sábado, 25 de novembro de 2017

A Escola Brasileira e a Necessidade do Ensino de Ciências


Ao longo dos meus de 42 anos de magistério e de vivência no Ensino de Biologia e também dos mais de 37 anos de Ensino Superior formando profissionais em nível técnico e superior, mais particularmente professores nas diversas áreas, especialmente Licenciados de Biologia e Pedagogia, além de tantas outras áreas profissionais, posso dizer sem medo que já vi muitas coisas e vivi muitas situações no magistério a na arte de ensinar. Por outro lado, também parece óbvio que nesse tempo pude desenvolver muitas manias e assumi inúmeras convicções sobre a Educação e o sobre o Ensino brasileiro, em especial o Ensino de Ciências e, mais particularmente das Ciências Biológicas.

Por conta dessa vasta experiência que acumulei, resolvi escrever um pouco sobre as minhas impressões no que diz respeito às mudanças que estão sendo propostas para a “nova” grade curricular do Ensino Médio a ser instalada no país. Sem dúvida existe uma grande necessidade de mudanças, mas o que me preocupa é saber se o tipo de mudanças que estão sendo propostas são aquelas que efetivamente precisam ocorrer para que saiamos do atraso, do marasmo e do verdadeiro abismo educacional em que nos encontramos como nação, quando nos comparamos com outros povos. Em especial nas áreas relacionadas às Ciências Naturais, estamos ainda tentando inventar a roda, enquanto tem muita gente viajando pelo espaço sideral.

Como já disse, eu ministro aulas no curso de Pedagogia e tenho sentido que progressivamente o Ensino de Ciências tem ficado cada vez mais longe da realidade atual e, o que é bem pior, da necessidade que ele faz para a vida das pessoas no tempo presente. Tenho sentido que particularmente, os estudantes de Pedagogia estão claramente mais distanciados e menos interessados pelas áreas científicas, mormente das Ciências Naturais. Ora os Pedagogos são os professores do primeiro nível escolar, o Ensino Fundamental, e penso que seja exatamente aí que deve começar a acontecer o trabalho efetivo de instigar os alunos ao envolvimento com conhecimento científico. Assim, creio que precisamos de pedagogos mais ligados nas Ciências e infelizmente não é isso que tenho observado.

É preciso ficar claro a todos, principalmente aos futuros professores, que Ciência não é diletantismo e que o cientista não é um velho bruxo cheio de ideias idiotas ou um louco sem juízo, aos contrário, o cientista deve ser entendido como uma pessoa igual a qualquer outra, que apenas possui um interesse primário maior na melhoria da qualidade de vida da humanidade e do planeta. Aquela figura mítica do cientista velho barbudo de óculos de fundo de garrafa, que parece viver de si e que não está nem aí para a realidade, tem que desaparecer do cotidiano escolar e da sociedade como um todo, porque o país precisa de cientistas. As escolas têm que agir séria e ativamente na identificação e desenvolvimento desses futuros cientistas dentro de suas respectivas comunidades.

O conhecimento científico é algo muito importante, talvez até seja o mais importante na formação dos jovens estudantes, mas a crença generalizada nas escolas brasileiras e mesmo nas comunidades ainda é aquela que diz: “o aluno precisa saber Português e Matemática, o resto não é prioritário” e esse ranço tem que mudar. Estamos no século XXI e a Ciência dita as normas pelo mundo afora, exceto aqui no Brasil, onde a coisa está realmente muito atrasada e feia sob vários aspectos. É por isso que o país segue na rabeira do conhecimento pagando “royalties” sobre quase tudo e não tendo nenhuma das nossas maiores universidades colocadas entre as 100 melhores do mundo.

Infelizmente tenho recebido alunos, nos diferentes cursos de graduação, mas principalmente alunos do curso de Pedagogia, que nunca tiveram nenhuma informação e que não apresentam uma visão mínima do que seja Ciência e nem de para que ela serve. A maioria dos estudantes chega ao terceiro grau ainda acreditando que Ciência é coisa do outro mundo e que os homens que atuam em ciências são pessoas muito distantes da realidade, entretanto é a Ciência que, na grande maioria das questões e situações, nos tem dito todos os dias, o que devemos fazer e como tudo deve ser feito. Vejam bem, estamos cercados de Ciência por todos os lados, somos direta ou indiretamente manobrados por ela, mas não temos essa noção e não damos a devida relevância a isso no cotidiano e nem na formação escolar de nossos jovens estudantes.

