©️2026 Octavio Ribeiro Mendonça Neto
"O perigo real não é de computadores começarem a pensar como homens, mas de homens começarem a pensar como computadores."Sydney J. Harris - For the Time Being (1972)
A preocupação com a automatização do saber, não é uma preocupação recente. Já em 1933, José Ortega y Gasset, em sua obra Meditación de la técnica, observou que a técnica não é um instrumento externo, mas faz parte da vida humana e, diante disso, manifesta de forma veemente, sua preocupação para o risco de ela se tornar um fim em si mesma e passar a dominar o homem. Em outra de suas obras, A Rebelião das Massas, publicada nessa mesma época, afirma que o homem moderno usufrui da técnica e da modernidade sem reflexão crítica ou consciência histórica.
É sobre essa carência de visão crítica e de consciência histórica , que pretendo refletir neste texto, focando minha análise no uso exacerbado da Inteligência Artificial (IA) nos processos do ensino e da pesquisa acadêmica
Inicialmente quero deixar claro que não sou contrário o uso de IA , muito pelo contrário, os ganhos de eficiência e acesso à informação são inegáveis. Alinho-me nesse sentido ao filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto, para quem a técnica é o modo pelo qual homem transforma a natureza para atender às suas necessidades e concordo também quando argumenta que a era tecnológica não é exclusiva do século XX, porque desde o início da história humana o homem sempre produziu técnicas para sobreviver e transformar a natureza. (Vieira Pinto, 2013). Dessa forma, o que assistimos atualmente em relação à técnica, é apenas um aumento constante de sua sistematização e de sua complexidade, ocorrendo a uma velocidade cada vez maior. Mas isto também não me preocupa, pois conforme já dito, entendo que a técnica faz parte da natureza humana.
Isto posto, o que realmente me preocupa, e aqui restrinjo-me ao campo do ensino e pesquisa na área das ciências da gestão, é a falta, quase generalizada, de uma visão / pensamento crítico no uso da IA. Ressalto aqui, que o que entendo por pensamento crítico é aquele que foi desenvolvido pelos filósofos da Escola de Frankfurt ( Adorno, Horkheimer, Habermas etc.) e que consiste na análise de informações de forma racional, estruturada e, principalmente, no questionamento de argumentos e evidências, o que torna seu uso essencial para enfrentar os dilemas éticos colocados pela IA.
O que tenho observado na minha prática acadêmica é a total falta dessa visão crítica por parte dos alunos. Qualquer tarefa que lhes é solicitada, seja na forma de ensaios ou de exercícios é, na grande maioria das vezes, realizada com o uso de IA, sem qualquer análise crítica do que a IA lhes fornece como resultado e, muitas vezes, sem mesmo uma leitura, ainda que superficial, desses resultados. Aliado a isso, observo também uma dificuldade extrema desses alunos em estabelecer uma conexão entre o passado, o presente e o futuro (consciência histórica). A realidade, para eles, se resume ao que está divulgado nas redes sociais e que é aceita sem qualquer questionamento.
É justo culpá-los?
Não, evidente que não. Não devemos esquecer que quem desenvolveu esse ambiente digital, não foram eles. Foi a nossa geração que iniciou esse processo, desenvolvendo as técnicas necessárias que foram posteriormente, e continuam sendo, aperfeiçoadas.
É apropriado coibir e punir o uso da IA?
Embora existam ferramentas cada vez mais sofisticadas para detectar o uso de IA, essa não me parece uma solução eficiente e, muito menos adequada, do ponto de vista ético e pedagógico. Cabe lembrar que antes de sermos professores / pesquisadores, somos educadores, e nesse sentido, nossa função não deve se limitar a transmitir conhecimentos, mas, e principalmente, colaborar para a formação de cidadãos livres e conscientes, que atuem de forma ética em benefício da sociedade de uma forma geral e, em sendo assim, não cabe falar em coerção ou punição, mas em convencimento.
O que fazer?
Aqui cabe lembrar a afirmação de Paulo Freire de que " [...] ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção." (Freire, 1996,p.21). É com base nessa visão que vislumbro um possível caminho. No meu entender, diante do contexto atual, torna-se imprescindível desenvolver em nossos alunos uma visão crítica da realidade, através da utilização do Pensamento Crítico como uma ferramenta que permita uma atuação ética em um ambiente que se caracteriza pelo excesso de informações. O uso dessa abordagem permite que o aluno, não apenas analise os resultados obtidos pelos algoritmos, mas também, e principalmente, questione os critérios que foram utilizados na construção desses algoritmos. Voltaremos ao assunto em uma próxima oportunidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
Freire, P. (1996). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra;
Harris, S. J. (1972). For the Time Being. Boston: Houghton Mifflin;
Ortega y Gasset, J. (2012). Meditación de la técnica. Madrid: Boreal Libros S.L;
Ortega y Gasset, J. (2015). A rebelião das massas;
Vieira Pinto, Á. (2013). O conceito de tecnologia (Vol. 1). Rio de Janeiro: Contraponto.
OCTAVIO RIBEIRO MENDONÇA NETO
Graduado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Mauá de Tecnologia (1972);
Especialista em Economia de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas – FGV/ SP – CEAG (1977);
Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2002) e
Doutor em Contabilidade e Atuária na FEA / USP (2007);
Atualmente é Professor Adjunto I do Programa de Pós-Graduação em Contabilidade e Finanças Empresariais da Universidade Presbiteriana Mackenzie e de Cursos de Mestrado e Doutorado Profissional e professor associado da Universidade Metodista de São Paulo.
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