segunda-feira, 27 de abril de 2026

A Cidade do Silêncio


 ©️2026 Elvis Oliveira Magalhães

"Muito me admira a delicadeza das orelhas de hoje, que só conseguem suportar títulos solenes".

Erasmo de Rotterdam

Na cidade de Suprema, ninguém mais falava sem autorização do Termômetro Federal Moral, uma torre de marfim que media a temperatura das palavras. Não o calor físico, mas o risco de queimadura invisível, aquela que ocorre quando algúem se sente tocado por algo que não o tocou. O instrumento apitava antes de cada frase, e o silêncio, diziam, era o único som que jamais feriu.

Certo dia, um homem branco e heterossexual ousou dizer: "Está frio". A torre vibrou numa espécie de pânico. Os calorosos se ofenderam imediatamente por serem negados. Os indiferentes se sentiram ignorados. Os que não sentiam nada se sentiram excluídos. O homem então foi levado ao Ministério da Neutralidade e advertido: o clima, como a verdade, era uma questão sensível demais, relativa demais.

Desde então, em Suprema, aboliram os adjetivos. Depois, os substantivos, pois nomear era limitar, definir, e limitar era ferir o ilimitado direito de ser tudo. Restaram apenas os verbos, mas logo perceberam que agir implicava exclusão. Assim, os verbos também foram proibidos.

A cidade prosperou em perfeita harmonia. Ninguém mais dizia coisa alguma, ninguém dizia mais nada. Não se pensava nada que pudesse, por acidente, tornar-se dizível.

Mas um fenômeno estranho começou a ocorrer. As pessoas passaram a respirar com culpa. O ar, afinal, era comum, e cada inspiração poderia ser um roubo microscópico do pulmão alheio. Respirar era, na verdade, apropriar-se do invisível. O burburinho foi geral em Suprema e, rapidamente, diversos trabalhadores virtuais, os influencers, exigiram a criação de um Regulamento da Respiração Equitativa. E assim foi feito. A partir de agora, cada um deveria inspirar apenas o estritamente necessário---embora o necessário fosse uma noção ofensivamente subjetiva.

Um a um, os habitantes foram reduzindo o próprio fôlego, todos em pânico, com medo de exceder o permitido pelo Termômetro Federal Moral. O silêncio tornou-se absoluto, não por virtude, mas por precaução.

E, quando finalmente o último sopro então cessou, a Torre permaneceu imóvel, satisfeita. Nunca antes em algum lugar da Terra houvera tanta paz.

ELVIS OLIVEIRA MAGALHÃES














-Graduado em Administração de Empresas pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC (2007);
-Graduando em Filosofia pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC ;
- Autor dos livros:
  - O Colegial - Romance e
  - Macho Machista -
Ambos disponíveis na Amazon e-book. 

Nota do Editor:

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