Penso que isso seja um imenso contrassenso e, por isso mesmo há necessidade de trabalhar para que sejam estabelecidas outras relações entre as comunidades individuais, a Sociedade como um todo e a Ciência. Entendo que prioritariamente a escola possa e deva atuar no estabelecimento dessa missão e o começo dessa tarefa é exatamente tratar de priorizar o Ensino de Ciências. Penso também que o momento que vivenciamos, em que se está propondo uma mudança no Ensino Médio, seja bastante propício para essa tomada de atitude. Entretanto, como será possível cumprir essa tarefa, haja vista que o senso comum se mantém preso a dogmas ignorantes e crendices infundadas, como o que foi citado acima? Pois então, essa é a questão que nos cabe discutir aqui.

A chamada reforma (mudança curricular) do Ensino Médio tem que atentar para esse aspecto e priorizar o aprendizado do conhecimento científico para permitir que o Brasil possa pensar em se estabelecer como potência científica e galgar posições melhores no cenário científico internacional. A Ciência existe para tentar melhorar as condições de vida das pessoas e se continuarmos achando que isso é pouco, certamente vamos seguir vivendo na contramão da história e mantendo a dependência direta dos outros países que sabem da importância do conhecimento científico. Temos que ser ousados, pensar alto e obviamente fazer Ciência custa caro, mas temos que investir porque não podemos continuar eternamente sendo guiados pelas mãos e pelos interesses dos outros países.

Posso até estar errado, mas, pelo que tenho visto até aqui, essa reforma que está sendo proposta, me parece mais uma adequação momentânea endereçada, um pequeno ajuste orientado e encomendado por alguns setores com alguns interesses, do que propriamente para uma mudança do Ensino Médio, que a meu ver deveria ser muito mais ampla do que aparentemente está se pretendendo. Talvez até haja cabeças e mãos estrangeiras interferindo nesses interesses para que continuemos limitados e presos às grandes potências e isso não deve ser assim. Temos que ter em mente que será preciso romper o cordão umbilical e procurar desenvolver um modelo educacional nosso, genuinamente brasileiro, preocupado com os interesses nacionais.

Para começar deveria se partir do zero e não adequar aquilo que não é bom ao interesse de quem quer que seja de fora do país. De imediato deveríamos ter que responder a algumas perguntas sobre o modelo curricular que está aí. Por exemplo, ele foi estabelecido quando? Por quem? Baseado em quê? Com que intuito? Os resultados que ele trouxe foram bons? Eu acredito que ninguém, ninguém mesmo, saberá responder tais questões, porque nunca houve essa preocupação. O que aconteceu foi que simplesmente se elencou um grupo de disciplinas imaginadas por alguém e se passou a ministrar essas disciplinas de maneira arbitrária e se entregou o resultado nas mãos de Deus. Lamentavelmente, até hoje a coisa continua assim, se discutem disciplinas, mas não se discutem os conteúdos curriculares dessas disciplinas e a assim a situação segue "como dantes no quartel de Abrantes".

Entre os anos 1997 e 2000, portanto já está fazendo 20 anos, quando os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), foram estabelecidos, parece que havia um pouco essa preocupação de mudar e adaptar aqui e ali alguns conteúdos. No entanto os anos passaram e os Livros Didáticos não se adequaram e mantiveram seus textos básicos. Desta forma, a maioria dos professores; que infelizmente está presa aos conteúdos desses Livros Didáticos ou das apostilas dos Grandes Sistemas Educacionais, as quais também não mudaram absolutamente nada nos últimos 40 anos, em termos de conteúdo; praticamente se esqueceram dos PCNs.

Aliás, sou capaz de apostar que se questionarmos os professores formados nos últimos 10 anos, pelo menos, eles não saberão dizer o que são os PCNs. Eu mesmo já fiz esse questionamento com alunos de terceiro e quarto anos do curso de Biologia e do segundo ano do Curso de Pedagogia e quase a totalidade nunca ouviu falar dos PCNs. Isso tem um significado pior do que se pode a princípio imaginar, qual seja, as editoras querem manter os seus interesses e como não existe fiscalização elas acabam conseguindo e assim mantêm o status quo e publicam o que querem de acordo com interesses muitas vezes externos e os infelizes dos professores acabam trabalhando contra os interesses nacionais.

Em suma, nunca houve, de fato, nenhum critério para definir o que se ensina e muito menos porque ou como se ensina no Brasil. Acredito que temos agora uma grande oportunidade para fazer isso e não acho que seja apenas no Ensino Médio. Essa ação deveria englobar tanto o Ensino Médio, quanto e principalmente, o Ensino Fundamental, onde o ensino começa a acontecer, porque na verdade se ensina muito o que não é importante e se deixa de ensinar coisas fundamentais para os alunos e isso não acontece só com as áreas das Ciências, como tentarei exemplificar um pouco mais à frente.

