sexta-feira, 19 de junho de 2026

O que os números não mostram sobre a saúde mental no trabalho


 ©️2026 Marilsa Prescinoti


Os números são alarmantes.

Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, um aumento de aproximadamente 15% em relação ao ano anterior, que já tinha sido extremamente preocupante. Ansiedade, depressão e transtornos relacionados ao estresse lideram as causas de afastamento dos trabalhadores brasileiros.

Os dados revelam uma crise de saúde mental silenciosa que avança ano após ano.

Mas existe uma pergunta que raramente é feita:

O que acontece antes do afastamento?

Antes do diagnóstico existe uma jornada.

Antes do burnout existe uma sequência de sinais ignorados.

Antes da exaustão existe uma história.

E é justamente nessa história que muitas vezes encontramos as respostas.

O adoecimento não acontece da noite para o dia

Embora fatores organizacionais tenham influência importante, reduzir o problema apenas ao ambiente de trabalho pode ser uma simplificação perigosa, quando olhamos de forma individual.

Muitas pessoas passam anos operando acima dos próprios limites sem perceber.

Ignoram o cansaço.

Ignoram o desconforto.

Ignoram a insatisfação.

Ignoram os conflitos internos. Se convencem quem não tem saída, que não podem parar que “dependem de mim”, ligam o piloto automático e normalizam o desconforto, os sinais de alerta do físico, do sistema nervoso, do sistema motoro, cerebral e mental.  Chamam de vida adulta e seguem até que uma doença física ou emocional, até que o corpo pelo sistema nervoso central, começa a fazer aquilo que a mente não conseguiu: parar.

O afastamento raramente é consequência de um único evento. Na maioria das vezes, ele representa o resultado de anos de adaptação excessiva, esforço contínuo e desconexão de si mesmo, este é o ponto mais importante, porém o mais ignorado.

Quando sobreviver se torna um modo de vida

Existe uma diferença entre viver e sobreviver.

Viver pressupõe escolhas.

Sobreviver pressupõe reação.

Muitas pessoas passam grande parte da vida apenas reagindo às demandas externas acreditando que estão no controle, não estão:

  • Trabalhando para atender expectativas.
  • Aceitando situações que não desejam.
  • Evitando conflitos.
  • Buscando aprovação constante.
  • Colocando as necessidades dos outros acima das próprias.
  • Paralisadas ou movidas até o limite pelo perfeccionismo, carregam isso com certo orgulho. (ouço quase que diariamente nos meus atendimentos) “Enquanto não estiver tudo perfeito não paro”  outros tantos Enquanto não estiver tudo perfeito eu nem começo”.  Nem conseguem considerar que não existe perfeição. Existe movimento, avanço e aperfeiçoamento. Mas ninguém precisa se perder de si no processo.

Com o tempo, essa forma de funcionar gera um desgaste profundo.

O indivíduo continua produtivo por fora, mas internamente opera sob tensão permanente.

É como um sistema que permanece ligado continuamente sem tempo para manutenção.

Mais cedo ou mais tarde, o desgaste aparece.

O preço de não conhecer os próprios limites

Uma das maiores dificuldades observadas nos processos de desenvolvimento humano é que muitas pessoas sequer sabem onde estão seus limites.

Foram ensinadas a resistir.

Foram ensinadas a suportar.

Foram ensinadas a continuar.

Mas raramente aprenderam a reconhecer os sinais de esgotamento.

O resultado é um padrão recorrente:

A pessoa só percebe que ultrapassou seus limites quando já está emocionalmente exausta.

A saúde mental não é comprometida apenas por excesso de trabalho.

Ela também é impactada pela incapacidade de perceber quando algo deixou de fazer sentido.

A falta de propósito também adoece

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o vazio provocado pela ausência de significado.

Quando alguém não encontra propósito no que faz, o trabalho deixa de ser um espaço de construção e passa a ser apenas uma obrigação ou apenas sobrevivência.

Isso não significa que todas as pessoas precisam amar o próprio trabalho todos os dias.

Mas existe uma diferença importante entre enfrentar desafios e viver permanentemente desconectado daquilo que possui valor pessoal.

Quanto maior a distância entre quem a pessoa é e a vida que ela constrói, maior tende a ser o desgaste emocional.

A submissão silenciosa que gera sofrimento

Nem toda submissão acontece por imposição externa.

Muitas vezes ela acontece internamente.

A pessoa sabe o que deseja, mas não se posiciona.

Sabe que precisa mudar, mas não age.

Percebe que determinados ambientes lhe fazem mal, mas permanece.

Não porque seja fraca.

Mas porque existem padrões emocionais profundamente enraizados que influenciam suas escolhas sem que ela perceba.

