sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A Vida Real Não Mente


 ©️2026 Jacinto Luigi de Morais Nogueira


Floriano: — Você viu, Samuel? Estão dizendo que, se aquele candidato vencer, perderemos direitos, serviços públicos, talvez até a liberdade.

Samuel: — Outra profecia eleitoral, mestre. Onde estão as evidências?

Floriano: — Rapaz, advogados, psicólogos, empresários, médicos, professores, pesquisadores... Gente esclarecida está compartilhando.

Samuel: — E desde quando um diploma transforma uma previsão em fato?

Floriano: — Ontem você me enviou uma lista de escândalos. Conferiu todos?

Samuel: — Alguns. Os principais são conhecidos.

Floriano: — Aquela lista mistura investigações, denúncias e condenações anuladas.

Samuel: — Isso não apaga os escândalos comprovados.

Floriano: — Não. Mas também não comprova o resto.

Samuel: — Justo. E o que garante que aquele candidato fará tudo que você imagina e te dá medo?

Floriano: — Conheço o histórico. Sei bem do que ele é capaz.

Samuel: — Conhecer o histórico permite até desconfiar, mas não transforma suspeita em certeza.

Floriano: — E o histórico que você invoca para defender aquela lista?

Samuel: — Há fatos documentados, Floriano. Não confunda as coisas.

Floriano: — Estou me perguntando, Samuel: fazemos ciência como fazemos política? Ou fazemos política como fazemos ciência?

Samuel: — Na ciência, pelo menos, nossas hipóteses precisam ser testadas e, quando boas, resistir à contestação.

Floriano: — E as nossas convicções políticas?

Samuel: — Naturalmente deveriam também. Mas os fatos centrais daquela lista estão estabelecidos.

Floriano: — Naturalmente. A sua hipótese já nasceu examinada.

Samuel sorriu, meio que contrariado.

Samuel: — Ora, meu amigo, isto é exatamente o que chamamos hoje de myside bias. Você exige do adversário provas que dispensa das suas hipóteses.

Floriano: — Você parece reconhecer isso com extraordinária facilidade quando se trata de mim.

Samuel: — Porque seu argumento é frágil. O meu pode estar incompleto, mas isso não torna as duas situações equivalentes.

Floriano: — Conveniente.

Samuel: — Nem toda diferença é uma desculpa, Floriano. A imparcialidade não exige que ignoremos evidências melhores.

Ficaram em silêncio por um instante.

Floriano: — E pensar que Fernando Pessoa escreveu, há tantas décadas, algo como: "O público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade."

Samuel: — Mudamos os instrumentos. Continuamos capazes de usar a inteligência para justificar nossos próprios enganos.

Floriano: — E o medo ainda nos reúne em tribos, como se discordar fosse uma ameaça.

Samuel: — Talvez o problema não seja sentir medo. É nos sentirmos mais seguros entre pessoas que concordam conosco do que diante de uma pergunta que não sabemos responder.

Floriano: — Você fala como se estivesse acima disso.

Samuel: — Não estou. Mas reconhecer o risco não significa aceitar qualquer argumento.

Floriano: — Principalmente quando o argumento é do outro.

Samuel: — E você? Se a mesma previsão ameaçasse o seu candidato, teria compartilhado?

Floriano desviou os olhos.

Floriano: — Dependeria de quem estivesse publicando.

Samuel: — Foi exatamente assim que começamos esta conversa.

Floriano olhou pela janela. Lá fora, o movimento da cidade prosseguia. Pessoas atravessavam a rua, carros disputavam espaço, trabalhadores encerravam mais um dia. A vida seguia, alheia às certezas dos dois amigos.

Floriano: — Imagine quantos erros poderíamos evitar se tratássemos as decisões do nosso país com o cuidado que exigimos de pesquisas científicas.

Samuel: — Suspeito que continuaríamos errando. Mas talvez aprendêssemos a corrigir nossos erros antes de transformá-los em hábito.

Floriano: — E quantos anos já perdemos defendendo aquilo que nunca examinamos?

Samuel: — Nunca saberemos. Não conhecemos o país que poderia ter existido.

Floriano: — Então o que nos resta?

Samuel: — Aprender a reconhecer quando defender uma certeza começa a custar mais do que admitir um erro.

Floriano: — E qual de nós está disposto a reconhecer isso primeiro?

Samuel olhou para o amigo. Não respondeu.

JACINTO LUIGI DE MORAIS NOGUEIRA

















-Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (2003); 

-Anestesiologista especializado no SANE-RS / Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul / IC-FUC.; e

- Profissional liberal.

Nota do Editor:

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