas todos os dias os meus olhos me mostram que o tempo está passando. Não tem choro e nem botox que impeçam isso.
Todos os dias repito as mesmas ações. Acordo e tomo minha levotiroxina. Dou remédio para minha Rodhesian de nove anos de idade, que tem a tireoide tão ruim quanto a minha também está velha. Da mesma forma, a outra cadelinha, uma vira-latas de 11 anos, antes preta, já está com a cara branquinha...
Os meus filhos já são adultos, meus sobrinhos de 17, 7 anos e o bebê de 9 meses também seguem o curso do envelhecimento.
Os meus filhos já são adultos, meus sobrinhos de 17, 7 anos e o bebê de 9 meses também seguem o curso do envelhecimento.
Ora, mas por que escrevo este conto em forma de crônica? Porque noto, cada vez mais, que as pessoas estão todas sem tempo. Brigam com as horas e sabotam Chronos .
Vejo, tristemente, que as crianças e adolescentes vivem com os narizes tão enfiados em suas telas reluzentes, que não conhecem mais a alegria das antigas brincadeiras. do vento na cara, o pé sujo e a coceira do bicho-de-pé.
Vejo, tristemente, que as crianças e adolescentes vivem com os narizes tão enfiados em suas telas reluzentes, que não conhecem mais a alegria das antigas brincadeiras. do vento na cara, o pé sujo e a coceira do bicho-de-pé.
Os pais, mal chegam aos
restaurantes, sentam seus bebês na cadeirinha e já arrumam um jeito de manter a
criança quieta vendo alguma idiotice no celular ou tablet. Me dá urticária
quando vejo uma família junto, mas separada pela tecnologia. Cada um com sua
vida virtual paralela...
Minha maior agonia é saber que
logo esses meninos e meninas estarão adultos e os pais terão perdido a melhor
fase das suas vidas.
Nós reclamamos tanto da falta de
tempo. Não telefonamos para os amigos por falta de tempo, não visitamos os
parentes nem os irmãos, tudo por falta de tempo. Não lemos aquele livro que está
amarelando na prateleira, nem andamos de bicicleta, tudo por falta de tempo...
Qual foi a última vez em que você
não colocou a culpa no relógio?
Quando usou aqueles headphones
ridículos e dançou sozinho(a) na sua sala?
Quando foi que colocou o celular
na gaveta e saiu sem se preocupar com as mensagens que talvez nem cheguem?
Qual a última vez que você mentiu
para si mesmo(a) sobre não ter tempo?
Qual foi a última vez que você
fez alguma coisa pela primeira vez?
Se eu soubesse que o relógio andaria
tão rápido, teria aproveitado cada segundo, mil vezes mais, perto das pessoas
que já não estão comigo.
Teria adiado um pouco, os
estudos, os trabalhos e as pesquisas para colar meu rosto com os rostinhos dos
meus filhotes, pois o tempo passou e agora seguem o caminho da vida adulta.
Mas eu, que tive a sorte de não
haver essa febre de celulares para crianças, que pude ler, fazer piqueniques e
muitas brincadeiras, não estava preparada para a orfandade que a vida adulta
dos filhos trazem aos pais.
Ah, o tempo!!! O vilão das rugas nos olhares.
Mas um sábio ancião.
- O Deus das reflexões tardias.
*Taís Morais
*Taís Morais
-Jornalista ganhadora do prêmio Jabuti(2006);
-Mestre em Comunicação pela UNB(2013);
-Assessora de Imprensa e Comunicação,Social Media;
-Pesquisadora do Regime Militar Brasileiro.
Nota do Editor:
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