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sábado, 29 de março de 2025

Por que ainda precisamos escrever à mão?


 Autora: Adriana Mello(*)

Como professora de Português, lido diariamente com o impacto da escrita à mão no aprendizado dos alunos. No início da jornada escolar, a escrita manual não é apenas uma ferramenta de comunicação, mas um elemento essencial na construção do pensamento, na organização das ideias e no desenvolvimento cognitivo. Entretanto, com a crescente digitalização, percebo uma mudança preocupante: cada vez mais estudantes encontram dificuldades na caligrafia, na estruturação textual e na compreensão do que escrevem. Se antes já havia desafios, hoje eles agravaram-se, com alunos demonstrando muita dificuldade para escrever, e não me refiro aqui apenas às questões de elaboração textual, mas a registros simples, de anotações cotidianas.

Estudos recentes têm demonstrado que a escrita manual desempenha um papel essencial no desenvolvimento cerebral. Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia mostrou que escrever à mão ativa as mesmas áreas do cérebro responsáveis pelo aprendizado e pela memória de longo prazo. Segundo Audrey van der Meer, neurocientista, neuropsicóloga, pesquisadora do cérebro e uma das autoras da pesquisa, "ao escrever à mão, os padrões de conectividade cerebral são muito mais elaborados do que ao escrever num teclado". "Essa conectividade cerebral generalizada é conhecida por ser crucial para a formação da memória e para a codificação de novas informações e, portanto, é benéfica para a aprendizagem", concluiu.

A afirmação da pesquisadora sugere que a escrita manual transcende a mera transcrição de ideias, funcionando como um processo cognitivo que potencializa a plasticidade neural. O envolvimento mais amplo do cérebro ao escrever à mão indica que esse ato não é apenas um meio de registrar informações, mas também um catalisador para a aprendizagem significativa. Diferentemente da digitação, que pode se tornar um processo mecânico e menos exigente em termos de coordenação motora fina, a escrita manual parece envolver uma complexa interação entre percepção, memória e motricidade, criando um ambiente propício para a retenção e assimilação do conhecimento.

Assim, longe de ser um mero vestígio analógico em um mundo digital, a escrita manual se reafirma como uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento cognitivo.

Em minhas práxis, percebo que as anotações manuais facilitam a retenção de informações e contribuem para o aprendizado. A relação entre a mão e o pensamento é visível em sala de aula: alunos que anotam à mão tendem a se lembrarem melhor das explicações e conseguem se expor com mais clareza.

Algumas iniciativas importantes ocorreram recentemente no sentido de "resgatar" o ambiente escolar dos impactos negativos decorrentes do uso excessivo de dispositivos eletrônicos em sala de aula. Em São Paulo, a Lei Estadual nº 17.546/2022 proíbe o uso de celulares durante as aulas, exceto para fins pedagógicos, buscando minimizar distrações e melhorar a concentração dos alunos. Em âmbito nacional, a Lei Federal 15.100, de 13 de janeiro de 2025, proíbe o uso dos aparelhos eletrônicos portáteis (celulares e tablets, entre outros), durante todo o período na escola para os estudantes matriculados na educação infantil, no ensino fundamental e no ensino médio, só permitindo a utilização para fins pedagógicos ou didáticos, mediante orientação dos professores.

Essas leis foram criadas com base em estudos que apontam os efeitos deletérios das telas no aprendizado e com o intuito de incentivar uma maior interação dos estudantes com os professores e colegas, bem como a retomada de métodos tradicionais (e comprovadamente eficazes) como a escrita à mão, que potencializam a memória e a compreensão dos conteúdos.

No contexto da sala de aula é perceptível que muitos alunos que dependem excessivamente da digitação têm dificuldades para construir frases com coesão e coerência. Eles se habituaram - de forma rápida e intensa - ao uso de corretores automáticos, ao "copia e cola" e à escrita fragmentada, tornando-se menos reflexivos sobre a lógica do texto. Antes da proibição do uso do celular em classe, uma parte dos estudantes parecia ligar o “piloto automático” durante as atividades, delegando a mais simples tarefa às plataformas de IA, abrindo mão do próprio conhecimento prévio e excluindo de sua rotina ações fundamentais, como anotar, registrar, rascunhar. Essa dependência compromete não só a produção escrita, mas também a capacidade de interpretação, análise e argumentação e, inquestionavelmente, afeta o aprendizado de forma geral, pois impede que habilidades fundamentais e estruturantes se desenvolvam ou sejam consolidadas. A tarefa agora é resgatar procedimentos essenciais que foram engolidos pelo uso indiscriminado e irrefletido dos dispositivos eletrônicos, muitas vezes com o aval e, por que não dizer, o incentivo de alguns gestores de políticas na educação pública, como no caso das escolas estaduais paulistas, acometidas pela "plataformite" nos últimos dois anos, com a implementação de inúmeras plataformas educacionais que, ao fim e ao cabo, não atingiram os objetivos pretendidos: melhorar os índices de aprendizagem dos estudantes.

