©️2026 Rodolfo Costa Manso Real Amadeo
Em seu último livro, O Tempo da Memória: De Senectute e Outros Escritos Autobiográficos, Norberto Bobbio reflete sobre o significado da realização de um livro em sua homenagem. Em resumo, o grande filósofo e jurista italiano apresenta um sentimento ambivalente sobre esse fato. De um lado, reconhece que a realização de um livro em sua homenagem representa a coroação de toda a sua vida acadêmica e dos inúmeros anos dedicados ao magistério e à pesquisa, sendo uma prova de admiração e afeto de seus colegas e discípulos. De outro lado, Bobbio reflete, com certa dose melancolia, que o recebimento de um livro em sua homenagem pode ser visto com um forte sinal de sua finitude, transformando o homenageado em uma espécie de “monumento” do passado, pois celebra só o que já foi realizado, reforçando a consciência de tudo o que não foi realizado.
Além de colaborar com artigos para vários livros em homenagem, já tive a honra e a felicidade de organizar, ao menos, três desses livros: o primeiro, em homenagem ao Professor José Ignacio Botelho de Mesquita (2013), o segundo, ao Professor Walter Piva Rodrigues (2019) e o terceiro, ao Professor Hermes Marcelo Huck (2025).
Organizar um livro em homenagem é uma tarefa árdua, mas muito interessante, pois ela proporciona a rara oportunidade de se ter uma perspectiva única do homenageado. A elaboração da lista de potenciais autores; a validação dessa lista com o homenageado (resultando na inclusão ou, em poucos casos, exclusão de nomes); a aceitação ou a recusa (com ou sem justificativas) dos autores convidados; os temas escolhidos para os artigos; o empenho e a pontualidade com que os autores elaboram suas contribuições, todos esses elementos revelam pequenas facetas do homenageado que muito provavelmente não viriam à tona sem a elaboração de um livro em homenagem.
Por essa razão, considero que o livro em homenagem é a obra mais importante de uma pessoa, o que é paradoxal, pois ele é uma obra que não é escrita pelo homenageado.
Muito pensam que o livro em homenagem é uma obra "sobre" o homenageado, mas, na realidade, ele é uma obra "a partir" do homenageado. Explico.
Ao longo da sua trajetória, suas lições como professor impactam – às vezes até inconscientemente – a vida de muitas pessoas. Essas lições são absorvidas por essas pessoas e são filtradas pelas circunstâncias das vidas dessas pessoas. Nelas, as lições combinam-se com outras, replicam-se e se transformam continuamente.
Em determinado ponto da trajetória da vida de algumas dessas pessoas, chega, então, o convite para participar do livro em homenagem, escrevendo um artigo.
O livro se torna, assim, o registro – num determinado ponto do tempo e do espaço – de como estão as lições do homenageado, recombinadas e filtradas pela trajetória de vida daqueles autores que apresentaram seus artigos até o fechamento da obra.
Por esse motivo, em minha experiência na organização desses livros ao longo desses anos, notei que o livro em homenagem tem três características particulares:
1. Ele é incontrolável: diferente de um livro que você escreve ou de uma coletânea de artigos sobre um tema específico, o livro em homenagem adquire, desde o início, uma vida própria. Ele se forma do jeito que ele quer e quando ele quer;
2. Ele é fruto de muita paciência: paciência dos autores com os coordenadores, paciência dos coordenadores com os autores, paciência do próprio homenageado (que quer receber a homenagem ainda em vida) e paciência do público; e
3. Ele é necessariamente incompleto: Seja porque há inúmeras pessoas que foram igualmente influenciadas pelas lições do homenageado e que não escreveram nele, seja porque ele é um retrato de um impacto que continua a se fazer sentir. Ele é como a fotografia de uma onda quebrando no mar.
É nesse ponto que discordo parcialmente de Bobbio. Não vejo o livro em homenagem como um sinal de finitude do homenageado ou de sua obra. Ao contrário, vejo-o como sinal de sua continuidade. Como a energia daquela onda quebrando – retratada de forma estática na fotografia –, as lições do homenageado – momentaneamente registradas no livro em homenagem – continuarão existindo, recombinando-se e transformando aqueles que tomarem contato com elas no futuro.
RODOLFO COSTA MANSO REAL AMADEO
- Graduação em Direito pela Universidade de São Paulo .(1998);
- Mestrado em Direito Processual Civil pela Universidade de São Paulo(2005);
- Doutorado em Direito Processual Civil pela Universidade de São Paulo (2010);
- Especialização em Direito Ambiental (2002) pela Universidade de São Paulo (2022);
- Professor de Direito Processual Civil e Meios Adequados de Resolução de Disputas nos cursos pós-graduação da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e da Fundação Getulio Vargas;
- Integrante do Grupo de Estudos Avançados em Arbitragem da Fundação Arcadas (GEAARB) e do Núcleo de Acesso à Justiça, Processo Civil e Meios de Solução de Conflitos da Fundação Getulio Vargas (NAJUPMESC);
- Membro do Instituto Brasileiro de Direito Processual (IBDP), do Comitê Brasileiro de Arbitragem (CBAR), do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), do Centro de Estudos Avançados de Processo (CEAPRO), do Instituto Brasileiro de Estudos do Direito da Energia (IBDE), da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) e da Associação Brasileira de Direito e Economia (ABDE).
Nota do Editor:
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