©️2026 Marcio Cavalcante
Um dia desses fomos eu e minha esposa na casa da minha prima Belinha pra ver o filho dela Enrico e conversar com o casal. Naquele momento de conversas sobre amenidades, o Rafael me mostrou fotos de balões e que ele na juventude foi baloeiro de festivais, tinha até uma foto de um balão com o rosto do Jim Morisson que me chamou ainda mais a atenção a aquele assunto, uma vez que eu que morei numa região de muitos festivais lembrei de que achava bonito os balões e as bandeiras e imagens feitas com as velas, etc., mas eu gostava era de jogar bola...
Um AVISO antes de continuar. Não, não estou fazendo apologia dessa atividade , uma vez que soltar balões é crime ambiental e penal no Brasil, sujeito a pena de um a três anos de prisão e multa, conforme a Lei de Crimes Ambientais 9.605/1998.
Voltando ao assunto, mas, para além dos balões prontos, o que mais me chamou atenção foram as imagens do processo: os cortes precisos, os diferentes tamanhos das partes, a organização das peças, a colagem cuidadosa. Era o "antes" do balão — o momento em que tudo ainda parecia fragmentado, mas já carregava, ali, a lógica de algo grandioso que iria ganhar forma.
Ele querendo me mostrar os balões e eu interessado em observar aquelas imagens, comecei a perceber que, por trás da beleza final, existia um conjunto complexo de saberes. Havia noções claras de proporção, equilíbrio, combinação de cores e formas geométricas, além de escolhas de materiais e técnicas que garantiriam que o balão subisse. Tudo isso sem, necessariamente, passar por fórmulas ou nomes técnicos. Era conhecimento aplicado, vivo, construído na prática.
E na condição de professor, foi impossível não pensar na escola. Muitos daqueles conhecimentos fazem parte dos conteúdos ensinados em disciplinas como matemática, física, artes e química (minimamente). No entanto, ali estavam eles, acontecendo de forma concreta, fora da sala de aula, sem quadros, sem provas, sem a formalidade que costuma marcar o ensino. Sem julgamento ou crítica rasa e certamente uma leve generalização, afinal deve haver muitas experiências sobre essa minha percepção e isso levanta uma questão importante: por que, tantas vezes, esses conteúdos parecem distantes da realidade dos alunos e precisam ser aferidos e mensurados de forma burocrática?
Para construir algo como um balão, não basta tentativa e erro apenas. Existe observação, planejamento, organização e um acúmulo de experiências que orienta cada decisão. Sem alguma compreensão — ainda que intuitiva — de geometria, proporção, materiais e funcionamento físico, dificilmente o resultado seria alcançado. Os baloeiros combinam cores, formas e proporções para criar estruturas que sejam ao mesmo tempo bonitas e capazes de se manter no ar por X tempo. Ou seja, o conhecimento escolar está presente, mas não é reconhecido como tal, afinal não "cai na prova".
É no "ir fazendo" que os erros são corrigidos e as técnicas aprimoradas, revelando um processo contínuo de aprendizagem que valoriza a experiência direta com o mundo. Essa forma de aprender dialoga com as ideias de Paulo Freire, que defendia a valorização dos saberes populares e da educação construída a partir da realidade dos sujeitos. Para Freire, o conhecimento não está enclausurado nos ambientes educacionais, mas presente e vivo nas práticas culturais e nas experiências de vida. Nesse sentido, o saber dos baloeiros pode ser entendido como uma expressão legítima de produção de conhecimento. E nota 10 é o balão no ar....
Vale ressaltar que essa reflexão não implica, em nenhum momento, uma desvalorização dos conteúdos ensinados por nós professores. Pelo contrário: os conhecimentos escolares são fundamentais e, muitas vezes, estão presentes — mesmo que de forma não explícita — nas práticas do cotidiano. Conceitos aprendidos em sala de aula como cálculo, noções físicas, química, leitura, interpretação e organização do pensamento contribuem diretamente para que essas experiências práticas aconteçam com mais qualidade e segurança. A escola, portanto, não deve estar dissociada da vida, mas é parte essencial dela, ajudando a estruturar e potencializar saberes que os jovens aplicam em diferentes contextos, dentro e fora da sala de aula.
Ao final, fica ainda mais evidente a importância de valorizar tantos outros conhecimentos empíricos, sociais e coletivos — aqueles que são trocados no dia a dia, construídos na prática e transmitidos de geração em geração que são – de formas e fazeres diferentes – os mesmo que estão na escola, numa via de duas mãos. Reconhecer que o conhecimento também nasce fora da sala de aula é um passo essencial para uma educação mais conectada com a realidade.
E nisso eu também me incluo: você, Rafael, hoje é técnico em ar-condicionado (@rr_clima), domina um saber que exige prática, entendimento e experiência — enquanto eu, nesse assunto, só sei ligar e desligar o aparelho lá do meu apartamento, e tudo bem.
Eu admiro (e preciso) de seus conhecimentos, camarada Rafael.
MARCIO CAVALCANTE
-Graduação com Licenciatura e Bacharelado em História - 2012 - PUC – SP;
-Graduação em Licenciatura em Geografia EAD – Facuminas – MG – 2020;
-Pós-Graduação em História Indígena e Afro Brasileira – Facuminas - MG – 2020; e
-Professor de História F2 e EM Colégio CB/COC – São Roque – SP.
- Ramo de pesquisa: Trabalho: Saúde, Higiene e Segurança, suas representações e articulações por parte dos trabalhadores.
Instagram @historia.poiesis
Nota do Editor:
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Um comentário muito interessante vale salientar sobre as formas geométricas que eram feitos os balões foram aprendidas em salas de aula, e foram levadas para o lazer, sim necessário cada aprendizado que levamos para vida
ResponderExcluirMais uma vez parabéns professor meu idolo