A escrita à mão não é apenas um meio de registrar informações, mas uma ferramenta poderosa para estimular o pensamento crítico, a criatividade e a conexão com o conhecimento. Em um mundo cada vez mais digital, resgatar essa habilidade pode ser essencial para garantir um aprendizado mais efetivo e um desenvolvimento cognitivo mais completo.

Para finalizar, é importante ressaltar que conciliar tecnologia e escrita à mão no aprendizado não é uma questão de oposição entre o antigo e o novo, mas de compreender quais ferramentas são mais adequadas para o desenvolvimento cognitivo e das habilidades dos estudantes. A escrita manual, especialmente a cursiva, ativa circuitos cerebrais essenciais para a memória, a organização do pensamento e a criatividade, enquanto os recursos digitais oferecem eficiência, acessibilidade e possibilidades interativas. Em vez de rivalizá-los, a abordagem mais pertinente é integrá-los de maneira estratégica—por exemplo, utilizando a escrita à mão para fixação e compreensão profunda de conceitos e a tecnologia para pesquisa, edição e colaboração. Assim, o foco não deve ser uma escolha excludente, mas um uso equilibrado, fundamentado em evidências, para potencializar a aprendizagem e preparar os estudantes para um mundo onde ambas as competências são indispensáveis.

Referência:A pesquisa citada poder ser consultada em https://www.frontiersin.org/news/2024/01/26/writing-by-hand-increase-brain-connectivity-typing



*ADRIANA MELLO























Licenciada em Língua Portuguesa e Língua Inglesa – Faculdades Integradas de Cruzeiro (1996);

 -Pós-graduada em Leitura e Produção de Texto pela Universidade de Taubaté (1999);

-Professora efetiva na rede estadual paulista desde 2000;

-Complementação Pedagógica pela  UNIG (2001);

-Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Taubaté (2003); 

 -Pós-graduada em Ensino de Língua Inglesa pela UNESP REDEFOR (2012)   e

- Designada no Programa de Ensino Integral desde 2014, na EE Oswaldo Cruz (Cruzeiro/SP)

Área de Linguagens (Português / Inglês)

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

sábado, 30 de novembro de 2024

A influência da Inteligência Artificial na Educação


 Autor: Emilton da Silva Amaral(*)

Imagine um dia típico em uma sala de aula do futuro, onde tecnologia e empatia andam de mãos dadas. Os alunos entram e são recebidos por uma voz calorosa de um assistente virtual que conhece o nome de cada um, suas preferências de aprendizado e até as músicas que os deixam mais motivados. Esse assistente não é uma máquina fria e distante, mas um aliado no desenvolvimento deles, projetado para compreender e respeitar a singularidade de cada mente.

Naquela manhã, Rita, uma jovem curiosa, coloca seus óculos de realidade aumentada e é transportada para uma simulação da Revolução Industrial. Enquanto explora uma fábrica do século XIX, ela interage com personagens históricos, aprende sobre as condições de trabalho da época e reflete sobre como esses eventos moldaram o mundo moderno. Ao seu lado, um tutor virtual, com um tom amigável, faz perguntas instigantes: "O que você acha que mudou desde então? Como podemos evitar repetir esses erros?"

Na mesa ao lado, João, um aluno com dificuldades em matemática, está imerso em um jogo adaptativo. Cada problema que resolve lhe dá uma dica visual ou sonora para o próximo desafio. O sistema, impulsionado por inteligência artificial, monitora seu progresso em tempo real, ajustando a dificuldade e reforçando os conceitos que ele ainda precisa dominar. Para João, a matemática deixou de ser um obstáculo e se transformou em um jogo empolgante.

