domingo, 23 de agosto de 2026

A importância da saúde mental no meio corporativo


 ©️2026 Luciane Lopes Sanches


Durante muito tempo, falar sobre saúde no ambiente de trabalho esteve associado principalmente à prevenção de acidentes e às condições físicas. Hoje, sabemos que cuidar da saúde mental dos trabalhadores é igualmente essencial. Afinal, não existe produtividade sustentável quando o sofrimento emocional é ignorado.

Passamos uma parte significativa de nossas vidas trabalhando. O ambiente corporativo pode oferecer propósito, reconhecimento, pertencimento, relações sociais e estabilidade financeira fatores que podem contribuir positivamente para a saúde mental. Por outro lado, ambientes marcados por sobrecarga, pressão excessiva, falta de autonomia, conflitos, assédio, insegurança e ausência de apoio podem se transformar em importantes fatores de risco psicossocial.

Saúde mental também é uma questão organizacional

É importante compreender que a saúde mental no trabalho não deve ser tratada apenas como responsabilidade individual do trabalhador.

Frases como "aprenda a lidar com a pressão", "se organize melhor" ou "você precisa ser mais resiliente" podem transferir para o indivíduo uma responsabilidade que também pertence à organização.

Quando o sofrimento está relacionado às próprias condições de trabalho, é necessário olhar para a estrutura que produz ou intensifica esse sofrimento.

Metas inalcançáveis, jornadas excessivas, ausência de reconhecimento, comunicação inadequada, relações hierárquicas disfuncionais, falta de autonomia, conflitos constantes e ambientes de trabalho hostis são exemplos de fatores que podem contribuir para o adoecimento. A Organização Mundial da Saúde recomenda justamente que a prevenção considere a identificação e a redução dos riscos psicossociais nas condições e no ambiente de trabalho.

O impacto na produtividade

Cuidar da saúde mental não significa apenas promover qualidade de vida. Também significa cuidar da sustentabilidade do negócio.

Ansiedade e depressão, por exemplo, estão associadas globalmente à perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com um impacto econômico estimado em US$ 1 trilhão em perda de produtividade.

Além do absenteísmo, existe o chamado presenteísmo: quando o trabalhador está fisicamente presente, mas emocionalmente ou cognitivamente comprometido, apresentando redução de concentração, desempenho e capacidade de tomada de decisão.

Por isso, uma organização que investe em saúde mental não está simplesmente oferecendo um benefício ao funcionário. Está investindo em pessoas, relações, segurança, produtividade e sustentabilidade organizacional.

A importância da liderança

Os líderes possuem um papel fundamental na construção de ambientes psicologicamente mais seguros.

Uma liderança preparada consegue perceber mudanças de comportamento, acolher dificuldades, estabelecer uma comunicação mais efetiva e encaminhar adequadamente situações que necessitem de suporte especializado.

A OMS recomenda capacitação de gestores para reconhecer sinais de sofrimento emocional, melhorar habilidades de comunicação e escuta e compreender como os fatores relacionados ao trabalho podem afetar a saúde mental.

Isso não significa transformar gestores em psicólogos. Significa prepará-los para liderar pessoas sem ignorar que pessoas possuem emoções, limites e necessidades.

Saúde mental e os riscos psicossociais no Brasil

No Brasil, essa discussão ganhou ainda mais relevância com a atualização da NR-1, que passou a contemplar de forma mais estruturada os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

A nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 entrou em vigor em 26 de maio de 2026, e o Ministério do Trabalho e Emprego disponibilizou manual e materiais orientativos para apoiar as organizações na implementação do gerenciamento desses riscos.

Isso representa uma mudança importante de perspectiva: a saúde mental deixa de ser compreendida apenas como uma questão individual e passa a integrar de maneira mais explícita a discussão sobre gestão de riscos, organização do trabalho e prevenção.

O que as empresas podem fazer?

Promover saúde mental exige mais do que campanhas pontuais ou uma palestra durante a Semana da Saúde.

É necessário desenvolver uma estratégia contínua que envolva diferentes níveis da organização, como:
  • identificação e gerenciamento dos riscos psicossociais;
  • capacitação de lideranças;
  • canais seguros de escuta e acolhimento;
  • prevenção e enfrentamento do assédio;
  • melhoria da comunicação interna;
  • revisão de cargas e processos de trabalho quando necessário;
  • programas de educação em saúde mental;
  • incentivo ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal;
  • acesso a suporte psicológico quando indicado;
  • ações de retorno ao trabalho após afastamentos relacionados à saúde mental; e
  • construção de uma cultura que reduza o estigma relacionado ao sofrimento psíquico.
A OMS destaca que ações efetivas devem combinar intervenções organizacionais, capacitação de gestores e trabalhadores, suporte individual e estratégias de retorno e permanência no trabalho.

Prevenir é melhor do que remediar

Uma empresa não precisa esperar que seus colaboradores adoeçam para começar a falar sobre saúde mental.

A prevenção começa quando a organização se dispõe a olhar para aquilo que está produzindo sofrimento.

Perguntar "Como está a saúde mental dos nossos colaboradores?" é importante.

Mas talvez seja ainda mais importante perguntar:

"O que, dentro da nossa própria organização, pode estar afetando a saúde mental das pessoas?"

Essa mudança de pergunta transforma completamente a maneira de pensar o cuidado.

Conclusão

Saúde mental no ambiente corporativo não deve ser vista como uma tendência ou como um benefício adicional. É uma dimensão essencial da saúde, da segurança e da sustentabilidade das organizações.

Cuidar das pessoas não significa reduzir a produtividade. Significa criar condições para que elas possam trabalhar com mais segurança, propósito, equilíbrio e qualidade.

Uma empresa saudável não é aquela em que ninguém enfrenta dificuldades.

É aquela que reconhece as dificuldades, oferece suporte e cria condições para que as pessoas possam continuar trabalhando sem precisar adoecer para serem ouvidas.

Cuidar da saúde mental no trabalho é cuidar de pessoas. E cuidar de pessoas também é cuidar do futuro das organizações.

LUCIANE LOPES SANCHES











  • Graduada em Psicologia pela Faculdade UNIA (2003);
  • Pós-graduação em Neuropsicologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein (2018);
  • Pós-graduação em Psiquiatria Multiprofissional(Saúde Mental com ênfase em Dependência Química(2022)  e
  • Pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pela Faculdade Metropolina (2023).
Atua na área clínica com foco em:
  • Avaliação psicológica e intervenções baseadas em evidências e
  • Psicoterapia de Casais. 
De acordo com  suas palavras:
"Acredito em uma psicologia que acolhe, escuta e transforma. Meu trabalho é voltado para pessoas que desejam compreender melhor suas emoções, fortalecer relações, superar momentos de ansiedade, depressão, estresse e desafios da vida pessoal e profissional.
Atuo com base na ética, no respeito à individualidade e em práticas fundamentadas cientificamente, oferecendo um espaço seguro para que cada paciente possa construir novas formas de lidar com suas dores e desenvolver recursos emocionais mais saudáveis."

📞 Tel/WhatsApp: (11) 93323-2490

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