domingo, 28 de junho de 2026

Os fatores de risco e de proteção para a saúde mental na adolescência


©️2026 Jacqueline Ferreira de Souza

 

Introdução

A adolescência é uma das fases mais intensas do desenvolvimento humano. É nesse período que ocorrem transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais que influenciam diretamente a forma como o jovem percebe a si mesmo e o mundo ao seu redor. Embora seja uma etapa marcada por descobertas, crescimento e construção da identidade, também pode representar um momento de vulnerabilidade para a saúde mental.

Nos últimos anos, o aumento dos índices de sofrimento psicológico entre adolescentes tem despertado a atenção de profissionais da saúde, educadores e famílias. Questões como ansiedade, depressão, automutilação e comportamento suicida têm se tornado cada vez mais frequentes, reforçando a necessidade de compreender os fatores que colocam os jovens em risco, bem como aqueles que atuam como proteção.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2019), o suicídio está entre as principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos, tornando-se um importante problema de saúde pública. Diante desse cenário, promover saúde mental na adolescência é uma responsabilidade compartilhada entre família, escola, profissionais de saúde e sociedade.

O que são fatores de risco?

Os fatores de risco são condições ou situações que aumentam a probabilidade de desenvolvimento de sofrimento psíquico e comportamentos prejudiciais à saúde mental.

Entretanto, é importante destacar que a presença de um fator de risco não determina, por si só, que um adolescente desenvolverá um transtorno mental ou apresentará comportamento suicida. Conforme ressaltam Estanislau e Bressan (2014), cada indivíduo reage de maneira diferente às experiências vividas, sendo necessário analisar o contexto de forma ampla e individualizada.

Entre os principais fatores de risco encontrados na literatura estão:
  • Baixa autoestima;
  • Impulsividade e agressividade;
  • Sentimentos de solidão e desesperança;
  • Transtornos mentais, como depressão e ansiedade;
  • Uso de álcool e outras drogas;
  • Violência física, emocional ou sexual;
  • Fragilidade dos vínculos familiares;
  • Histórico de suicídio na família;
  • Bullying e exclusão social;
  • Baixo rendimento escolar; e
  • Rompimentos afetivos e perdas significativas.
Esses fatores podem se acumular ao longo do tempo, aumentando a vulnerabilidade emocional dos adolescentes e comprometendo sua capacidade de enfrentar desafios cotidianos.

O impacto do bullying na saúde mental

Entre os diversos fatores de risco, o bullying merece atenção especial. Essa forma de violência pode ocorrer presencialmente ou por meio das redes sociais, sendo conhecida, nesse último caso, como cyberbullying.

De acordo com Andrade (2021), o bullying pode provocar queda na autoestima, dificuldades de aprendizagem, ansiedade, depressão e isolamento social. Em situações mais graves, pode contribuir para o desenvolvimento de pensamentos autodestrutivos.

Por isso, é fundamental que escolas e famílias estejam atentas às mudanças de comportamento dos adolescentes, criando espaços seguros de diálogo, acolhimento e intervenção precoce.

A importância dos fatores de proteção

Se os fatores de risco aumentam a vulnerabilidade, os fatores de proteção funcionam como recursos capazes de fortalecer a saúde mental e favorecer o enfrentamento das dificuldades.

Cecconello (2019) destaca três grandes categorias de proteção:

Características individuais
  • Autoestima positiva;
  • Habilidades sociais;
  • Espiritualidade; e
  • Capacidade de resolução de problemas.
Apoio familiar
  • Comunicação saudável;
  • Presença afetiva;
  • Limites adequados; e
  • Relações seguras e acolhedoras.
Apoio social
  • Amigos;
  • Escola; e
  • Comunidade.
Os fatores de proteção ajudam o adolescente a desenvolver resiliência, ou seja, a capacidade de enfrentar situações difíceis sem comprometer significativamente seu equilíbrio emocional.

O papel da escola na promoção da saúde mental

Depois da família, a escola é um dos espaços sociais mais importantes na vida dos adolescentes. É nela que os jovens constroem amizades, enfrentam desafios, desenvolvem competências e passam grande parte do seu tempo.

Por esse motivo, a escola ocupa uma posição estratégica na prevenção do sofrimento psíquico e na promoção da saúde mental.

Segundo Ávila (2020), o ambiente escolar possibilita a identificação precoce de sinais de risco, favorecendo intervenções preventivas e encaminhamentos adequados quando necessário.

