domingo, 9 de agosto de 2026

La Maison Verte e seus desdobramentos no Brasil


 ©️2026 Clara Slywitch de Santi

La Maison Verte é um dispositivo clínico criado por Françoise Dolto em 1979, com o objetivo de atender crianças de zero a três anos completos e seus familiares, de forma pública e aberta à comunidade. A ideia que a autora e outros pedopsiquiatras, psicólogos, psicanalistas e educadores era de que ao criar esse espaço de acolhimento, as crianças pudessem viver esse cuidado com os pais, como uma prevenção, para que elas não chegassem aos seus sete ou oito anos, sem terem experienciado isso antes, apresentando patologias após o ingresso escolar. Ou seja, favorecendo a socialização, prevenindo a violência e sintomas patológicos, sendo uma política de prevenção.

O projeto funciona proporcionando um espaço de acolhimento e escuta à comunidade, podendo ir sem ter que marcar horário, de segunda a sábado, durante o período da tarde. Os trabalhadores de lá, chamados de acolhedores, têm formações diversas. Assim, abrindo a possibilidade de um espaço livre para a brincadeira da criança, fazendo isso para além dos cuidadores principais. Acolhendo quaisquer sentimentos que podem aparecer da criança a partir disso. Ainda, oferecendo esse espaço de socialização e escuta às figuras cuidadoras.

Além de ser um dispositivo disruptivo até os dias de hoje, já que ele continua em funcionamento, é interessante perceber a sua influência para outros dispositivos que foram criados a partir desse. O exemplo mais perto de nós, que podemos dar, é o dispositivo da Casa na Árvore que acontece no Rio de Janeiro. Esta é uma ONG criada em 2001, baseada no modelo francês, previamente apresentado, que busca se adaptar à realidade social brasileira, atuando em comunidades da cidade. Com o contexto sociocultural marcado pela extrema pobreza, baixa escolaridade, violência muito presente, entre outros.

Assim, esse dispositivo atua promovendo um espaço de convivência, para crianças de zero a doze anos com seus responsáveis. A partir da realidade brasileira, muitas dessas crianças são acompanhadas pelos seus pais, mas também pelos seus irmãos. Há o espaço de interação social, com brincadeiras e conversas, seguindo a linha teórica da psicanálise. Os usuários podem ir com a frequência e duração que quiserem. Os plantões duram três horas durante a tarde. As intervenções são focadas nas crianças, através dos conflitos que elas trazem a partir de suas brincadeiras e conversas. A presença dos pais é menor, o que ocorre por diversos fatores sociais, como a jornada de trabalho extensa.

A existência de dispositivos como esses são necessárias para a garantia de direitos da criança, como brincar, segurança social etc. Entretanto, nota-se que esses projetos apenas existem através de ONGs e iniciativas privadas. Apesar de no Brasil termos a presença de dispositivos públicos como CCAs, CEIs, que buscam ter um papel educativo e da cidadania, ocorrendo no contraturno escolar, percebe-se que não faz exatamente a mesma função, já que é voltado menos aos conflitos subjetivos de cada um. Isso se dá por não ser a proposta do equipamento, mas também pela redução de profissionais, já que no CCA, por exemplo, há apenas um educador para 30 crianças.

Desta forma, é necessário que sejam mais estudadas outras formas de intervenção para as crianças, da primeira infância ou não. Criando políticas públicas que visem a garantia de direitos delas, mas não só, que também funcionem como políticas preventivas de violências e patologias futuras.

Referências bibliográficas:

ANDRADE, Ana Barbara de Toledo; SOUZA, Tatiana Holanda de; LINS, Tatiana. A Casa da Árvore: por uma escuta psicanalítica na prática de intervenção social. ECOS – Estudos Contemporâneos da Subjetividade, v. 2, n. 1, p. 109–118, 2012. 

EDITIONS ERES. 1001BB n°123 : Libres enfants de la maison verte. YouTube, 29 de set. de 2011. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=k5bSCxzwoHE. Acesso em: 2 ago. 2026;

MAISON VERTE, 40 anos depois: lugar de vida, lugar de palavra. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 25, n. 2, p. 480-484, jun. 2022. Disponível


CLARA  SLYWITCH DE  SANTI













Quintoanista de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP);

Atua a partir da abordagem psicanalítica, com interesse na escuta clínica e na compreensão dos processos subjetivos sob a perspectiva da Psicanálise.

 Nota do Editor:

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