terça-feira, 28 de abril de 2020

Escândalo e Julgamento


Autora: Mônica Ventura Santiago



Palavras-Chave:
Comportamento: Perfídia - Traição, Escândalo; Justiça: Julgamento – Leis; Evangelho.

"Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e perguntou-lhes: “que quereis dar-me e eu vo-lo entregarei”. Ajustaram com ele trinta moedas de prata. E desde aquele instante, procurava uma ocasião favorável para entregar Jesus."
                                               Mateus, 26:14-16.

A perfídia, sinônimo de traição e deslealdade, constitui um crime por parte de quem perfidamente, entrega, denuncia ou vende alguém ou alguma coisa ao inimigo. Esse ato de traição é um crime se não nas leis humanas, certamente, nas Leis Naturais ou Divinas, pois, todo ato, atitude e comportamento que violente o equilíbrio da situação estabelecida, constitui um escândalo que, nada mais é, do que uma irreverência atentatória contra a ordem.

Em qualquer campo de atuação da criatura humana, seja político, social, os efeitos desse ato danoso, de perfídia - traição, produzem uma ressonância que desarmoniza tanto o indivíduo, seja a vítima ou o algoz, quanto, com cada qual destes, o grupo social no qual se encontrem situados.

Em todas as épocas, a perfídia, ação que vai de encontro à moral ou ao decoro, gera o escândalo que não está na ação em si mesma, mas, na repercussão que possa ter.

No sentido Evangélico, como anotado ainda em Mateus, 18:7 – "Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis; mas, ai do homem que os causa!” - o vocábulo "escândalo" tem um significado muito mais abrangente porque já não se trata apenas daquilo que fere o entendimento do outro, ou seja, já não se trata apenas daquilo que escandaliza as outras pessoas, mas, se trata também, de tudo o que é resultante dos vícios e das imperfeições humanas.

Nas traduções mais fiéis da Bíblia Sagrada, a palavra "escândalo" vem traduzida por "tropeço", significando que toda ação ou reação má que um indivíduo tem para com o seu próximo, um erro ou um tropeço que se cometa contra outrem, é o resultado efetivo do mal moral e este, se constitui motivo de queda para o homem.

Em suma, o escândalo é tudo o que leva o homem à queda, ao erro, quais, por exemplo, os princípios falsos que ele esposa na vida; os maus exemplos que se cometa; os abusos e arbitrariedades que se cometem em nome do poder e pelo poder temporal que anseia sem limites; abusos de autoridade, de posição social, política e/ou econômica, e abusos em nome da intelectualidade ou posição cultural que se ocupa no mundo.

A massa, não tem compaixão para com os traidores, haja vista que assim tem sido desde há dois mil anos. Símbolo da maior traição da historiografia humana, Judas Iscariotes, ainda hoje é aviltado, ultrajado, e tudo e todos que se lhe julgam em termos de comparação ou não, são também escorraçados em "praça pública" no julgamento dos que creem deter o poder ou o direito de fazer justiçamentos com as próprias mãos.

Esse justiçamento que outrora punia com a morte ou com o suplício físico moral, nos tempos modernos, adquiriu força e tecnologia, porquanto também as redes sociais são utilizadas para o julgamento insano, arbitrário e contumaz por parte de tantos quantos, expondo a inferioridade moral de quem apenas vê a própria imagem refletida no traidor, odeia-a.

Demonstrando o primitivismo moral da criatura que ainda é o "lobo" do seu próximo, esse julgamento pessoal é insensato porque ignora as causas reais geradoras dos problemas e leva o sujeito a agir, covarde e cruelmente, sedento da destruição da imagem do outro que constitui um fardo pesado a si mesmo, ferindo pessoas com palavras perversas, insinuações descabidas, teses estapafúrdias, mentiras caluniosas, difamações ofensivas com o único prazer mórbido de torturar e supliciar, molestar e afligir para causar sofrimento.

As raízes de um julgamento legal, encontram-se nas conquistas da ética e do direito, no desenvolvimento cultural dos povos e dos homens, que sabe conceder ao réu a oportunidade de sua defesa, ao tempo em que prima pela aplicação das Leis justas, sem achismos do julgador, visando preservar os valores intrínsecos da condição humana e as conquistas da cidadania que determina deveres a cumprir com a consequente fruição e gozo dos direitos.

No caso de Judas, o discípulo que vendeu o seu Mestre por trinta moedas de prata, caindo em si, entrou em desespero e enforcou-se sem a chance do auto perdão, porque a perfídia, denota, claramente, a falta de amadurecimento psicológico do ser humano independentemente de sua intelectualidade ou posição, e, por constituir, esse escândalo, um desequilíbrio daquele que o pratica, revela-se a sombra que permanece em a criatura em vertiginosa expansão, o que gera vícios e hábitos cada vez mais perturbadores que levam a desaires profundos, uma vez que sempre terminam por afetar aqueles que lhe compartem a convivência e a afetividade.

