Mostrando postagens com marcador Retratos do Cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Retratos do Cotidiano. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de julho de 2026

A difícil arte de saber parar


 

©️2026 Edson Alves Domingues



Eu busquei uma profissão; consegui duas. Eu queria trabalhar e consegui começar aos 14 anos; aos 21 tinha sob minha responsabilidade mais de 20 pessoas. Fiz uma carreira, e cheguei a ter mais de 300 pessoas que eu dirigia, coisa inimaginável para um moleque que jogava bola de meia na rua.

Muitas atividades, deveres e responsabilidades, algumas homenagens, reuniões, orientações, até que um dia chegou a hora ou oportunidade de parar. É cedo? Tarde? Não sei. Só que é uma decisão individual que você partilha, pede conselhos, mas é só sua.

Num dia, você é o chefe; no outro é o ex-chefe, ganha um novo número, que vai reger a sua vida desde então, e as lembranças daquele lugar vão se esmaecendo. Os amigos e companheiros de trabalho que você deixou, também se aposentam e você passa a ser apenas uma vaga lembrança, algumas fotos, que com o tempo amareleceram e deixa aos poucos de habitar na lembrança do lugar e das pessoas.

A recordação é só sua. Ficaram nas fotos que você tem, nos cartões de homenagem que recebeu, que guardou.

É claro que aqui dentro fica o senso de dever cumprido, de ter feito o melhor, o orgulho de ter participado de algumas histórias. Essas lembranças são suas.... são a sua vida.

EDSON ALVES DOMINGUES













Psicólogo formado pela Universidade de Guarulhos – 1977;
-Especializado em Psicodrama, com titulação em Terapeuta, Terapeuta de Alunos, Professor e Supervisor pela Federação Brasileira de Psicodrama; 
-Especializado em Terapia de Casais e Família pelo Instituto Bauruense de Psicodrama e
-Psicólogo Clínico, por 20 anos. 


Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Juvenal


 ©️2026 Benedito de Godoy Moroni

Esta é uma história real. Alteramos as identidades a fim de evitar eventuais constrangimentos.

Há muitos anos, a família Moreira morava em sua fazenda nas imediações da cidade e tinha, entre seus empregados, Juvenal. Este era um dos mais antigos empregados e tinha a inteira confiança de Fernando, o pai da família.

Juvenal, mesmo tendo cursado apenas o primeiro ano do antigo Curso Primário, hoje Ensino Fundamental, sempre procurava esmerar-se em cumprir suas tarefas. Era um verdadeiro "faz de tudo" na fazenda. Era muito simples, exercia diversas tarefas, entre elas a de motorista (mesmo não tendo habilitação). Sem dúvida, tornou-se personagem de fatos no mínimo inusitados.

Vale lembrar que em certa ocasião Juvenal estava dirigindo o Jeep da fazenda.Lá pelas tantas, aparece na estrada uma placa branca, grande. Ele, querendo ler a palavra escrita, mas não sabendo direito começou a ler soletrar o contido na placa:
-Veeeeeeeeeee, aaaaaaaaaaaa, eleeeeeeeeeeee, eeeeeeeeeeeee, teeeeeeeeeeeeee ...Antes de pronunciar a última letra da placa, o Jeep cai na VALETA!!!!!
Por sorte de Juvenal os estragos foram poucos e ele não saiu ferido.

Alguns dias depois., Juvenal foi à cidade e trouxe o Jeep consertado. Após guardar o veículo, foi até a cozinha da casa que era a residência dos donos da fazenda. Ele conversou um pouco com a cozinheira Hermenegilda e tomou um cafezinho.

Nisso ouviu Dona Maria, a mulher de Fernando, ensinando o filho Orlandinho a cantar o Hino Nacional Brasileiro. Juvenal  quieto, ficou observando tudo.O rapazinho, que estava na fase da mudança de voz, desafinadamente, procurava entoar o hino, mas sempre esquecia ou trocava alguma parte da letra.

A mãe mostrava como era o certo e continuava a ensinar, mas o garoto persistia em errar.

Ela, já desesperada, falou:

- Orlandinho, garanto que o Juvenal só de tanto ouvir eu ensinando você, já sabe cantar esse hino, não é Juvenal?
- "Craro" que sei Dona Maria. Ainda mais que essa modinha é bem antiguinha.

No dia seguinte Juvenal foi buscar Orlandinho na escola que ficava na cidade.

Chegando lá fica esperando o rapazinho. O tempo passa e parece que todo mundo já saiu, menos Orlandinho. Juvenal começa a ficar nervoso, pois sua mulher era muito ciumenta e ele sabe que ela poderia pensar que ele demorou para voltar por estar envolvendo-se em algum caso na cidade.

