©️2026 Fabiana Benetti
A melancolia, com enfoque psicanalítico, pode ser compreendida como uma experiência-limite da relação do sujeito com o objeto: ora marcada pela perda, ora pelo vazio, ora pela falha na constituição do vínculo e simbolização. Trata-se de um percurso teórico-clínico que se estende da perda identificatória ao colapso do investimento, alcançando, em seus níveis mais radicais, a problemática da própria existência psíquica. Ao articular as contribuições de Sigmund Freud, André Green, Donald Winnicott, Wilfred Bion e Gilles Deleuze e Félix Guattari, evidencia-se que a melancolia não se reduz a um único eixo explicativo, mas se configura como um fenômeno multifacetado, envolvendo ambivalência, desinvestimento, falha ambiental, impossibilidade de simbolização e bloqueio da produção desejante.
Em Freud (1917/2011), a melancolia distingue-se do luto pela maneira como a perda é inscrita no aparelho psíquico. Enquanto no luto o sujeito reconhece o objeto perdido e realiza, progressivamente, o desinvestimento libidinal, na melancolia a perda permanece inconsciente e recai sobre o próprio eu. Como afirma o autor, "a sombra do objeto caiu sobre o eu" (FREUD, 1917/2011), indicando um processo de identificação narcísica pelo qual o objeto perdido é incorporado ao ego. A ambivalência constitutiva da relação ; amor e ódio ; desloca-se então para o interior do sujeito, convertendo-se em autoacusações e autodepreciação. Nesse sentido, "as autoacusações do melancólico são, na verdade, acusações contra um objeto amado" (FREUD, 1917/2011), revelando que o eu se torna o alvo da agressividade originalmente dirigida ao objeto. A melancolia configura-se, assim, como um drama psíquico atravessado pelo conflito, no qual o sujeito ocupa simultaneamente as posições de acusador e acusado.
Freud também assinala que a melancolia não se limita à perda por morte, abrangendo experiências de decepção, menosprezo e feridas narcísicas, nas quais a ambivalência se intensifica. O investimento libidinal sofre, então, um duplo destino: parte regride à identificação narcísica, enquanto outra retorna ao sadismo, encontrando satisfação no sofrimento do próprio eu. Nesse contexto, travam-se batalhas inconscientes em torno do objeto perdido, sustentadas por três elementos fundamentais: perda do objeto, ambivalência e regressão da libido ao eu. A articulação com a mania revela o aspecto econômico desse processo, na medida em que a liberação do contrainvestimento indica a superação, ainda que momentânea, do complexo melancólico.
Com Green (1983/2003; 2010), a problemática da melancolia desloca-se do conflito para o campo do vazio. O autor introduz a noção de "mãe morta", referindo-se a uma situação em que o objeto primário, embora presente, encontra-se psiquicamente desinvestido. Nessa configuração, "o objeto está presente, mas seu investimento libidinal foi retirado" (GREEN, 1983/2003), produzindo um vazio que não pode ser simbolizado. A melancolia deixa, assim, de ser compreendida apenas como efeito de uma identificação com o objeto perdido, passando a ser marcada por um desinvestimento radical. O sujeito organiza-se em torno de uma ausência, resultado de um trabalho do negativo que opera desligamentos e esvaziamentos no campo psíquico (GREEN, 2010).
A contribuição de Winnicott (1983) aprofunda essa compreensão ao situar a problemática no âmbito das condições de constituição do self. Quando o ambiente falha precocemente ; isto é, quando não há uma sustentação suficientemente boa ; o sujeito pode não alcançar uma continuidade de ser. Nesses casos, constitui-se um falso self, cuja função é proteger um núcleo não integrado. A experiência melancólica pode ser pensada, nesse registro, como o contato com esse núcleo de não-existência, onde não houve inscrição de uma experiência vital. Como formula o autor, "é uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser encontrado" (WINNICOTT, 1963/1983), evidenciando a importância do encontro originário para a constituição psíquica.
