quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O avanço tecnológico e os dilemas psicológicos modernos


 ©️2026 Fernanda Araújo

Edição Especial ao Dia do Psicólogo que se comemora hoje.Parabéns Psicólogos(as)!!

Muitas vezes sentimos culpa por não conseguirmos nos desligar do trabalho, mas raramente olhamos para a estrutura social que nos força a esse estado de alerta constante.

A trajetória do desenvolvimento tecnológico, desde a Primeira Revolução Industrial até o advento da In Inteligência Artificial (IA), é frequentemente narrada como uma linha de progresso linear. No entanto, uma análise dos aspectos históricos, culturais e sociais do trabalho revela que essa transição não tem sido acompanhada por um planejamento estruturado que priorize a dignidade humana. O que se observa atualmente é uma implementação reativa de tecnologias avançadas em sistemas organizacionais e educacionais que ainda operam sob lógicas obsoletas. Esta desarticulação entre a inovação digital e o preparo psicossocial coloca em risco a saúde mental e a estabilidade das relações de trabalho, transformando o que deveria ser uma ferramenta de emancipação em novas vulnerabilidades.

O "Modelo Fábrica" na Educação

A base do problema reside na manutenção de um sistema de ensino que, conforme explorado no documentário Quando Sinto que Já Sei (2014), ainda réplica do "modelo fábrica" ​​da era industrial. Esse formato prioriza a repetição e a obediência em detrimento da autonomia. Como aponta Bender (2021) , a educação profissional tem foco na técnica pela técnica, falhando em desenvolver o senso crítico necessário para lidar com a IA. No cenário atual, onde algoritmos executam tarefas técnicas com precisão superior, a insistência em uma formação mecânica tira o indivíduo de sua singularidade. O reflexo disso é uma geração de jovens tecnicamente expostos, mas emocionalmente desarmados para os desafios de um mercado que exigem criatividade e resiliência subjetiva.

A Dissolução de Fronteiras

A ausência de diretrizes éticas na adoção da IA ​​nas corporações culminou no que Cardim (2022) define como “servidão digital”. A tecnologia, que prometia otimizar o tempo, acabou por dissolver as fronteiras entre a vida privada e a laboral, instaurando uma jornada de trabalho onipresente. Esse cenário é agravado pelas características do trabalho fantasma, onde a automação é sustentada por uma infraestrutura humana invisível e precária (CANTARINI, 2024). Sob a ótica da saúde mental, essa dinâmica gera um estado de alerta constante, potencializando quadros de dependência tecnológica e de exaustão, uma vez que o trabalhador passa a ser gerido por algoritmos que ignoram limitações biológicas e psicológicas.

Vigilância e Controle

A infraestrutura que sustenta essa revolução tecnológica não é neutra. O documentário Freenet? (2016) alerta para as ameaças à liberdade e à privacidade no ambiente digital, evidenciando que a rede mundial tornou-se um campo de disputa política e vigilância. Segundo Silveira (2018) , a convergência entre automação e vigilância permite um controle comportamental sem precedentes. Para a gestão empresarial, isso se traduz em ambientes de trabalho onde a pressão pelo desempenho é mediada por um monitoramento invisível, o que intensifica o estresse psicossocial, distanciando a tecnologia de seu potencial propósito de crescimento humano.

Além do Lucro: Por uma Governança Humana

Para evitar um colapso nas estruturas sociais e trabalhistas, é necessário que a gestão das tecnologias transite de uma abordagem puramente mercadológica para uma governança focada na proteção do ser humano. Como sustentam Siqueira e Lara (2020) , a proteção jurídica e ética é o único caminho para garantir que uma Quarta Revolução Industrial não aniquile a subjetividade humana. Os avanços da IA ​​exigem não apenas qualificação técnica, mas uma reorganização profunda incluindo que regulamentação social e o fortalecimento do bem-estar coletivo (ZEETANO; ISSA, 2024). Somente por meio de uma inclusão tecnológica consciente e planejada será possível reverter a lógica do lucro imediato em favor de um desenvolvimento sustentável que preserve a integridade mental e a dignidade do trabalhador.

Em sua rotina, você sente que a tecnologia é uma ferramenta de liberdade ou uma forma de vigilância constante?

BIBLIOGRAFIA

BENDER, Alessandra Bernardes. Trabalho e educação profissional: refletindo sobre os conceitos de técnica e tecnologia. Laborare, Ano IV, n. 6, Jan-Jun/2021, pp. 142-151. 2021. 
Disponível  https://www.revistalaborare.org/index.php/laborare/article/view/69/77. Acesso em: 25 de março de 2026;

CANTARINI, Paola. “Ghost work” e “big data”: uma nova forma de servidão e de colonialismo?. Jornal da USP, janeiro 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/ghost-work-e-big-data-uma-nova-forma-de-servidao-e-de-colonialismo/. Acesso em: 25 de março de 2026;

CARDIM, Thalita Corrêa Gomes. Servidão digital no trabalho: a escravatura dos tempos modernos. Laborare, Ano V, n. 9, Jul-Dez/2022, pp. 92-110. 2022. DOI: DOI: https://doi.org/10.33637/2595-847x.2022-144. Disponível em: https://www.revistalaborare.org/index.php/laborare/article/view/144/150. Acesso em: 25 de março de 2026;

FREENET? Direção: Pedro Ekman. São Paulo: Intervozes; Idec, 2016. 1 vídeo (75 min). Disponível em: https://libreflix.org/i/freenet. Acesso em: 25 de março de 2026;

QUANDO sinto que já sei . Direção: Anderson Lima, Antonio Lovato e Raul Perez. São Paulo: Despertar Filmes, 2014. 1 vídeo (78 min). 
Disponível em: 

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Revolução tecnológica, automação e vigilância. Com Ciência – Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, 2018. Disponível em: http://www.comciencia.br/revolucao-tecnologica-automacao-e-vigilancia/#more-2404. Acesso em: 25 de março de 2026;

SIQUEIRA. Dirceu Pereira. LARA. Fernanda C. Pavesi. Quarta Revolução Industrial, Inteligência Artificial e a Proteção do Homem no Direito Brasileiro. Revista Meritum Magazine, v. 15, n. 4, 2020. 
Disponível: https://revista.fumec.br/index.php/meritum/article/view/8223.Acesso em: 25 de março de 2026;

ZEETANO, José Paulo. ISSA, Tuffy Licciardi. Avanços recentes da inteligência artificial: impactos trabalhistas, sociais e regulatórios. Jornal da USP, fev. 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/avancos-recentes-da-inteligencia-artificial-impactos-trabalhistas-sociais-e-regulatorios/.Acesso em: 25 de março de 2026.

FERNANDA ARAÚJO
















  • Psicóloga Clínica formada em Psicologia pela Faculdades Metropolitanas Unidas - FMU (2017); 
  • Especialista em Saúde Coletiva com Ênfase em Saúde da Família;
  • Pós graduada em Dependência Tecnológica pela LZ Psicologia(2025) ;
  • Graduanda em Gestão  Empresarial pela Fatec
  • Atende em consultório particular, na abordagem psicanalítica;
  • Atendimento de casais, adultos e adolescentes; e
  • Local de Atendimento Online e Vila Mariana/SP 

Whatsapp: (11) 9473-1977


Nota do Editor:

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