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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Não foi tempo perdido


 ©️2026 Beca Casal 


De tempos em tempos eu me deparo com algum tipo de situação que faz com que eu pense imediatamente naquele ditado que diz que tudo acontece no tempo certo.

Apesar de todas as dificuldades e percalços vividos ao longo de quase 36 anos, a cada ano que passa e cada nova experiência que faz com que tudo se encaixe, mais eu percebo que a sabedoria da idade vem com a certeza de que, mesmo em meio ao caos, basta dar tempo ao tempo para que tudo se resolva e faça sentido - mesmo que a minha mente ansiosa me faça ter um ou dois surtos no meio do caminho.


É aquela sensação de que tudo aconteceu como deveria acontecer que a gente tem depois de perceber que está exatamente no local onde precisa estar, com as pessoas que precisa a sua volta e no momento em que mais precisa disso tudo.


Foi assim quando eu conheci o meu companheiro, depois de ter vendido quase tudo o que eu tinha, devolvido apartamento, deixado o emprego, feito altos investimentos e mesmo assim ter sido inadmitida no país para o qual eu passei 3 anos planejando me mudar. E depois ainda descobrirmos que estivemos juntos no mesmo evento, 10 anos antes, e já tínhamos até trocado mensagens no Facebook.


Foi assim quando a minha sogra veio morar com a gente e precisamos de auxílio de cadeira de rodas para locomovê-la entre consultas e exames, depois de ter alugado a nossa segunda opção de imóvel, já que o nosso cadastro não foi aprovado para alugar a primeira opção, um apartamento no quarto andar de um condomínio sem elevador.


Foi assim quando eu decidi sair de um emprego 10 dias antes de ter que passar 10 dias no hospital, e quando eu fechei um contrato de serviço pelo tempo e valores exatos que a gente viria a precisar pouco mais de um mês depois…


Muitos parágrafos poderiam ser preenchidos com outros momentos e situações da minha ou da sua vida que reforçam e comprovam esse ponto de vista de que o tempo é, de fato, um compositor de destinos, mas no final das contas, acho que só o tempo dirá quando cada um de nós terá a sabedoria de reconhecer que o tempo é o senhor da razão.


BECA CASAL















Segundo suas palavras:


Escritora e poetisa sul-mato grossense, Beca Casal é romântica e sonhadora.

Formada em Tecnologia em Processos Gerenciais pela UFMS (2021), trabalha com marketing digital desde 2014.

Ela é autopublicada pela Amazon e está em processo de produção do seu próximo livro de poesias.

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Em Paris com Jane


 ©️2026 Maria Lucia Mazzei de Alencar

 "Na Paris de Hemingway que, desta vez, não estava uma festa"

O ano era 1977. Estudava e fazia estágios em legislação de planejamento regional - com foco em regiões metropolitanas - na Alemanha, aquela altura dividida em duas, antes da unificação. Época do onipresente Muro, anos finais da guerra fria. Na primeira fase do programa tive a sorte de estudar em Berlim (ocidental) e, ainda hoje, amo a cidade e a visito mesmo quando viajo para outros destinos. Em Berlim sentia-se bem o significado de "cortina de ferro", pois estávamos literalmente amuralhados dentro da Alemanha Oriental, então sob a opressão soviética.

Mas ao tempo dessa história morava em Colônia. O estágio era numa pequena cidade a meia hora de trem. Não quis ficar nela. "Preciso residir numa cidade maior", argumentei com meu desolado orientador, meu programa de estudos deve ser complementado com a cultura disponível (e também com diversão, pensei).Ele entendeu. Mas não faltei um dia sequer, mesmo nos mais frios.

Colônia era encantadora. Construida pelos romanos, a rua principal conservava o mesmo traçado do tempo deles. Impressionava-me sua largura e mesmo com comércio e edifícios dos dois lados, ainda havia arcos e ruínas. Romanos e alemães, que povos inteligentes! Tinha então 27 anos e além dos estudos e da parte cultural, encontrava algum tempo para conhecer as alegres cervejarias e bares, onde podia encontrar jovens, acabando por fazer alguns amigos.

