©️2026 Marcelo Duarte Palagano
A cada ano, quando se aproxima a Páscoa, vitrines se enchem
de cores, supermercados se transformam em corredores de chocolate e personagens
simpáticos invadem propagandas, escolas e shoppings. O protagonista desse
espetáculo é um animal curioso: o coelho da Páscoa, frequentemente acompanhado
por ovos de chocolate e brincadeiras infantis.
À primeira vista, tudo parece inofensivo — até mesmo encantador. No entanto, por trás dessa estética aparentemente inocente, existe uma pergunta incômoda que todo cristão honesto deveria fazer: como o coelhinho e os ovos passaram a ocupar o lugar que deveria ser reservado à Cruz e à Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo?
Não se trata de uma implicância com símbolos culturais, mas de uma reflexão séria sobre como o sentido mais profundo da Páscoa foi lentamente diluído por elementos estranhos à tradição cristã.
O primeiro ponto que precisa ser lembrado é que o coelho não possui origem cristã.
Na Europa antiga, especialmente entre povos germânicos, o coelho era associado à fertilidade e à chegada da primavera. Por reproduzir-se rapidamente, tornou-se um símbolo natural de abundância e renovação da vida após o inverno.
Com o passar do tempo, essa simbologia pagã se misturou com festas populares da primavera. Foi nesse contexto que surgiu o Osterhase, o "coelho da Páscoa"as tradições alemãs, que supostamente trazia ovos coloridos para as crianças.
No século XVIII, imigrantes alemães levaram essa tradição para os Estados Unidos. Ali, em uma sociedade já profundamente marcada pela cultura do consumo e pela força da publicidade, o símbolo encontrou terreno fértil para se expandir.
O que era um costume folclórico regional transformou-se em um fenômeno cultural global.
A lógica do mercado: por que o coelho venceu.
O crescimento dessa tradição não ocorreu por acaso. Ele segue uma lógica muito simples: o que vende permanece; o que exige reflexão profunda costuma ser deixado de lado.
O coelho e os ovos possuem características ideais para campanhas publicitárias, tais como: são visualmente atraentes; possuem cores vibrantes; despertam simpatia imediata; e, são facilmente associados a presentes.
Em contraste, o centro da Páscoa cristã — a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo — exige algo muito mais profundo: silêncio, contemplação, conversão interior.
A indústria do chocolate percebeu rapidamente o potencial econômico desses símbolos. Transformar o coelho no protagonista da Páscoa era simplesmente uma estratégia de mercado. E funcionou.
Hoje, bilhões são movimentados todos os anos com ovos de chocolate. Campanhas publicitárias e embalagens coloridas criam uma atmosfera emocional que se instala principalmente no imaginário das crianças.
Não é difícil entender por quê: é muito mais fácil vender chocolate do que vender penitência, oração e conversão.
A seguir, vamos ver como se deu a construção cultural da figura do "Coelhinho da Páscoa".
Ao longo das décadas, uma verdadeira rede cultural consolidou esse imaginário, pois, escolas organizam caça aos ovos, shoppings montam cenários temáticos, filmes e desenhos animados reforçam o símbolo e propagandas associam felicidade ao consumo.
Assim, pouco a pouco, forma-se uma associação emocional muito forte: para muitas crianças, o rosto da Páscoa deixou de ser o de Cristo e passou a ser o do coelhinho.
E aqui surge uma inversão profundamente preocupante, pois para os cristãos, a Páscoa é o centro da fé. É o momento em que celebramos o acontecimento que mudou a história: a Ressurreição de Jesus Cristo, que venceu a morte e abriu para nós o caminho da vida eterna.
No entanto, no imaginário popular contemporâneo, a Páscoa muitas vezes passou a significar apenas feriado prolongado, troca de chocolates, caça aos ovos e decoração temática.
Como se vê o conteúdo espiritual não desapareceu totalmente, mas perdeu centralidade no imaginário público.
Existe ainda um detalhe curioso que revela o caráter artificial dessa tradição: o coelho nem sequer bota ovos.
O símbolo central da celebração moderna da Páscoa é um mamífero distribuindo ovos algo que é biologicamente impossível. Esse paradoxo deveria, no mínimo, despertar a pergunta: de onde veio tudo isso?