Nisso o garoto aparece e vem até Juvenal. Conta-lhe que encontrou apenas a letra do Hino Nacional Brasileiro e não estava conseguindo achar a letra do outro hino e era para o motorista esperar mais um pouco.

- "Quar o que tá fartando?"– perguntou Juvenal.
- Aquele que fala: Salve lindo pendão da esperança. – respondeu Orlandinho.
- Se é só por isso, "bamo" embora agora "mermo". Deixe o "SARVELINO" por minha conta! – arremata Juvenal já dando partida no carro.

Mas não teve apenas isso. Certo dia, Juvenal é chamado pelo patrão, o qual determinou-lhe que no dia seguinte era preciso buscar umas freiras, as quais viriam visitar a fazenda. Elas eram professoras em um colégio religioso para alunas internas onde Cláudia, filha de Fernando, estudava. Tratava-se de uma visita informal em resposta a um convite feito pelo pai da menina.

Logo pela manhã Juvenal começou a dar os toques de limpeza do carro para ir buscar as freiras com o veículo impecavelmente limpo. Como ele era muito caprichoso, não se esqueceu de limpar e tirar todo e qualquer vestígio de qualquer coisa que não deixasse impecável o carro. Contudo, isto tomou-lhe muito tempo e deixou-lhe pouco tempo para buscar as freiras.

Imediatamente foi limpar-se e preparar-se para ir à cidade.
Em seguida, partiu para desincumbir-se da missão a que fora designado.

Todavia, naquele dia a polícia estava fazendo uma blitz na estrada.

Quando o guarda lhe pediu os documentos do carro, Juvenal respondeu calmamente:

- Seu guarda, o Dr. Fernando, que o senhor conhece, mandou "eu buscá umas freira que tão na Estação de Trem e viero pra visitá" a fazenda.Como "percisei limpá o carro pra buscá as freira"esqueci de "pegá os decumento que tão na Palestina".
Como o guarda conhecia Juvenal e Dr. Fernando, mesmo não entendendo direito que história era essa dos documentos estarem na Palestina, liberou o motorista.

Para esclarecer o leitor, no caso Palestina era o nome dado pela família a uma caixa especial onde guardavam-se documentos e outros papéis importantes e não o território do Oriente Médio, região sudoeste da Ásia.

Mas a história não acabou aí...
Juvenal foi até a estação, pegou as freiras e pôs-se a caminho de volta à fazenda.

Quando passava novamente pela blitz policial, que ainda permanecia no mesmo lugar, Juvenal parou e mostrando as freiras falou ao guarda:

- Olha as "tarzinha aí atrais que eu fui buscá".

Ao guarda não restou outra coisa a fazer, a não ser sorrir da situação e dar o caso por encerrado.

Chegando na fazenda, as freiras foram recepcionadas por Dona Maria e Fernando.

Na cozinha, Orlandinho perguntou à cozinheira:

- Gertrudes, qual é o menu de hoje?
- "Que é isso minino. Que farta de respeito é preguntá pra mim quar é o ómi nu de hoje? Eu num dei liberdade pra você falá essas coisas pra mim. Num se esqueça que sou uma muié de respeito e sirvo de vossa avó. Num admito essas liberdade de você".

Em seguida Gertrudes foi até Fernando e reclamou:

-Seu Fernando, venho "fala" uma coisa "pro sinhor". O "minino fartô cum o respeito cumigo agorinha mermo"!
- O que o Orlandinho fez? – perguntou Fernando.
- Ele veio "preguntá pra mim quar era o óme nu" de hoje!

Fernando entendeu imediatamente que se tratava de uma interpretação errada, entretanto, para não magoar a cozinheira respondeu-lhe:

- Nossa Gertrudes, isso é muito sério. Vou chamar a atenção dele, pode deixar. Vou falar para ele que isso é muita falta de educação e respeito. Que nunca mais repita isso com ninguém, principalmente com uma pessoa tão boa e querida como você.

Gertrudes acalmou-se, contudo o assunto ficou martelando em sua cabeça. Desconfiada foi procurar Juvenal para desabafar. Encontrou-o preparando-se para o jogo de futebol na fazenda. Perguntou a ele:

- "Juvenar, o que é esse tar de ome nu"?
Juvenal procurou esclarecer e disse:
- Não fique preocupada Gertrudes com o que o Orlandinho "falô". - e continuou:
- Seu Fernando, sempre que "nóis pára na estrada pra comê e o garçom pregunta oque nóis vai cumê, ele responde: o menu. Intão o garçom traiz fejão, arrois, bife, ovo e salada de tomate. O menu é cumida e não oque ocê tá pensando, muié que só pensa coisa ruim".

