©️2026 Octavio Ribeiro Mendoça Neto
O título desse texto, parafraseado da frase atribuída ao General Romano Pompeu (106 – 48 AC) - "Navigare necesse; vivere non est necesse" e utilizada por Fernando Pessoa no poema Navegadores Antigos – " Navegar é preciso, viver não é preciso" publicado em 1934, pode sugerir uma descrença minha na ciência e nas conquistas da tecnologia. – NÃO, CERTAMENTE NÃO, longe disso. Para os descrentes da ciência, basta lembrar que, de acordo com os dados do IBGE, a expectativa de vida dos brasileiros passou 48 anos em 1950 para 76,6 anos em 2024.
Também pode sugerir uma retrotopia, uma nostalgia do passado, um sentimento de que a vida antigamente era mais simples, mais fácil de ser vivida, um sentimento de que no passado éramos mais felizes. – NÃO, TAMBÉM NÃO É – No passado, tudo era mais difícil, apenas uns poucos privilegiados podiam desfrutar das benesses do progresso. Por exemplo, na década de 1960, só os ricos e a classe média alta possuíam um telefone, enquanto hoje, existem no Brasil cerca de 275 milhões de celulares, conforme estudo elaborado Fundação Getúlio Vargas em 2025. NÃO, CERTAMENTE NÃO ÉRAMOS MAIS FELIZES.
Alguns descrentes no progresso chegam a apregoar a volta à vida simples do campo. Para esses, deixo para reflexão as palavras de Carlos Drumond de Andrade no poema "Cidadezinha Qualquer" (Alguma Poesia –1930) :
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
Isto posto e manifestada e reiterada minha crença inabalável na ciência, gostaria de propor uma reflexão, fundamentada na ciência, sobre o abandono de alguns hábitos do passado , abandono esse facilitado e incentivado pelo próprio avanço da ciência e da tecnologia. Refiro-me ao hábito de escrever, escrever à mão, especialmente da escrita cursiva.
Limito-me aqui a tratar do comportamento dos estudantes do ensino superior, junto aos quais exerço a minha prática profissional de educador. Atualmente, é cada vez mais raro encontrar alunos que fazem anotações manualmente durante as aulas. A maioria o faz, quando o faz, digitalizando em laptops, tablets etc.
Intuitivamente, sempre achei que a anotação manual era mais eficiente para o aprendizado do que a anotação digital e, ao longo dos últimos anos, constatei na minha prática docente, evidências empíricas nesse sentido.
Recentemente tomei conhecimento de um artigo publicado em 2020 por Askvik, van der Well e van der Meer relatando os resultados de uma pesquisa sobre os efeitos da escrita manual, digitação e desenho no cérebro de crianças de 12 anos e adultos jovens, utilizando eletroencefalografia de alta densidade, que é uma técnica avançada de registro da atividade elétrica do cérebro. (Askvik, van der Well & van der Meer, 2020).
Os resultados obtidos pelos autores revelam que tanto adultos quanto crianças mostraram maior sincronização em theta (4-8 Hz) na região parietal e central ao escreverem à mão ou desenharem, enquanto a digitação apresento atividade diferente, com dessincronização em theta e menor relação com aprendizagem. Aqui cabe observar que sincronização em theta (4-8 Hz) refere- se a um aumento na amplitude das ondas cerebrais na faixa de frequência de 4 a 8 Hz, Essa sincronização está associada a processos de memória e à capacidade de codificar novas informações. Em suma, a atividade em theta desempenha um papel importante para o aprendizado.
Os autores observam ainda que os adultos apresentaram padrões mais evidentes de ativação neural relacionados à escrita manual, enquanto crianças mostraram respostas semelhantes, porém menos pronunciadas, sugerindo a importância de atividades de escrita na infância para estabelecer melhores padrões neurais . Por fim, concluem que a atividade sensório-motora envolvida na escrita manual favorece a memória e o processamento cognitivo, sendo recomendável manter atividades de escrita e desenho na escola para otimizar o aprendizado, especialmente na era digital. (Askvik, van der Well & van der Meer, 2020).
Sem retrotopia e sem nostalgia, mas com base em estudos científicos, acreditamos que é preciso restaurar o hábito da escrita. ESCREVER É PRECISO, DIGITAR NÃO É PRECISO.
REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA
Askvik, O. E.; van der Weel, F. R. & van der Meer, A.L. H. (2020) The Importance of Cursive Handwriting Over Typewriting for Learning in the Classroom: A High-Density EEG Study of 12-Year-Old Children and Young Adults. Frontiers in Psychology, v.11, article 1810.
OCTAVIO RIBEIRO MENDONÇA NETO
Graduado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Mauá de Tecnologia (1972);
Especialista em Economia de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas – FGV/ SP – CEAG (1977);
Mestre em Ciências Contábeis e Atuariais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2002) e
Doutor em Contabilidade e Atuária na FEA / USP (2007);
Atualmente é Professor Adjunto I do Programa de Pós-Graduação em Contabilidade e Finanças Empresariais da Universidade Presbiteriana Mackenzie e de Cursos de Mestrado e Doutorado Profissional e professor associado da Universidade Metodista de São Paulo.
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