A resposta é simples: trata-se de uma construção cultural moldada pela tradição popular e amplificada pelo mercado. E, embora não seja necessariamente um mal absoluto, torna-se problemático quando substitui ou obscurece o verdadeiro sentido da festa.
Ora, se a justificativa para o protagonismo do coelho é a sua aparência simpática e "fofa", surge então uma pergunta ainda mais intrigante: por que não trazer para o centro da Páscoa o cordeiro?
O cordeiro, além de também despertar ternura e simplicidade, possui algo que o coelho jamais teve: um significado profundamente enraizado na tradição bíblica.
Na Páscoa judaica, o cordeiro pascal era o animal sacrificado na noite da libertação do Egito, quando o sangue colocado nos umbrais das portas marcou as casas do povo de Deus e os livrou da morte. Esse acontecimento tornou-se o coração da celebração pascal de Israel.
Para os cristãos, esse símbolo alcança sua plenitude em Jesus Cristo. Não por acaso, São João Batista aponta para Ele e declara:
"Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1,29).
Percebe-se então um contraste curioso. Se a cultura contemporânea deseja símbolos delicados, alegres e visualmente agradáveis, o cordeiro reuniria todas essas características, e ainda carregaria consigo a riqueza espiritual da tradição bíblica.
No entanto, o que prevaleceu foi o coelho um símbolo sem relação com a fé cristã e biologicamente desconectado até mesmo dos ovos que distribui.
Esse detalhe revela muito sobre a lógica cultural do nosso tempo: o que prevalece não é necessariamente o que possui maior significado, mas aquilo que melhor se adapta ao mercado e à publicidade.
Assim, enquanto o coelho ocupa vitrines e campanhas comerciais, o Cordeiro de Deus — verdadeiro centro da Páscoa — permanece esquecido no silêncio das igrejas.
A verdadeira Páscoa, tanto na tradição judaica quanto na cristã, é essencialmente um evento de libertação e redenção. No Pessach, Israel recorda a ação salvadora de Deus que o libertou da escravidão no Egito; no cristianismo, esse sentido atinge sua plenitude em Cristo, o Cordeiro Pascal que se entrega na cruz para redimir a humanidade e, pela ressurreição, vence definitivamente o pecado e a morte. Por isso, a Igreja reconhece a Páscoa como a festa maior da fé, não apenas uma celebração simbólica, mas o coração do mistério da salvação.
A tentativa de substituir o coração da fé cristã por símbolos mais convenientes ou ideologias da moda não é algo novo. Ao longo da história, diversas culturas e movimentos políticos tentaram apagar, subverter ou substituir o cristianismo. Em quase todos os casos, o resultado foi o mesmo: essas experiências desapareceram ou perderam relevância, enquanto a Cruz permaneceu.
Exemplos como o da Revolução Francesa, onde os revolucionários chegaram a instituir o chamado Culto da Razão, uma tentativa de substituir o cristianismo por uma espécie de religião civil baseada na exaltação da razão humana, a experiência terminou mergulhada em violência e instabilidade. O período ficou marcado pelo Reinado do Terror, quando milhares de pessoas foram executadas na guilhotina — inclusive muitos dos próprios líderes revolucionários que haviam promovido o projeto.
A tentativa de substituir a Cruz terminou, ironicamente, devorando seus próprios criadores.
Outro exemplo dramático ocorreu no século XX com o regime de Adolf Hitler e o Partido Nazista. O nazismo tentou remodelar a sociedade alemã com base em uma ideologia racial e totalitária, frequentemente hostil ao cristianismo. A propaganda era poderosa, sofisticada e massiva — exatamente como ocorre hoje em muitas campanhas culturais e comerciais. Durante algum tempo, parecia que aquela ideologia dominaria o imaginário coletivo. Mas o regime terminou em ruínas após a Segunda Guerra Mundial, deixando como legado destruição, sofrimento e vergonha histórica.
Enquanto isso, dois mil anos depois do nascimento do cristianismo, a Cruz continua sendo o símbolo mais reconhecido do mundo.
