©️2026 Jacinto Luigi de Morais Nogueira
Floriano: — Você viu, Samuel? Estão dizendo que, se aquele candidato vencer, perderemos direitos, serviços públicos, talvez até a liberdade.
Samuel: — Outra profecia eleitoral, mestre. Onde estão as evidências?
Floriano: — Rapaz, advogados, psicólogos, empresários, médicos, professores, pesquisadores... Gente esclarecida está compartilhando.
Samuel: — E desde quando um diploma transforma uma previsão em fato?
Floriano: — Ontem você me enviou uma lista de escândalos. Conferiu todos?
Samuel: — Alguns. Os principais são conhecidos.
Floriano: — Aquela lista mistura investigações, denúncias e condenações anuladas.
Samuel: — Isso não apaga os escândalos comprovados.
Floriano: — Não. Mas também não comprova o resto.
Samuel: — Justo. E o que garante que aquele candidato fará tudo que você imagina e te dá medo?
Floriano: — Conheço o histórico. Sei bem do que ele é capaz.
Samuel: — Conhecer o histórico permite até desconfiar, mas não transforma suspeita em certeza.
Floriano: — E o histórico que você invoca para defender aquela lista?
Samuel: — Há fatos documentados, Floriano. Não confunda as coisas.
Floriano: — Estou me perguntando, Samuel: fazemos ciência como fazemos política? Ou fazemos política como fazemos ciência?
Samuel: — Na ciência, pelo menos, nossas hipóteses precisam ser testadas e, quando boas, resistir à contestação.
Floriano: — E as nossas convicções políticas?
Samuel: — Naturalmente deveriam também. Mas os fatos centrais daquela lista estão estabelecidos.
Floriano: — Naturalmente. A sua hipótese já nasceu examinada.
Samuel sorriu, meio que contrariado.
Samuel: — Ora, meu amigo, isto é exatamente o que chamamos hoje de myside bias. Você exige do adversário provas que dispensa das suas hipóteses.
Floriano: — Você parece reconhecer isso com extraordinária facilidade quando se trata de mim.
Samuel: — Porque seu argumento é frágil. O meu pode estar incompleto, mas isso não torna as duas situações equivalentes.
Floriano: — Conveniente.
Samuel: — Nem toda diferença é uma desculpa, Floriano. A imparcialidade não exige que ignoremos evidências melhores.
Ficaram em silêncio por um instante.
Floriano: — E pensar que Fernando Pessoa escreveu, há tantas décadas, algo como: "O público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade."
Samuel: — Mudamos os instrumentos. Continuamos capazes de usar a inteligência para justificar nossos próprios enganos.
Floriano: — E o medo ainda nos reúne em tribos, como se discordar fosse uma ameaça.
Samuel: — Talvez o problema não seja sentir medo. É nos sentirmos mais seguros entre pessoas que concordam conosco do que diante de uma pergunta que não sabemos responder.
Floriano: — Você fala como se estivesse acima disso.
Samuel: — Não estou. Mas reconhecer o risco não significa aceitar qualquer argumento.
Floriano: — Principalmente quando o argumento é do outro.
Samuel: — E você? Se a mesma previsão ameaçasse o seu candidato, teria compartilhado?
Floriano desviou os olhos.
Floriano: — Dependeria de quem estivesse publicando.
Samuel: — Foi exatamente assim que começamos esta conversa.
Floriano olhou pela janela. Lá fora, o movimento da cidade prosseguia. Pessoas atravessavam a rua, carros disputavam espaço, trabalhadores encerravam mais um dia. A vida seguia, alheia às certezas dos dois amigos.
Floriano: — Imagine quantos erros poderíamos evitar se tratássemos as decisões do nosso país com o cuidado que exigimos de pesquisas científicas.
Samuel: — Suspeito que continuaríamos errando. Mas talvez aprendêssemos a corrigir nossos erros antes de transformá-los em hábito.
Floriano: — E quantos anos já perdemos defendendo aquilo que nunca examinamos?
Samuel: — Nunca saberemos. Não conhecemos o país que poderia ter existido.
Floriano: — Então o que nos resta?
Samuel: — Aprender a reconhecer quando defender uma certeza começa a custar mais do que admitir um erro.
Floriano: — E qual de nós está disposto a reconhecer isso primeiro?
Samuel olhou para o amigo. Não respondeu.
JACINTO LUIGI DE MORAIS NOGUEIRA
-Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (2003);
-Anestesiologista especializado no SANE-RS / Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul / IC-FUC.; e
- Profissional liberal.
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