É nesse ponto que o autoconhecimento deixa de ser um luxo e passa a ser uma necessidade, uma decisão estratégica e inteligente.

Os padrões subconscientes que sabotam o desenvolvimento

Grande parte do comportamento humano não é guiado pela razão.

É guiada por padrões automáticos construídos ao longo da vida.

Esses padrões influenciam:

  • A forma de lidar com autoridade;
  • A necessidade de aprovação;
  • O medo da rejeição;
  • A dificuldade em estabelecer limites;
  • A tendência ao excesso de responsabilidade.;
  • A autocrítica constante;
  • A busca incessante por reconhecimento; e
  • A necessidade de controlar tudo o tempo todo.

Quando esses mecanismos permanecem inconscientes, a pessoa repete os mesmos comportamentos mesmo quando eles geram sofrimento.

Ela muda de empresa.

Muda de cargo.

Muda de relacionamento.

Mas continua reproduzindo os mesmos padrões.

O que os Traços de Personalidade têm a ver com isso?

É justamente aqui que a compreensão dos traços de personalidade se torna valiosa.

Cada indivíduo possui uma estrutura de funcionamento que influencia sua maneira de pensar, sentir, reagir e se relacionar com o mundo.

Alguns perfis apresentam maior tendência à autocobrança.

Outros têm dificuldade em dizer não.

Alguns buscam aprovação constantemente.

Outros acumulam responsabilidades além da razoabilidade.

Quando essas características não são reconhecidas, podem contribuir para processos de desgaste emocional e adoecimento.

Por outro lado, quando compreendidas, tornam-se uma poderosa ferramenta de desenvolvimento.

O objetivo não é rotular pessoas.

É ajudá-las a entender os padrões que conduzem suas decisões, emoções e comportamentos.

Saúde mental começa pela consciência

A discussão sobre saúde mental no trabalho é necessária e urgente.

Mas ela não pode se limitar a benefícios corporativos, programas de bem-estar ou mudanças organizacionais.

Essas iniciativas são importantes, valiosas e hoje as empresas já precisam monitorar os seus ambientes.

Porém existe uma dimensão que depende exclusivamente de cada indivíduo: o ambiente interno de cada um, o conhecimento sobre si mesmo.

Pessoas que compreendem seus limites tendem a fazer escolhas mais conscientes.

Pessoas que reconhecem seus padrões emocionais desenvolvem maior capacidade de autorregulação.

Pessoas que compreendem sua própria estrutura comportamental desenvolvem maior consciência sobre seus limites, emoções e padrões de funcionamento. Como consequência, constroem relações mais saudáveis consigo mesmas, com os outros e com o trabalho. Mais do que promover bem-estar individual, essa consciência contribui para a criação de ambientes profissionais, familiares e sociais mais harmônicos, seguros, estáveis e emocionalmente sustentáveis."

Porque ninguém muda aquilo que não percebe.

 Conclusão

Muitas pessoas vivem no automático, ignorando desconfortos, sofrimento e cansaço. Estão tão adaptadas aos seus padrões de funcionamento que sequer percebem que já precisam de ajuda ou que poderiam viver de forma mais leve e satisfatória.

Por isso, o maior desafio talvez seja ampliar a consciência. É aqui que empresas, lideranças e profissionais da área podem fazer a diferença.

O autoconhecimento é uma jornada permanente de ampliação da consciência, desenvolvimento das potencialidades e reencontro com a própria essência.

Eu sigo acreditando que a prevenção começa pela consciência. Por isso, continuo apoiando profissionais e empresas a compreenderem melhor os padrões que influenciam comportamentos, decisões e relações no ambiente de trabalho e nas relações pessoais.

MARILSA PRESCINOTI









Terapeuta Comportamental,AnalistaCorporal,palestrante  e consultora em desenvolvimento humano.

Atua orientando pessoas, lideranças e organizações na compreensão de padrões os padrões de comportamento que influenciam emoções, relacionamentos, decisões e desempenho profissional. Atua no ambiente corporativo com projetos voltados à  diagnóstico e gestão dos fatores de riscos psicossociais, saúde mental no trabalho.

Nova redação da NR-01

Instagram @marilsa.prescinoti

Contato: WhatsApp (11) 963410046

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

3 comentários:

  1. Parabéns; excelente reflexão.

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  2. Perfeito, é sobre isso, o conhecimento de si mesmo, te leva a construir uma vida muito mais leve, chega de encolher para caber.

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  3. Parabéns pelo ótimo texto!! Muito atual e necessário. Por mais materiais como este que podem ajudar tantos se encontrarem e entenderem que as vezes ajuda é fundamental.

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