sábado, 29 de agosto de 2026

Você pula as partes chatas de um livro?


 ©️2026 Mônica Falcão Pessoa



Outro dia, acompanhei uma discussão que muito me preocupou. Em um perfil de Instagram, uma pessoa escreveu que costumava pular as partes que achava chatas em um livro. Mencionou, inclusive, que pulou vários trechos do livro "A montanha mágica", de Thomas Mann. Uma seguidora, que tem um canal que fala sobre livros, reagiu ao que foi dito, chamando a atenção sobre a possibilidade de haver pontos importantes para a narrativa justamente nos trechos não lidos. Quem deu a resposta, foi um "escritor", que alegava não ter muito tempo a perder com o que não achava interessante.

O que mais me chamou atenção foi que quem alega não ter tempo de ler um livro por completo é justamente um escritor. Ou seja, alguém que menospreza seu próprio trabalho.

Isso me faz associar o caso ao "brain rot", termo surgido para descrever o efeito produzido nos cérebros dos consumidores vorazes de internet, ávidos por conteúdos repetitivos, fúteis e extremamente rápidos, como vídeos e memes curtos e sem profundidade. Essa atitude acaba reduzindo sua capacidade de concentração, formação de pensamento crítico e criatividade, ou seja, resulta em "apodrecimento cerebral".

Talvez o antídoto para o brain rot não seja consumir conteúdos melhores, mas reaprender a permanecer diante daqueles que exigem de nós alguma coisa.

Ler exige atenção sustentada, imaginação, memória, interpretação e capacidade de estabelecer conexões — justamente habilidades que podem ser exercitadas quando saímos da lógica do consumo fragmentado. Quando consideramos uma passagem "chata" e simplesmente a pulamos, podemos estar reproduzindo a mesma lógica da rolagem infinita: só consumimos aquilo que imediatamente nos agrada. Muitas vezes, um trecho mais lento reproduz o estado de espírito do personagem, e a percepção disso fará toda a diferença para a compreensão do texto. Fora isso, há as escolhas linguísticas do autor, a beleza ou a pertinência na seleção das palavras. Um livro não é apenas uma coleção de acontecimentos importantes. Ritmo, descrição, silêncio, digressão, repetição e detalhes também constroem sentido. O trecho que parece dispensável pode preparar uma ideia, criar uma atmosfera ou modificar nossa percepção do que virá depois.

Talvez recuperar uma relação saudável com a leitura signifique justamente aprender a permanecer onde nossa atenção gostaria de fugir.

Confunde-se consumo com experiência. Quando falamos para alguém sair da tela do celular para ler um livro, não é para que simplesmente replique a maneira como age na frente da tela, ou seja, rolando ininterruptamente o feed sem refletir. A ideia do livro é tornar a ação mais lenta, calma, em que tenhamos tempo de refletir, raciocinar e fruir o texto. A leitura não é utilitária, não é uma corrida em que cronometramos a velocidade com que a fazemos.

Hoje, inclusive, as plataformas de streaming estão adaptando seus roteiros para que tenham uma velocidade maior, para que as pessoas possam passar metade do tempo do filme olhando o celular. Por isso muitas cenas vêm acompanhadas de diálogos absurdos, como "estou abrindo a porta". A personagem precisa fazer isso porque a audiência está fazendo outra coisa, e torna-se necessário avisar o que está acontecendo na cena. Isso gera uma síndrome neurocognitiva real que causa danos mensuráveis. Quanto mais conteúdo de formato curto as pessoas assistem, pior fica o desenvolvimento cognitivo em relação à atenção. Também há prejuízo da linguagem e da memória.

Precisamos, então, entender o que queremos ao ler um livro, principalmente se ele for mais difícil. Um livro difícil, foi feito com a intenção de ser difícil. Pular partes técnicas ou monótonas pode parecer algo simples, mas faz com que informações importantes sejam perdidas.

Talvez um livro difícil não seja compreendido em uma primeira leitura. Talvez nem estejamos preparados para fazer a leitura naquele momento. Temos que ter, inclusive, humildade para percebermos que precisamos buscar informações complementares ou até deixar a leitura para um outro momento de nossa vida. O esforço que fazemos para compreender um livro, gera valor, e isso traz uma sensação de conquista real.

Além disso, partes mais lentas em um livro, muitas vezes estão lá para estabelecer um contraste com o clímax do texto. Se não houvesse esse contraste, como perceberíamos seus pontos altos?

Portanto, ler textos difíceis talvez seja um antídoto contra o mal do milênio: a falta de foco e atenção. A leitura de um texto difícil não traz o excesso de dopamina viciante que a velocidade de imagens traz, mas preenche o vazio gerado pela internet. O prazer de sentirmos nosso cérebro funcionando, tenho certeza de que supera qualquer outra sensação. Precisamos resgatar nossa autonomia.

MÔNICA FALCÃO PESSOA
























  • Formada em Letras (Português-Inglês) pela Universidade Mackenzie (1986);
  • Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (1996);
  • Professora de Português Instrumental Jurídico na Faculdade Zumbo dos Palmares;
  • Professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação no Externato José Bonifácio;
  • Professora voluntária de Filosofia no Cursinho Carolina Maria de Jesus, projeto do Instituto Federal de São Paulo; e
  • Revisora de textos; Incentivadora da leitura como método de transformação de vidas.
Nota do Editor:

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