Além disso, a Lei nº 13.935/2019 garantiu a inserção de profissionais da Psicologia e do Serviço Social nas redes públicas de educação básica, fortalecendo a atuação multiprofissional no contexto escolar.

Quando educadores recebem formação adequada em saúde mental, tornam-se mais preparados para reconhecer sinais de sofrimento emocional e contribuir para a construção de ambientes mais acolhedores e seguros.

Desenvolvendo habilidades socioemocionais

Uma das estratégias mais eficazes para a promoção da saúde mental é o desenvolvimento das habilidades socioemocionais.

Essas habilidades envolvem:
  • Autoconhecimento;
  • Autocontrole emocional;
  • Empatia;
  • Comunicação assertiva;
  • Resolução de conflitos;
  • Tomada de decisão; e
  • Autoeficácia.
Segundo Mota (2021), a competência emocional está relacionada à capacidade de reconhecer, expressar e gerenciar emoções, contribuindo diretamente para o bem-estar psicológico e para a qualidade das relações sociais.

Investir nessas competências desde cedo significa oferecer aos adolescentes ferramentas importantes para lidar com frustrações, desafios e pressões típicas dessa fase da vida.

Conclusão

Promover saúde mental na adolescência exige um olhar atento para os fatores que aumentam os riscos, mas também para aqueles que fortalecem o desenvolvimento saudável.

Família, escola, amigos e profissionais da saúde desempenham papéis fundamentais na construção de ambientes que favoreçam o acolhimento, a escuta e o desenvolvimento emocional.

Mais do que prevenir problemas, investir na saúde mental dos adolescentes significa criar oportunidades para que eles desenvolvam autoestima, autonomia, senso de pertencimento e esperança diante do futuro.

Ao fortalecer fatores de proteção, contribuímos para a formação de jovens mais preparados para enfrentar desafios, construir relações saudáveis e desenvolver uma vida com mais significado e bem-estar.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Neusa da Silva Soares. Bullying escolar: contribuição do psicodrama para prevenção e intervenção psicopedagógica. 2021. 
Disponível em: 
Acesso em: 08 abr. 2023;

ÁVILA, Isabela Machado. Comportamento suicida entre estudantes: a escola como espaço de prevenção. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Universidade do Sul de Santa Catarina, 2020;

CECCONELLO, Alessandra Marques et al. Fatores de risco e proteção para o suicídio na adolescência: uma revisão de literatura. Revista Perspectiva: Ciência e Saúde, v. 4, n. 2, 2019;

ESTANISLAU, Gustavo M.; BRESSAN, Rodrigo A. (Org.). Saúde mental na escola: o que os educadores devem saber. Porto Alegre: Artmed, 2014;

MOTA, Helenice de Fátima Silva. Teatro e autoconhecimento: desenvolvendo saberes pessoais na educação básica. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Artes) – Universidade de Brasília, 2021;

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Suicide worldwide in 2019: global health estimates. Geneva: World Health Organization, 2021;

PALÁCIO, Diogo Queiroz Allen et al. Saúde mental e fatores de proteção entre estudantes adolescentes. InterAção, v. 21, n. 1, p. 72-86, 2021; e

SGANZERLA, Giovana Coghetto. Risco de suicídio em adolescentes: estratégias de prevenção primária no contexto escolar. Psicologia Escolar e Educacional, v. 25, 2021.

JACQUELINE FERREIRA DE SOUZA






















Graduada em Psicologia pela Faculdade Anhanguera - Teixeira de Freitas - BA ( 2023);

Atuação voltada para o desenvolvimento humano, saúde mental e habilidades socioemocionais. Possui experiência no atendimento de crianças autistas, desenvolvendo intervenções voltadas ao fortalecimento da autonomia, comunicação e desenvolvimento emocional;

Atualmente, desenvolve projetos e ações educativas relacionados à prevenção do bullying e à promoção da saúde mental no contexto escolar, atuando com estudantes do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental e, mais recentemente, no Ensino Médio;

Seu trabalho integra conhecimentos da Psicologia e das artes cênicas, utilizando recursos do teatro como ferramenta para o desenvolvimento do autoconhecimento, da empatia, da comunicação e das competências socioemocionais;

Jacqueline acredita que a união entre Psicologia, Educação e Teatro pode contribuir significativamente para a formação de indivíduos mais conscientes de si mesmos, emocionalmente saudáveis e preparados para os desafios da vida em sociedade.


Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

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