sábado, 3 de outubro de 2026

A saúde mental dos professores na educação moderna


 

©️2026 Maria Cristina Tófoli





UM OLHAR ESPECIAL

Ser professor hoje vai muito além de transmitir conhecimentos. Na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I, essa responsabilidade ganha uma dimensão ainda maior, pois justamente nessa fase a criança constrói importantes bases cognitivas, emocionais e sociais. Esses dois segmentos, a meu ver, são os mais importantes na vida das crianças.

A sala de aula tem se transformado em um reflexo das complexidades, transformando o docente em um verdadeiro malabarista emocional. O professor precisa ensinar, acolher, mediar conflitos, observar comportamentos, conversar com as famílias, adaptar atividades, desenvolver projetos, cumprir planejamentos e, ao mesmo tempo, administrar suas próprias emoções diante de situações que muitas vezes ultrapassam os limites do trabalho pedagógico. Não se trata apenas de "dar aula". Existe uma enorme quantidade de trabalho antes, durante e depois do momento em que o professor está diante dos alunos. O professor começa a apresentar sinais de sobrecarga e esgotamento, e, nesse momento, é preciso ter um olhar especial a todos.

É importante reconhecer que todas essas responsabilidades fazem parte do exercício da profissão e são fundamentais para a construção de uma educação de qualidade. A questão não é retirar essas atribuições do professor, mas perguntar: como podemos ajudá-lo a lidar com tudo isso? Que suporte estamos oferecendo para que ele consiga desempenhar seu papel com segurança, preparo e equilíbrio emocional?

É preciso compreender que competência profissional não significa dar conta de tudo sozinho. Para que o professor consiga acolher, ensinar, mediar, incluir e dialogar, ele também precisa ser acolhido, orientado e ter acesso a ferramentas que o ajudem a enfrentar os desafios cotidianos. Isso envolve formação continuada, acompanhamento pedagógico, espaços de escuta, orientação para lidar com situações complexas, apoio da equipe escolar e uma parceria verdadeira com a escola e as famílias. Toda essa dinâmica só faz sentido quando é conduzida com conhecimento, equilíbrio e, acima de tudo, amor.

ENSINAR CRIANÇAS

Trabalhar hoje com crianças pequenas exige muito mais do que domínio de conteúdos. É necessário compreender diferentes fases do desenvolvimento infantil, lidar com comportamentos diversos, estimular a autonomia, desenvolver habilidades sociais e emocionais e, ao mesmo tempo, garantir que os objetivos pedagógicos sejam alcançados.

Cada criança chega à escola com uma história, uma realidade familiar, uma personalidade e necessidades próprias. Há crianças mais introvertidas, outras mais agitadas, crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem e crianças que necessitam de adaptações e estratégias diferenciadas.

Nesse contexto, estão também os alunos atípicos, que podem demandar do professor conhecimentos específicos sobre desenvolvimento, inclusão, comunicação, comportamento, adaptações pedagógicas e diferentes formas de aprendizagem. Muitas vezes, o professor deseja oferecer o melhor atendimento possível, mas ele não recebeu, em sua formação inicial, conhecimentos suficientes para enfrentar tamanha diversidade em sala de aula. Mesmo sem saber exatamente por onde começar, ele busca, pesquisa, adapta e faz o que pode para não deixar aquela criança para trás.

Isso pode gerar insegurança, frustração e uma sensação constante de que nunca se está preparado o suficiente.

É importante compreender que essa realidade não representa uma falha da escola ou do professor. O mundo mudou, as relações se tornaram mais complexas e as demandas presentes no ambiente escolar também se transformaram. A escola e o professor se encontram, muitas vezes, diante de situações novas, para as quais nem sempre existem respostas prontas.

Nesse processo, a escola tem um papel fundamental ao caminhar ao lado do professor, oferecendo orientação, formação, escuta e apoio para que ele possa compreender melhor as necessidades de seus alunos e encontrar estratégias adequadas para cada situação. O professor, por sua vez, também participa desse processo ao buscar conhecimento.