Interessante refletir que ao tempo de Jesus, a Galileia era uma região muito agradável em Israel e porque suas gentes eram formadas por pessoas modestas e simples, eram amantes da natureza, acostumados à lida diária sem a presunção intelectual da Judeia, o Mestre elegeu aquela região, preferindo viver com os galileus e ali, Ele convidou homens simples do povo para formar Seu Colégio Apostólico.

Contudo, na Judeia intelectual e austera, Ele convidou apenas um, chamado Judas, oleiro e natural de Kerioth, povoado situado a 35 quilômetros ao sul de Jerusalém. Este foi exatamente, aquele que o traiu, como a demonstrar, quiçá, que a áspide da inteligência, a serpente que inocula veneno, e que mascara a astúcia, caracterizada pela exigência de quinquilharias por moedas e poder, era justamente, aquela, a personalidade com pouquíssimas resistências morais para os enfrentamentos da grande luta sem quartel, que deveriam empreender os lidadores da divulgação da Boa Nova nos corações.

Judas personificava a dúvida quanto aos poderes de seu Mestre. A insatisfação pelos meios singelos empregados pelo Senhor Divino na divulgação do Evangelho. O medo pelo que viria a ser o futuro daquele Reino dos Céus que o Pastor de Almas prometia aos sedentos de justiça.

E, personificava também, a desconfiança na própria condição de discípulo do Senhor, ao mesmo tempo em que agia nas sombras da inconsciência e das atitudes temerárias, imprudentes, prepotentes e arrogantes que o levaram a "vender" o Filho de Deus por trinta moedas, aos homens gananciosos que temiam, por sua vez, perder seu ouro e seu poder para o Reino de Deus que não compreendiam.

Visando ilustrar o conteúdo destas reflexões, transcrevemos, resumidamente, do texto dos Evangelhos a passagem: "A TEMPESTADE ACALMADA", enriquecida na narrativa sublime e magistral da poetisa, dramaturga e escritora baiana, Amélia Augusta do Sacramento Rodrigues (1861-1926).

"O céu apresentava-se fulgurante e à hora undécima, o Mestre questiona os discípulos:

- Os barcos estão prontos? Sim, Rabi retruca Simão.

- Devemos atingir a outra margem antes da alvorada – elucida o Amigo Divino.

- Mas, neste período – relata o velho pescador – as tempestades sopram de surpresa e colhem os incautos, imprevistamente, ameaçando-lhes as vidas.

- Não temamos as coisas que promanam de Nosso Pai – esclarece Jesus. – Saiamos daqui.

Os barcos deslizaram sobre as cristas das ondas eriçadas.

O Rabi toma de um travesseiro e, na popa da barca em que seguem os irmãos Boanerges – João e Tiago -, procura repouso.

Ao longe, as praias. As cidadezinhas da orla das águas rebrilham distantes e o Mestre dorme em plácida serenidade.

Os remos cantam nas águas, e os lemes estão seguros com vigor.

Há uma inocente alegria, conquanto algumas mesclas de preocupação e, Judas exclama:

- Não será uma temeridade essa viagem?

- O Rabi está conosco, portanto, não há problemas – redargui João.

- Simão, porém, conhece os perigos neste período – investe o Iscariotes.

- De fato, se formos colhidos por um vendaval – obtempera Simão -, nossas vidas estarão ameaçadas.

- Mas Jesus está conosco – insiste André.

- No entanto, dorme – chasquina Judas -, enquanto deveria vigiar; isto, para ser fiel às Suas próprias palavras...

- Não temamos! Confiemos! – conclama João.

- Contudo, é perigoso – retruca, mais uma vez, a inquietação de Judas.

- Rememos – propõe Pedro, na condição de timoneiro.

As terras da Decápole estão à vista, desenhadas nas sombras da frente.

- O dia fora exaustivo – relaciona o jovem Boanerges. – O Mestre atendeu as gentes de várias partes que levarão, agora, as notícias.

- Eu vi um cego abrir os olhos – relata, Simão Bar Jonas -, e as lágrimas cristalinas diziam da emoção incomparável daquele beneficiado.

- E o leproso? – interroga Tiago. – O olhar que o Rabi depositou sobre ele comoveu-me.

- Olhem as nuvens! – gritou Judas, deixando transparecer um assomo de pavor.

Repentinamente as estrelas desapareceram sob as nuvens escuras. Sopraram os ventos de várias direções e o pânico tomou vulto.

Os barcos oscilam e trovões espocam após relâmpagos ligeiros.

- E Ele dorme! – exclama André.

- Dorme enquanto perecemos! – grita Judas.

- Confiemos! – insiste João.

