quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A Diversidade Social e o Reconhecimento Jurídico da Família no Direito Contemporâneo


 ©️2026 André Ribeiro Morais


Por muito tempo, a família foi associada principalmente ao casamento e a uma estrutura patriarcal, na qual os papéis de homens e mulheres eram rigidamente definidos. As transformações sociais, culturais e econômicas modificaram essa realidade. Hoje, a vida familiar pode envolver casais com ou sem filhos, um único genitor com seus descendentes, casais do mesmo sexo, famílias recompostas e vínculos de parentalidade construídos pelo cuidado e pela convivência.

A Constituição Federal de 1988 foi decisiva nessa mudança. O artigo 226 reconhece a especial proteção estatal à família e contempla expressamente a união estável (§ 3º) e a família monoparental (§ 4º). Seus princípios de dignidade da pessoa humana e igualdade também orientam a interpretação das demais relações familiares. O casamento, portanto, continua sendo uma forma legítima de constituir família, mas não é a única referência para compreender a proteção jurídica familiar.

A pluralidade familiar pode ser observada em diferentes arranjos. A família matrimonial nasce do casamento civil; a convivencial decorre da união estável, caracterizada pelos requisitos do artigo 1.723 do Código Civil; e a monoparental é formada por um dos pais e seus descendentes. A família homoafetiva, por sua vez, é constituída por casais do mesmo sexo e recebeu reconhecimento jurídico a partir da interpretação constitucional firmada pelo Supremo Tribunal Federal em 2011, no julgamento da ADI 4.277 e da ADPF 132.

Outras classificações ajudam a compreender realidades que nem sempre se ajustam aos modelos tradicionais. A família anaparental descreve, em termos doutrinários, núcleos de convivência e solidariedade sem relação de ascendência e descendência, como pode ocorrer entre irmãos que compartilham a vida e prestam assistência mútua. A família mosaico ou recomposta surge quando uma nova união reúne pessoas com filhos de relacionamentos anteriores. Já a família extensa ou ampliada, prevista no artigo 25, parágrafo único, do Estatuto da Criança e do Adolescente, abrange parentes próximos com os quais a criança ou o adolescente convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade.

A família multiparental admite a coexistência juridicamente reconhecida de mais de dois vínculos parentais. No Tema 622, o STF assentou que a paternidade socioafetiva não impede, por si só, o reconhecimento concomitante da filiação biológica. A família socioafetiva, por sua vez, envolve relações em que o exercício efetivo das funções parentais pode fundamentar o reconhecimento da filiação, desde que presentes os requisitos jurídicos pertinentes.

Também se utiliza a expressão família unipessoal para tratar da pessoa que vive sozinha, especialmente em matéria de proteção do bem de família, conforme a Súmula 364 do STJ. A família paralela descreve relações conjugais simultâneas, mas seu reconhecimento jurídico é controvertido: a existência de afeto ou convivência concomitante não gera automaticamente uma segunda entidade familiar. Essas distinções são importantes porque nem toda classificação doutrinária corresponde a uma categoria legal autônoma, nem toda convivência produz os mesmos efeitos jurídicos.

A afetividade ganhou importância na compreensão das relações familiares porque o parentesco e a parentalidade não se resumem à origem biológica. Cuidado, convivência e assunção de responsabilidades podem ser elementos relevantes para o reconhecimento de vínculos socioafetivos. Maria Berenice Dias destaca a pluralidade das entidades familiares e a necessidade de interpretar o Direito em consonância com as transformações sociais. Paulo Lôbo contribui para a leitura constitucional do Direito das Famílias, enquanto Rolf Madaleno examina as relações familiares e suas consequências pessoais e patrimoniais.

Isso não significa, contudo, que qualquer relação de carinho, amizade ou proximidade constitua parentesco jurídico. O reconhecimento da filiação socioafetiva depende da análise dos elementos caracterizadores da relação parental e dos requisitos aplicáveis. A afetividade deve ser considerada em conjunto com a realidade dos vínculos e com a segurança jurídica, não como fórmula automática para atribuir direitos e deveres.

O enquadramento jurídico da família pode repercutir diretamente na transmissão do patrimônio após a morte. O reconhecimento da filiação, seja biológica ou socioafetiva, pode produzir efeitos sucessórios; o reconhecimento da união estável também pode influenciar os direitos patrimoniais do companheiro sobrevivente. Por isso, identificar os vínculos familiares não é uma questão apenas conceitual: pode definir direitos, deveres e responsabilidades concretas.

O desafio do Direito contemporâneo é conciliar a proteção da diversidade familiar com a análise criteriosa dos requisitos legais. De um lado, não se deve impor um único modelo como se todas as demais formas de organização fossem juridicamente irrelevantes. De outro, não se pode concluir que toda relação afetiva ou de convivência gera, automaticamente, efeitos familiares. Cada caso exige avaliação própria, especialmente quando envolve filiação, alimentos, guarda, patrimônio ou sucessão.

A família contemporânea não se resume a uma estrutura única. A Constituição de 1988 e a evolução da interpretação jurídica ampliaram a compreensão das entidades familiares, enquanto a doutrina oferece instrumentos para analisar vínculos conjugais, parentais e de cuidado. As contribuições de Maria Berenice Dias, Paulo Lôbo e Rolf Madaleno ajudam a compreender essa pluralidade sem afastar a necessidade de segurança jurídica.

A questão central, portanto, não é substituir um modelo tradicional por outro, mas reconhecer a diversidade das relações humanas e verificar, com responsabilidade, quais delas atendem aos requisitos para produzir efeitos jurídicos específicos. A proteção da família deve acompanhar a realidade social, sem perder de vista a dignidade, a igualdade, a responsabilidade e os direitos dos envolvidos.

Referências bibliográficas
  • DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. 17. ed. Salvador: JusPodivm, 2025;
  • LÔBO, Paulo. Direito Civil: Famílias. 16. ed. São Paulo: Saraiva Jur, 2026;
  • MADALENO, Rolf. Direito de Família. 15. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2026; e
  • Legislação e julgados mencionados: 
  • Constituição Federal de 1988, art. 226; 
  • Código Civil, art. 1.723; 
  • Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 25, parágrafo único; 
  • STF, ADI 4.277 e ADPF 132; 
  • STF, RE 898.060, Tema 622;
  •  STF, RE 1.045.273, Tema 529; 
  • STJ, Súmula 364.
ANDRÉ RIBEIRO MORAIS

















  • Advogado, inscrito na OAB/SP sob o nº 498.821;
  • Graduado pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), Unidade de Lorena,(2020) ;
  • Pós - graduando em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Faculdade Legale;
  • Exerce seu segundo mandato como membro da Comissão da Jovem Advocacia da 105ª Subseção da OAB/SP, em Lorena/SP, nos períodos de 2024–2025 e 2025–2026
Nota do Editor:

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