Nas primeiras semanas morei com uma gentil senhora num apartamento confortável e bem localizado, mas não permaneci muito tempo; embora ela nada dissesse, sua expressão de desgosto ante meus banhos diários me constrangia. Acabei achando um flat central, com um minúsculo quarto,bancada de cozinha e banheiro, em cuja rua tinha um pequeno pub, bem agradável. Quando você esta só, é importante ter um bar próximo, onde você pode conversar com os atendentes e os clientes mais assíduos. O charme do flat era uma piscina aquecida, adaptada no subsolo, antes uma garagem. Nos meses de inverno era uma delícia chegar da rua fria e ficar lá, aquecendo-me na água quentinha, louvando a sorte, apesar do preço salgado do flat, que obrigava-me a outras economias. Depois, embrulhava-me num roupão enorme e saia correndo pelos corredores gelados até chegar no apartamento, ante a surpresa dos demais hóspedes, que não pareciam sentir o frio como eu.

Então pintou um feriado. Fiquei com vontade de passá-lo em Paris, quatro horas em trem direto. Telefonei à amiga Cláudia, terminava um mestrado e morava com seu namorado, um médico gaúcho, que cumpria sua "residência" lá. Ela me animou: poderia ficar na sua casa, tinha alugado um apartamento espaçoso.

Claudia e seu parceiro esperavam-me na Gare com notícia desanimadora: mudaram de planos, decidiram aproveitar o feriado, fazendo compras em Andorra, um paraíso fiscal. Gostaria de ir?"Não". A opção era fazer companhia a uma amiga dele, uma colega médica, gaúcha, viera operar na Alemanha, em Heidelberg, com um renomado brasileiro, professor e cirugião plástico no Brasil.Também ela não queria viajar com eles, afinal não conhecia Paris e só teria aqueles dias livres.Era muito simpática, poderíamos sair juntas. Topei na hora.

Jane era muito viva, bonita, engraçada com o seu tutear e sotaque gaúcho. Tivesse uma cuia de chimarrão e ela estaria completamente feliz. Provinciana, mesmo residindo no Rio. Resolvi fazer uma boa ação: apresentaria à medica durante o dia os lugares turísticos de seu interesse; em compensação, de noite eu a arrastaria para o "Olimpia" ver "Aznavour" que eu amava. Expliquei que meu amigo Gabriel Colot, radicado havia alguns anos em Paris nos encontraria mais tarde. "Aznavour não era seu cantor preferido", explicou com graça Colot, para declinar do nosso programa turistico. Ele nos aguardaria no "Café de La Paix", de lá seguiríamos para o nosso jantar.

Era sábado e passaríamos o dia inteiro na rua, indo direto para a nossa programação noturna. Jane mostrou-me sua grande bolsa de mão com seus tesouros: passaporte, dólares, bastante dinheiro de seus amigos para comprar bisturis e outros instrumentos cirúrgicos alemães , "travel chek" etc. "Jane, é claro que voce vai deixar tudo isso aqui, não sairá com eles, muito menos com seu passaporte. Não saio com o meu e só levo o dinheiro de que preciso", informei-lhe. Naquela época quase não tínhamos acesso a cartões de crédito. Convencida Jane, o assunto morreu lá.

Eram belos os dias de outono em Paris naquele setembro de 1977.Entre os passeios turísticos, levei-a em exposição de artefatos africanos no "Grand Palais", almoçamos gostoso lá perto. No início, Jane não queria perder o tempo do almoço, mas eu lhe convenci. "Gastronomia faz parte da cultura da cidade, ainda mais aqui, "Mon Dieu", coma pelo menos uma "tarte tatin" de sobremesa", veio uma enorme, dividimos com gosto e compartilhamos a culpa.

Às vinte e uma pontualmente esperávamos Aznavour e foi um lindo show, já me sentia presenteada. Encontmos Colot no Café de La Paix e, bom francês que se tornara, levou-nos ao " Les Halles, bairro do antigo mercado , no famoso restaurante  "Au Pied de Couchon",” que sempre quis conhecer. Hoje, aquela região foi reurbanizada, dando lugar ao Centro de Artes Georges Pompidou.

Comemos frutos do mar, de entrada, o forte do lugar, um assado depois, regados a bons vinhos, que Colot demorou horas para escolher com o "maître", combinando-os com os itens do jantar, sob nossos protestos."Tem um ritual", ele explicava com paciência, "devemos harmonizar os vinhos com a entrada, o prato principa" , mas não o ouvíamos, famélicas. Depois, alimentadas, fomos acalmando a ansiedade e a pressa, demos muita risada e ficamos conversando até altas horas.