Gertrudes não fica muito contente, mas aceita a explicação.

No começo da tarde desse dia o jogo de futebol desenrolou-se normalmente até que, na metade do segundo tempo, um adversário derrubou na grande área jogador do time no qual Juvenal estava jogando.
Penalti!!!!

Juvenal imediatamente pega a bola e, antes de colocá-la na marca de pênalti, vai até Fernando, que assiste a partida torcendo para o time de Juvenal e lhe segreda:

- "Vô chutá um pênis em homenagem" ao senhor!

Fernando, imediatamente, replica:

- Juvenal, pelo amor de Deus, Juvenal, não faça isso!!!!!

BENEDITO DE GODOY MORONI














-Graduado em Direito  pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Universidade de São Paulo(1972); e

-Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Venceslauense de Letras. 

Nota do Editor:
Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

segunda-feira, 23 de março de 2026

O outro GG




©️2026Benedito de Godoy Morone

Esta é uma história real. Alteramos as identidades a fim de evitar eventuais constrangimentos.

Na cidade de Abaetetuba, havia um rapaz, membro uma família rica, com o nome Gilberto Gomes de Oliveira. Para diferenciar-se e dar glamour a seu nome, resolveu passar a apresentar-se como GG Oliveira (ou simplesmente GG). Essa maneira de identificá-lo torna-se conhecida e utilizada na cidade quando se referiam ele.

A moda "pegou". Logo o José Bernardo passa a apresentar-se como JB, José Rubens torna-se JR, Mauro Couto vira MC e assim por diante.

Carlinhos, um rapaz simples, semialfabetizado, ouve pessoas falando sobre GG e comentando os feitos dele, com foco na sua privilegiada situação financeira e social. O jovem acha aquilo bonito e resolve que seu nome, a partir daquele momento, mesmo sendo Carlinhos, passará a ser, também, GG. De início praticamente ninguém o chamava assim, mas com o tempo e insistência de Carlinhos, este nome passa a existir e passam a chamá-lo de GG, como ele queria.

A vida de Carlinhos, então com o nome de GG, tem passagens interessantes.

Vamos a algumas delas:

Como gostava de participar de grupo musical, conseguiu tornar-se integrante da banda da escola de samba. Seu "instrumento" era a frigideira que, diga-se de passagem, ele se saia bem, pois tinha ritmo e, no grupo, estava sempre alegre e animado.

Frequentemente ele encontrava-se com Cidinho, proprietário de um posto de gasolina, com o qual conversava sobre todos e tudo. A ele GG, certo dia, contou:

- Sabe, no meio da semana atrasada, uma família, que iria viajar no sábado daquela semana e ficar 15 dias na praia, ofereceu um "bico pra mim vigiar" a casa deles, enquanto eles estavam fora. Ofereceram uma "grana" boa e o serviço era moleza.

- E você aceitou?

- Não pensei duas vezes e aceitei. A família viajou no sábado e eu lá, vigiando a casa. Malandro, o senhor sabe, existe em toda parte. Por isso fiquei "ligadão para não dar bandeira ou moleza” a nenhum sacana. No sábado, no domingo, na segunda-feira e na terça-feira, tudo foi tranquilo e correu bem, sem nenhum problema. Na quarta-feira, enquanto eu esperava o tempo passar, pensei: a casa "tá pouco utilizada", que tal se eu aproveitasse o sábado para fazer um "bailinho" e ganhar uns trocados a mais?

- Mas você pensou nisso GG? Usar a casa que você estava sendo pago para vigiar e fazer nela um “bailinho”? – perguntou Cidinho.

- É claro, "os dono” disseram que só "vortavam" no final da outra semana. Assim eu fazia o "bailinho" e depois da festança deixava tudo em ordem "pra quando eles chegasse nem notarem nada.

- Mas e daí, como foi? Perguntou Cidinho, sobre o desenrolar do caso.

- No sábado a turma convidada começou a chegar, até mais cedo do que o combinado. Eu pedi "pro" Joãozinho "ficá no barzinho" do quiosque perto da piscina. Usei o frízer e a geladeira da casa para as bebidas. Até uns salgadinhos arrumei. O Joãozinho "tava" perfeito como garçom. As caixas de som do aparelho da casa, passei pela janela e coloquei "elas virada pra piscina". Os discos e fitas eram dos mais variados tipos de música que a molecada gosta.

