Autora: Adriana Mello(*)
Como professora de Português, lido diariamente com o impacto da escrita à mão no aprendizado dos alunos. No início da jornada escolar, a escrita manual não é apenas uma ferramenta de comunicação, mas um elemento essencial na construção do pensamento, na organização das ideias e no desenvolvimento cognitivo. Entretanto, com a crescente digitalização, percebo uma mudança preocupante: cada vez mais estudantes encontram dificuldades na caligrafia, na estruturação textual e na compreensão do que escrevem. Se antes já havia desafios, hoje eles agravaram-se, com alunos demonstrando muita dificuldade para escrever, e não me refiro aqui apenas às questões de elaboração textual, mas a registros simples, de anotações cotidianas.
Estudos recentes têm demonstrado que a escrita manual desempenha um papel essencial no desenvolvimento cerebral. Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia mostrou que escrever à mão ativa as mesmas áreas do cérebro responsáveis pelo aprendizado e pela memória de longo prazo. Segundo Audrey van der Meer, neurocientista, neuropsicóloga, pesquisadora do cérebro e uma das autoras da pesquisa, "ao escrever à mão, os padrões de conectividade cerebral são muito mais elaborados do que ao escrever num teclado". "Essa conectividade cerebral generalizada é conhecida por ser crucial para a formação da memória e para a codificação de novas informações e, portanto, é benéfica para a aprendizagem", concluiu.
A afirmação da pesquisadora sugere que a escrita manual transcende a mera transcrição de ideias, funcionando como um processo cognitivo que potencializa a plasticidade neural. O envolvimento mais amplo do cérebro ao escrever à mão indica que esse ato não é apenas um meio de registrar informações, mas também um catalisador para a aprendizagem significativa. Diferentemente da digitação, que pode se tornar um processo mecânico e menos exigente em termos de coordenação motora fina, a escrita manual parece envolver uma complexa interação entre percepção, memória e motricidade, criando um ambiente propício para a retenção e assimilação do conhecimento.
Assim, longe de ser um mero vestígio analógico em um mundo digital, a escrita manual se reafirma como uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento cognitivo.
Em minhas práxis, percebo que as anotações manuais facilitam a retenção de informações e contribuem para o aprendizado. A relação entre a mão e o pensamento é visível em sala de aula: alunos que anotam à mão tendem a se lembrarem melhor das explicações e conseguem se expor com mais clareza.
Algumas iniciativas importantes ocorreram recentemente no sentido de "resgatar" o ambiente escolar dos impactos negativos decorrentes do uso excessivo de dispositivos eletrônicos em sala de aula. Em São Paulo, a Lei Estadual nº 17.546/2022 proíbe o uso de celulares durante as aulas, exceto para fins pedagógicos, buscando minimizar distrações e melhorar a concentração dos alunos. Em âmbito nacional, a Lei Federal 15.100, de 13 de janeiro de 2025, proíbe o uso dos aparelhos eletrônicos portáteis (celulares e tablets, entre outros), durante todo o período na escola para os estudantes matriculados na educação infantil, no ensino fundamental e no ensino médio, só permitindo a utilização para fins pedagógicos ou didáticos, mediante orientação dos professores.
Essas leis foram criadas com base em estudos que apontam os efeitos deletérios das telas no aprendizado e com o intuito de incentivar uma maior interação dos estudantes com os professores e colegas, bem como a retomada de métodos tradicionais (e comprovadamente eficazes) como a escrita à mão, que potencializam a memória e a compreensão dos conteúdos.
No contexto da sala de aula é perceptível que muitos alunos que dependem excessivamente da digitação têm dificuldades para construir frases com coesão e coerência. Eles se habituaram - de forma rápida e intensa - ao uso de corretores automáticos, ao "copia e cola" e à escrita fragmentada, tornando-se menos reflexivos sobre a lógica do texto. Antes da proibição do uso do celular em classe, uma parte dos estudantes parecia ligar o “piloto automático” durante as atividades, delegando a mais simples tarefa às plataformas de IA, abrindo mão do próprio conhecimento prévio e excluindo de sua rotina ações fundamentais, como anotar, registrar, rascunhar. Essa dependência compromete não só a produção escrita, mas também a capacidade de interpretação, análise e argumentação e, inquestionavelmente, afeta o aprendizado de forma geral, pois impede que habilidades fundamentais e estruturantes se desenvolvam ou sejam consolidadas. A tarefa agora é resgatar procedimentos essenciais que foram engolidos pelo uso indiscriminado e irrefletido dos dispositivos eletrônicos, muitas vezes com o aval e, por que não dizer, o incentivo de alguns gestores de políticas na educação pública, como no caso das escolas estaduais paulistas, acometidas pela "plataformite" nos últimos dois anos, com a implementação de inúmeras plataformas educacionais que, ao fim e ao cabo, não atingiram os objetivos pretendidos: melhorar os índices de aprendizagem dos estudantes.
A escrita à mão não é apenas um meio de registrar informações, mas uma ferramenta poderosa para estimular o pensamento crítico, a criatividade e a conexão com o conhecimento. Em um mundo cada vez mais digital, resgatar essa habilidade pode ser essencial para garantir um aprendizado mais efetivo e um desenvolvimento cognitivo mais completo.
