sábado, 9 de maio de 2020

O Estudo da Música em tempos de Pandemia


Autor: Carlos Soares(*)



O presente texto apresenta algumas reflexões sobre a prática musical e seus benefícios em tempos de pandemia. Em função da epidemia de coronavírus, o mundo entrou em uma verdadeira distopia. Mudanças radicais, profundas e demasiado rápidas já deixam rastros significativos em nossa sociedade. Em função das diversas modalidades de distanciamento social, grande parte da população necessitou, forçosamente e a contragosto, e muitas vezes com consequências financeiras catastróficas, voltar-se para a própria casa.

Nesse cenário, há de se imaginar que a ansiedade e o stress decorrentes serão contundentes. O enclausuramento, muitas vezes com crianças, por longos períodos; o espirro que se transforma em medo de contaminação; a preocupação demasiada (e cabida) com os entes queridos em grupo de risco; o olhar desconfiado das pessoas, muitas vezes destacados pelo uso de máscaras, no supermercado ou farmácia, que nos detecta como possíveis (e tão somente) vetores de contágio. Isso sem falar da carga psicológica das notícias e números arrebatadores das vítimas e cadáveres empilhados pelo mundo, inclusive naqueles países considerados elite mundial que afetam a psiquê das pessoas de forma considerável.

É neste contexto, brevemente resumido acima, que divido com os leitores minha experiência com música nos tempos de pandemia e dou algumas orientações quanto aos benefícios das atividades musicais.

 Comecei com o estudo da música, mais especificamente do violão, aos doze anos. Tocar desde então tornou-se uma espécie de necessidade física e mental. Uma válvula para a necessidade de expressão e, ao mesmo tempo, um ritual de concentração e exercício que mais tarde associei, entre inúmeras esferas, à meditação. A prática e o estudo da música passaram a fazer parte do meu cotidiano até então. Durante mais de 20 anos, concomitante a minha formação acadêmica, dei aulas de violão e toquei profissionalmente. Fiz graduação, mestrado e doutorado em composição musical na UFRGS, em Porto alegre, Assim como ingressei como docente na Universidade Federal de Pelotas.


Com a suspensão das aulas presenciais e as atividades administrativas que faço parte restritas a diversas reuniões à distância, precisei, como muitas pessoas, reorganizar o tempo e minha relação com a casa. No tempo que sobra, tenho me dedicado, fora às questões acadêmicas (preparação de aulas em modalidades virtuais, leituras relacionadas, desenvolvimento de materiais e reuniões), e alguns cursos em EAD de áreas diversas, a três atividades musicais regulares: o estudo de solfejo; o estudo do violoncelo e algumas dicas de violão para minha namorada. Estudar solfejo (ou ritmo, ou percepção) - é um interesse particular onde busco sanar algumas lacunas de formação - e estudar um instrumento é prática corriqueira e cotidiana na vida de qualquer músico e professor.


Porque cito as aulas de violão que estou dando para minha namorada? Creio que ela tenha um perfil que pode ser compatível com inúmeras pessoas, de diversas faixas etárias, etnias, condições financeiras que se beneficiariam com as práticas de um instrumento nesses tempos de pandemia e distanciamento social. Ela estudou violão com alguns professores durante a adolescência por períodos de tempo variados, mas estava há vários anos sem ter contato algum com o instrumento. Meses atrás, passei alguns exercícios para ela estudar em casa. Como vi que ela estava se dedicando e aproveitando as aulas, forneci novos materiais semanalmente. Quando fomos pegos pela pandemia, pude observar o quanto o instrumento foi benéfico para ela, pois propiciou momentos de imersão total em uma prática nova.

Como o setor da economia cultural é um dos mais afetados economicamente pela crise infectológica, aconselharia a qualquer pessoa que quisesse começar o estudo de um instrumento que realizasse aulas on line com algum professor de confiança. Essa modalidade já é bem comum e aceita no ensino dos instrumentos. Vários professores, inclusive, estão se especializando na prática. A orientação de um bom profissional é importante por questões metodológicas, que se manifestam em quatro etapas: elaboração de um percurso de ensino individualizado; correção de problemas posturais e feedbacks constantes; a correção de percurso de acordo com as respostas do aluno; e a desconstrução de alguns mitos e preconceitos musicais.

