segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O mundo está pronto para a terceira idade?


Vivemos um tempo em que tenta-se, ao máximo, englobar todos, em todas as suas condições, necessidades, preferências, perfis. O termo inclusão está cada vez mais falado (ainda bem!), e a ideia de discriminação torna-se cada vez menos aceita. 

Por aí gostaria de iniciar a reflexão de hoje, pensando especificamente no público da terceira idade, vulgo velhice, com o qual trabalho e convivo diariamente. Será que o mundo está preparado para acolhê-los? Primeiro gostaria de colocar um dado que as estatísticas confirmam: com o avanço da tecnologia e recursos em saúde, percebemos um aumento bem significativo na longevidade, ou seja, as pessoas estão vivendo mais! A expectativa de vida média atual é de 75 anos, e a população com mais de 80 anos aumentou consideravelmente nos últimos anos. Sim, em parte com certa qualidade de vida. Não é improvável depararmos-nos com “noventões” com uma independência surpreendente, desenrolados por aí. Mas é só uma parcela da população dessa idade existente. É o mais visível para nós. Eu posso relatar, através de minha vivência profissional, a quantidade de idosos “dos oitenta pra lá” que estão bem do ponto de vista clínico, possuem certa disposição e certa vontade de viver, mas passam a maior parte do tempo em casa, ociosos, pois condições comuns da velhice limitam as possibilidades de sair, interagir. Eles precisam lidar com o fato que o mundo não está exatamente preparado para possibilitar que eles vivam da melhor forma. 

Acho importante considerar que o envelhecimento acarreta, inevitavelmente, o declínio de funções motoras e percepto-cognitivas. Existem muitas condições e patologias comuns que levam a um declínio mais acentuado, mas o próprio avanço da idade já traz uma certa dificuldade. Existem suas exceções, mas provavelmente uma pessoa com seus 70/80 anos não conseguiria realizar uma atividade com a mesma facilidade que uma pessoa em seus 30. A estrutura física já não permite um movimento tão ágil e certeiro, é menos simples aprender novos processos, memorizar detalhes, e desempenhar muitas funções. Isso traz um certo desacerto quando pensamos no mundo atual, sua correria e a quantidade imensa de informações simultâneas que os “jovens” lidam, manipulam, memorizam. O mundo está a um toque no celular de distância, e o virtual passou a incidir e até prevalecer sobre o mundo real. 

Isso nos parece mais prático e fácil do que era antes. De fato, a tecnologia simplificou nossa vida em muitos aspectos. Mas na perspectiva de uma pessoa idosa, que passou a vida mais acostumado com o papel e caneta, cartas e compromissos presenciais, pode ser um tanto complexa a ideia de uma tela sensível ao toque, com diversas informações, botões, ícones, funções. Ou seja, o que nos parece fácil, é bastante complexo para uma pessoa com certa idade, e que não conviveu com esse tipo de tecnologia. Sinto falta de versões mais enxutas de aplicativos, celulares com interface mais simplificada. Pois redes sociais poderiam ser um recurso interessantíssimo para essa parcela da população. 

Por outro lado, os lugares comuns (do nosso país) não estão preparados para recebê-los. A começar pela estrutura física das ruas e espaços físicos em geral. Muitas barreiras físicas atrapalham a locomoção e podem ser um fator de risco para quedas. A manutenção precária do espaço urbano como um todo se reflete em calçadas irregulares, esburacadas, com desníveis, inclinações. Pessoas na idade adulta não percebem a gravidade disso, pois conseguem circular tranquilamente em lugares assim. Para um idoso torna-se pesaroso, cansativo e até perigoso. Além da estrutura física limitante, muitos lugares são difíceis de circular pela falta de sinalização adequada e estrutura confusa. 

Além da estrutura física limitante, percebo que poucas pessoas são bem preparadas para lidar com o idoso. Percebo pouca clareza, calma, e paciência nas pessoas. No corre-corre do dia, um jovem geralmente não é compreensivo com um idoso que tem alguma dificuldade, pois ele está “atrasando seu trabalho”. Observo isso em lojas, bancos, lotéricas, transporte público, e por aí vai. Falta um preparo da população. Mais que isso, falta empatia. É necessário colocar-se no lugar do outro para perceber o quão complicado é se viver no mundo atual, tendo certas dificuldades. Não é um exercício surreal, pois a velhice é uma realidade para todos.

Na prática, todas essas dificuldades acabam tolhendo o idoso em sua casa, local onde geralmente lhe é confortável e seguro. Porém não é saudável uma rotina ociosa, restrita à residência. É necessário que a rotina de uma pessoa (principalmente idosos) tenha seus momentos de socialização, lazer, atividades produtivas (ex: fazer compras). O isolamento pode trazer ou acentuar sintomas clínicos e afetar a saúde mental, se tornando um fator de risco importante para depressão. 

Cabe a nossa sociedade refletir e considerar a inclusão dos idosos em todos os contextos. De forma que naturalmente os espaços físicos, atividades e recursos tecnológicos sejam pensados para englobar essa parcela da população. Devemos enxergar além das dificuldades e perceber todo potencial e valores que essas pessoas tem a oferecer. O que não é pouco!

POR GABRIELA COSTA GUEDES









-Terapeuta Ocupacional Graduada pela UFPE;
-Especialista em Neuropsicologia pela Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS-IMIP); e
Atualmente atende em clinica e domicílios localizados na cidade de Recife - PE.

Nota do Editor:
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Um comentário:

  1. Caríssima, nossos jovens não tem estrutura para viver na plenitude de suas forças imagine no 🇧🇷 onde nossos velhos são tratados como um peso morto pelos próprios filhos🤔🇧🇷

    Prevaricamos na nossa juventude com nossa saúde é com nosso futuro financeiro ao esperar políticas públicas voltadas ao idoso.

    Como não somos um povo unido e nossos idosos não tem peso no voto, e não tem valor agregado como os idosos americanos que tem dinheiro para gastar é aí existe investimento em lazer , saúde e outras coisas para quem está envelhecendo.🤔🤔🤔🇧🇷🇧🇷🇧🇷🤗🤗🤗

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