Autor: Benedito Godoy Moroni (*)
Quando Mariozinho tinha quatro anos e pouco sua mãe ficou grávida pela segunda vez.
Ele aprendeu a rezar:
- Papai do Céu, mande um nenê pra nós!!!
E isto repetia-se todas as noites, com o fervor e inocência próprias de uma criança. Como nesses tempos não houvesse método seguro de saber se o nascituro era um menino ou uma menina, o pedido do Mariozinho não determinava que o nenê fosse menino ou menina.
Passam-se os meses e, finalmente, nasce o nenê: uma menininha. Inicialmente a mãe pensou em Roberta devido, principalmente, à famosa música italiana "Roberta", cantada por Peppino de Capri. A avó materna, por sua vez, católica fervorosa, sugeriu que incluísse o nome Maria, a mãe de Jesus. Assim a menininha ficou com o nome de Maria Roberta.
Alegria geral, todos ficam felizes.
Entretanto, pouco tempo depois, com a recém nascida chorando, por alguma cólica natural ou por fome, começou a incomodar Mariozinho, até que em certo dia ele desabafou à mãe:
- Se eu soubesse que o nenê seria tão chato assim, eu não teria pedido ele ao Papai do Céu!!!
Todavia o tempo, como santo remédio, fez com que parassem os choros e Mariozinho quisesse bem a irmãzinha que ele ganhara. Tanto que muitas vezes ele ia até o berço ou carrinho e apertava carinhosamente as bochechinhas dela. A mãe, com receio de tais apertozinhos, alertava o filho:
- Não faça assim filho. Não pode judiar do nenê.
Mariozinho, invariavelmente, explicava:
É "querência", mamãe!!!
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Quando tinha três anos, Maria Roberta já era uma menininha desenvolta e falante.
A casa em que ela morava, ficava em uma esquina, onde na frente havia um murinho baixo, sobre o qual estava assentado um gradil todo trabalhado, conforme desenho elaborado pela avó materna da criança, logo após um pequeno jardim.
Maria Roberta subia nesse murinho e ficava agarradinha ao gradil para ver as pessoas que passavam na calçada. Ela, sempre falante, procurava entabular conversa com as mulheres que passavam na frente de sua casa.
Se era uma mocinha, toda curiosa, a menininha perguntava:
- Moça, você tem namorado?
A pessoa respondendo, ela começava a perguntar sobre como era esse namorado e continuava o bate papo.
Caso fosse uma mulher com um pouco mais de idade, a pergunta dela era:
- Você tem filhinho?
Em caso de resposta positiva, continuava a inquirição para saber se era menininho ou menininha e a conversa rendia.
Quando a passante era uma senhora idosa, a pergunta era:
- Você tem netinho?
A pessoa, geralmente respondia e Maria Roberta estendia a conversa para saber como era ele/ela.
Normalmente as transeuntes rendiam-se aos encantos daquela menininha encantadora, falante e simpática, realizando longos bate papos com ela.
Entretanto, se Maria Roberta fizesse a pergunta e a pessoa a ignorasse, passando direto por ela, resmungava:
- Idiota...
Muitas vezes, no decorrer das conversas, Maria Roberta perguntava:
- Você já tomou café?
Se a resposta era negativa, ela dizia:
- Você pode esperar um pouquinho? Eu já volto!
Descia do murinho e corria para dentro da casa, para logo em seguida vir com um pedaço de bolo ou um pedaço de pão com manteiga e dava para a pessoa. Isto era, muitas vezes, o desjejum dessa pessoa.
Com o passar do tempo inúmeras "amigas" paravam para conversar com Maria Roberta. Entre elas, estava a varredora de rua que trabalhava para a prefeitura. Enquanto varria, mantinha longas conversas com a menininha. Os papos eram tão frequentes que a criança, certa vez, comentou:
- Sabe que eu gosto de conversar com você. Acho muito bonita a vassoura que você usa para varrer a rua!
É que as varredoras de Tatuí usavam, e ainda usam, vassouras de bambu em seu serviço por considerarem-nas mais úteis e duráveis que as vassouras comuns de gari. A próprias varredoras fazem essas vassouras de bambu com pontas de bambu Tonkin (Arundinaria amabilis) que são amarradas em um cabo de madeira e deixadas secar cerca de dois ou três dias antes de começar a utilizá-las.
Uma manhã a varredora chega até Maria Roberta e a presenteia com uma mini vassoura de bambu.
