©️2026 Luciane Lopes Sanches
Durante muito tempo, falar sobre saúde no ambiente de trabalho esteve associado principalmente à prevenção de acidentes e às condições físicas. Hoje, sabemos que cuidar da saúde mental dos trabalhadores é igualmente essencial. Afinal, não existe produtividade sustentável quando o sofrimento emocional é ignorado.
Passamos uma parte significativa de nossas vidas trabalhando. O ambiente corporativo pode oferecer propósito, reconhecimento, pertencimento, relações sociais e estabilidade financeira fatores que podem contribuir positivamente para a saúde mental. Por outro lado, ambientes marcados por sobrecarga, pressão excessiva, falta de autonomia, conflitos, assédio, insegurança e ausência de apoio podem se transformar em importantes fatores de risco psicossocial.
Saúde mental também é uma
questão organizacional
É importante compreender que a saúde mental no trabalho não deve ser tratada apenas como responsabilidade individual do trabalhador.
Frases como "aprenda a lidar com a pressão", "se organize melhor" ou "você precisa ser mais resiliente" podem transferir para o indivíduo uma responsabilidade que também pertence à organização.
Quando o sofrimento está relacionado às próprias condições de trabalho, é necessário olhar para a estrutura que produz ou intensifica esse sofrimento.
Metas inalcançáveis, jornadas excessivas, ausência de reconhecimento, comunicação inadequada, relações hierárquicas disfuncionais, falta de autonomia, conflitos constantes e ambientes de trabalho hostis são exemplos de fatores que podem contribuir para o adoecimento. A Organização Mundial da Saúde recomenda justamente que a prevenção considere a identificação
e a redução dos riscos psicossociais nas condições e no ambiente de trabalho.
O impacto na produtividade
Cuidar da saúde mental não significa apenas
promover qualidade de vida. Também significa cuidar da sustentabilidade do
negócio.
Ansiedade e depressão, por exemplo, estão
associadas globalmente à perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de
trabalho por ano, com um impacto econômico estimado em US$ 1 trilhão em perda
de produtividade.
Além do absenteísmo, existe o chamado presenteísmo:
quando o trabalhador está fisicamente presente, mas emocionalmente ou
cognitivamente comprometido, apresentando redução de concentração, desempenho e
capacidade de tomada de decisão.
Por isso, uma organização que investe em saúde
mental não está simplesmente oferecendo um benefício ao funcionário. Está
investindo em pessoas, relações, segurança, produtividade e sustentabilidade
organizacional.
A importância da liderança
Os líderes possuem um papel fundamental na
construção de ambientes psicologicamente mais seguros.
Uma liderança preparada consegue perceber mudanças
de comportamento, acolher dificuldades, estabelecer uma comunicação mais
efetiva e encaminhar adequadamente situações que necessitem de suporte
especializado.
A OMS recomenda capacitação de gestores para
reconhecer sinais de sofrimento emocional, melhorar habilidades de comunicação
e escuta e compreender como os fatores relacionados ao trabalho podem afetar a
saúde mental.
Isso não significa transformar gestores em
psicólogos. Significa prepará-los para liderar pessoas sem ignorar que
pessoas possuem emoções, limites e necessidades.
Saúde mental e os riscos
psicossociais no Brasil
No Brasil, essa discussão ganhou ainda mais
relevância com a atualização da NR-1, que passou a contemplar de forma
mais estruturada os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho
dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
A nova redação do capítulo 1.5 da NR-1 entrou em
vigor em 26 de maio de 2026, e o Ministério do Trabalho e Emprego
disponibilizou manual e materiais orientativos para apoiar as organizações na
implementação do gerenciamento desses riscos.
Isso representa uma mudança importante de
perspectiva: a saúde mental deixa de ser compreendida apenas como uma questão
individual e passa a integrar de maneira mais explícita a discussão sobre gestão
de riscos, organização do trabalho e prevenção.
O que as empresas podem
fazer?
Promover saúde mental exige mais do que campanhas pontuais ou uma palestra durante a Semana da Saúde.
É necessário desenvolver uma estratégia contínua que envolva diferentes níveis da organização, como:
- identificação e gerenciamento dos riscos psicossociais;
- capacitação de lideranças;
- canais seguros de escuta e acolhimento;
- prevenção e enfrentamento do assédio;
- melhoria da comunicação interna;
- revisão de cargas e processos de trabalho quando necessário;
- programas de educação em saúde mental;
- incentivo ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal;
- acesso a suporte psicológico quando indicado;
- ações de retorno ao trabalho após afastamentos relacionados à saúde mental; e
- construção de uma cultura que reduza o estigma relacionado ao sofrimento psíquico.
A OMS destaca que ações efetivas devem combinar intervenções organizacionais, capacitação de gestores e trabalhadores, suporte individual e estratégias de retorno e permanência no trabalho.
Prevenir é melhor do que remediarUma empresa não precisa esperar que seus colaboradores adoeçam para começar a falar sobre saúde mental.
A prevenção começa quando a organização se dispõe a olhar para aquilo que está produzindo sofrimento.
Perguntar "Como está a saúde mental dos nossos colaboradores?" é importante.
Mas talvez seja ainda mais importante perguntar:"O que, dentro da nossa própria organização, pode estar afetando a saúde mental das pessoas?"
Essa mudança de pergunta transforma completamente a maneira de pensar o cuidado.
Conclusão
Saúde mental no ambiente corporativo não deve ser vista como uma tendência ou como um benefício adicional. É uma dimensão essencial da saúde, da segurança e da sustentabilidade das organizações.
Cuidar das pessoas não significa reduzir a produtividade. Significa criar condições para que elas possam trabalhar com mais segurança, propósito, equilíbrio e qualidade.
Uma empresa saudável não é aquela em que ninguém enfrenta dificuldades.
É aquela que reconhece as dificuldades, oferece suporte e cria condições para que as pessoas possam continuar trabalhando sem precisar adoecer para serem ouvidas.
Cuidar da saúde mental no trabalho é cuidar de pessoas. E cuidar de pessoas também é cuidar do futuro das organizações.
LUCIANE LOPES SANCHES
- Graduada em Psicologia pela Faculdade UNIA (2003);
- Pós-graduação em Neuropsicologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein (2018);
- Pós-graduação em Psiquiatria Multiprofissional(Saúde Mental com ênfase em Dependência Química(2022) e
- Pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pela Faculdade Metropolina (2023).
Atua na área clínica com foco em:
- Avaliação psicológica e intervenções baseadas em evidências e
- Psicoterapia de Casais.
De acordo com suas palavras:
"Acredito em uma psicologia que acolhe, escuta e transforma. Meu trabalho é voltado para pessoas que desejam compreender melhor suas emoções, fortalecer relações, superar momentos de ansiedade, depressão, estresse e desafios da vida pessoal e profissional.
Atuo com base na ética, no respeito à individualidade e em práticas fundamentadas cientificamente, oferecendo um espaço seguro para que cada paciente possa construir novas formas de lidar com suas dores e desenvolver recursos emocionais mais saudáveis."
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