- Mas você é maluco GG? Não ficou preocupado com a possibilidade de acontecer algum imprevisto e "melar" tudo? perguntou Cidinho.

- Que nada, "pra mim, tinha certeza: tudo ia dar certo". E assim foi, das 10 h oras da noite até as duas horas da manhã. Aí, "queimou a fita" e a coisa ficou preta...

- Como assim? perguntou Cidinho.

- Advinha quem entrou na casa e viu aquela bagunça que até parecia uma bacanal... "OS DONO DA CASA" que "viero" antes do combinado! "Deu ruim geral". A turma saiu correndo, com alguns deixando até o chinelo. Teve outros que precisaram pular o muro para não ouvir os gritos "dos dono" da casa. Foi terrível.

-E daí? – quis saber Cidinho.

- Acredite! “Os dono me xingáro e não pagáro os dia” que trabalhei. Até ameaçaram chamar a polícia. Seu Cidinho, vou “dizê uma coisa pro senhor”: tem gente ingrata que não sabe “valorizá o serviço dos outro e nem cumpri com o combinado”. Eu senti isso na minha pele...
....................................................................................................
Certo dia GG contou a Cidinho que haviam acusado sua mãe, Dona Cláudia, de manter uma casa de prostituição na cidade e já tinham marcado para ele depor na delegacia. Esclareceu, também, que nem sabia o que e como fazer nesse caso.

Condoído pela situação em que GG encontrava-se, Cidinho reuniu alguns amigos para ajudar GG.

Contrataram um advogado experiente para orientar GG, a fim de conseguir, ao menor, minorar a pena da mãe dele.

Com o cartão do causídico, GG foi até o escritório do mesmo.

Após esperar a saída do cliente que estava sendo atendido, GG foi convidado a entrar na sala do advogado para conversarem.

O advogado falou a GG que, a pedido de Cidinho, já lera atentamente todo o processo e o caso precisava de muito cuidado, pois a acusação do Ministério Público era forte e poderia resultar na prisão de Dona Cláudia.

- O senhor prestou bem atenção ao que contei? - arguiu o advogado.

- Sim senhor. – respondeu GG.

- O senhor tem boa memória? Não se esquece se combinarmos o que deve falar quando estiver com o juiz? – continuou o advogado.

-Minha cabeça é muito boa e, se combinar pra dizer uma coisa, fique tranquilo, eu não esqueço, não senhor. – afirmou GG.

- Então, quando o juiz perguntar ao senhor alguma coisa, basta responder para ele o seguinte: QUE EU SAIBA, NÃO!

- Só isso, doutor?

- Só isso, não tagarele que em boca fechada não entra mosca. – concluiu o advogado.

- Pode deixar doutor, no fórum vou seguir direitinho sua orientação, pode ficar tranquilo. – arrematou GG.

Chegando o dia designado, a audiência é realizada.

Após a mesma, no posto de gasolina de Cidinho, os amigos aguardam ansiosos por saber como GG saiu-se no tribunal.

Ele chega e fala:

- Pessoal, vou contar direitinho como foi lá no fórum.
Eu e o advogado “ficamo" na sala de espera e ele "falô" baixinho pra mim:

- O senhor não se esqueceu do que deve "falá" quando o juiz "perguntá as coisa pro senhor", certo?

- Fique tranquilo. Treinei bem em casa. – respondi.

- "Passa uns minuto" e começa a audiência. Depois eles “chamaro eu”. Entrei e sentei na cadeira que "mostraro". Depois o juiz começou a"perguntá":

- O senhor sabe se Dona Cláudia vende bebida alcoólica na casa dela?

- Que eu saiba, não. – respondi.

- O senhor sabe se Dona Cláudia aluga, na casa dela, quarto para casais? – "continuô" o juiz.

- Que eu saiba, não. – respondi.

- Por acaso o senhor sabe se na casa de Dona Cláudia já houve briga ou brigas de pessoa ou pessoas que estavam lá? - "perguntô" o juiz.

- Que eu saiba, não. – respondi de novo.

- Vendo a filiação do senhor que consta aqui no processo, o senhor é filho de Dona Cláudia? – "perguntô" o juiz.

- Respondi firme e confiante, conforme tinha combinado com o advogado:

- Que eu saiba, não!

Como se fosse uma só voz e ao mesmo tempo, os amigos perguntaram:

- E daí, GG, o que aconteceu?

- "A véia ficô em cana!" – respondeu ele.
....................................................................................................

Um dia GG chegou no posto de gasolina com o braço em uma tipóia.