Cai a tempestade. As forças em desgoverno sacodem o mar, e o tumulto domina a paisagem.

- O Mestre dorme, Deus meu, e nós... – desespera-se Judas. – Acordem-nO!

- Mestre, Mestre! – chama João, receoso e trêmulo. – Pereceremos se não nos salvares.

- Se não nos salvares?! – repete, revoltado, Judas. – Terá que nos salvar. A ideia da viagem perigosa foi ele quem a teve.

Brame o mar, e ululam os ventos. – Que tendes? – indaga, sereno, o Rabi.

- Perecemos, Amigo! – explica, tímido, o amado...

Ele se ergue e abre os braços. O relâmpago veste-O da claridade luminosa, emoldurando-O, num átimo.

Calai! Emudecei! – Sua voz supera os estrondos das forças desconexas da natureza. – Aquietai! – O brado arrebenta-se nos longes das praias. Os ventos amainam e as águas revoltas, desencrespam-se.

A tentação dissera há pouco por aquelas bocas: - Não te importas que pereçamos? – quando indagara Simão, traduzindo as dúvidas gerais.

No entanto, Ele estava ali.

- Quem é esse a Quem até o vento e o mar obedecem?

E, todavia, viviam com Ele, mas, não O conheciam..."

Traições, escândalos e julgamentos, constituem facetas na personalidade humana ainda subjugada às sombras do ego que preserva o lado vulgar, mesquinho, licencioso, ganancioso e feroz, em detrimento do Self, o Eu superior, aquele lado bom e gentil das criaturas.

Dúvidas, insatisfações, medos, desconfianças, ao modo de Judas, são tormentas que açoitam as criaturas com frequência em plena tempestade no mar das nossas existências.

Que fazer? – "Remar", trabalhando vigilantemente contra as paixões desconcertantes que nos levam às derrocadas no mal moral. Cultivar a humildade que evita a prepotência e a arrogância, para confiarmos no Cristo interno que habita em nós, mas, que jaz adormecido sem que as nossas ações O permitam despertar.
  
Referências Bibliográficas - Obras e Livros consultados:

Bíblia Sagrada – 64ª Edição – Editora Ave Maria Ltda:
A Tempestade Acalmada - Evangelho Segundo São Mateus 8: 23-27; São Marcos 4:35-41; São Lucas 8:22-25:
A Traição de Judas - Evangelho Segundo São Mateus 26:14-16; São Marcos 14: 10-11; São Lucas 22:3-6;
Livro: Elucidações Psicológicas à Luz do Espiritismo – Organização: Geraldo Campetti Sobrinho e Paulo Ricardo A. Pedrosa – Autora: Joanna de Ângelis por Divaldo Franco. Ed. LEAL – 3ª Ed. 2018:
Livro: Em Busca da Verdade – Autora: Joanna de Ângelis por Divaldo Franco. Ed. LEAL–1ª Ed. 2009;
 Livro: Conflitos Existenciais – Autora: Joanna de Ângelis por Divaldo Franco. Ed. LEAL-1ª Ed. 2005;
Livro: Luz do Mundo – Autora: Amélia Rodrigues por Divaldo Franco. Ed. LEAL-11ª Ed. 2016;
 Livro: Os Grandes Julgamentos da História – Autores diversos. Organização: José Roberto de Castro Neves. Ed. Nova Fronteira Participações S.A. 1ª Ed. 2018; 
Formato ebook. Acesso: World Wide Web – ISBN 9788520943748 (recurso eletrônico).
 Livro: Uma Breve História da Teoria do Direito Ocidental – Autor: John Maurice Kelly. Ed. WMF Martins Fontes. 1ª Ed. 2010;e
Livro: Breve História da Justiça – Autor: David Johnston – Tradutor: Fernando Santos. Ed. WMF Martins Fontes. 1ª Ed. 2018.
  
*MÔNICA MARIA VENTURA SANTIAGO
















- Advogada. 
Especialidades:
- Direito de Família e Sucessões,
- Direito Internacional Público,
- Direito Administrativo;
- Lato Sensu em Linguística e Letras Neolatinas;
- Degree in English by Edwards Language School – London - Accredited by the British Council, a member of English UK and a Centre for Cambridge Examinations;
-Escreve artigos sobre Direito; Política; Sociologia; Cidadania; Educação e Psicologia.

Nota do Editor:



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5 comentários:

  1. Parabéns, Mônica,
    Gostei do artigo onde você soma o conhecimento do passado aos dias de hoje, trazendo o Evangelho de Jesus.
    Obrigado.

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    1. Obrigada por seu comentário!
      Pena que não se identificou.
      Paz e bem!

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  2. Respostas
    1. Olá, Eli!!

      Muito feliz que você tenha lido e tenha apreciado a reflexão!!

      Obrigada!! Paz e bem!!

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