©️2026 Benedito de Godoy Moroni
Esta é uma história real. Alteramos as identidades a fim de evitar eventuais constrangimentos.
Há muitos anos, a família Moreira morava em sua fazenda nas imediações da cidade e tinha, entre seus empregados, Juvenal. Este era um dos mais antigos empregados e tinha a inteira confiança de Fernando, o pai da família.
Juvenal, mesmo tendo cursado apenas o primeiro ano do antigo Curso Primário, hoje Ensino Fundamental, sempre procurava esmerar-se em cumprir suas tarefas. Era um verdadeiro "faz de tudo" na fazenda. Era muito simples, exercia diversas tarefas, entre elas a de motorista (mesmo não tendo habilitação). Sem dúvida, tornou-se personagem de fatos no mínimo inusitados.
Vale lembrar que em certa ocasião Juvenal estava dirigindo o Jeep da fazenda.Lá pelas tantas, aparece na estrada uma placa branca, grande. Ele, querendo ler a palavra escrita, mas não sabendo direito começou a ler soletrar o contido na placa:
-Veeeeeeeeeee, aaaaaaaaaaaa, eleeeeeeeeeeee, eeeeeeeeeeeee, teeeeeeeeeeeeee ...Antes de pronunciar a última letra da placa, o Jeep cai na VALETA!!!!!
Por sorte de Juvenal os estragos foram poucos e ele não saiu ferido.
Alguns dias depois., Juvenal foi à cidade e trouxe o Jeep consertado. Após guardar o veículo, foi até a cozinha da casa que era a residência dos donos da fazenda. Ele conversou um pouco com a cozinheira Hermenegilda e tomou um cafezinho.
Nisso ouviu Dona Maria, a mulher de Fernando, ensinando o filho Orlandinho a cantar o Hino Nacional Brasileiro. Juvenal quieto, ficou observando tudo.O rapazinho, que estava na fase da mudança de voz, desafinadamente, procurava entoar o hino, mas sempre esquecia ou trocava alguma parte da letra.
A mãe mostrava como era o certo e continuava a ensinar, mas o garoto persistia em errar.
Ela, já desesperada, falou:
- Orlandinho, garanto que o Juvenal só de tanto ouvir eu ensinando você, já sabe cantar esse hino, não é Juvenal?
- "Craro" que sei Dona Maria. Ainda mais que essa modinha é bem antiguinha.
No dia seguinte Juvenal foi buscar Orlandinho na escola que ficava na cidade.
Chegando lá fica esperando o rapazinho. O tempo passa e parece que todo mundo já saiu, menos Orlandinho. Juvenal começa a ficar nervoso, pois sua mulher era muito ciumenta e ele sabe que ela poderia pensar que ele demorou para voltar por estar envolvendo-se em algum caso na cidade.
Nisso o garoto aparece e vem até Juvenal. Conta-lhe que encontrou apenas a letra do Hino Nacional Brasileiro e não estava conseguindo achar a letra do outro hino e era para o motorista esperar mais um pouco.
- "Quar o que tá fartando?"– perguntou Juvenal.
- Aquele que fala: Salve lindo pendão da esperança. – respondeu Orlandinho.
- Se é só por isso, "bamo" embora agora "mermo". Deixe o "SARVELINO" por minha conta! – arremata Juvenal já dando partida no carro.
Mas não teve apenas isso. Certo dia, Juvenal é chamado pelo patrão, o qual determinou-lhe que no dia seguinte era preciso buscar umas freiras, as quais viriam visitar a fazenda. Elas eram professoras em um colégio religioso para alunas internas onde Cláudia, filha de Fernando, estudava. Tratava-se de uma visita informal em resposta a um convite feito pelo pai da menina.
Logo pela manhã Juvenal começou a dar os toques de limpeza do carro para ir buscar as freiras com o veículo impecavelmente limpo. Como ele era muito caprichoso, não se esqueceu de limpar e tirar todo e qualquer vestígio de qualquer coisa que não deixasse impecável o carro. Contudo, isto tomou-lhe muito tempo e deixou-lhe pouco tempo para buscar as freiras.
