segunda-feira, 14 de março de 2016

Renovação de Carteira


    
Nessa semana que passou, eu ia dirigindo com a finalidade de alcançar à Avenida Santos Dumont e, de repente, avistei o prédio do DETRAN. Lembrei-me de que estava com minha carteira de habilitação vencida e, aproveitando a deixa, estacionei na intenção de pedir algumas informações quanto aos novos procedimentos, visto que, na vez anterior, eu havia feito um verdadeiro “Checap“, cursos, etc. Cheguei, inclusive, a ser diplomada...Isso mesmo! Diplomada pelo DETRAN-Ce. Entrei e fui direto à recepção e, educadamente, cumprimentei o recepcionista e expliquei-lhe a que vinha. Ele, muito solícito, deu-me uma senha(16) e indicou-me o guichê referente ao meu atendimento.

 Sentei-me ali e fique a observar os transeuntes pra lá e pra cá num ritmo incessante. Nessas situações de longas esperas, é quando você vê de tudo: figuras bizarras, mulheres vestidas de várias nuances da moda, e até pessoas com cheiro de naftalina... É o novo! Estava ali, absorta, veio-me, então, a ideia de perguntar ao casal que estava sentado ao meu lado, o guichê referente a minha senha. Foi quando me dei conta de que era a próxima a ser chamada, e pensei: “Que bom, assim poderei sair mais cedo”. 

Ledo engano, não era minha vez e, enquanto não chegava a minha hora, fiquei de prosa com o distinto casal tecendo alguns comentários do que acontecia ao nosso redor, foi quando chegou minha vez de ser atendida. Sentei-me na cadeira indicada pelo atendente, lhe dei bom dia e disse-lhe: 

-Antes tarde do que nunca,para ser atendida! 

E ele respondeu-me com um largo sorriso, justificando-se para o colega ao lado que se atrasou porque acordou com uma dor na perna, então falei: 

- Com essa idade, já estás com PVI? 

 Ele perguntou-me:- Que doença é essa? 

Respondi-lhe: -Praga da velhice instalada. 

Ele deu uma risada, e percebi que ele usava uma aliança no dedo anelar da mão esquerda. 

Perguntei-lhe: 

- Você casou-se com quantos anos, sete? Tens cara de treze! 

Ele, rindo, respondeu-me: - Casei-me com dezessete, agora tenho dezenove. 

Eu disse-lhe, sorrindo: 

- Casei-me com dezesseis , tu ainda terás muito tempo pela frente para arrepender-se. Enquanto o papo fluía descontraidamente, ele checava meus documentos, e falou-me: 

- Só falta confirmar o estado civil. 

Então, disse-lhe:

- Futura divorciada, tem encaixe aí para essa condição? 

Ele respondeu:

 -A ainda não! – 

- E nem “casada por enquanto”? 

- Também, não!

- Então deixa casada mesmo, é minha sina... 
Ele sorriu. Quando terminei essa etapa, ele me indicou o caixa para eu pagar as devidas taxas, e do mesmo caixa me encaminharam a outro guichê, e mais outro, assim sucessivamente, até chegar a vez de tirar a foto. 
 Sentei-me na cadeira indicada pela atendente e perguntei-lhe: 

-Será que nessa foto eu saberei com que cara irei ficar daqui a duzentos anos, caso eu seja herdeira de Matusalém? Porque na carteira anterior, eu já me avaliei com que cara eu ficaria com cem... 

A moça fez a foto e falou: 

- Está ótima! 

Ri e disse-lhe: 

- Ótima de prestar! 

Em seguida, fui encaminhada por ela ao décimo primeiro guichê, indicando-me alguma coisa sobre verde. 

Foi quando vi uma moça, no computador, com uma garrafa verde nas mãos, fui direto até a ela, e entreguei-lhe o calhamaço de papéis, ela disse-me que não era com ela, que eu fosse no guichê ao lado. Pude, então, perceber que havia uma atendente de uniforme verde, com essa era a antepenúltima etapa. 

De lá, ela encaminhou-me para fazer minha assinatura pela vigésima vez, até eu fazer a última parada da “maratona”: o exame de vista. 

Entrei na sala indicada e cumprimentei a médica com um entusiasta bom dia, o que ela ignorou. Limitou-se a mandar-me colocar o braço esquerdo em cima da mesa e a testa em uma máquina enferrujada que ficava à minha frente. Fiz conforme ela havia orientado: coloquei a testa no local supostamente indicado por ela. 

Perguntou-me se eu tomava algum remédio de uso contínuo. 

Disse-lhe: - Tomo vitaminas do complexo B. 

