©️2026 Mariane Maia Brasil Faria
O que faz com que pessoas comuns passem a agir de forma extrema quando inseridas em um grupo? Até que ponto o desejo de pertencimento, reconhecimento e identidade pode levar à suspensão do pensamento crítico? Essas questões atravessam o cotidiano social e educacional e se tornam especialmente visíveis em situações de massa. O filme A Onda funciona como disparadorpara refletir, a partir da psicologia social, sobre os mecanismos de formação, coesão e radicalizaçãodos grupos.
Na obra, um professor propõe a seus alunos uma experiência prática para explicar regimes autoritários. A criação de regras, símbolos e um senso de unidade fortalece rapidamente o grupo,enquanto aqueles que não aderem passam a ser excluídos. O sentimento de pertencimento e visibilidade torna-se central, levando alguns alunos a atitudes extremas. Quando o experimento foge ao controle e é encerrado, o desfecho trágico evidencia os riscos de processos grupais marcados por vulnerabilidades individuais e ausência de manejo adequado.
O contexto do filme dialoga com a adolescência enquanto constructo social, marcada por intensas transformações identitárias. Dolto aponta que adolescentes tendem a se organizar em grupos liderados por figuras com forte poder de sugestão, especialmente quando há insegurança e distanciamento das referências parentais. Zimerman complementa que esses grupos favorecem novas identificações e papéis, funcionando como espaços de pertencimento e reconhecimento.
A consolidação do grupo ocorre por meio de símbolos e rituais que reforçam a identidade coletiva e diluem as singularidades individuais. Essa coesão, embora inicialmente percebida como positiva sustenta-se também pela exclusão do outro. Segundo Zimerman, grupos desse tipo costumam se organizar a partir de vínculos como o amor dirigido ao coletivo e o ódio projetado nos não pertencentes.
Observa-se ainda o vínculo de conhecimento, no qual narrativas compartilhadas passam a operar como verdades absolutas, e o vínculo de reconhecimento, responsável por fortalecer o sentimento de pertencimento. Quando o grupo extrapola o espaço escolar, evidencia-se uma dinâmica semelhante à descrita por Freud na psicologia das massas, marcada por forte investimento afetivo e libidinal.
Do ponto de vista psicanalítico, mecanismos inconscientes ajudam a compreender esses fenômenos.
A clivagem, descrita por Melanie Klein, aparece quando o grupo divide o mundo entre o que é considerado bom e ameaçador, projetando no outro conflitos que não consegue elaborar internamente. Esse funcionamento sustenta papéis rígidos e contratos grupais implícitos.
A partir dessas reflexões, torna-se fundamental pensar o papel do psicólogo diante de fenômenos grupais semelhantes. Em contextos contemporâneos, isso inclui a atuação em ambientes digitais, onde grandes grupos se formam e interagem continuamente. Estudos de Kosinski, Stillwell e Graepel (2013) demonstram que as chamadas "pegadas digitais" permitem observar comportamentos e traços de personalidade em larga escala, abrindo novas possibilidades de análise, mas também importantes desafios éticos.
Matz, Appel e Kosinski (2020) discutem o uso da inteligência artificial no chamado "direcionamento psicológico", prática capaz de influenciar comportamentos coletivos por meio da personalização de mensagens. Esses processos reforçam a necessidade de psicólogos preparados para compreende criticamente os modos contemporâneos de persuasão e formação de massas.
Outra possibilidade de intervenção envolve a criação de grupos psicoterapêuticos no contexto escolar. Pereira e Sawaia (2020) destacam a importância de definir claramente o setting, os objetivos e os instrumentos técnicos, de modo a favorecer a elaboração emocional e a produção de sentido no grupo. Yalom (2006) ressalta ainda que, na psicoterapia de grupo, a postura ética e equânime do terapeuta é fundamental, especialmente na adolescência, fase marcada por intensas demandas de reconhecimento.
Dessa forma, o trabalho do psicólogo em práticas grupais mostra-se essencial tanto no manejo de pequenos grupos quanto na compreensão de fenômenos coletivos mais amplos. Como afirma Freud (2011), a psicologia individual é, desde o início, também psicologia social, pois é sempre na relação com o outro que o sujeito se constitui.
MARIANE MAIA BRASIL FARIA
-Psicóloga cínica graduada pela Universidade de Mogi das Cruzes (2021);
-Pós-graduada em Psicopatologia pela CEEPS (2024) ;e
-Atuação na abordagem da Psicánalise.
Nota do Editor:
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