Os professores, longe de serem substituídos pela tecnologia, estão mais presentes do que nunca. Ana, a professora da turma, usa a IA para planejar suas aulas com precisão. Ela analisa os dados gerados pelo sistema para entender onde seus alunos estão brilhando e onde precisam de mais apoio. Naquele dia, ela organiza um debate sobre ética na inteligência artificial, incentivando os alunos a pensarem criticamente sobre as ferramentas que estão utilizando.

Ao final do dia, Rita e João compartilham suas experiências em uma reunião online com estudantes de outro país. A IA traduz automaticamente as falas, permitindo uma conversa fluida e enriquecedora. Juntos, eles descobrem que, embora venham de culturas diferentes, compartilham os mesmos desafios e sonhos.

Essa é a educação do futuro: um espaço onde tecnologia e humanidade se encontram para criar oportunidades únicas. Não se trata apenas de aprender fatos ou fórmulas, mas de desenvolver empatia, criatividade e pensamento crítico. Com a IA, as barreiras desaparecem, e o aprendizado se torna uma jornada profundamente pessoal e colaborativa.

E aí, você consegue imaginar como seria fazer parte desse mundo? Parece ficção, mas é um futuro que estamos construindo agora, com a promessa de que ninguém será deixado para trás. 

*EMILTON DA SILVA AMARAL




sábado, 29 de junho de 2024

O valor da Educação Infantil


 Autora: Ianny Lima Maia(*)

Muito antes que a primeira infância chegue, o professor de educação infantil já é uma figura presente neste marco tão importante e tão pouco valorizado. Seja na creche ou na pré-escola, é ele quem nos encaminha rumo aos conhecimentos que são fundamentais para a vida. Por quê então, com o passar dos anos o cargo de professor infantil se desvalorizou tanto quanto o de qualquer outro da área de educação?

As respostas podem ser diversas, afinal há quem diga que é muito fácil ensinar crianças, dizem aqueles em que nunca estiveram em uma sala com 30 alunos ou tentou explicar a tarefa para o próprio filho. A verdade é que a pauta educação a muito foi esquecida, não somente pelos políticos, como para a sociedade, compreendendo que o tema é um vespeiro cheio de especialistas que nunca chegam a lugar algum.

Tratando-se então da educação primeira, chegamos a um completo descaso com a esquecida educação base. Afinal, é neste alicerce que iremos construir e formar cidadãos conhecedores, prestativos e responsáveis. É neste período que se aprende a pintar as mãos, moldar massinhas, traçar letras, aprender canções, ler, realizar cálculos, entre tantos outras tarefas que são aprendidas desde a mais tenra idade.

Muitos não dimensionam que nestas "pequenas" descobertas e trabalhos, reside uma enorme complexidade de habilidades que futuramente serão essenciais para a realizaçao de atividade simples ou complexas. É neste momento em que se aprende regras, socialização, estímulo da comunicação, desenvolvimento motor e até mesmo nos serve para sinalizar dificuldades ou atrasos. Já podemos ver evidências científicas que comprovam que na primeira infância o cérebro se desenvolve muito rapidamente com os estímulos corretos, e é nesta oportunidade que as habilidades, competências e aptidões se desenvolvem mais facilmente.

E pula ou substimar este período e os profissionais que acompanham estas crianças, é ferir um direito. Logo, é importante ter consciência de que nessa primeira infância, a criança é de fato um papel em branco, pronto para responder aos desafios que podem ser determinantes na forma como ele irá se perceber no mundo. Portanto, devemos olhar com carinho e total admiração para os profissionais responsáveis por esta fase de formação das crianças em indivíduos sólidos e capazes. Gratidão ao professores que acolhem, desenham, pintam, se dedicam , se desgatam e educam os pequenos alunos.

*Ianny Lima Maia



















-Graduada em Letras - Espanhol pela Universidade Estadual de Montes Claros (2013);

-Mestre em Letras/Estudos Literários no Programa de Pós Graduação em Letras/Estudos Literários (PPGL) pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes)(2016);

-Fez parte do projeto de pesquisa Representação feminina e relações de gênero na Espanha do Século de Ouro: Tradição e Modernidade nas Novelas Ejemplares, de Cervantes (2011-2013).

-Desenvolve pesquisa sobre a mulher cigana nas literaturas brasileira, espanhola e francesa. 

Nota do Editor:

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