Cidinho, dono do posto, todo preocupado quis saber qual o motivo desse machucado.

GG, cochichou para ele:

- "Psiuuuu, não é nada não. É só pra fazê tipo. Tô só fazendo que tô machucado pra consegui tapeá troxa e ganhá uns trocado sem precisá trabalha".

E assim foram outras vezes em que GG aparecia com a mão enfaixada ou o rosto cheio de esparadrapo. Tudo para ficarem com dó dele, darem alguns trocados, e ele não precisasse trabalhar.

O tempo foi passando, e GG não mudou seu modo de vida. Só "fazia um bico" quando ficava completamente sem dinheiro.

Certa manhã um freguês do posto de gasolina, conversando com Cidinho, contou estar sabendo que GG morrera naquela noite e o corpo estava no velório municipal.

Cidinho ficou consternado, afinal era o falecimento de uma pessoa divertida e querida. Depois de deixar tudo em ordem no seu estabelecimento e avisar amigos sobre o acontecido, dirigiu-se ao velório. Lá chegando, triste, foi prestar sua homenagem ao falecido. A funerária havia colocado flores no caixão em torno do corpo, quatro velas acesas em volta do caixão e até uma coroa com os dizeres "Saudades dos Amigos. GG, descanse em paz".

Entretanto, olhando bem o morto, Cidinho notou o que parecia um leve sorriso no rosto de GG. Afastou-se e ficou olhando, certo de que logo, logo, GG levantaria do caixão e diria que era brincadeira, rindo do susto de todos:

- Enganei todo mundo, NÃO MORRI AINDA. Vocês "vão ter que aguentá eu por muito tempo".

Claro que seria um grande susto, mas coisa bem próprio de GG.

Contudo, o tempo passava e só silêncio no velório. Porém, aquele leve sorriso que GG apresentava, deixava Cidinho inquieto.

Isto foi aumentando a dúvida de Cidinho, que pensava:

- Será que é agora que o GG vai levantar do caixão? Se é mesmo brincadeira, ele já está levando isto por muito tempo.

Cidinho pensou no que fazer para ter certeza de que, realmente, GG estava morto ou brincando.

Aí teve a ideia de fazer uma coisa que já vira em um filme: espetar a mão do falecido com um alfinete para confirmar se ele estava realmente morto. Até procurou pelo local um alfinete, entretanto não achou nenhum. Viu que era melhor abandonar essa ideia louca.

Todavia, o sorriso maroto ainda estampado por GG estava deixando Cidinho quase maluco. Foi quando viu no chão um palito de dente. Discretamente, como quem está arrumando os cordões dos sapatos, ele pega disfarçadamente o palito. Fica em pé e, em um momento que parecia ninguém estar prestando atenção, chega ao lado de caixão, colocar suas mãos sobre as mãos de GG, como que para despedir-se dele, pega o palito e espeta-o nas costas da mão do morto, esperando ouvir um grito do "morto" que pararia aquela encenação.

Nessa hora, quem quase dá um grito é Cidinho.

GG estava morto mesmo.

BENEDITO DE GOODOY MORONE












-Graduado em Direito  pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Universidade de São Paulo(1972); e

-Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Venceslauense de Letras. 
Nota do Editor:
Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

O Abismo


 

©2025 Elvis Oliveira Magalhães 

Por entre minúsculas pedras movediças caminhava o eremita, longe de todos aqueles iguais da sua espécie, ele se afastava cada vez mais para bem longe, distante o mais que pudesse daquilo que lhe tornava humano. As pedras tilintavam ao toque dos seus pés crus em cada ponta cortante de cada uma delas. Ao olhar para o longo horizonte, ele se dá conta que está só, realmente só diante de um grandioso abismo. Era o fim da linha, temia olhar para baixo e descobrir que este abismo, tal qual o do filósofo, também o olharia de volta. Deteve-se por alguns minutos. Buscou o fôlego e a coragem para dirigir o olhar para o fundo do precipício. Olhou! Nada! Este abismo não devolve a encarada que lhe dão, é diferente. Sentou-se, meio que decepcionado, esperava que seu olhar fosse retribuído, mas nem ao menos isto. Sentou-se de forma cômoda nas pedras que antes feriam seus pés, fechou lentamente os olhos e começou a meditar diante daquele imenso abismo a beira de si. Sua voz soava alto, ecoava bem forte dentro de sua própria cabeça, de modo que chegava a incomodar de tão retumbante em cada palavra proferida. Foi aí que o abismo cego, aquele que não o olhou, deixou de ser mudo e passou, não se sabe como, a responder cada um dos questionamentos levantados pela mente do eremita.

