©️2026 Karla Reis Martins de Oliveira
Outro dia, ao observar o diálogo entre uma aluna e um professor durante uma aula, fui tomada por uma inquietação. O docente orientou os estudantes a concluírem uma redação iniciada no encontro anterior. Foi quando uma adolescente respondeu, com a naturalidade de quem comenta algo corriqueiro: "Minha IA não está funcionando hoje e eu não sei pensar sozinha para escrever". Todos riram, e a aula seguiu. Eu, entretanto, continuei pensando naquela frase.
Sou da geração Millennial, que cresceu em um mundo sem internet, fazendo pesquisas em bibliotecas, consultando enciclopédias e escrevendo trabalhos em folhas de almaço. Na juventude, acompanhamos o surgimento e a expansão da internet e aprendemos a transitar entre dois universos: aquele em que a informação precisava ser procurada em livros e aquele em que passou a estar disponível a poucos cliques. Conseguimos nos adaptar aos dois.
A geração que hoje ocupa nossas escolas, especialmente as gerações Z e Alpha, nasceu em um contexto completamente diferente. São crianças e adolescentes que não conheceram um mundo sem conectividade, telas interativas, assistentes virtuais e, mais recentemente, inteligência artificial. Para muitos deles, a tecnologia não é uma ferramenta que foi incorporada à rotina: ela sempre esteve lá.
Não podemos ignorar que cada época produz novas formas de aprender, pensar e se relacionar com o conhecimento. As habilidades valorizadas em determinado momento da história podem deixar de ser suficientes em outro, enquanto novas competências se tornam indispensáveis. A capacidade humana de adaptação é extraordinária. Entretanto, adaptar-se não significa, necessariamente, evoluir em todas as dimensões.
É justamente nesse ponto que a educação parece navegar em águas desconhecidas. A inteligência artificial oferece possibilidades extraordinárias: amplia o acesso à informação, auxilia na produção de textos, personaliza aprendizagens e pode contribuir significativamente para o trabalho docente. Seria ingenuidade ignorar seu potencial ou tentar impedir que os estudantes utilizem recursos que já fazem parte de seu cotidiano.
Mas também seria irresponsabilidade não questionar os efeitos dessa dependência tecnológica sobre o desenvolvimento intelectual dos nossos jovens.
Hoje, encontrar informações é relativamente fácil. O verdadeiro desafio está em saber pesquisar, selecionar, interpretar, questionar e distinguir o que é confiável daquilo que é falso ou superficial. Da mesma forma, pedir à inteligência artificial que produza, corrija ou aperfeiçoe uma redação tornou-se uma tarefa simples. Mas, se a máquina escreve, organiza os argumentos e apresenta as conclusões, que espaço resta para o exercício da reflexão, da criatividade e da construção do próprio pensamento?
Afinal, estamos ensinando nossos alunos a utilizar a inteligência artificial ou estamos, inadvertidamente, permitindo que ela pense por eles?
Elaborar uma redação vai muito além de organizar palavras e respeitar regras gramaticais. É um exercício de interpretação do mundo, construção de argumentos, organização de ideias e expressão da própria identidade. É durante esse processo que o estudante aprende a defender um ponto de vista, reconhecer contradições, rever posicionamentos e desenvolver autonomia intelectual. Quando terceirizamos integralmente esse percurso, corremos o risco de entregar também uma parte importante da aprendizagem.
Isso não significa que devamos rejeitar a tecnologia ou transformar o passado em um modelo ideal de educação. As gerações anteriores também enfrentaram dificuldades, e os métodos tradicionais não eram perfeitos. Tampouco podemos esperar que os estudantes de hoje aprendam exatamente como aprendíamos décadas atrás. O mundo mudou, e a escola precisa acompanhar essas transformações.
O desafio, portanto, não é escolher entre o papel e a tela, entre o livro e a inteligência artificial, entre o passado e o futuro. É compreender o que não podemos perder nessa transição.
Precisamos formar estudantes capazes de utilizar ferramentas tecnológicas com inteligência, mas que também saibam pensar quando essas ferramentas não estiverem disponíveis. Jovens que não apenas obtenham respostas, mas que aprendam a formular perguntas. Que não se contentem com textos bem escritos, mas sejam capazes de compreender o que está escrito, questionar seus argumentos e construir os próprios.
Talvez o maior risco da inteligência artificial não esteja na possibilidade de ela se tornar cada vez mais inteligente, mas na possibilidade de nós nos acomodarmos diante dessa inteligência.
Enquanto educadores, temos uma responsabilidade enorme nesse processo. Não podemos formar uma geração que apenas saiba dar comandos às máquinas, mas que não consiga sustentar uma ideia sem a ajuda delas.
E, confesso, quando olho para trás, sinto certa nostalgia dos tempos das bibliotecas, das pesquisas em livros, das redações manuscritas e dos concursos em que nossos textos precisavam nascer exclusivamente das nossas próprias ideias. Não porque aquele mundo fosse melhor em tudo, mas porque havia algo muito valioso naquele exercício: precisávamos pensar antes de escrever.
A inteligência humana continuará se transformando, assim como as formas de aprender e ensinar. A tecnologia continuará avançando, e a escola precisará encontrar seu lugar nesse novo cenário. Mas há uma pergunta que não podemos deixar de fazer: se estamos desenvolvendo ferramentas cada vez mais inteligentes, estamos também formando pessoas cada vez mais capazes de pensar?
A inteligência artificial pode ser uma das ferramentas mais poderosas já criadas pelo ser humano. Boa ou má, talvez essa não seja a questão. A verdadeira resposta dependerá da maneira como decidiremos utilizá-la — e, principalmente, da educação que ofereceremos às próximas gerações.
KARLA REIS MARTINS DE OLIVEIRA
- Graduada em Letras, com Habilitação Plena em Línguas Portuguesa e Inglesa e Literaturas - UNIFATEA (2004);
- Pós-graduada em:
-Estudos Literários – UNIFATEA (2008);
-Gestão Escolar - UNIFATEA (2012);
-Psicopedagogia Clínica e Institucional – FACON (2018);
-Supervisão Escolar - Faculdade São Luís (2019); e
-Educação em Direitos Humanos, Diversidade e Questões Étnico-Sociais ou Raciais - FAVENI (05/2024);
- Atualmente é Diretora Efetiva da Rede Estadual de Ensino, atuando em Escola de Ensino Integral de 7h, no interior de SP, com experiência em Coordenação Pedagógica de Ciclo I e II do Ensino Fundamental e Ensino Médio, em Vice-Direção e como Professora Efetiva de Língua Inglesa.
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