Será que um aluno é melhor ou pior em Português por ele sabe o que é um Anacoluto ou uma Onomatopeia, ou mesmo um Polissíndeto? Será que um aluno é melhor ou pior em Biologia se ele sabe o que o Ciclo do Ácido Pirúvico, ou um Parênquima Paliçádico, ou ainda que o celoma enterocélico se formou de evaginações da parede do arquêntero? Será que um aluno é melhor ou pior matemática se souber o que é o apótema ou que seno ao quadrado de alfa mais o cosseno ao quadrado de alfa é igual ao raio, que é 1, ou ainda e vai por aí afora. Será que um aluno é melhor ou pior em História só porque ele conhece sobre a História da China? Enfim, será que essas coisas são importantes mesmo? Por favor, peço que me desculpem, mas penso que todas essas coisas constituem umas grandes besteiras que não servem para nada ao cidadão comum e à vida cotidiana.

Obviamente, essas coisas só não são apenas besteiras para quem trabalha com elas e dependem desse conhecimento diretamente, mas esse é um número insignificante de pessoas dentro da sociedade como um todo. Eu não me considero um idiota por não saber algumas coisas que não sejam importantes para o meu dia a dia ou para o cotidiano da comunidade onde convivo, mas certamente eu me sentiria muito inútil se eu não soubesse nada daquilo que acontece sempre comigo ou com os que convivo. Só para dar um exemplo: eu não me sinto o pior cara do mundo por não saber qual a principal riqueza do Azerbaijão, mas preciso sim, saber que existe um país chamado Azerbaijão que fica na Ásia e se for necessário que eu descubra a maior riqueza do Azerbaijão, certamente eu irei atrás dessa informação, mas isso não interessa a todos os meus colegas de escola ou a todos os estudantes brasileiros. 

Os Ensinos Fundamental e Médio precisam enfocar aquilo que é genérico e suficientemente abrangente, que pode interessar, de alguma maneira, a todos os envolvidos no processo ensino- aprendizagem. A escola deve se preocupar com aquilo que qualquer pessoa comum poderá ter que vivenciar em dado momento da sua vida, mas todo o resto, que só interessa a alguns e em algumas situações é supérfluo e deve ser deixado de lado. Essas questões supérfluas não devem ser tratadas no ensino generalizadamente, porque elas não interessam às comunidades, elas interessam apenas a algumas pessoas específicas, as quais deverão, a seu tempo, tomar conhecimento dessas questões por conta própria.

Sou Biólogo e Professor de Biologia e tenho visto tanta bobagem que se "ensina", na verdade que se fala para o aluno, que não faz o mínimo sentido, porque, além de não interessar, na maioria das vezes ele é incapaz de entender, o que é e para que serve aquilo. São conceitos inúteis e de aplicabilidade ultra específica, como por exemplo: as reações de claro e escuro no processo fotossintético. O que interessa isso para um aluno de Ensino Fundamental ou mesmo de Ensino Médio? Ele precisa apenas saber o que é, para que serve e onde ocorre a fotossíntese e não há necessidade de descrevê-la bioquimicamente, porque jamais ele se envolverá com isso na sua vida, a não ser que, por acaso, venha ser um estudioso de fisiologia vegetal ou bioquímica celular vegetal.

Aliás, é bom dizer, que a maioria dos professores também não entendem nada de algumas dessas coisas; mas como está no conteúdo programático, ou no “Livro Didático”, ou na apostila da disciplina, ou porque costuma cair no vestibular, mesmo sem entender o que está falando, ele informa e o aluno tem que se virar para tentar aprender. Por outro lado, a exterminação da Biodiversidade Brasileira que é um assunto relevante, um problema nacional real, efetivo e de interesse mundial, muitos dos “Livros Didáticos” não citam e assim o “professor” também não informa, a não ser que caia no vestibular, mas se não cair no vestibular, não precisa saber. Caramba! Será que só eu vejo que esse negócio está errado e que não se pode ensinar assim.