Na saída do lugar, que era uma zona nada turística, subíamos a rua comprida em direção a uma avenida mais movimentada para um taxi, reparei em três ou quatro jovens negros na direção oposta, decididos e rápidos. Intui um assalto, disse baixo, " Jane, cuidado, segure forte sua bolsa", eles passaram por nós nos abalroando, típico, minha bolsa abraçada junto ao peito, continuamos o caminho. Graças a Deus não nos ocorreu nada, pensei, conversando animadamente com meu amigo, quando ouvi a vozinha de Jane, baixa e monocórdica, olhando para trás, na direção dos jovens, que já iam longe em largas passadas:

"Monsieurs, mes documents, s’il vous plaît, mes documents"...

Estaquei; "Jane, o que houve?"

"Os rapazes roubaram minha bolsa, gemeu".

"Graças a Deus a esvaziamos no apartamento de Cláudia disse, consolando-a".

"Não, não fiz isso, não te atendi...achei que estariam melhor comigo”.

“Virgem Santa Jane, gritei !!!! mas você deixou o Passaporte né? Dinheiro não é o pior, amanhã você estará comigo e o Professor viaja com você segunda feira”. Com certeza te dará algum dinheiro....Mas sem o passaporte voce não poderá viajar !

"Mas se estava tudo junto, ela choramingou"...

" Nossa, Colot!!! socorro, agora sim temos uma catástrofe!"

" Não sejas dramática, guria, Jane tentou sossegar a nós e a ela. Na segunda viajo de trem, é mais tranquilo, de avião só voltarei daqui a dez dias. É tempo suficiente para tirar outro passaporte"....

"Você não está entendendo Jane querida. Desculpe se te assusto. Estamos em tempo de terrorismo na Alemanha, os alemães estão em pânico com o grupo “Baader Meinhoff", voce vai ser presa no trem sem documentos, assim que passarmos a fronteira. Na minha vinda, três vezes tive que me identificar... E não se esqueça que temos uma situação também difícil no Brasil, com a Ditadura e perseguições aos opositores. Tirar outro passaporte será difícil! E agora?"

"Agora vamos à Polícia ver se nos dão algum documento de ocorrência policial e amanhã temos que fazer a embaixada abrir as portas para nós, eles precisam resolver a sua situação, retorquiu o objetivo Colot, em tom calmo, mas me olhava de soslaio com muita preocupação e meneava a cabeça com desaprovação. Ele não precisava expressar o que sentia, já quase francês: brasileiros sempre atrapalhados e criando confusão. Que final de sábado mais aborrecido !

Tão absurda era a nossa história que os policiais nos ouviram suspeitosos. Quando relatamos a quantidade de dinheiro e o passaporte de Jane, riram com gosto. Não deram a menor importância, talvez que Jane mentia, vendera o passaporte e agora queria uma justificativa para a embaixada. E prometeram o relatório para uma semana.Nenhuma diligência se dispuseram a fazer, tentar achar os assaltantes? Nem pensar...

O dia seguinte era um domingo, aliás esplêndido, mas adeus passeios! Telefonamos para a Embaixada, tentando fazer com que o encarregado de emergência nos abrisse as portas, em vão. Se não me engano o embaixador da época era um político conhecido, mas infelizmente distante do nosso alcance. Sentamos num café, desanimadas, eu fazendo brutal força interna para não me irritar mais ainda e não recriminá-la. Jane choramingava: “tenho que estar em Heidelberg amanhã, iniciaremos uma maratona pela tarde, finalizaremos as consultas e análise dos exames e terça cedinho começaremos as cirurgias. Levaremos a semana toda operando. Gente da Europa inteira, até da Arábia, já estão agendados para essa semana. O professor vai me matar, guria, não queiras saber, amanhã eu me enfiarei naquele trem, vou com a cara e a coragem, se for presa, dane-se". A essa altura, ela chorava copiosamente, coitada!

Foi então que uma idéia luminosa me veio. Mas é claro, se alguém podia resolver aquela situação era o Professor ! Mas Jane tinha pavor em confessar a bobagem terrível que tinha feito. "Ele nunca mais me escolherá", lamentava-se.