Para cada aluno, dependendo da faixa etária, do tipo de interesse estético, o profissional deve estabelecer percursos viáveis de aprendizado. Equívocos no estabelecimento de percurso podem gerar resultados desastrosos na autoestima do indivíduo, que, na maioria das vezes, vai associar suas dificuldades com "falta de talento" e "incompetência" pessoais e não com problemas metodológicos do professor. 

Cabe ao professor, por meio de observação criteriosa evitar que o aluno adquira vícios posturais, comuns entre os iniciantes, e facilmente corrigidos nos períodos iniciais de aprendizagem. Cabe também ao professor, diante da observação constante da evolução e dos sinais de estímulo do aluno, estabelecer correções de percurso para otimizar os níveis de aprendizagem. 

Por último, a prática musical é cheia de mitos e preconceitos que acabam atrapalhando a compreensão do aluno. Cabe ao professor elucidar e desmistificar para o aluno questões como talento, virtuosismo, genialidade, sucesso, etc.. Passei por essa experiência de ficar alguns anos sem professor de violoncelo e percebi, quando retomei as aulas, o quanto a orientação é fundamental. Perdi, com certeza, tempo valioso e uma evolução maior no meu estudo por não ter feedback externo e ajuda em definir um percurso viável de aprendizado. Mesmo com minha experiência musical.

Em não havendo condições financeiras para começar o estudo de um instrumento, o que é bastante explicável em momentos de crise, a segunda opção é procurar o aprendizado on line. Muito comum entre alguns jovens hoje em dia, esse procedimento, dependendo das aptidões naturais do indivíduo, pode dar frutos. Embora, sem sombra de dúvidas, o caminho seja mais árduo e demorado.


O estudante não tem, geralmente, a percepção de que o ensino de um instrumento é um processo físico/motor e mental que necessita ser trilhado aos poucos. Ele não percebe que o nível de dificuldade deve ser progressivo e interrompido por diversas "voltas" e revisões. Falta para a maioria dos alunos a consciência de que os resultados virão lentamente com disciplina e tempo. A sonoridade, por exemplo, é um conceito que o aluno pode desenvolver erroneamente a partir da audição dos grandes músicos e bandas. A tendência é que o aluno comece com o instrumento achando que vai instantaneamente reproduzir a sonoridade de seus músicos prediletos. No entanto, no mundo real, a sonoridade é construída com prática e tempo. Desconhecer essas peculiaridades do ensino pode gerar no aluno a sensação de que ele não tem aptidão ou talento.


Diversos são os benefícios do ensino da música e do instrumento para o ser humano. Apontarei agora alguns deles: aumento na capacidade de memorização; aumento da auto disciplina e paciência; desenvolvimento da coordenação motora; redução do estresse; promove o conhecimento de diversas culturas; fortalece a concentração. Existem diversos estudos que investigam os benefícios das atividades musicais e suas consequências que encorajo o leitor a pesquisar.

            


Por fim, deixo algumas dicas de estudo:

1. De preferência, toque em um local sossegado e longe dos barulhos (e ouvidos) da casa; 

2. Tenha consciência de que seu som não será agradável nos primeiros tempos de estudo. Isso não significa que você é um mal instrumentista, pelo contrário, o resultado sonoro certamente é o melhor possível em seu nível; 

3. Esclareça a seus familiares o ítem 2. Muitas vezes, por não entender de música, as pessoas próximas desencorajam os alunos, realizando críticas infundadas. 

4. Toque TODO o dia. Mesmo que seja por pouco tempo. 

5. Procure tocar com a máxima concentração. Quando passamos a pensar em outras coisas, é tempo de parar e trocar de atividade; 

6. Ouça diversos músicos, de diversos instrumentos, gêneros e estilos. Construa um conhecimento musical amplo; 

7. Tente entender as manifestações musicais sem preconceitos e evitando as palavras: gosto e não gosto; bom e ruim e esses conceitos binários; pense nas características da música; 

8. Tente, na medida do possível, estudar, simultâneo ao instrumento, teoria musical e percepção;


Meu orientador, professor Antônio Carlos Borges Cunha, dizia que os momentos de crise são oportunidades para crescimento e aperfeiçoamento. Suas palavras encontram nos dias de hoje repercussões amplificadas em mim. Espero que os leitores aproveitem as dicas e que saiam desse momento de crise (que passará, com certeza) modificados, mais sensíveis e mais musicais. 

Bom estudo!!

*CARLOS WALTER SOARES















-Doutor em Música, com habilitação em Composição Musical, e 
-Professor Adjunto da Universidade Federal de Pelotas.

Nota do Editor:

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