Imediatamente foi limpar-se e preparar-se para ir à cidade.
Em seguida, partiu para desincumbir-se da missão a que fora designado.
Todavia, naquele dia a polícia estava fazendo uma blitz na estrada.
Quando o guarda lhe pediu os documentos do carro, Juvenal respondeu calmamente:
- Seu guarda, o Dr. Fernando, que o senhor conhece, mandou "eu buscá umas freira que tão na Estação de Trem e viero pra visitá" a fazenda.Como "percisei limpá o carro pra buscá as freira"esqueci de "pegá os decumento que tão na Palestina".
Como o guarda conhecia Juvenal e Dr. Fernando, mesmo não entendendo direito que história era essa dos documentos estarem na Palestina, liberou o motorista.
Para esclarecer o leitor, no caso Palestina era o nome dado pela família a uma caixa especial onde guardavam-se documentos e outros papéis importantes e não o território do Oriente Médio, região sudoeste da Ásia.
Mas a história não acabou aí...
Juvenal foi até a estação, pegou as freiras e pôs-se a caminho de volta à fazenda.
Quando passava novamente pela blitz policial, que ainda permanecia no mesmo lugar, Juvenal parou e mostrando as freiras falou ao guarda:
- Olha as "tarzinha aí atrais que eu fui buscá".
Ao guarda não restou outra coisa a fazer, a não ser sorrir da situação e dar o caso por encerrado.
Chegando na fazenda, as freiras foram recepcionadas por Dona Maria e Fernando.
Na cozinha, Orlandinho perguntou à cozinheira:
- Gertrudes, qual é o menu de hoje?
- "Que é isso minino. Que farta de respeito é preguntá pra mim quar é o ómi nu de hoje? Eu num dei liberdade pra você falá essas coisas pra mim. Num se esqueça que sou uma muié de respeito e sirvo de vossa avó. Num admito essas liberdade de você".
Em seguida Gertrudes foi até Fernando e reclamou:
-Seu Fernando, venho "fala" uma coisa "pro sinhor". O "minino fartô cum o respeito cumigo agorinha mermo"!
- O que o Orlandinho fez? – perguntou Fernando.
- Ele veio "preguntá pra mim quar era o óme nu" de hoje!
Fernando entendeu imediatamente que se tratava de uma interpretação errada, entretanto, para não magoar a cozinheira respondeu-lhe:
- Nossa Gertrudes, isso é muito sério. Vou chamar a atenção dele, pode deixar. Vou falar para ele que isso é muita falta de educação e respeito. Que nunca mais repita isso com ninguém, principalmente com uma pessoa tão boa e querida como você.
Gertrudes acalmou-se, contudo o assunto ficou martelando em sua cabeça. Desconfiada foi procurar Juvenal para desabafar. Encontrou-o preparando-se para o jogo de futebol na fazenda. Perguntou a ele:
- "Juvenar, o que é esse tar de ome nu"?
Juvenal procurou esclarecer e disse:
- Não fique preocupada Gertrudes com o que o Orlandinho "falô". - e continuou:
- Seu Fernando, sempre que "nóis pára na estrada pra comê e o garçom pregunta oque nóis vai cumê, ele responde: o menu. Intão o garçom traiz fejão, arrois, bife, ovo e salada de tomate. O menu é cumida e não oque ocê tá pensando, muié que só pensa coisa ruim".
Gertrudes não fica muito contente, mas aceita a explicação.
No começo da tarde desse dia o jogo de futebol desenrolou-se normalmente até que, na metade do segundo tempo, um adversário derrubou na grande área jogador do time no qual Juvenal estava jogando.
Penalti!!!!
Juvenal imediatamente pega a bola e, antes de colocá-la na marca de pênalti, vai até Fernando, que assiste a partida torcendo para o time de Juvenal e lhe segreda:
- "Vô chutá um pênis em homenagem" ao senhor!
Fernando, imediatamente, replica:
- Juvenal, pelo amor de Deus, Juvenal, não faça isso!!!!!
BENEDITO DE GODOY MORONI
-Graduado em Direito pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Universidade de São Paulo(1972); e
-Membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Venceslauense de Letras.
Nota do Editor:
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