Tomamos à direção do Hotel Plaza, Jane aterrorizada, não queria queimar seu filme com o Professor. "Não tem outro jeito, asseverei, somente ele pode resolver o seu problema. Fique calma, de repente ele terá bom humor? Não? É generoso? Não? bem...paciência, veja a situação assim: ele terá que engulir em seco, não terá tempo para chamar outro assistente. Ademais você me contou como termina suas cirurgias com seus pontinhos de fada, você mesma disse, finalização é tudo"...Mas eu estava preocupada. Ela não tinha nenhum documento provando que ela era ela.

Chegamos ao Plaza. Era a primeira vez que eu punha os pés naquele palácio! Meus olhos aproveitavam o que podia. Pedi à recepção que informasse Monsieur Le Professeur que sua Médica Asistente precisava com ele falar e urgente. Felizmente ele estava lá e mandou que subíssemos.]

Encontramos o grande médico tentando ajeitar sua mala e suas compras. Ficou contente ao nos ver.

"Jane, faça as minhas malas".Eu me contive para não lhe desferir um olhar de desprezo, ajeitei-me numa poltrona, preparando-me para o embate.
" Você quem é "ma petite?"

"Uma boa samaritana", respondi, mas ele não entendeu a piada.

Apressava Jane (fale logo, não temos tempo), ela tomava fôlego enquanto dobrava as roupas dele. Quando ele finalmente entendeu, ficou uma fera, esbravejava muito, criticas acerbas sobraram para a médica, uma descompostura atroz. "Isso não vai adiantar, disse-lhe, faça uma tentativa com o embaixador, telefone-lhe já ou não dará tempo de ela viajar amanhã, veja, ele terá que abrir a embaixada e providenciar tanta coisa.... Ele voltou à objetividade masculina e obteve a comunicação .

"Digo-lhe,Embaixador,ela viajará comigo, sob meus cuidados", ele literalmente espumava e gesticulava. O embaixador devia estar tendo um ataque do outro lado. "Como? Voce não acredita em mim? Estou te informando e garantindo a identidade dessa moça ! Eu mesmo. Com toda a minha credibilidade. Faça como eu peço, não se incomode com os militares, ela nunca poderia ser uma terrorista, uma pateta completa, veja o que fez, como poderia levar em frente algum plano criminoso? Instrua alguém para ligar para a casa de sua mãe e só confirme nome, idade, essas coisas. E tem que ser já, insistia, viajaremos amanhã cedo, ainda preciso checar o hospital e os médicos locais para anestesias e coisas do gênero....E não posso tirar os olhos de cima dela, Mon Dieu! Fico seu eterno devedor "! `A mim também, conjecturei...

Em meia hora estávamos na Embaixada, onde um mal humorado funcionário, tirado à contragosto de seu domingo, expediu um passaporte novinho para ela, certificou sua entrada na França e escreveu uma carta diplomática às autoridades francesas e alemãs para atestar sua entrada anterior. Nada como ter amigos poderosos, aprendi naquele dia, não só uma rede social importava, ter amigos poderosos pode ser crucial nessas horas. Generoso, o médico adiantou mil dólares para as primeiras despesas dela.

Aliviadas, começamos a gastar o dinheiro dele no jantar, no ótimo e caro "loiserie de Lilás", preferido por Hemingway, Joyce, outros queridos escritores e modestamente por mim Beba muito, amanhã esquecerá tudo isso e se concentrará nas cirurgias. E terá que estar fresca como uma rosa para seu chefe, que hoje se estressou muito, coitado! Ah! Jane, você vai repetir a tarte tatin , bem, não é muito criativo de sua parte, ríamos as duas, embaladas pelo excelente vinho francês, imitávamos a fúria do médico às gargalhadas...Depois,imitando-a, fazia biquinho: "monsieurs, s’il vou plaît, mês documents"..."Jane, faça tudo bem feitinho, não o aborreça para nada, não choramingue, não crie marolas...depois das cirurgias, ele menos tenso, você lhe dá o golpe final e pede o dinheiro dos amigos... Garçon, duas tartes e bastante creme bem fresquinho" !

