Muito
se tem discutido nas midias em geral e nesse espaço em particular, sobre a
educação e a prática pedagógica dos educadores no contexto atual, caracterizado
por mudanças rápidas e constantes no mundo do trabalho, em decorrência
principalmente de um acelerado desenvolvimento tecnológico.
Esse
contexto provoca um ambiente de incertezas cada vez mais intenso que dificulta
as decisões dos jovens na escolha de suas carreiras profissionais e na forma de
se preparar para elas. Muitos deles se
questionam inclusive se devem ou não fazer um curso superior, dando preferência
nesses casos a cursos de curta duração ( de 1 a 3 meses) dedicados ao ensino de
técnicas de aplicação prática imediata.
Mais
recentemente esse ambiente de incerteza agravou-se sobremaneira com a criação
da Inteligência Artificial (IA) ampliando as dúvidas dos jovens uma vez que a
mídia, muitas vezes de forma irresponsável e sem conhecimento fundamentado, vem
questionando o futuro de algumas profissões. Além disso, as declarações de
alguns líderes empresariais como por exemplo as transcritas em reportagem
recente de Orianna Rosa Royle (Fortune) publicada pelo jornal Estado de São
Paulo em 01/02/2025 e disponível em https://www.estadao.com.br/economia/sua-carreira/geracao-z-demissoes não tem ajudado, muito pelo contrário.
Mark Zuckerberg, CEO da Meta, por exemplo, de acordo com a referida reportagem ,
afirma que a personalidade e o talento natural superam as credenciais formais,
enquanto que Richard Branson, fundador
da Virgin, por sua vez, tem aconselhado os jovens a trocar a universidade pela
“escola da vida”.
As
consequências dessa situação impactam, evidentemente, no mercado de trabalho e seus resultados já se
fazem sentir. A referida reportagem, ao analisar esses impactos, revela que seis em cada dez empregadores nos
EUA já dispensaram jovens da chamada geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) contratados
diretamente da faculdade. Além disso, 1 entre
cada 6 gestores diz ter restrições em
contratar novamente recém formados, em virtude das dificuldades que enfrentaram
e, 75% das empresas pesquisadas consideraram
insatisfatório o desempenho apresentado pelos recém-formados. Na mesma linha, a
reportagem informa que mais da metade
dos gestores considerou que os recém-formados não estão preparados para o
mercado de trabalho.
No
Brasil, a falta de preparo dos recém-formados para o mercado de trabalho,
também é evidente, cabendo citar, apenas a título de exemplo que, no Exame de
Suficiência do Conselho Federal de Contabilidade referente ao segundo semestre
de 2024, 90% dos candidatos foram reprovados, ou seja dos 46.263 inscritos
apenas 4.607 foram aprovados.
Isso
tudo nos remete ao título desse texto – O que fazer?
Não
vou aqui tratar de aspectos comportamentais como ir acompanhado da mãe na
entrevista de emprego, apresentar-se trajando roupas totalmente inadequadas
etc., pois falta-me competência para tanto. Vou limitar-me ao campo da formação
do profissional liberal da área de gestão.
A
formação profissional é um processo longo que requer dedicação e inclui tanto
aspectos acadêmicos como práticos que estão intimamente entrelaçados. Os
aspectos acadêmicos estão relacionados à educação superior formal onde os
alunos são apresentados a conceitos teóricos gerais e específicos e onde
desenvolvem as habilidades requeridas pela profissão escolhida, além dos
aspectos éticos envolvidos. Já os aspectos práticos estão ligados à
operacionalização na prática do que foi apreendido. Volto a insistir os dois
aspectos são importantes e não existe uma hierarquia entre eles. O conhecimento
científico e o conhecimento prático são tipos diferentes de conhecimento que
devem necessariamente coexistir. A teoria sem a prática torna-se irrelevante e
a prática sem a teoria não evolui.
Antes
de refletir sobre o que fazer talvez seja melhor iniciar falando sobre o que não fazer. Na ânsia de manter e
conquistar novos alunos, muitas instituições de ensino, que priorizam o lucro
em detrimento da educação, enxergam seus alunos como sendo “clientes” e passam a adotar políticas administrativas e
pedagógicas que atendam as exigências desses “clientes”, por mais estapafúrdias
que elas sejam. Aulas show, onde os aspectos pirotécnicos são valorizados,
porque divertidos, são incentivadas, enquanto que os aspectos de formação passam a ser
secundários. Os professores são instados a se tornarem amigos dos alunos , a
incorporarem sua linguagem, seus hábitos e sua cultura, ou seja a trata-los
como clientes que pagam seus salários. Isso pode criar um ambiente de convívio
amigável, mas tem poucas chances de criar um ambiente propício ao processo de
ensino / aprendizagem. O professor é um educador, não um amigo. Entre os dois
existe uma relação de hierarquia e respeito mútuo que não deve ser
negligenciada. Essa visão mercadológica de satisfação do cliente não funciona
na educação, e os resultados empíricos estão aí para demonstrá-lo.
Agora
sim, O que fazer?
Entendo,
baseado na minha experiência de professor de graduação e de pós-graduação de
cursos de mestrado e doutorado stricto sensu, que a dimensão acadêmica dos
cursos de graduação de Instituições de Ensino
que priorizam o ensino e não a busca do lucro, ou seja aquelas que não
enxergam os alunos como clientes, atendem as demandas do mercado profissional
no que se refere ao conhecimento científico. O que falta para completar a
formação profissional é o conhecimento prático, principalmente naqueles cursos
de ciências sociais aplicadas ( administração, ciências contábeis, etc.)
Para
preencher essa lacuna é necessário que as Instituições de Ensino não
negligenciem, como vem ocorrendo há já alguns anos, as atividades relacionadas
ao Estágio Supervisionado e ao Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), sendo que
esse último deve priorizar trabalhos aplicados, relacionados a solução de
problemas complexos observados durante o Estágio Supervisionado. Para tanto é
indispensável que as Instituições de Ensino tenham no seu corpo docente um número de professores
que, além da docência, exerçam simultaneamente atividades profissionais e que
estes sejam alocados naquelas disciplinas voltadas para a operacionalização
prática dos conceitos e ferramentas de gestão. Isso pode parecer uma solução
simples de ser implementada, mas não é.
As
Instituições de Ensino tem entraves burocráticos que dificultam a contratação
de profissionais de mercado. Esses
entraves estão ligados principalmente à carga horária mínima exigida (normalmente 12
horas semanais) que profissionais de mercado tem dificuldade de atender dada a
sua atividade fora da Instituição de Ensino e também entraves ligados à
titulação mínima exigida, sendo que algumas Instituições de Ensino só contratam
professores com título de Doutor.
Dito isto, cabe às Instituições flexibilizar seus critérios de contratação para tornar seus cursos mais alinhados com as demandas do mercado, sem renunciar ao rigor científico que deve pautar sua atividade acadêmica. Com parte do corpo docente formado por professores que atuem também na prática profissional, provavelmente as Instituições de Ensino formarão profissionais mais alinhados com as demandas do mercado.
* OCTAVIO RIBEIRO DE MENDONÇA NETO
-Graduado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Mauá de Tecnologia (1972);
-Especialista em Economia de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas – FGV/ SP – CEAG (1977);
-Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2002) e
Doutor em Contabilidade e Atuária na FEA / USP (2007).
Atualmente é Professor Adjunto I da Universidade Presbiteriana Mackenzie nos cursos nos cursos de Mestrado e Doutorado Profissional do Programa de Pós-Graduação em Contabilidade,Finanças e Tecnologias de Gestão .