Essa parceria permite que os desafios sejam enfrentados de forma mais humana e coletiva. Afinal, em uma realidade educacional cada vez mais diversa, não se pode esperar que o professor tenha todas as respostas sozinho. É preciso que a escola esteja ao seu lado, oferecendo as condições necessárias para que ele possa ensinar, aprender e desenvolver seu trabalho com mais segurança e qualidade.

A NECESSIDADE DE ADMINISTRAR O PRÓPRIO EMOCIONAL NÃO APARECE NO PLANEJAMENTO ESCOLAR, MAS PRECISA EXISTIR!

Existe uma dimensão do trabalho docente que pouco aparece nos planejamentos escolares: o professor também precisa administrar suas próprias emoções.

É preciso manter a calma diante de uma criança em crise, mediar conflitos entre alunos, acolher choros, responder às indagações das famílias, lidar com comportamentos desafiadores, cumprir prazos e ainda entrar na sala de aula no dia seguinte com disposição para ensinar.

O professor não deixa de ser uma pessoa porque está diante dos alunos. Ele também sente cansaço, ansiedade, irritação, preocupação e frustração. Entretanto, espera-se frequentemente que consiga controlar tudo isso para continuar desempenhando seu papel. Nesse contexto, a união e a colaboração da equipe são fundamentais para fortalecer o trabalho coletivo e promover um ambiente de apoio mútuo. Uma gestão preparada, com profissionais competentes, como psicóloga, orientadora e demais membros da equipe pedagógica, pode oferecer suporte aos professores, contribuindo para que suas dificuldades sejam acolhidas e para que encontrem caminhos para lidar com os desafios do cotidiano escolar.

É bom lembrar que cuidar de quem educa também é uma forma de cuidar da própria escola.

Ainda assim, nem todas as instituições reconhecem a importância de cuidar e valorizar seus professores. Muitas vezes, as demandas e cobranças relacionadas ao trabalho docente recebem mais atenção do que as necessidades daqueles que estão à frente da sala de aula diariamente. Em um cenário em que atrair e manter profissionais qualificados pode ser um desafio, investir no bem-estar e na valorização dos professores pode representar um diferencial importante para a escola.

Uma instituição que oferece um ambiente de trabalho saudável, no qual o professor se sente respeitado, ouvido e apoiado, tende a fortalecer o vínculo desses profissionais com a escola. Além de contribuir para um trabalho pedagógico mais consistente, essa postura pode favorecer a construção de uma boa reputação institucional, tornando a escola um lugar em que profissionais qualificados desejem trabalhar e permanecer.

Afinal, uma escola de qualidade não se constrói apenas com bons projetos e recursos, mas também com profissionais valorizados e uma equipe que compreende que cuidar de quem ensina é parte essencial do processo de educar. E, novamente: Como podemos ajudar o professor?

A FORMAÇÃO DO PROFESSOR TAMBÉM PRECISA SER REPENSADA

Outro ponto que precisa ser discutido com seriedade é a formação dos professores.

A graduação em Pedagogia é importante, mas precisamos reconhecer que, na prática, muitos profissionais chegam à sala de aula sem se sentirem preparados para aquilo que encontrarão no cotidiano escolar. Aprendem conceitos, teorias e fundamentos importantes, mas nem sempre recebem uma preparação prática e consistente para planejar uma aula, organizar uma rotina, conduzir uma turma, avaliar a aprendizagem, lidar com diferentes comportamentos e transformar o conhecimento teórico em uma prática pedagógica efetiva.

E então surge uma situação preocupante: o professor entra pela primeira vez em uma sala de aula e precisa aprender, muitas vezes sozinho, aquilo que deveria ter sido construído durante sua formação. E isso causa um sentimento de medo, de que talvez não consiga realizar as tarefas.

É preciso, portanto, discutir se o modelo atual de formação docente está realmente oferecendo as condições necessárias para preparar um professor para a realidade da escola.

Nesse sentido, e eu acredito muito nisso, é válido discutir a retomada de alguns princípios da formação prática do antigo curso de Magistério, integrando-os à formação em Pedagogia, em um modelo que valorize desde cedo à prática docente, o planejamento, a observação, os estágios, o desenvolvimento infantil e a vivência real da sala de aula, sem deixar de lado os fundamentos teóricos necessários à profissão.