Dormimos o sono pesado dos jovens, justamente embriagadas. Acordamos as duas bem "rosas" e fomos cada qual para o seu destino. Voltei para Colônia, ela seguiu para Heidelberg, sob o olhar vigilante de seu chefe. "Obrigada por tudo, guria, se não fosse tu..." "Jane, ligue-me quando terminar tudo, ainda não fui a Heidelberg, de repente vou passear o final de semana com você, que tal" ? “Seria maravilhoso, ela concordou"!. Uma idéia veio-me a cabeça, mas nada disse. Se tudo se acalmasse, poderia ter uma consulta grátis, idéias para meu porvir, quem sabe afinar meu nariz algo arredondado, decididamente não combinava comigo...Afinal, temos que ter projetos para o futuro!

                                                                      

MARIA LUCIA MAZZEI DE ALENCAR













-Escritora, amante da boa literatura e de cinema;
-Vencedora dos segundo e terceiro lugar do prêmio Acesc de Literatura( Associação dos 20 maiores e tradicionais clubes da cidade de São Paulo ( com exceção dos de futebol);
-Aluna das Arcadas, ( Direito da Usp), formou-se em 1972, 
Procuradora do Estado de São Paulo aposentada, atualmente Advogada.

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

É preciso Amor para poder Pulsar


 

@2025 Beca Casal

Recentemente, vi um vídeo no Instagram em que uma influenciadora falava sobre a importância de escolher a pessoa certa para compartilhar a vida, afinal, é essa pessoa quem irá estar ao nosso lado nos momentos mais difíceis que iremos viver: aqueles em que teremos de lidar com doenças graves ou luto.

Eu conheci o amor muito nova, quando ouvia a minha avó Biga falar sobre o homem que ela amou a vida inteira, o meu avô Izoldino. Quando se casaram, o meu avô já era um homem bem mais velho, viúvo, pai de 10 filhos, avô… e minha avó era uma mulher com seus mais de 30 anos, de gênio forte e determinação inabalável, que assumiu o papel de madrasta e "vodrasta" com muita dedicação.

Mais de uma vez eu ouvi falar sobre os cafés da manhã épicos que a minha avó fazia diariamente na fazenda ou sobre a sua hospitalidade toda vez que as férias chegavam e a fazenda se enchia de visitantes. Mesmo depois que o meu avô faleceu, a minha avó continuou a ser tão hospitaleira e acolhedora como sempre com os meus tios e primos, mesmo depois de tentarem negar a ela os seus direitos na herança.

Mesmo tendo crescido sem conhecê-lo[1], a presença do meu avô sempre foi muito forte na minha infância, seja através dos relatos saudosos da minha mãe, ou dos dias dolorosos em que minha avó se recolhia em seu luto e memórias.

Apenas muito tempo após a morte da minha avó[2], descobrimos que ela teve de romper com o próprio pai para viver esse amor - meu bisavô nunca aceitou o casamento dela com um homem viúvo e pai de tantos filhos. Ele nunca conheceu as próprias netas.

Na minha família é comum que, ao nos casarmos, a gente adote a família de nossos companheiros como parte da nossa. Foi assim com meus avós maternos, Abigail e Izoldino, ou com meus avós paternos, Maria Olinda e David, foi assim com os meus pais, Antônio Joaquim e Lázara Antônia, com meus padrinhos, meus tios, meus primos, meus irmãos e, finalmente, comigo.

Desde o começo do nosso relacionamento, meu companheiro demonstrou compartilhar desses valores - mesmo tendo uma história familiar completamente diferente -, o que me fez ficar encantada por ele desde o primeiro instante.

Mesmo sem precisar fazer isso, no 2º encontro ele já estava me acompanhando e ajudando ativamente nas feiras que eu fazia para vender os biscoitos da minha mãe e, a partir de então, ele passou a abdicar de seus dias de descanso quase todos os fins de semana para me acompanhar.

Depois de sonhar por tanto tempo - quase 34 anos - por um amor como o dos meus avós, eu finalmente encontrei alguém com quem poderia contar em todos os momentos, incondicionalmente, todos os dias.

Há alguns meses descobrimos que minha sogra estava doente e já não poderia mais morar sozinha. Trouxemos ela para a nossa casa onde, entre idas ao médico, cirurgia de emergência, traumas familiares e aperto financeiro, temos fortalecido a nossa união diariamente.