Ou seja, ideologias surgem prometendo substituir a fé cristã, apresentam-se como inevitáveis, dominam o cenário por algum tempo e depois desaparecem ou se tornam apenas capítulos de livros de história.
Diante do contexto histórico, a substituição simbólica da Páscoa por elementos comerciais pode parecer inofensiva, mas segue a mesma lógica de deslocar o centro da fé para algo mais conveniente, leve ou lucrativo. A diferença é que, hoje, isso não ocorre pela força ou perseguição, e sim pela sedução cultural, pela publicidade e pelo consumo — justamente por isso muitos nem percebem o processo. A história mostra, porém, que todas as tentativas de apagar ou substituir a Cruz fracassaram; resta saber se, em nosso tempo, os próprios cristãos permitirão que ela seja afastada do coração da Páscoa.
A tentativa de substituir o sagrado pela lógica comercial não é nova, e o problema não está no chocolate ou nas tradições culturais, mas na inversão de prioridades que ocorre quando o consumo passa a ocupar o centro da celebração, fazendo a cruz desaparecer do horizonte. A fé cristã não pode ser reduzida a um evento comercial, e a Semana Santa não é um período de turismo ou distração superficial, mas um tempo privilegiado para participar da liturgia, meditar sobre a Paixão de Cristo, renovar a vida espiritual e celebrar a Ressurreição em comunidade e em família.
Recuperar o verdadeiro sentido da Páscoa não significa travar uma batalha contra chocolates ou símbolos culturais, mas recolocar Cristo no centro da celebração, educando as novas gerações para compreender que a alegria pascal nasce de um acontecimento que transformou a história humana, e não de ovos coloridos. A questão essencial não é comprar ou não chocolate, mas decidir quem ocupa o centro da Páscoa: o coelho ou Cristo. Para que o cristianismo permaneça fiel à sua identidade, essa resposta precisa ser inequívoca, pois a Páscoa não é sobre consumo, mas sobre a vitória de Cristo sobre a morte.
A história do cristianismo revela um padrão constante: inúmeras forças tentaram apagar, substituir ou ridicularizar a fé, mas todas acabaram passando, enquanto a Cruz permaneceu. Nos primeiros séculos, o Império Romano viu os cristãos como ameaça à ordem estabelecida e desencadeou perseguições violentas, acreditando que a eliminação dos seguidores de Cristo faria a fé desaparecer. No entanto, o sangue dos mártires fortaleceu ainda mais a Igreja, e aquilo que parecia seu fim tornou-se o início de sua expansão, culminando no reconhecimento público do cristianismo sob Constantino.
Esse mesmo movimento reapareceu em épocas posteriores. No século XX, regimes totalitários, como o soviético, tentaram sufocar a fé por meio do fechamento de igrejas, perseguição a sacerdotes e controle ideológico. Mesmo assim, quando o regime colapsou, a religiosidade voltou a emergir com força: templos se encheram novamente, símbolos cristãos retornaram ao espaço público e milhões redescobriram uma fé que havia sido reprimida por décadas.
Esses episódios históricos mostram que, enquanto ideologias e poderes humanos passam, a Cruz permanece, porque o cristianismo não se sustenta apenas como tradição cultural, mas está enraizado em um acontecimento que os cristãos consideram real e definitivo: a Ressurreição de Jesus Cristo. Ao longo de dois milênios, impérios, modas e sistemas políticos surgiram prometendo substituir a fé ou relegá-la à irrelevância, parecendo fortes e duradouros em seu tempo, mas hoje muitos deles ocupam apenas algumas páginas nos livros de história, enquanto milhões de cristãos, espalhados por todos os continentes, continuam proclamando as mesmas palavras que ecoam desde o primeiro século.
A Páscoa não pode ser reduzida a um evento comercial ou a símbolos vazios, porque ela celebra o acontecimento que atravessou séculos, resistiu a perseguições, sobreviveu a impérios e continua sendo proclamado em todas as épocas. No fim das contas, o centro da Páscoa nunca foi o coelho, mas sempre foi — e sempre será — Cristo ressuscitado.
MARCELO DUARTE PALAGANO
Advogado, graduado em Direito pela Universidade de São Caetano do Sul (2015);
-Pós Graduado em Processo Civil pela Academia Jurídica (2020) e

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