Não se trata de simplesmente voltar ao passado, mas de perguntar o que funcionava na formação prática do antigo Magistério e o que poderia ser recuperado e atualizado para as necessidades da escola de hoje.

O professor precisa chegar à sala de aula sabendo mais do que irá ensinar. Precisa saber como planejar, como observar, como avaliar, como conduzir uma turma e como lidar com a diversidade presente em cada criança.

E, mesmo com uma formação mais consistente, o aprendizado não termina com o diploma. A educação muda, as crianças mudam e os desafios da escola também. Por isso, a formação continuada precisa fazer parte da própria carreira docente.

Formar bem o professor desde o início e continuar oferecendo condições para que ele se desenvolva ao longo da carreira não é um luxo: é uma necessidade para que ele não precise aprender sozinho, na prática e sob pressão, aquilo que deveria ter aprendido para estar preparado para ensinar.

O PESO DE QUERER FAZER BEM FEITO

Existe ainda uma característica que costuma ser esquecida: muitos professores se cobram profundamente. Querem preparar uma boa aula. Querem ajudar aquela criança que apresenta dificuldade. Querem incluir o aluno que precisa de adaptações. Querem atender bem às famílias. Querem desenvolver projetos significativos. Querem alcançar os objetivos pedagógicos e, principalmente, querem fazer diferença na vida das crianças.

Quando não conseguem dar conta de tudo, podem sentir culpa e uma infelicidade imensa.

E essa culpa é perigosa porque transforma uma questão coletiva, que envolve condições de trabalho, formação, gestão, políticas educacionais, participação das famílias e organização escolar, em um problema aparentemente individual do professor.

E, além de tudo isso, o professor também carrega suas próprias questões pessoais: problemas familiares, preocupações com os filhos, responsabilidades de casa e tantas outras situações que não ficam do lado de fora da escola.

O professor não deveria precisar adoecer para provar que se importa com a educação.

COMO PODEMOS AJUDAR OS NOSSOS PROFESSORES?

Uma forma de tornar esse cuidado uma prática permanente é incluí-lo no Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola, contemplando artigos, leis e diretrizes que garantam à valorização, o respeito, a formação e o apoio aos professores. Assim, o cuidado com o profissional deixa de depender apenas da iniciativa de cada gestão e passa a fazer parte da cultura da escola, fortalecendo toda a equipe e, consequentemente, a qualidade do ensino. Algumas sugestões:

1. Apoio psicológico e institucional

As escolas precisam criar espaços seguros de descanso, de refeição, de escuta e acolhimento para os docentes. Cuidar de quem cuida das crianças também deve ser uma prioridade;

2. Parceria verdadeira entre família e escola

Família e escola precisam compreender que possuem responsabilidades diferentes, mas complementares.

A família não deve enxergar o professor apenas como alguém que presta um serviço. Da mesma forma, a escola não pode esperar que o professor resolva sozinho questões que dependem da participação familiar e de uma rede de apoio. A educação da criança precisa ser construída em parceria;

3. Formação continuada de qualidade

É necessário garantir ao professor oportunidades reais de estudo e atualização profissional. Cursos, grupos de estudo, supervisão, troca de experiências e formação dentro da própria escola podem contribuir para que o professor se sinta mais preparado diante dos desafios contemporâneos. Uma boa sugestão é oferecer também espaço para que o professor que realizou um curso ou uma formação fora da escola possa compartilhar esse conhecimento com seus colegas. Além de favorecer a troca de experiências e ampliar o conhecimento de toda a equipe, essa prática contribui para a autoestima do professor, que percebe que seu esforço e seu investimento profissional são reconhecidos e valorizados pela instituição. Dessa forma, o conhecimento adquirido por um profissional deixa de ser individual e passa a contribuir para o crescimento de toda a equipe. O HTPC (Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo) é um bom momento para isso.