Vou dar alguns exemplos agora daquilo que acontece na vida de todo mundo, que precisa ser ensinado e não se ensina em nenhum curso regular de Ensino Fundamental ou Médio. Quem é a maior autoridade Jurídica do município? Quem é a maior autoridade Legislativa do Município? Quem é a maior autoridade Administrativa do Município? O que faz um Promotor Público? Quem pode mais o Juiz ou o Promotor Público? A quem devo recorrer para receber meu seguro se for envolvido num acidente de trânsito? Porque o preço das passagens é caro? Quem decide o preço das passagens? Eu tenho direito a seguro de acidente de trânsito? Como buscar os meus direitos e com saber meus deveres? Por que não existe uma matéria (Disciplina) chamada Direito Constitucional em todas as escolas? Por que não se obriga os alunos a ler (estudar de alguma forma) a Constituição Federal, a Constituição do seu Estado e a Constituição do seu Município (Lei Orgânica do Município). O que é uma cidade? O que é um bairro? Por que as cidades são compostas de bairros? Comprei um terreno, posso construir qualquer coisa, por exemplo, uma padaria nele? Enfim, são tantas coisas importantes que as escolas não ensinam e o aluno cresce e chega a idade adulta sem nenhuma informação.

Isso sim é que precisa ser revisto e não essas bobagens que estão por aí de filosofia de gênero e de sexualidade precoce nas crianças das escolas. O aluno precisa saber que existem dois sexos e que eles se diferenciam nesse ou naquele aspecto físico e fisiológico. O gênero humano é um e os sexos são dois. Todo o resto é balela que não interessa a grande maioria das pessoas. É um absurdo achar que o jovem estudante que ainda nem sabe agir como um cidadão, já tenha que assumir posições outras sobre sua sexualidade. Aliás, posições essas muitas vezes erradas e infundadas a respeito das mais diversas tramas ideológicas programadas por interesses outros e que não cabem ser discutidas aqui. 

Pois então, voltando ao eixo desse artigo e ao nosso ponto de vista de que é fundamental ensinar ciência para o desenvolvimento do Brasil. Quero dizer que aprender sobre Ciência é algo que interessa a qualquer um, pois a Ciência está na casa de todo mundo, na TV, no Rádio, no Cinema, no Jornal, na Revista, apresentando e vendendo produtos, dando instruções, procedimentos e orientações sobre os mais diversos temas. As pessoas são movidas pela Ciência e certamente será bom que saibam se dar melhor com esse fato e a escola precisa cumprir essa função, ocupando essa lacuna e suprindo essa falha histórica que existe no país. Aprender sobre Ciência serve inclusive para impedir que certos aspectos ideológicos absurdos sejam tratados como questões científicas.

E digo mais ainda, pois até para enganar as pessoas, há quem faça uso da Ciência, quanta propaganda enganosa, quanta idiotice se vende em nome da Ciência e ninguém questiona. A permissibilidade do estado é total nessa área, talvez até por ignorância do próprio estado, assim como acontece com as pessoas. Se a Ciência fosse efetivamente informada, possivelmente menos gente fosse enrolada e quem sabe até o estado também teria mais conhecimento das coisas e das verdade científicas. A escola tem que se fazer presente orientando sobre a importância efetiva da Ciência e dos cientistas para o desenvolvimento de uma nação.

Em suma, aproveitemos a reforma do Ensino Médio que está em curso para fazer uma reforma efetiva da educação, ou pelo menos do ensino, no Brasil. Vamos colocar no papel aquilo que, de fato, seja importante e vamos levar para as escolas somente isso, pois o resto é prática funcional individual, é condição de vida das pessoas nas suas necessidades e a sociedade está aí para apresentar e comprovar suas nuances e as respectivas diferenças. As pessoas são diferentes e isso é bom, mas o aprendizado delas genericamente não pode ser, porque tem que existir condições iguais para todos, em termos de formação mínima. Nem muito ao mar e nem muito à terra. É preciso apresentar apenas uma visão global, com algum aprofundamento e destaque somente daquilo que for relevante à sociedade ou ao planeta.

Priorizar Ciência é uma das coisas de interesse genérico que precisa ser assumida pelo estado, mas detalhar questões científicas também não é o melhor caminho a ser tomado, porque esse caminho tem que ser descoberto por quem tem o verdadeiro interesse na questão envolvida. O Brasil precisa de cientistas e a escola pode e deve ser o principal instrumento que propiciará e suprimento dessa falha, por isso mesmo a Ciência e os fatos científicos atuais e midiáticos devem estar presentes no cotidiano escolar, a fim de tentar atrair mais jovens aos meios científicos.


POR LUIZ EDUARDO CORRÊA LIMA










-Professor Titular de Biologia  UNFATEA/Lorena/SP;
-Monitor de Educação Profissional – SENAC Guaratinguetá/SP e
-Professor de Biologia do Ensino Médio – DAMASCO/Caçapava/SP.

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