©️2026 Fernanda Araújo
Edição Especial ao Dia do Psicólogo que se comemora hoje.Parabéns Psicólogos(as)!!
Muitas vezes sentimos culpa por não conseguirmos nos desligar do trabalho, mas raramente olhamos para a estrutura social que nos força a esse estado de alerta constante.
A trajetória do desenvolvimento tecnológico, desde a Primeira Revolução Industrial até o advento da In Inteligência Artificial (IA), é frequentemente narrada como uma linha de progresso linear. No entanto, uma análise dos aspectos históricos, culturais e sociais do trabalho revela que essa transição não tem sido acompanhada por um planejamento estruturado que priorize a dignidade humana. O que se observa atualmente é uma implementação reativa de tecnologias avançadas em sistemas organizacionais e educacionais que ainda operam sob lógicas obsoletas. Esta desarticulação entre a inovação digital e o preparo psicossocial coloca em risco a saúde mental e a estabilidade das relações de trabalho, transformando o que deveria ser uma ferramenta de emancipação em novas vulnerabilidades.
O "Modelo Fábrica" na Educação
A base do problema reside na manutenção de um sistema de ensino que, conforme explorado no documentário Quando Sinto que Já Sei (2014), ainda réplica do "modelo fábrica" da era industrial. Esse formato prioriza a repetição e a obediência em detrimento da autonomia. Como aponta Bender (2021) , a educação profissional tem foco na técnica pela técnica, falhando em desenvolver o senso crítico necessário para lidar com a IA. No cenário atual, onde algoritmos executam tarefas técnicas com precisão superior, a insistência em uma formação mecânica tira o indivíduo de sua singularidade. O reflexo disso é uma geração de jovens tecnicamente expostos, mas emocionalmente desarmados para os desafios de um mercado que exigem criatividade e resiliência subjetiva.
A Dissolução de Fronteiras
A ausência de diretrizes éticas na adoção da IA nas corporações culminou no que Cardim (2022) define como “servidão digital”. A tecnologia, que prometia otimizar o tempo, acabou por dissolver as fronteiras entre a vida privada e a laboral, instaurando uma jornada de trabalho onipresente. Esse cenário é agravado pelas características do trabalho fantasma, onde a automação é sustentada por uma infraestrutura humana invisível e precária (CANTARINI, 2024). Sob a ótica da saúde mental, essa dinâmica gera um estado de alerta constante, potencializando quadros de dependência tecnológica e de exaustão, uma vez que o trabalhador passa a ser gerido por algoritmos que ignoram limitações biológicas e psicológicas.
Vigilância e Controle
A infraestrutura que sustenta essa revolução tecnológica não é neutra. O documentário Freenet? (2016) alerta para as ameaças à liberdade e à privacidade no ambiente digital, evidenciando que a rede mundial tornou-se um campo de disputa política e vigilância. Segundo Silveira (2018) , a convergência entre automação e vigilância permite um controle comportamental sem precedentes. Para a gestão empresarial, isso se traduz em ambientes de trabalho onde a pressão pelo desempenho é mediada por um monitoramento invisível, o que intensifica o estresse psicossocial, distanciando a tecnologia de seu potencial propósito de crescimento humano.
Além do Lucro: Por uma Governança Humana
Para evitar um colapso nas estruturas sociais e trabalhistas, é necessário que a gestão das tecnologias transite de uma abordagem puramente mercadológica para uma governança focada na proteção do ser humano. Como sustentam Siqueira e Lara (2020) , a proteção jurídica e ética é o único caminho para garantir que uma Quarta Revolução Industrial não aniquile a subjetividade humana. Os avanços da IA exigem não apenas qualificação técnica, mas uma reorganização profunda incluindo que regulamentação social e o fortalecimento do bem-estar coletivo (ZEETANO; ISSA, 2024). Somente por meio de uma inclusão tecnológica consciente e planejada será possível reverter a lógica do lucro imediato em favor de um desenvolvimento sustentável que preserve a integridade mental e a dignidade do trabalhador.
Em sua rotina, você sente que a tecnologia é uma ferramenta de liberdade ou uma forma de vigilância constante?
BIBLIOGRAFIA
BENDER, Alessandra Bernardes. Trabalho e educação profissional: refletindo sobre os conceitos de técnica e tecnologia. Laborare, Ano IV, n. 6, Jan-Jun/2021, pp. 142-151. 2021.
Disponível https://www.revistalaborare.org/index.php/laborare/article/view/69/77. Acesso em: 25 de março de 2026;
CANTARINI, Paola. “Ghost work” e “big data”: uma nova forma de servidão e de colonialismo?. Jornal da USP, janeiro 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/ghost-work-e-big-data-uma-nova-forma-de-servidao-e-de-colonialismo/. Acesso em: 25 de março de 2026;
CARDIM, Thalita Corrêa Gomes. Servidão digital no trabalho: a escravatura dos tempos modernos. Laborare, Ano V, n. 9, Jul-Dez/2022, pp. 92-110. 2022. DOI: DOI: https://doi.org/10.33637/2595-847x.2022-144. Disponível em: https://www.revistalaborare.org/index.php/laborare/article/view/144/150. Acesso em: 25 de março de 2026;
FREENET? Direção: Pedro Ekman. São Paulo: Intervozes; Idec, 2016. 1 vídeo (75 min). Disponível em: https://libreflix.org/i/freenet. Acesso em: 25 de março de 2026;
QUANDO sinto que já sei . Direção: Anderson Lima, Antonio Lovato e Raul Perez. São Paulo: Despertar Filmes, 2014. 1 vídeo (78 min).
Disponível em:
https://libreflix.org/assistir/documentario-quando-sinto-que-ja-sei. Acesso em: 25 de março de 2026.
SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Revolução tecnológica, automação e vigilância. Com Ciência – Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, 2018. Disponível em: http://www.comciencia.br/revolucao-tecnologica-automacao-e-vigilancia/#more-2404. Acesso em: 25 de março de 2026;
SIQUEIRA. Dirceu Pereira. LARA. Fernanda C. Pavesi. Quarta Revolução Industrial, Inteligência Artificial e a Proteção do Homem no Direito Brasileiro. Revista Meritum Magazine, v. 15, n. 4, 2020.
Disponível: https://revista.fumec.br/index.php/meritum/article/view/8223.Acesso em: 25 de março de 2026;
ZEETANO, José Paulo. ISSA, Tuffy Licciardi. Avanços recentes da inteligência artificial: impactos trabalhistas, sociais e regulatórios. Jornal da USP, fev. 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/artigos/avancos-recentes-da-inteligencia-artificial-impactos-trabalhistas-sociais-e-regulatorios/.Acesso em: 25 de março de 2026.
FERNANDA ARAÚJO
- Psicóloga Clínica formada em Psicologia pela Faculdades Metropolitanas Unidas - FMU (2017);
- Especialista em Saúde Coletiva com Ênfase em Saúde da Família;
- Pós graduada em Dependência Tecnológica pela LZ Psicologia(2025) ;
- Graduanda em Gestão Empresarial pela Fatec
- Atende em consultório particular, na abordagem psicanalítica;
- Atendimento de casais, adultos e adolescentes; e
- Local de Atendimento Online e Vila Mariana/SP
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