Quanto mais complexa se torna a realidade da sala de aula, maior é a necessidade de investir na formação de quem está diariamente diante das crianças;

4. Menos burocracia e mais tempo para ensinar

Repensar a quantidade de tarefas administrativas e demandas que recaem sobre o professor é importante no planejamento anual e na construção do calendário escolar. Avaliações, projetos, reuniões e festividades devem ser organizadas de forma equilibrada, evitando o excesso de atividades em um mesmo período.

Também é importante simplificar tarefas que podem ser reduzidas, permitindo que o professor tenha mais tempo para planejar, ensinar e acompanhar seus alunos. Afinal, organizar melhor o tempo do professor também é uma forma de valorizar seu trabalho.

O planejamento, a reflexão sobre a prática e o contato com os alunos precisam ocupar espaço significativo na jornada de trabalho;

5. Limites emocionais

O professor também precisa reconhecer e respeitar seus próprios limites emocionais. Ele não precisa resolver sozinho todos os conflitos, problemas ou dificuldades que surgem no ambiente escolar. Ter apoio da equipe, saber pedir ajuda e encontrar momentos para descansar e se reorganizar emocionalmente são atitudes importantes para preservar seu bem-estar. Cuidar das próprias emoções não significa ser menos profissional, mas criar condições para exercer o trabalho com mais equilíbrio e qualidade são medidas importantes.

Uma boa escola para se trabalhar é aquela que escuta, acolhe, busca soluções e trata com sensibilidade as situações que envolvem sentimentos e emoções. E, sem falar que uma boa energia entre todos na escola fortalece os vínculos, melhora o ambiente de trabalho e torna o dia a dia mais leve para professores, alunos e toda a equipe.

6. Cuidados e olhares

Falar sobre saúde mental dos professores é falar sobre a qualidade da educação. Não podemos exigir que um profissional esteja emocionalmente disponível para acolher crianças, ensinar, mediar conflitos, conversar com famílias, desenvolver projetos, adaptar atividades, estudar continuamente e responder a inúmeras demandas sem considerar as condições e as estruturas que a escola oferece para que todo esse trabalho aconteça de forma satisfatória. Entender as necessidades do professor é de suma importância na construção dos espaços de uma escola.

Alguns professores precisam compreender que não são responsáveis sozinhos por todas as dificuldades que uma escola enfrenta. E, acima de tudo, precisam entender que cuidar de si não diminui seu compromisso com a educação.

Validar a dor do professor é um passo importante para transformar a educação. Uma escola preparada para ouvir, apoiar, formar e valorizar seus professores cria boas condições para que eles possam desenvolver seu trabalho com segurança, dedicação e qualidade.

Talvez não exista uma escola perfeita, mas uma escola que cuida de seus professores apoia sua equipe e busca soluções diante dos desafios está muito mais preparada para oferecer um ensino de qualidade.

Assim, gestão e ensino não devem caminhar separados. Uma gestão comprometida com seus profissionais fortalece a equipe, e uma equipe fortalecida contribui para o crescimento do professor, da escola e, principalmente, do aluno.

Cuidar da saúde mental dos professores não é apenas cuidar de quem ensina. É cuidar da própria educação.

MARIA CRISTINA TOFOLI

















Graduada em Magistério com especialização em Educação Infantil/Pedagogia.

São suas palavras:

"Com quase 30 anos de experiência na área da Educação, Maria Cristina atuou como professora, coordenadora e assessora pedagógica em escolas públicas, particulares e editoras. Ao longo de sua trajetória, destacou-se pela implantação de currículos alinhados à BNCC, desenvolvimento de projetos educacionais, aprimoramento de materiais didáticos, inclusão e formação de professores.

A experiência como diretora de produção de livros paradidáticos em editoras despertou sua paixão pela escrita, levando-a a se dedicar à literatura infantojuvenil. Em suas obras (em construção), utiliza histórias, personagens e conflitos como ferramentas pedagógicas, aproximando a leitura da reflexão e da aprendizagem. Também desenvolve materiais complementares para apoiar professores e ampliar as possibilidades de trabalho em sala de aula. Em breve no mercado."

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores


Nenhum comentário:

Postar um comentário