domingo, 19 de novembro de 2017

Terapia Cognitivo Comportamental no Tratamento da Insônia


                                                                       
       

Sapolsky (2008) afirma que dormir é um negócio tenebroso. Afinal, durante um terço da vida, simplesmente não estamos aqui, pois estamos em suspenso, num estado onde tudo diminuiu o ritmo. Porém, o cérebro fica mais ativo do que quando estamos acordados. O sono não é um processo uniforme, ao contrário, existem diferentes tipos de sono: sono leve (estágio 1 e 2) em que a pessoa pode ser despertada com facilidade, sono profundo, também conhecido como estágio 3 e 4, e o sono profundo, também conhecido como REM (Rapid Eyes Movement).



O sono depende de inúmeros fatores comportamentais e da integridade de muitas estruturas neurais e mecanismos corporais. Com tantos fatores envolvidos no sono, não parece difícil entender por que existem tantos aspectos orgânicos e ambientais que perturbem o funcionamento do sistema do sono. Mas para que serve o sono? Para Sapolsky (2008), sem o sono morreríamos. A resposta mais simples é que o sono funciona para termos uma pausa, para que o cérebro diminua o ritmo pela metade, para que possamos guardar reservas de energia. O cérebro consome grandes quantidades de energia para conseguir fazer todos os cálculos e todas as tarefas que o forçamos a fazer. O cérebro representa três por cento do peso corporal, mas precisa de quase um quarto de energia que consumimos, assim, os estoques energéticos tendem a cair durante o dia, e é preciso um bom sono de onda lentas para reabastecê-los.

Para Kapczinski (2011), a privação do sono é capaz de alterar características comportamentais e modular transtornos psicológicos de maneira abrangente. Um dos primeiros comportamentos cuja alteração foi observada mediante privação de sono foi o comportamento agressivo. 

Alguns fatores sociais como casamento, filhos, perda de familiares, mudanças profissionais e econômicas, transtornos psicológicos, mudanças hormonais, por exemplo, podem predispor a mudanças comportamentais e modificações cognitivas e pensamentos inadequados. O foco de atenção passa a ser a sensação ou a percepção de que já não se consegue dormir, permanecendo sempre em estado de alerta.

A Terapia Cognitivo Comportamental é uma abordagem psicoterápica que reconhece o papel das cognições disfuncionais ou limitantes na geração da resposta psicofisiológica do estresse. As pessoas podem reagir de forma repetitiva e automática às situações adversas através de alguns erros cognitivos, tais como: catastrofização, pensamento dicotômico ou “tudo ou nada”, generalização, diminuir o lado positivo, leitura mental, previsão do futuro, magnificação ou minimização, rotulação, entre outros (Neves Neto, 2003a; Dobson, 2006; Leahy, 2007). Além de promover a reestruturação cognitiva, a expressão emocional reguladora e o desenvolvimento de um repertório de comportamentos mais adaptativos. 

Segundo Hasa (2009), queixas de insônia, insatisfação com a qualidade de sono, presença de sonolência excessiva diurna ou fenômenos indesejáveis ocorrendo durante o sono são comuns na prática médica, podendo caracterizar um distúrbio primário de sono, doenças clínicas ou psiquiátricas, sinais relacionados ao envelhecimento ou, ainda, variações do sono normal.

Seus fatores de risco incluem o envelhecimento, sexo feminino, comorbidades, trabalho por turnos e, provavelmente desemprego e menor status socioeconômico. A insônia pode ser diagnosticada pela avaliação clínica e história do sono, além de detalhada anamnese médica, uso de drogas e avaliação de transtornos psiquiátricos. As queixas de insônia são relacionadas à dificuldade de iniciar o sono, múltiplos despertares noturnos com dificuldade para voltar a dormir, despertar precoce, além de sonolência/fadiga persistente durante o dia.

Para Buysse (2013), os comportamentos, pensamentos e crenças sobre o sono podem servir como fatores de risco para os distúrbios da insônia se perpetuarem, e são os alvos dos tratamentos cognitivos e comportamentais. Estes tratamentos incluem vários elementos comuns: o uso de “diários do sono” para identificar padrões e alterações clínicas, a importância de investimento do paciente na mudança de comportamentos e a utilização de comportamentos de vigília voluntárias, para influenciar o sono, o que é um processo voluntário, e em grande parte os tratamentos comportamentais são indicados para insônia primária e comorbidade.

Não existe um único método farmacológico confiável para tratar a insônia. No entanto, medicamentos hipnóticos são os medicamentos mais comumente prescritos. Embora eficaz no curto prazo, alguns medicamentos hipnóticos podem perder a eficácia ao longo do tempo, mantendo o potencial de dependência e insônia rebote por medicamento. As mais recentes fórmulas mantém a eficácia ao longo de um período mais longo; no entanto, estas drogas ainda pode levar à tolerância, dependência física e psicológica, e insônia hipnótica-dependente.