Com Bion (1962/1991), a melancolia pode ser situada no campo da simbolização. O autor propõe que a função alfa é responsável por transformar experiências emocionais em elementos pensáveis. Quando essa função falha, as experiências permanecem em estado bruto, não simbolizado, impedindo sua elaboração psíquica. Assim, a melancolia pode ser compreendida como uma condição em que a dor não se transforma em pensamento. Além disso, Bion descreve os ataques aos vínculos como movimentos que visam destruir a capacidade de pensar (BION, 1959/1991), contribuindo para o empobrecimento da vida mental. O sofrimento melancólico configura-se, nesse sentido, como uma experiência opaca, não metabolizada, que resiste à simbolização.
Por fim, Deleuze e Guattari (1972/2010) introduzem uma crítica à lógica da falta que atravessa a tradição psicanalítica. Para os autores, o desejo não se funda na ausência, mas na produção: "o inconsciente não é um teatro, mas uma fábrica" (DELEUZE; GUATTARI, 1972/2010). Nessa perspectiva, a melancolia pode ser compreendida como efeito de um bloqueio da produção desejante, isto é, de uma interrupção dos fluxos que conectam o sujeito ao mundo. O sofrimento não se reduz ao intrapsíquico, mas envolve também agenciamentos sociais e simbólicos que capturam o desejo e limitam sua potência.
Dessa forma, a articulação entre esses autores permite compreender a melancolia como um fenômeno complexo, que se manifesta em diferentes registros: como conflito intrapsíquico (Freud), como vazio decorrente do desinvestimento (Green), como falha na constituição do self (Winnicott), como impossibilidade de simbolização (Bion) e como bloqueio da produção desejante (Deleuze e Guattari). Em última instância, a melancolia revela a vulnerabilidade das condições que sustentam a vida psíquica, evidenciando que o sofrimento pode emergir tanto da perda quanto da ausência, da falha, do impensável e da interrupção da potência de existir.
Este texto se propõe a pensar que, na contemporaneidade, a melancolia ultrapassa o âmbito individual e se torna um fenômeno coletivo, manifestando-se como um clima afetivo marcado por destrutividade social e política.
Partindo de Freud, a agressividade antes voltada contra o próprio eu passa hoje a ser externalizada contra o outro. André Green aprofunda essa ideia ao descrever um vazio psíquico ("objeto morto") que, no plano social, aparece como indiferença, cinismo ou violência. Em paralelo, as patologias narcísicas, pensadas por Winnicott, revelam sujeitos frágeis que recorrem a defesas rígidas, encontrando eco em discursos políticos intolerantes e excludentes.
Com Bion, o texto aponta um enfraquecimento da capacidade de simbolizar: emoções não elaboradas são evacuadas no social, gerando conflitos e "guerras políticas". Já Deleuze e Guattari indicam que o desejo bloqueado reaparece em formas autoritárias de poder e exclusão.
O medo surge como elemento central, organizando defesas coletivas que empobrecem o pensamento e favorecem a violência. Assim, configura-se uma "melancolização do laço social", marcada por vazio, fragilidade dos vínculos e intensificação da agressividade.
Apesar disso, o texto conclui destacando a possibilidade de resistência: a tarefa clínica, ética e política seria reabrir espaços de simbolização, vínculo e circulação do desejo.
Assim, a melancolia não é apenas uma tristeza profunda — ela é um processo psíquico complexo, em que perda, identificação e conflito interno se entrelaçam, fazendo com que o sujeito se torne, ao mesmo tempo, aquele que sofre e aquele que acusa.
FABIANA BENETTI
É psicanalista e psicóloga, com especialização em Psicossomática e Esquizoanálise.
É membro do Departamento de Psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae, onde também realizou sua formação em Psicanálise. Integra também o Grupo de Envelhecimento do Departamento de Psicanálise da mesma instituição.
Realizou pós-graduação em Cross-Cultural Psychology pela Brunel University (Inglaterra), em 2003.
Atua em consultório com adolescentes, adultos, casais e famílias. Conduz também atendimentos em grupo, tanto em consultório quanto em hospitais e outros centros de cuidado;
Desenvolve trabalho como supervisora clínica, oferecendo supervisão individual e em grupo para profissionais da área.
Atualmente encontra-se em formação teórica dedicada ao estudo da obra de Wilfred Bion.
Seu interesse clínico e teórico inclui, entre outros temas, as relações entre corpo e psique, os processos transgeracionais e as formas contemporâneas do sofrimento psíquico.
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