Ao som da primeira pergunta, aquele "e se" meio que despretensioso, uma voz gutural emergiu lá do fundo, subindo veloz como ar quente vindo a atingir os ouvidos do solitário questionador e ecoando por todo o deserto.

E se eu tivesse feito diferente todas as coisas que já fiz, se tivesse entrado na esquerda ao invés da direita, seguido em frente ao invés de ter parado, como teria sido, onde chegaria? O abismo lhe respondeu:

-Você não estaria aqui diante de mim, não poderia sequer formular tal pergunta, pois somos o que somos por que fizemos as coisas exatamente da forma que fizemos para nos tornarmos quem somos agora.

O eremita sobressaltou-se, não estava esperando uma resposta, ainda mais vinda do abismo. Imaginou então que era necessário ouvir o que este tinha a lhe dizer, acreditava que aquilo fosse algo mais do que apenas palavras vindas de sua própria mente.Continuou a perguntar.

E se eu tivesse falado o que sentia, se tivesse expressado melhor meus pensamentos ou me comunicado melhor com os outros ao meu redor, se não deixasse de falar tudo aquilo que sinto por quem amo, como teria sido? O abismo respondeu:

-Aquilo que não conseguimos expressar com palavras, é melhor que seja dito no mais absoluto silêncio.

O eremita ouvia aquelas palavras como se fossem um bâlsamo para a alma, não sentiu, pela primeira vez, uma acusação, um julgamento ou reprovação, eram explicações lúcidas e reconfortantes que lhe aliviavam o espírito e libertavam sua alma.

E se eu não for uma boa pessoa, se eu não respeitei quem merecia, ou machuquei quem amava, se de certa forma eu fui, durante toda minha vida, uma pessoa má, como posso ser perdoado? O abismo responde:

-Não podemos ser tão ruins ao ponto de não podermos ser perdoados por quem ofendemos.

O coração do eremita relaxou, sentiu-se mais leve que as nuvens do céu, tão leve como uma pena numa ventania, assim ele jubilava e regozijava-se ao som de cada palavra proferida. Não mais sentia o peso da existência em seus ombros, estava liberto do exercício da dúvida e da culpa. Levantou-se devagar, abriu os olhos como nunca os tinha aberto antes. Olhou em volta, depois olhou para o abismo e assim, de olhos abertos, bastante vibrantes, fez uma última pergunta.

E se eu pular, você me receberá tal como sou em carne, sangue e espírito? Receberá meu corpo e minha alma da forma como te entrego? Ao fim da pergunta, ele pulou! Mas, dessa vez, o abismo nada pode lhe responder, apenas o recebeu de braços abertos em sua imensa profundidade.

ELVIS OLIVEIRA  MAGALHÃES














São suas palavras: 
"Sou  formado em Administração de Empresas,  estou cursando Filosofia e sou Escritor por paixão"
Autor dos livros:
  - O Colegial - Romance e
  - Macho Machista 
Ambos disponíveis na Amazon e-book. 

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Anjos


 


Autor: Edson Alves Domingues (*)

Cada pessoa olha e vive a vida como crê. As escolhas e o rumo que cada um toma durante a existência são inspirados por uma força maior, que cada um explica de acordo com o que sente.

Poderia ser um anjo, um parente, um anjo da guarda, um espírito de luz, um guru, ou apenas a própria intuição, mas sinto que há uma inspiração de algum lugar inexplicável.

Quando decidi meus rumos, e iniciar meus cursos, quando consegui me formar apenas alguns dias após a partida do meu pai, alguém, ou algo me deu forças.

Quando mudei o meu trabalho, embora mais complicado, acredito ter sido ajudado; ao escolher a minha companheira, ao conceber meus filhos, ao decidir mudar de local de trabalho para acompanhar o crescimento das minhas filhas, algo me iluminou.

Cada decisão que tomei, de quase nenhuma me arrependi, e olhando para a minha história, modesta, e com poucas emoções, mas com muito companheirismo e amor em cada momento, senti um ombro amigo, protetor junto de mim, sempre preocupado em ser o mais justo possível.

Nos meus pensamentos, sempre agradeço a luz que me ilumina, e acredito ser de alguma forma divina, em cada momento da minha vida.

As alegrias imensas que tive, nas crises e tempos difíceis, sinto que nunca estive só; havia algo me dando forças e suporte em todos os caminhos que trilhei, e ainda vou trilhar.