A terapia Cognitivo Comportamental para a Insônia possui diversas técnicas que podem ser prescritas durante o tratamento psicoterápico. Cito alguns protocolos amplamente estudados:

Existem seis instruções preliminares para o controle de estímulos, segundo Bootzin (1972): 

1. Deite-se para ir dormir apenas quando estiver com sono;

2. Não use a cama para nada, exceto o sono e sexo. Não comer, ler, ver televisão, ou preocupar-se na cama; 

3. Se você não pode adormecer dentro de 10 minutos, levante-se e vá para outro quarto. Apenas volte para a cama quando você se sentir-se com sono novamente;

4. Se você voltar para a cama e ainda não pode cair no sono, repita o passo 3. Faça isso quantas vezes for necessário durante toda a noite;

5. Defina o seu alarme e levante-se no mesmo horário todos as manhãs, independentemente de quanto você dormiu durante a noite. Isso vai ajudar seu corpo a adquirir um ritmo de sono constante e

6. Não cochile durante o dia.

Buysse (2013), propõe 10 intervenções cognitivo-comportamentais para insônia:

1. Não "tente" dormir; 

2. Evite estimulantes (cafeína, nicotina);

3. Limitar a ingestão de álcool;

4. Manter um horário de sono regular 7 noites por semana. Evite cochilos;

5.Exercitar-se regularmente, pelo menos 6 horas antes de dormir. Manter o quarto escuro e silencioso;

6. Ir para a cama somente quando estiver com sono;

7. Use a cama e quarto apenas para dormir; 8. Não ler, ver televisão, falar ao telefone, preocupação ou plano de atividades no quarto;

9. Se incapaz de adormecer dentro de 10-20 min, deixar a cama e o quarto. Retornar apenas quando sentir sono novamente; e

10. Definir o alarme e acordar em um horário regular todos os dias.

Para John (1991), a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCCI)é o tratamento mais amplamente utilizado e amplamente estudado. A eficácia da TCCI tem sido demonstrada para a insônia primária e para a comorbidade crônica em adultos jovens e idosos. Os efeitos agudos da TCCI durante 6 a 10 semanas são comparáveis ​ ou superiores aos de medicação. tratamentos de insônia se dividem em duas categorias: comportamento farmacológico e cognitivo. Medicamentos normalmente são indicados para uso a curto prazo, embora TCCI pode ser mais benéfica para a insônia crônica.

TCCI foi recomendada para produzir melhoria clinicamente significativa nos sintomas de insônia, em pacientes com câncer de mama, dor crônica, fibromialgia e outra comorbidades médicas. Adicionalmente, as intervenções comportamentais demonstraram ser eficazes para adultos de meia idade e cuidadores idosos, populações nas quais as comorbidades (por exemplo, hipertensão, doença cardíaca) são mais frequentes.

Referências Bibliográficas

BOOTZIN RR. A stimulus control treatment for insomnia. Paper presented at: 80th Annual Convention of the American Psychological Association; September 2-8, 1972; Honolulu, HI; 

BUYSSE, Daniel J. Imsonia, Clinical Crossroads Section Editor: Edward H. Livingston, MD, Deputy Editor, JAMA. February 20, 2013—Vol 309, Nº 7;

KAPCZINSKI, Bases biológicas dos transtornos psiquiátricos: uma abordagem transacional. Porto Alegre. Ed. Artmed. 2011.;

HASA, Rosa. Transtornos do sono. Indexado na Lilacs Virtual sob nº LLXP: S0034-72642009003000004. Aceito em 11/2009;

JOHNS, MW. A new method for measuring daytime sleepiness: the Epworth sleepiness scale. Sleep. 1991;14(6):540-545;

NEVES, Neto AR. Psicoterapia cognitivo-comportamental: possibilidades em clínica e saúde. Santo André: ESETEC; 2003;

NEVES, Gisele S. Moura L. Transtornos do sono: visão geral, Revista Brasileira de Neurologia » Volume 49 » Nº 2 » 2013; e

SAPOLSKY, Robert M. Por que as zebras não tem úlceras. São Paulo. Francis. 2007.

POR CARLA STRASSBURGER ARAUJO












-Psicóloga graduada pela Universidade de Cuiabá-UNIC(2015);
-Pós graduada em Terapia Cognitivo Comportamental pelo Centro de Estudos da Família e do Indivíduo-CEFI-Porto Alegre-RS(2016)
-Terapeuta Comunitária
@carlastrass

Nota do Editor:
Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

2 comentários:

  1. O impacto das nossas angústias cotidianas em nosso sono é catastrófico. Em alguns momentos dormir parece um pesadelo. O sono fica ali na sua frente estático, piscando para você. O cérebro responde te mantendo acordado.

    ResponderExcluir