segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Felino Acaso









Autora: Maria Lúcia Alencar(*)

O acaso vai me proteger, quando eu andar distraído...( da canção Epitáfio, Titãs)

Jack Sparrow, meu gato de um ano e meio, andava tristonho. Vira-lata legítimo, rajado de laranja e branco, é o próprio Garfield dos quadrinhos, mas com focinho afilado. Veio da rua, era uma ferinha maltratada, por isso minha filha Julia batizou-o com nome de pirata. Jack deu muito trabalho, tive que o amansar, mas apegou-se muito a mim, tornou-se companheiro e atende-me quando chamo, ouço de longe o sininho de sua coleira, um cachorrinho não seria mais leal.

Quem sabe com uma companhia anima-se, pensei. Como as aventuras de Jack renderam uma crônica bem humorada, May Parreira - minha amorosa orientadora literária- já o conhecia, ela própria "gateira", com três gatinhas. May sempre tem empatia com as dificuldades de seus oficinandos e se prontificou: 

"Deixe estar que arrumo uma companhia para o Jack, sozinho é chato, tenho uma amiga criadora de gatos, doou-me essa linda gatinha e outra ninhada logo virá, peço um filhote para você? "

 "Quero sim May, só tem que ser fêmea, acho que Jack aceitará melhor. E de cor diferente dele, naturalmente".

Tempos depois recebo um email de May:

 "Malu, dê uma olhada nesta gatinha, minha neta a segura e está apaixonada por ela, se você não vier buscá-la logo vou ter que incorporá-la à colônia. Aproveite, é presente de natal"! Demorei meu olhar numa gata linda, mas que decepção! Amarela como Jack, só que menos rajada. 

"May, teclei de volta, é quase idêntica ao Jack, vou confundi-la! Não há filhote de outra cor? " 

"Todos vieram dessa cor, contestou ela, é peludinha como a minha, Jack tem pelo curto, você não confundirá. E é o último filhote!"

Parecia que a gatinha olhava para mim. Não titubeei e enviei minha decisão:  

" May, quando um feliz acaso bate à porta não costumo refugar. A peludinha me conquistou e até já tenho um nome para ela. Estamos em ambiente literário, terá o nome de Anaïs Nin, a escritora americana que teve um caso amoroso com Henri Miller, na Paris dos anos 20, onde se reuniam os jovens autores americanos , em busca da liberdade e do frenesi parisiense... Lembra-se do filme "Henri, June e Eu"? 

"Lembro sim. E quem a interpretou foi a portuguesa Maria de Medeiros, mignon e delicada, a gatinha até se parece com ela, você não acha? Então busque rápido a sua Anaïs, pois você continua sob os riscos do querer de minha neta"!

A bichinha era um doce, mas muito pequena. Parecia um ratinho e muito magra. Nós a amamos de paixão logo que a pegamos no colo. 

"Anaïs é horrível, disse Julia, vou abreviar para Naná; concordei, uma solução de meio termo". Fotografou e apresentou a nova moradora da casa para no Facebook. Logo vieram comentários entusiasmados, queriam ver a gatinha ao vivo. Um deles informou, não é vira-lata, é da raça americana Maine Coon! 

Jack se virou como pode, coitado. Nos primeiros dias rosnava para a pequenina e todos corríamos ao mesmo tempo, atentos para os miadinhos de socorro, fracos e esganiçados, quase nos trombando. Ralhávamos com o gato, JACKKKY pare já! Ele saia assustado e Anaïs, sentindo-se forte e amparada, corria para pular de novo em cima dele! Não dava para disfarçar, estávamos todos caídos pela gatinha. A faxineira Auzeni, Seu Nelson, caseiro do vizinho, que me ajuda no jardim em finais de tarde, paralisavam-se com a gatinha e seu andar rebolante, desajeitada com suas perninhas curtas, brincando com tudo o que se mexia! Olha só, olha só, repetiam. O tempo parava para ver Anaïs- Naná. 

Dias depois Julia, preocupadíssima com os espirros frequentes da gata, levou-a à Veterinária. 

Voltou com novidades. "Bom, a sua gata é um gato! E está doente, com vermes e bactérias. Temos que dar antibiótico e a segunda dose do vermífugo, precisamos checar com May a data em que deu o remédio, pois é muito forte. Pelos dentes confirmaram a idade, está magro e pequeno pela doença. Quando melhorar vai crescer. Outra coisa: é mesmo Maine- Coon, uma raça bem valorizada...e grande, pode ficar um gatão, maior que o Jack..."

May foi informada da nova identidade de seu presente de natal e decretou com sua sabedoria gateira: 

"Jack, com a idade que tem, vai se acostumar com macho também". 

Só de brincadeira informei ao povo de casa: quero uma fêmea, vou dar o gatinho. Quase me mataram! 

Foi difícil nos acostumar com ele e não ela, Anaïs ou Naná brotava frequentemente. Era preciso nomear o felino. May sugeriu Stephen King, escritor nascido no Maine. Recusei, histórias de terror, não. Propus vários nomes para homenagear meus escritores favoritos, Julia rechaçava todos, queria um nome pequeno, Bob, Fred, Nino, mas eu não me convencia. No final voltei ao primeiro nome que me ocorreu, era o que mais combinava com a personalidade do bichano. Será o elegante americano Scott Fitzgerald, Scotie, bom contista e romancista. Mas ela o chama de bebê e duvido que Scotie me atenderá um dia por seu nome, com toda a confusão criada.

Scott é um príncipe e muito elegante, como o escritor. Penso que sua mãe o educou para mim. Afia suas unhas no capacho que destaco para ele, sempre procura a caixinha de areia mesmo que longe dela, sabe esperar e cobre seus dejetos com fervor religioso. Tão diferente de Jack, nada apropriado neste quesito, se ninguém o impede, escava meu jardim e arranca minhas flores, pois gosta mesmo é de terra e rejeita olímpicamente a caixa de areia. Quando a ela é condenado é incapaz de esconder qualquer coisa. Fico pensando quem aprenderá com quem e torço para que Jack adquira um pouco de finesse.

Gostoso mesmo é observar como Jack está adotando o pequenino, que já dobrou de tamanho e abusa dele, pula em cima, morde-lhe orelha e rabo. Agora, quando dá seus gritinhos percebo que Jack já não pega tão pesado, morde-o de leve, tal qual uma mãe-gata e às vezes o imobiliza , lambendo-o, sob os protestos de Scotie que grita e retribui com outras mordidas. E assim seguem os dois e constato que foi mesmo um acaso feliz e felino. É muito engraçado ver o desconsolo do filhote quando Jack usa sua escada favorita, meu carro, que já riscou todo, para subir a uma jardineira alta, sobre o muro que dá para a rua. Do seu posto privilegiado, oculto nas folhagens, observa-nos com superioridade e contempla o mundo, sua televisão favorita.

*MARIA LUCIA ALENCAR

-Candidata a escritora, amante da boa literatura e de cinema;
Vencedora dos segundo e terceiro lugar do prêmio Acesc de Literatura( Associação dos 20 maiores e tradicionais clubes da cidade de São Paulo ( com exceção dos de futebol);
Aluna das Arcadas, ( Direito da Usp), formou-se em 1972, Procuradora do Estado de São Paulo aposentada, atualmente Advogada.


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