sábado, 13 de junho de 2026
Pertencimento e Cultura são os caminhos para uma educação significativa
sábado, 31 de maio de 2025
O Acesso à Educação no Brasil e o Analfabetismo Funcional
Neste artigo venho questionar
para onde estamos caminhando, visto que hoje passamos do status de um país com
grande número de analfabetos para uma estagnação no índice de analfabetismo
funcional.
A motivação para esse texto reside na matéria recém-publicada no jornal a Folha de São Paulo, por Isabela Palhares, em 06 de maio pp. Intitulada: 29% DOS BRASILEIROS DE 15 A 64 ANOS NÃO ENTENDEM TEXTO E CONTA SIMPLES.
Muito embora haja essa motivação, na verdade, essa matéria veio a calhar para elucidar muita coisa, evidenciando algumas das consequências previsíveis, resultantes de uma política de acesso deliberado (porém solto) ao ensino superior, com foco quase que exclusivo na quantidade e pouca preocupação com a qualidade, contexto esse cujos reflexos venho criticamente acompanhando nos últimos anos.
Portanto, para mim, o conteúdo do texto supracitado não foi uma surpresa, e me traz esperança; esperança de que possamos reverter, de alguma forma, esse quadro assustador, cujos impactos estão visíveis na nossa experiencia cotidiana, sendo que não posso afirmar que sejam eles perceptíveis para todos; para mim, na minha prática docente, certamente têm sido.
Um breve retrospecto, sob a ótica do ensino superior:
Nas últimas décadas do século passado, a preocupação com os altos índices de analfabetismo no Brasil foi um tema recorrente, cujas ações e políticas púbicas adotadas resultaram em significativo declínio em 2022, com a redução do analfabetismo para 7% da população, antes representada por 25,5%, nos anos 1980 (Dados do IBGE).
Nesse interim, por volta dos anos 2000, verificou-se um crescimento expressivo dos cursos em nível superior por instituições particulares (de 3.150 cursos, em 1994, para 12.360 cursos em 2004 – segundo Jornal da Câmara dos Deputados). A justificativa, à época, era bastante positiva, visto que a iniciativa privada estava atendendo a uma demanda que as instituições públicas não estavam conseguindo absorver.
Ocorre que no início de 2007, acompanhei perplexa, a notícia sobre o primeiro grupo educacional a abrir o seu capital ao mercado (Bolsa de Valores), propiciando o espaço para o que hoje se denomina, não sem um matiz pejorativo, Educação S.A (denominação essa com a qual concordo em muito, visto que retrata de forma contundente o caráter mercantil que, em muitos casos, passou a prevalecer na educação).
No contexto das Educação S.A., têm-se estudantes que ingressam sem qualquer tipo de processo seletivo estruturado, que serve apenas para estabelecer o percentual de desconto que o “cliente” receberá - Política de Marketing (isso se dá em função de uma engenharia financeira que parte do valor “cheio” da mensalidade); em que se tem professores, na sua grande maioria capacitados, digo que em sua grande maioria doutores em suas áreas de conhecimento, mas que mal conseguem abordar o conteúdo mínimo de suas disciplinas, simplesmente por falta da base que os ensinos fundamental e médio deveriam ter propiciado aos estudantes, aliada à falta de postura e da consciência sobre o que significa estar em uma faculdade/universidade, além das políticas de incentivo à permanência de alunos não capacitados, por parte das instituições que precisam manter o seu fluxo de caixa.
Mas o que se esperar? Esses alunos que estão lá foram selecionados, se afirma. Pois bem, já disse de qual forma.
A Educação S.A., bem como qualquer outra organização empresarial, visa o lucro (lucro com qualidade de seus produtos a guisa de perderem mercado), óbvio, visto que é o que lhes propicia a própria continuidade das operações. Porém, eu estou falando sobre instituições de ensino; estarão elas preocupadas com a qualidade do "produto" (pessoas) que estão capacitando? Nesse contexto, devo inserir a banalização do EAD, uma fonte garantida de caixa.
Consequências? Analfabetismo Funcional, cujos resultados estão muito bem explicitados na matéria de Isabela Palhares.
Nesse contexto, devo fazer jus a algumas universidades privadas, sendo elas confessionais ou não, que mantêm o foco na educação com qualidade no tripé ensino, pesquisa e extensão, propiciando aos seus estudantes a experiência única de vivenciar a vida universitária. Da mesma forma, as universidades públicas, que mesmo sem a totalidade dos recursos necessários, primam pela excelência.
Vejo com bons olhos algumas medidas (poucas, mas já é um começo) que estão sendo tomadas para mitigar esse problema, como as restrições ao EAD e o anúncio, recentemente, pelo Ministério da Educação, quanto ao aumento do rigor nas avaliações dos estudantes no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE).
De fato, o melhor dos mundos é ter uma população que pode vivenciar a experiência de uma universidade com ensino de qualidade, mas a esse preço? Bom, bonito e barato, não existe. Essa é uma expressão que se utiliza muito na área de marketing, cuja experiência, nesse caso, vem sendo comprovada na prática.
Por fim, devo destacar que o motivo aqui apontado, e que nos leva à essa situação atual, elucidei apenas considerando as Educacionais S.A., mas ciente que outras variáveis interferem no comportamento e na capacidade cognitiva dessa geração que hoje está entrando no mercado de trabalho, com uma formação profissional de qualidade técnica bastante questionável. Um exemplo é o uso da Inteligência Artificial, tema já abordado aqui neste Blog.
Referências:
PALHARES, Isabela. 29% dos
brasileiros de 15 a 64 anos não entendem texto e conta simples. Folha de São
Paulo, 6 de maio de 2025, Caderno Cotidiano, A35.
*MARIA THEREZA POMPA ANTUNES
-Graduação em Administração pela PUC/RJ (1984), com Especialização em Finanças pelo IAG/PUC/RJ (1985), e em Ciências Contábeis pela FEA/USP (2002);
-Mestrado em Ciências Contábeis pela FEA/USP (1999);
- Doutorado em Ciências Contábeis pela FEA/USP(2004);
Atualmente é professora de finanças do Curso Graduação em Administração na Escola Paulista de Política, Economia e Gestão (EPPEN) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e
Tem 26 anos de experiência na área da educação, atuando como docente, pequisadora e gestora.
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