Quero agradecer cada instante de vida que tive, fácil ou difícil, mas que vivi e vivo do jeito possível, procurando olhar tudo com otimismo e esperança, curtindo cada pôr ou nascer do sol e da lua, cada raiz ou folha de árvore que vejo, cada flor ou espinho, cada crítica ou conselho que me faz crescer, cada momento de vida.

Vivo a vida, e amo cada um que me rodeia, ainda que no meu silêncio, e sou grato por isso.

*EDSON ALVES DOMINGUES













-Psicólogo formado pela Universidade de Guarulhos – 1977;

-Especializado em Psicodrama, com titulação em Terapeuta, Terapeuta de Alunos, Professor e Supervisor pela Federação Brasileira de Psicodrama;

-Especializado em Terapia de Casais e Família pelo Instituto Bauruense de Psicodrama e

-Psicólogo Clínico, por 20 anos.

 Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores. 

segunda-feira, 28 de abril de 2025

O Amor e a Desilusão


 Autor: Elismar Santos (*)


O amigo que me possibilitou a história não pediu segredo; mas, a fim de manter a sua dignidade e o amor próprio, deixá-lo-ei no anonimato. Assim, contarei o milagre, mas não direi quem é o santo, como dizem as más línguas. O certo é que estávamos em algum barzinho, numa noite qualquer, quando ele veio com boa nova: "Estou apaixonado! ".

Como de praxe, ainda que sem tanta emoção, dei-lhe os parabéns, e já pularia para falar do Atlético e do Cruzeiro, quando ele resolveu continuar o assunto. Ainda que eu não mostrasse grande interesse, disse que era a mulher perfeita, que era trabalhadeira, que não tinha filhos, que queria ser advogada e que, embora fosse quinze anos mais nova que ele, tinha a cabeça de uma mulher vivida.

Pelos atributos físicos relatados, era mesmo uma bela moça, com todas as qualidades para fazerem um homem como ele feliz. Nunca tinha sido de se apaixonar e, se o fazia, logo emaranhava-se em outros braços e esquecia a pobre namorada. Mas agora era diferente; os olhos dele brilhavam, sua voz embargava-se e suas palavras saíam doces e melodiosas. Estava realmente laçado pelo amor.

Por curiosidade, resolvi adentrar no assunto puxado e perguntei-lhe mais algumas informações sobre a pequena. Ele não sabia ao certo com o que ela trabalhava; viajava nos finais de semana para Montes Claros e voltava na segunda-feira. Durante a semana, dizia cuidar da avó adoentada que morava sozinha numa casa afastada da cidade. Encontravam-se, às escondidas, no meio do caminho, entre a cidade e a casa da velhinha, porque ela dizia ainda não estar pronta para assumir o novo namorado. Fazia tempos, assim dizia ela, que fora apaixonada e não queria sofrer de novo.

Mas ele acreditava nela e até admirava tamanho recato, afinal, ele era um sujeito conhecido pela cidade e afamado pelos seus inúmeros namoros e mulheres iludidas. Agora era diferente, havia encontrado a mulher dos seus sonhos. Já se via casado com ela, com os filhos correndo pela casa e o cachorro latindo feliz no colo da empregada. Ela teria uma vida de princesa, acordaria à hora que quisesse e comeria do bom e do melhor.

Perguntei se ele não estaria se precipitando, se não estaria simplesmente apaixonado; afinal, mal sabia o nome daquela jovem, não fazia ideia de onde trabalhava, de quem era de verdade, dos seus sentimentos, nem das suas pretensões. Ainda lhe disse que talvez fosse melhor afastar-se um tempo e esperar que seu coração se acalmasse, para, então, entender o que ambos queriam.

Ele não aceitava o meu pensamento e já ia me dizer que tudo não passava de ciúmes, de medo de perder nossa amizade; quando, de repente, seus olhos perderam todo viço, adentrando numa profunda desilusão: toda sorridente, a mulher dos seus sonhos chegava no barzinho abraçada com um rico rapaz.

* ELISMAR SANTOS













-Professor de Língua Portuguesa;

-Poeta, Escritor e Locutor;

-Mora em São João da Lagoa, Norte de Minas Gerais; 

-Possui quatro livros publicados: Sanharó (Romance),
Mutação (Poesia), e
A Pá Lavra (Poesia e O Poeta e Suas Lavras (Poesia). 

Seus textos podem ser lidos também em www.elismarsantoss.blogspot.com

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Por que devemos ser contra o etarismo ?