A menininha não cabia em si de alegria com o presente. Depois, orgulhosa, mostrava a todos sua vassourinha de bambu, igualzinha aquela usada pela varredora sua amiga.
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Com quatro anos, Maria Roberta foi com os pais a uma exposição canina em Sorocaba. Embora eles não fossem criadores, em sua casa, sempre possuíam algum exemplar canino com pedigree. Várias vezes já haviam participado de competições nas quais os cães, que tinham nessas ocasiões, ganhavam medalha de ouro.
Especialmente nesse passeio, a exposição estava variada e interessante, prendendo a atenção dos pais da menina. Cada expositor esmerando-se em apresentar seus exemplares, com cães de várias raças. E como os pais apreciavam cães, haviam pesquisado sobre os mesmos e sabiam que o cão, animal carnívoro da família dos canídeos, o mais antigo animal domesticado pelo homem e seria, teoricamente, originado do lobo cinzento asiático, isto há mais de 100.000 anos. A raça de cães preferida pela família era Cocker Spaniel Inglês, com origem provavelmente espanhola. Esta raça era usada para caçar galinhas e, em viagens marítimas entre Espanha e Inglaterra, embarcaram alguns desses animais, que ficaram na Inglaterra. Daí o nome da raça.
Em dado momento, na visita à exposição, o pai pergunta à mãe:
- Cidinha, e a Maria Roberta? Ela estava com você, mas agora não a estou vendo!
- Eu me distraí com os stands e, acreditando que ela estava com você, nem me preocupei. Mario Roberto, você sabe que ela, sem esperar, "some" de nossas vistas. Vamos procurá-la, que ela deve estar por perto. – respondeu Cidinha.
Incontinente, começam a procurar a filha.
Perto do local em que estavam, não a viram. Começam a percorrer todo o espaço da exposição. A busca é embalde. A menina não estava lá.
A preocupação dos pais só aumentava. Estavam em um clube de campo onde muitos locais poderiam oferecer risco a uma criança com quatro anos de idade.
Vão até as piscinas, procuram no campo de tênis, no bar e... Nada...
- Mario Roberto, Vamos pedir para chamarem a Maria Roberta pelo alto-falante daqui! – fala a mãe angustiada.
Já aflitos, enquanto procuram onde fazer o pedido de ajuda, veem um grupo de pessoas no campo de futebol assistindo a algo e torcendo. Ao começarem a aproximar-se, ouvem:
- Vamos menininha de cor de rosa. Continue rápido, você está vencendo...
Isto, imediatamente, acende as esperanças deles, pois Maria Roberta trajava naquele dia um vestidinho rosa. Correm até o grupo e veem a filha terminando uma corrida "de saco". E ela, logo ganha a disputa sob os aplausos da torcida. O coordenador da corrida, em seguida, entrega um prêmio à menina e dá-lhe um abraço.
Os pais, aliviados, se aproximam da criança.
A mãe, ainda não refeita do susto, pergunta:
- Minha filha, como você sumiu? Por que saiu sem nos avisar?
- Mamãe, eu quis ver outras coisas. Andei e quando cheguei aqui vi que estavam reunindo crianças para tentarem ganhar prêmios. Eu resolvi participar e olhe, ganhei na corrida com o ovo, na de bola no balde, no jogo de argolas e agora na corrida de saco! Olha só quantos presentes ganhei!!!
Os pais, aliviados, voltaram para o carro e retornaram a Tatuí, não antes da mãe relembrar à filha:
- Minha querida, não repita isto que você fez hoje!
- Não posso mais entrar em competições? – perguntou a menina.
- Pode participar sim, mas antes de sair de perto de nós tem que pedir-nos. Nunca se afaste de nós sem sabermos. Certo?
- Tudo bem mamãe. Pode deixar que nas próximas vezes vou pedir. – Arremata Maria Roberta.
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Quando estava com oito anos Maria Roberta, ficava com suas primas, Fernanda e Renata, que vinham a Tatuí passar parte das férias escolares. Estas ficavam hospedadas na casa da avó materna das três meninas, ocasião em que Maria Roberta pedia a sua mãe para deixá-la ficar, também na casa da avó. A mãe, consultava a avó e se esta concordasse, preparava a malinha da filha com roupas para aqueles dias de folguedos.
As três meninas passavam momentos alegres e descontraídos. Andavam de bicicleta pela cidade; brincavam de desfile de modas; acampavam no quintal; liam revistinhas infantis e curtiam outras atividades divertidas, próprias da idade delas.