No final das contas, eu descobri que o amor não é sobre saber se a outra pessoa vai correr atrás de nós num aeroporto pedindo pra ficarmos[3], mas sim sobre segurar a mão do outro nos piores momentos de nossas vidas.

REFERÊNCIAS

[1] Izoldino Casal Batista faleceu em 12.11.1980;

[2] Abigail Evaristo Casal faleceu em 13.01.2004; e

[3] Referência: Caju - Liniker (Caju - 2024)


BECA CASAL













Segundo suas palavras:


Escritora e poetisa sul-mato grossense, Beca Casal é romântica e sonhadora.

Formada em Tecnologia em Processos Gerenciais pela UFMS (2021), trabalha com marketing digital desde 2014..

Ela é autopublicada pela Amazon e está em processo de produção do seu próximo livro de poesias.


Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Ano passado eu morri


 Autora: Beca Casal (*)

Quando se vive e respira em função de um sonho, de um objetivo, a morte deste sonho, ou deste objetivo, leva consigo um pedaço muito importante de nós. E foi assim que, em setembro de 2023 eu morri.

Nota ao leitor: não se preocupe, estou longe de pretender encarnar a persona feminina de Brás Cubas e transformar esta leitura em uma versão contemporânea e desinteressante de Memórias Póstumas. Prossiga com tranquilidade.

Não foi uma morte rápida e indolor, entretanto. Pelo contrário, agonizei o fracasso por meses a fio antes de sepultar aquele sonho que norteou os meus dias por três longos anos. E quando finalmente me vi frente a frente com sua lápide, pude então parir e renascer uma nova versão de mim mesma. Mas não sem antes passar por todas as fases do luto.

Primeiro veio a negação. Eu simplesmente não podia acreditar no que estava acontecendo. Tinha de haver uma saída, uma alternativa, uma forma de negociação... Passado um ano inteiro desde aquele fatídico dia, chega a ser difícil conseguir me lembrar em detalhes o que vivi, tamanho foi o choque que senti ao ouvir aquele não.

Então veio a raiva. A tentativa infrutífera de tentar encontrar culpados por tudo aquilo. Culpei a mim, culpei a outros, culpei a agente que me atendeu, culpei a minha honestidade, culpei a Deus e o mundo pelo meu infortúnio.

A barganha andou lado a lado com a raiva, ao passo em que eu tentava encontrar meios desesperados de prosseguir com os meus planos, mesmo contra todos os indícios de fracasso. Se eu tentasse mais um pouco... se me esforçasse mais... se tivesse mais dinheiro... se corresse contra o tempo... se... se...

A depressão veio quando me faltaram forças para prosseguir. Quando todas as esperanças se foram e viver significava apenas acordar sem vontade de levantar da cama, preencher meus dias com o máximo de atividades possíveis e dormir com vontade de não acordar novamente. Acho que essa foi a fase mais longa e dolorosa do luto pelos meus próprios sonhos.

Por fim, a aceitação chegou de mansinho quando percebi que acordava ansiosa para viver o novo dia, quando novos sonhos e novos planos passaram a fazer parte dos meus pensamentos, quando eu finalmente deixei de pensar "era para eu estar naquele lugar agora"...

Eu precisei vivenciar todas as fases do luto para finalmente renascer, finalmente florescer novamente, finalmente ver o raiar de uma nova primavera, finalmente me libertar para a possibilidade de encontrar novos sonhos pra sonhar.

A superação, no entanto, não foi mérito único e exclusivamente meu. Foi um trabalho coletivo, que se iniciou no abraço carinhoso das amigas, encontrou força na confiança profissional que me foi depositada e culminou na descoberta de um amor pra vida toda.

No final das contas, o amor me salvou de mim mesma, tornando possível dizer que sim, tal qual cantou Belchior, ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro.

*BECA CASAL 
















Segundo suas próprias palavras:

"Escritora e poetisa sul-mato grossense, Beca Casal é romântica e sonhadora.
Formada em Tecnologia em Processos Gerenciais pela UFMS (2021), trabalha com marketing para artistas.
Publicou recentemente "Vermelho Invisível", seu 4º livro de poesia autopublicado pela Amazon.

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.