 

Autor: Gustavo Capucho da Cruz Soares (*)


Antes de iniciar esse texto, em novos tempos, se faz necessário definir o que é ETARISMO. "O etarismo é o nome que se dá para as práticas discriminatórias realizadas contra uma pessoa com base em sua idade. Essa discriminação é fruto de estereótipos que são construídos contra um grupo de pessoas de idades diferentes da nossa."

Veja mais sobre o "Etarismo" em:
https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/etarismo.htm

50 anos.... meio século de vida.... medimos a nossa vida por anos... cada ano com uma métrica muito bem definida: segundos, minutos, horas, dias, anos.... e assim por diante...

Chegando aos 50 anos, resolvi radicalizar esportivamente.... Resolvi aprender a nadar com técnica... Nunca havia pensado a respeito disso, mas, por uma iniciativa de meus filhos, resolvi fazer isso.

Cheguei na piscina, aquecida, é lógico e me senti muito bem, pensei comigo, cinco ou seis idas e voltas seriam fáceis a mim. O professor, muito bem intencionado, me disse: "entre na piscina e nade".... obedeci prontamente.... Nadei 5 braçadas, o professor já não tão solícito gritou em alto e bom som: "saia da piscina agora, você não sabe nadar, vai se afogar e me dar trabalho para te tirar daí...."

A piscina estava lotada......de crianças, 5, 6 e 7 anos.... que riram demais daquela situação. Eu ???? Envergonhado, mas ciente de que ele estava correto.... jamais havia nadado uma piscina inteira....

Naquele dia, saí da piscina pensando que deveria voltar e não me dar por vencido.

Dia seguinte, piscina, mesmo horário.... Fui apresentado a uma pranchinha de isopor... nadei 5 metros.... afundei com ela....(que fase !!!).... O professor me deu 2 pranchinhas, uma por cima da outra.... Disse que assim não me afogaria...

Nadei imensas e intermináveis duas piscinas com pranchinhas... e fiquei na borda fazendo respiração.... estava com a minha autoestima no lixo... as crianças nadando, iam e voltavam com uma precisão mensurada pelos relógios suíços....

Fui embora. Pensava se devia ou não voltar, afinal aquilo não estava me fazendo diferença, já estava em quase meio século de vida e saber nadar nunca havia sido um problema.

Mas, resolvi voltar, teimosia (!).

Foi quando me deparei com outros "artefatos", no mínimo curiosos.

Me apresentaram um "palmar", pares de nadadeiras, "nose clip", uma prancha de isopor que colocava no vão das pernas.... comecei a imaginar os equipamentos e aludir a cada um deles com “equipamentos” vendidos em uma Sexy Shop.... confesso, ri demais.

Nessa toada, passaram-se 3 meses (mais uma métrica de tempo).

Comecei a me movimentar na água.... sem bebê-la.... e isso para quem não sabe nadar é um grande feito, afinal, divido a piscina com bebês, crianças, jovens, adultos, melhor idade.... e, com toda a sinceridade do mundo, às vezes não dá para saber quem foi que se "aliviou" dentro da água.

Verdade seja dita, já estou há quase 12 meses nadando, intercaladamente, dia sim e dia não, hoje, já estou chegando no 1,5km, me sinto muito bem, aumentou a autoestima e meu corpo dá sinais de recuperação, após tanto tempo de letargia (futebol de finais de semana).

Nesse tempo é evidente que bebi água, sofri com contusões, afoguei, venci etapas, ganhei mais de 5 cm de pescoço, perdi camisas de trabalho, mas ganhei em vitalidade, ganhei em todos os aspectos da vida.

Por fim apesar de todos os aspectos acima expostos, restam evidentes que essa aventura aos 50 anos se mostrou positiva na minha vida, hoje me arrependo de não ter realizado essa atividade com menos idade....(nem sei se me arrependo, acho que, sinceramente, nessa idade vivo a melhor fase da minha vida). Viver a vida, ser feliz, conhecer um novo lugar, um novo amor, um novo velho amor não há idade.... O importante a cada um de nós é ser feliz.... aos 10 anos, aos 20, aos 30... Nunca haverá de ser tarde, ou fora do tempo, para viver algo que te faz feliz.... ou que lhe torne uma pessoa melhor.... Fica a dica !!!

* GUSTAVO CAPUCHO DA CRUZ SOARES














-Advogado graduado pela Universidade Salesiana de Lorena - Unisal (2001);

-Sócio-Proprietário da Cruz & Soares - Sociedade de Advogados;

-Especialista em Direito Civil, Direito Trabalhista e Direito Previdenciário e

- Ex-Secretário de Negócios Jurídico - Prefeitura de Lorena


Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autor