Certo dia, ao lerem uma revistinha, encontraram receitas que não eram muito difíceis de fazer. Curiosas perguntaram à mãe de Maria Roberta se poderiam tentar fazer o doce "brigadeiro", pois os ingredientes todos elas já tinham visto que existiam na despensa. Com a autorização, puseram as "mãos na massa".
Separaram os ingredientes para 30 porções.
Em seguida seguiram os passos do preparo da receita.
Pronto, estava feito o brigadeiro.
A experiência foi um sucesso e todos aprovaram o resultado.
Mas isto levou Maria Roberta a pensar se não seria uma boa ideia ela fazer brigadeiro para vender e com o lucro comprar as coisas que gostava, sem ter que pedir dinheiro aos pais.
Da ideia, passou à ação.
Na primeira vez usou os materiais da mãe. Feitos os brigadeiros, vendeu-os aos avôs.
Com resultado da venda comprou mais produtos e teve um lucrinho.
Isto animou-a a fazer mais e começar a vender aos amiguinhos e conhecidos.
O produto era tão bom que, quando ela não fazia, as pessoas sentiam falta.
A seguir, ela aprendeu a fazer o doce beijinho. Outro sucesso.
Assim, por um bom tempo, Maria Roberta teve um dinheirinho extra, obtido com seu trabalho e arte.
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Adulta, Maria Roberta após alguns anos de casada teve que separar-se. O casamento, infelizmente, não deu certo.
Como em toda separação, seja por qual motivo for, traz no mínimo desconforto e tristeza, pois acaba com uma expectativa alvissareira quanto ao mesmo.
Em conversa com um cônego, desabafando sobre seu caso, este consolando-a sugeriu:
-Minha filha, apegue-se a Santa Rita de Cássia, tenho certeza de que ela a ajudará a superar esta fase triste pela qual você está passando.
Seguindo a sugestão, ela começou a ler sobre a santa, tornando-se devota da mesma.
Em sua peregrinação por santuários católicos na Itália, feita com sua mãe, uma das visitas seria ao santuário de Santa Rita de Cássia.
Depois de visitar vários santuários, a excursão partiu em direção ao de Santa Rita.
A viagem transcorria tudo bem, até Maria Roberta ver que haviam passado da entrada para o caminho do santuário que tanto ela queria visitar.
- Mamãe, acabamos de passar pela cidade do santuário e o ônibus não entrou nela – falou Maria Roberta à mãe. Esta, imediatamente, foi conversar com a organizadora da peregrinação:
- No programa consta que iríamos ao santuário de Santa Rita. Passamos pelo caminho que nos levaria lá, mas não entramos. Por que, se constava no roteiro que nós temos?
- É mesmo, eu estava me esquecendo. – respondeu a organizadora.
Em seguida pediu ao motorista para encostar o ônibus. Ela perguntou aos passageiros se eles queriam que continuasse a viagem ou voltasse para o santuário de Cássia. A resposta, unânime, foi que voltasse e visitassem o santuário de Santa Rita de Cássia e assim foi feito.
A visita emocionou a todos. Maria Roberta, compenetrada e com fé, comprou um botão de rosa vermelha feito de veludo e, após rezar à santa, depositou-o ao lado de onde está o corpo dela.
O pranto de Maria Roberta não pode ser contido, mas desta vez foi um pranto de alívio e consolação, que lhe dava esperança e força para continuar sua vida e procurar ser feliz novamente.
Quando estavam preparando-se para entrar no ônibus e prosseguir a viagem, eis que surge uma senhora, vestida de preto, com um véu negro cobrindo-lhe a cabeça. Parecendo nem notar as demais pessoas que estavam ali, detém-se em frente a Maria Roberta. Em seguida, com um sorriso plácido e olhar carinhoso, generosamente entrega-lhe um botão de rosa vermelha, igual ao que fora depositada no santuário. Nesse momento, uma leve e suave fragrância de rosa podia ser percebida no local. Em seguida a senhora afastou-se com passos lentos, sem dizer uma palavra sequer, logo sumindo entre a multidão que lotava o local.
Maria Roberta jamais se esqueceu do acontecido. Sempre que se relembra desse fato, comove-se e emociona-se afirmando considerar que esse foi um milagre com significado especial para ela.
*BENEDITO GODOY MORONI
-Advogado, jornalista e escritor;
-Graduado em Direito pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Universidade de São Paulo(1972); e
-Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Venceslauense de Letras.
Nota do Editor:
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