domingo, 11 de outubro de 2026

Compreendendo as Altas Habilidades


 ©️2026 Keity Teixeira Fonseca Valim


Abordar o tema das Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) ainda faz com que muitas pessoas pensem em alguém muito inteligente, com desempenho escolar excepcional, facilidade para aprender qualquer conteúdo e sem grandes dificuldades ao longo da vida. Esse é um dos estereótipos que ainda acompanham as pessoas com altas habilidades.

É preciso mostrar à população em geral que as altas habilidades podem se manifestar de diferentes maneiras. Algumas pessoas apresentam facilidade acentuada para aprender, raciocínio elaborado, vocabulário desenvolvido, curiosidade intensa ou capacidade de estabelecer relações complexas entre informações. Outras se destacam pela criatividade, pela produção de ideias originais, pela intensidade dos interesses ou pela maneira particular de solucionar problemas. E nem sempre essas características aparecem acompanhadas de notas altas ou de um desempenho igualmente elevado em todas as áreas.

Um dos mitos sobre o tema é: "Se tem altas habilidades, precisa ser bom em tudo."

O desenvolvimento cognitivo não acontece necessariamente de maneira uniforme. Uma criança ou adolescente pode demonstrar capacidade muito elevada em determinadas áreas e apresentar desempenho dentro da média — ou mesmo dificuldades — em outras. Da mesma forma, um adulto pode possuir recursos intelectuais importantes e, ainda assim, enfrentar dificuldades relacionadas à organização, atenção, regulação emocional, interação social ou execução de determinadas tarefas.

Por isso, olhar apenas para um resultado de inteligência pode contar somente uma parte da história.

Outro mito bastante comum é: "Quem tem altas habilidades sempre vai bem na escola."

Também não necessariamente.

Renzulli e Reis (2004) descrevem dois tipos de superdotação: a acadêmica e a produtivo-criativa. A superdotação acadêmica está mais relacionada às habilidades valorizadas nas situações tradicionais de aprendizagem escolar e que podem ser identificadas por meio de medidas de capacidade cognitiva (Renzulli & Reis, 2004). Já a superdotação produtivo-criativa está relacionada à curiosidade, à resolução de problemas e às características do pensamento criativo, envolvendo o desenvolvimento de ideias, produções ou soluções inovadoras direcionadas a problemas e situações reais (Chagas, 2007).

Há estudantes com altas habilidades que se envolvem intensamente quando encontram algo que desperta seu interesse, mas demonstram pouca motivação diante de atividades repetitivas ou pouco desafiadoras. Outros podem apresentar perfeccionismo, medo de errar, ansiedade ou cobrança excessiva em relação ao próprio desempenho.

Outro equívoco que ocorre com frequência é pensar: "Se existem dificuldades, então não pode haver altas habilidades."

É importante ressaltar que uma pessoa pode apresentar altas habilidades e, simultaneamente, TDAH, Transtorno do Espectro Autista, transtornos específicos de aprendizagem ou outras condições. Quando potencialidades elevadas coexistem com uma condição que também produz dificuldades ou necessidades específicas, podemos estar diante de uma situação de dupla excepcionalidade.

Nesses casos, uma condição pode dificultar a percepção da outra. Recursos cognitivos elevados podem contribuir para que a pessoa desenvolva estratégias capazes de compensar determinadas dificuldades durante muito tempo. Por outro lado, dificuldades atencionais, emocionais, sociais ou acadêmicas podem fazer com que suas potencialidades sejam pouco percebidas.

É justamente por isso que algumas pessoas chegam à avaliação com histórias aparentemente contraditórias: apresentam grande facilidade para determinados assuntos, mas dificuldades importantes em outros; aprendem rapidamente aquilo que lhes interessa, mas têm dificuldade para manter o envolvimento em determinadas tarefas; demonstram raciocínio sofisticado, mas nem sempre conseguem transformar esse potencial em desempenho no cotidiano.

A avaliação neuropsicológica pode contribuir para a compreensão dessas aparentes contradições. Em vez de descartá-las, é importante investigá-las e compreender como se relacionam ao funcionamento cognitivo, comportamental, emocional e social de cada pessoa.

Identificar altas habilidades é muito mais do que encontrar um número elevado em um teste.

Mais importante do que perguntar apenas "essa pessoa tem altas habilidades?" é compreender como suas habilidades se manifestam, quais são suas potencialidades, quais dificuldades coexistem e do que ela necessita para conseguir se desenvolver de maneira saudável.

Reconhecer potencialidades não significa ignorar fragilidades. Da mesma forma, reconhecer dificuldades não deveria apagar potencialidades.

Quando olhamos apenas para aquilo que uma pessoa faz muito bem, podemos deixar de perceber o quanto ela está se esforçando para lidar com suas dificuldades. Quando olhamos somente para aquilo que ela não consegue fazer, podemos deixar de enxergar recursos importantes que também fazem parte de quem ela é.

Por isso, uma boa identificação das Altas Habilidades/Superdotação precisa ir além dos rótulos, dos estereótipos e de um único resultado.

Antes de identificar uma habilidade, estamos buscando compreender uma pessoa.

Talvez seja justamente esse olhar mais amplo que permita transformar uma identificação em algo realmente útil: não apenas dar um nome a determinadas características, mas favorecer o autoconhecimento, oferecer suporte diante das dificuldades e criar oportunidades para que as potencialidades possam, de fato, encontrar espaço para se desenvolver.

Chamada 1: Reconhecer potencialidades não significa ignorar fragilidades. Da mesma forma, reconhecer dificuldades não deveria apagar potencialidades.

Chamada 2: Mais importante do que perguntar "essa pessoa tem altas habilidades?" é compreender como suas habilidades se manifestam, quais são suas potencialidades, quais dificuldades coexistem e do que ela necessita para conseguir se desenvolver de maneira saudável.

Bibliografia

-CHAGAS, J. F. Conceituação e fatores individuais, familiares e culturais relacionados às altas habilidades. In: FLEITH, D. S.; ALENCAR, E. M. L. S. (orgs.). Desenvolvimento de talentos e altas habilidades: orientação a pais e professores. Porto Alegre: Artmed, 2007;

-FLEITH, D. S.; ALENCAR, E. M. L. S. (orgs.). Desenvolvimento de talentos e altas habilidades: orientação a pais e professores. Porto Alegre: Artmed, 2007;

-VIRGOLIM, A. M. R. Altas habilidade/superdotação: encorajando potenciais. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2007.
É uma referência brasileira bastante útil para um texto destinado ao público geral, principalmente para discutir mitos, características e diferentes manifestações das AH/SD.

KEITY TEIXEIRA FONSECA VALIM

















  • Graduação: Unimep – Universidade Metodista de Piracicaba (2010);
  • Especialista em Neuropsicologia pelo Cepsic-FMUSP (2015);
  • Especialista em Psicoterapia Analítica Junguiana, pela Unicamp (2017);
  • Atuo em atendimento psicoterapêutico de crianças, adolescentes e adultos e avaliação neuropsicológica de crianças a partir dos 6 anos e adultos; e
  • Idealizadora e Organizadora do Psico Encontro, um evento para os profissionais da Psicologia aberto que ocorre na cidade de Indaiatuba/SP, que tem como finalizada o networking entre os profissionais e ampliar conhecimento. 
Site: htttp://ameneuropsico.com.br 
Instagran: @keity_valim_neuropsi

Nota do Editor:

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