- A senhora faz uso de bebida alcoólica? 

Então lhe falei: 

- Fui criada em um lar evangélico e o único álcool ingerido por nós da família era o do Biotônico Fontoura, que nosso pai nos fazia beber vez ou outra. 

Ela fez uma cara de pouco caso e pediu-me que eu mencionasse as letras que estava vendo. 

Respondi-lhe: - Eu não estou vendo nada! 

Ela falou: 

- Como não estás vendo? Olha direito! 

Então falei: 

- Estou olhando e não vejo nada, a senhora que conferir? 

Ela exaltou-se e falou:

 - A senhora está me pedindo pra eu me sentar aí e ver, é isso? 

Eu disse-lhe: - A senhora não esta acreditando em mim! 

Foi quando ela pareceu ter um surto, começou a gritar e ameaçar-me de me mandar fazer um teste psicológico, com a alegação de que eu estava muito nervosa. 

Foi quando falei: 

- Calma, calma! 

Afastei-me um pouco da mesa e reparei bem na máquina que parecia mais uma sucata da que foi criada pelo primeiro inventor. Deparei-me com as tais lentes, me posicionei melhor e comecei a decifrar as letras, contudo a médica não se deu por satisfeita, não se conformava de eu não está conseguindo ver quase nada. E perguntou-me pelos meus óculos. Falei que não os havia trazido e expliquei-lhe que vinha passando a frente do prédio e resolvi entrar apenas para colher informações e acabei fazendo todos os procedimentos... Ela, irada, me entregou um papel que me garantia um tempo determinado para eu prosseguir o exame em outra data, de posse dos óculos. Pedi-lhe mil desculpas, reparando bem, naquela figura dantesca com o peso acima dos padrões das medidas da estética atual, e pensei:” Essa médica, quando fez seu juramento, repetiu as palavras de praxe, contudo lá no íntimo deve ter dito para si mesma: - Prometo tratar mal toda mulher glamourosa que entrar em meu consultório...E naquele dia, eu estava desarrumada, com os cabelos impregnados de loção capilar, com cheiro de enxofre e, nem por isso, deixei de ser notada. Então pensei: Será que foi o cheiro do enxofre?... Dizem que o “coisa ruim” tem esse cheiro. 

Voltei para casa indignada e não me conformei. Tomei um banho, lavei bem os cabelos e fiz uma escova caprichada, passei aproximadamente uma hora debaixo do secador. Quando terminei, estava quase desidratada. Fiz uma maquiagem básica, fiquei mais glamourosa ainda, e voltei com esse pensamento: “ Vou voltar lá com os respectivos óculos e receituários dos últimos exames e procuro outro médico.”

Não deu outra, cheguei lépida e fagueira, apresentei o documento para a recepcionista indicada, justificando o motivo de eu não haver concluído o exame pela manhã, mas com uma condição: não quero fazê-lo com a médica que me atendeu anteriormente. A atendente garantiu-me que eu poderia fazer com outro. 

Postei-me na fila indicada por ela e, logo em seguida, fui chamada a entrar no consultório, o mesmo daquela manhã fatídica. A famigerada máquina também era a mesma, somente o médico era outro, conforme havia garantido a moça, e recebeu-me com tanta amabilidade que não me contive e falei: 
- Que recepção! 

Mandou que me sentasse e, de sopro, pediu-me que olhasse para a máquina e repetisse as tais letras, eu só conseguia ver até a quarta de uma série. Ele, calmamente, enquanto conferia meus últimos exames, dizia-me: ”Vá lendo,vá lendo! O médico parecia ter muita pressa, eu continuava enganchada no N,B,F...

Ele disse-me:

- Ótimo! Pode levantar-se e mande entrar o próximo! Então pensei: “ que oculista básico”!

E já sai de lá com a carteira provisória em mão.

Por ZINAH ALEXANDRINO



-Pedagoga com pós em Ensino da Literatura;
-Escritora com participações em diversas antologias e jornais acadêmicos nos gêneros: Crônica, Conto, Poesia, Crítica Literária e Discursos Acadêmicos;
-Autora do livro:
  •  Sutileza - Premius Editora 2006 e dos ainda inéditos:
  • A intenção do silêncio - Contos e 
  • Metáfora dos sentidos -Poesia

- Pertence à:



  • AFELCE- Academia Feminina de Letras do Ceará(2ª presidente);
  • AMELCE - Academia dos Municípios do Estado do Ceará;
  • AJEB - Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil;
  • Grupo de Poetas de LMundo e
  • Diversos sites e blogs de poesia na Web.

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