Para finalizar, é importante ressaltar que conciliar tecnologia e escrita à mão no aprendizado não é uma questão de oposição entre o antigo e o novo, mas de compreender quais ferramentas são mais adequadas para o desenvolvimento cognitivo e das habilidades dos estudantes. A escrita manual, especialmente a cursiva, ativa circuitos cerebrais essenciais para a memória, a organização do pensamento e a criatividade, enquanto os recursos digitais oferecem eficiência, acessibilidade e possibilidades interativas. Em vez de rivalizá-los, a abordagem mais pertinente é integrá-los de maneira estratégica—por exemplo, utilizando a escrita à mão para fixação e compreensão profunda de conceitos e a tecnologia para pesquisa, edição e colaboração. Assim, o foco não deve ser uma escolha excludente, mas um uso equilibrado, fundamentado em evidências, para potencializar a aprendizagem e preparar os estudantes para um mundo onde ambas as competências são indispensáveis.
Referência:A pesquisa citada poder ser consultada em https://www.frontiersin.org/news/2024/01/26/writing-by-hand-increase-brain-connectivity-typing
*ADRIANA MELLO
- Licenciada em Língua Portuguesa e Língua Inglesa – Faculdades Integradas de Cruzeiro (1996);
-Professora efetiva na rede estadual paulista desde 2000;
-Complementação Pedagógica pela UNIG (2001);
-Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade de Taubaté (2003);
-Pós-graduada em Ensino de Língua Inglesa pela UNESP REDEFOR (2012) e
- Designada no Programa de Ensino Integral desde 2014, na EE Oswaldo Cruz (Cruzeiro/SP)
Área de Linguagens (Português / Inglês)
Nota do Editor:
Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.
Concordo plenamente com o conteúdo do artigo. Crianças, adolescentes e adultos que têm o hábito de fazer anotações à mão, rascunhar, por exemplo, desenvolvem mais efetivamente hábitos de construção de períodos coesos e coerentes. Parabéns pelo artigo, professora Adriana.
ResponderExcluirAgradeço pela leitura e comentário, Prof. Eliane!
ExcluirQue matéria completa e excelente, Adriana! Parabéns!
ResponderExcluirA escrita é, sem dúvida, uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento cognitivo, pois permite a organização do pensamento, a expressão de ideias com clareza e a construção do raciocínio crítico, como colocado em sua matéria. Além disso, é essencial para a comunicação eficaz no cotidiano, influenciando desde a vida acadêmica até o mercado de trabalho e relações pessoais.
Infelizmente, os desafios na aprendizagem da escrita se intensificaram após a pandemia. Muitos alunos enfrentam dificuldades na produção de textos coesos e coerentes, assim como na caligrafia, habilidades que exigem prática constante e acompanhamento qualificado de cada professor. Mas com essa nova lei esse cenário deve melhorar, já que sem o uso do smartphone, o aluno deve voltar à conectar-se com seus amigos e professores, melhorando não somente o relacionamento com às pessoas, mas também seu desenvolvimento estudantil.
Já sobre às plataformas digitais implementadas pelo governo, ao invés de oferecerem suporte adequado, frequentemente impuseram metodologias engessadas e pouco eficazes, limitando a autonomia dos professores e dificultando um ensino mais humanizado e adaptado às necessidades de cada estudante. A valorização do professor e a liberdade pedagógica são essenciais para reverter esse cenário e fortalecer o ensino da escrita como pilar do desenvolvimento intelectual.
Agradeço pela leitura atenta e pelos comentários assertivos, João Gabriel!
ExcluirMuito bacana o artigo, concordo plenamente. A escrita à mão contribui para ativar nossas habilidades de construção e reconstrução de textos, sejam eles simples ou mais complexo. Infelizmente, devido à “plataformatização” do estudo em alguns estados do país, como exemplo o de São Paulo, nossos estudantes estão perdendo a intimidade com essa prática.
ResponderExcluirAgradeço pela leitura e comentários!
ExcluirExcelente professora!! Mostra a nossa realidade!! Parabéns!! 👏👏
ResponderExcluirObrigada por ler e comentar!
ExcluirParabéns Adriana concordo plenamente com vc. 👏
ResponderExcluirSimone, agradeço por ler e comentar o artigo!
ExcluirConcordo plenamente com você Adriana .👏👏
ResponderExcluirCaríssima Professora Mestre Adriana. Excelente artigo, tanto no quesito da analise da defasagem escolar pelo processo dado pela interferência da tecnologia digital, quanto o agravo pela "plataformite". Termo que demonstra uma patologia implementada pelo estado que tem adoecido a formação saudável de jovens e adolescentes. Parabéns.
ResponderExcluirProfessor Diego, obrigada pela leitura e pelos comentários. Estamos, de fato, vivendo dias difíceis na educação pública estadual.
ExcluirParabéns pelo seu artigo!!! Concordo plenamente e acrescento que muitos estão perdendo sua coordenação motora fina.
ResponderExcluirAdorei
ResponderExcluir