©️2026 Maria Thereza Pompa Antunes
Não
é o homem que consome, é o consumo que devora o homem.
Jean Baudrillard
O analfabetismo financeiro tem sido apontado por especialistas como o principal motor para o superendividamento das famílias brasileiras. Não que não seja verdadeiro o baixo índice de desempenho em educação financeira que os brasileiros vêm apresentando: nível médio de letramento financeiro 56,9 (em escala de 0 a 100), segundo dados do relatório de letramento financeiro do Banco Central do Brasil (BACEN, 2023); assim como é gritante o nível de endividamento do brasileiro: 81,6% em maio/2026, um recorde histórico, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) em que ainda 29,9% se declararam inadimplentes e 12,3% insolventes, ou seja, incapazes de saldar a dívida (CNC, 2026).
Contudo, a relação entre a educação financeira e o endividamento das pessoas entendo ser uma relação bidirecional, que impulsiona o efeito da retroalimentação, fenômeno em que as causas e as consequências se combinam conduzindo a um ciclo vicioso, agravado pela ação de variáveis intervenientes.
Objetivamente, neste curto espaço, tentarei expor a minha preocupação no que concerne aos aspectos bastante negativos que alimentam essa complexa realidade, por argumentos, almejando contribuir para conscientizar meus colegas professores (e meus leitores) sobre a responsabilidade que nos é imposta, frente a esse cenário, cuja tendência é a de se agravar.
O analfabetismo financeiro (termo análogo ao do analfabetismo funcional) caracteriza as pessoas que não sabem lidar com o dinheiro de forma racional e consciente, sendo essa a principal explicação para o endividamento excessivo. Outrossim, entendo que ultrapassa o domínio das quatros operações básicas, ou mesmo transcende à aversão à matemática, pois em se pensando assim, como justificar pessoas que dominam cálculos e raciocínios complexos também estarem inclusas nas estatísticas de endividamento pessoal?
Visando solucionar (ou mitigar?) essa realidade, é de conhecimento geral que o governo tornou obrigatória a educação financeira para toda a Educação Básica, o que engloba a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, sendo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) responsável por definir as competências e temas transversais que devem ser desenvolvidos ao longo de toda a vida escolar do estudante.
Nesse contexto, evidências cientificas recentes apontam que a prática docente tende a limitar a Educação Financeira a uma abordagem estritamente instrumental, com foco em juros simples, juros compostos e porcentagens, temas básicos da Matemática Financeira, sem a fundamentação metodológica ou didática necessárias para trabalhar a transversalidade exigida pela normativa. A título de exemplo, vale a leitura do artigo de Ferreira e Lima (2024) em que após estudo realizado com professores de matemática da Educação Básica demonstram a confusão entre educação financeira e matemática financeira, as barreiras pessoais dos docentes e a falta de formação adequada para o ensino transversal do tema.
O não se ter controle de quanto se gasta por mês, não ser consistente com o orçamento mensal realizado (ou mesmo nem o fazer), comprar por impulso, ignorar os efeitos dos juros embutidos no preço das compras parceladas (o raciocínio básico é: a prestação cabe no meu salário?), podem ser justificados, ou eliminados, apenas por meio do iletramento financeiro?
Com absoluta certeza afirmo que não e considero ainda ser injusto colocar essa responsabilidade a cargo de nós professores (notadamente os da Educação Básica). Justifico a minha certeza por incluirincluindo nesse contexto algumas variáveis que não podem ser ignoradas.
Uma delas, questão de saúde pública, é o Transtorno do Comprar Compulsivo (TCC), que na psicologia e psiquiatria denomina as pessoas oneomaníacos, cujo impulso é o ato de comprar, alavancado por massivas campanhas de marketing, levando que leva em um primeiro momento primeiramente a um alívio emocional, mas que é sucedido por arrependimento e por impactos negativos atrelados aos prejuízos financeiros, como acúmulo de dívidas e falência. O filme intitulado Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (2009) aborda, com um certo humor, mas criticamente, a dura realidade da protagonista (que também ficou conhecida por A Garota da Echarpe Verde) que é compulsiva por compras, evidenciando as consequências: endividamento e perseguição por parte dos cobradorescredores.
Na forma não de uma doença crônica, mas na busca por prazer momentâneo, tem-se as pessoas impulsivas, aquelas que compram por meio de justificativas frágeis, a exemplo do "eu mereço"e do "já que.... "(já que comprei a bolsa, comprarei o sapato para combinar...parcelam em 10 vezes, nem vou sentir no bolso etc. etc...). A esse respeito, lembro-me sempre de um professor de finanças no Doutorado que dizia: as duas coisas que acabam com as finanças de uma pessoa são o eu mereço e já que...), o que recorrentemente reproduzo aos meus alunos nas aulas de contabilidade e finanças.
Nesse contexto, não posso deixar de mencionar as variáveis socioeconômicos, tais como a baixa renda e o desemprego.
Entendo que essas duas situações podem explicar, mas não justificar os altos índices de endividamento, mesmo porque muito dessas pessoas já se encontram negativadas (sem acesso ao crédito). Também nesse contexto, tem-se as políticas públicas, que são lançadas com o objetivo de aliviar, ou mesmo resolver, a situação dessas pessoas, a exemplo dos recentes programas Desenrola Brasil (2023/2024) e o Novo Desenrola Brasil (2026).
Porém, em relação a isso, junto-me aos diversos especialistas e analistas econômicos que consideram esses programas um desserviço, pois propiciam um alívio imediatopaliativo (dos sintomas), mas não contemplam as causas do endividamento (profilaxia). Parece-me até um contrassenso, pois programas de acesso ao crédito também recorrentemente são lançados, com justificativas eleitoreiras e/ou para fomentar a economia.
Em vista do exposto, finalizo o meu texto reforçando a defesa dos meus colegas professores dos ensinos básico, fundamental e médio...vocês não podem fazer milagres, mesmo se dominassem todos os conceitos de Finanças, Matemática Financeira e, mais recentemente, os conceitos de Finanças Comportamentais.
No meu entendimento, a complexa (e triste) realidade do endividamento das famílias brasileiras tem queprecisa ser analisada e encarada de forma estrutural, sistêmica, e intergeracional e, ainda, com a ciência de que essa conduta pode estar sendo vista como normalizada e enraizada, mesmo em se tratando dos casos críticos de doença crônica.
"A vontade ilimitada com recursos limitados define o problema central da economia e da psicologia humana: a escassez." (Lionel Robbins, 1932)
REFERÊNCIAS
AGÊNCIA SENADO. Educação Financeira. Edição 688
Disponível: https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/especial-cidadania/despreparo-financeiro-da-populacao-e-preocupante
BRASIL.SENADO FEDERAL
(CNC, 2026). Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic)
Disponivel
BACEN – Banco Central do Brasil. Relatório de Letramento Financeiro
Disponível
Leonardo Alves Ferreira e Ivoneide Pinheiro de Lima (2024) Desafios atuais para o ensino de Matemática e a Educação Financeira Escolar. (2024).
REVISTA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA EM FOCO, 12(1). https://doi.org/10.18391/rem.v12i1.2730
Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (2009) Filme,. Disponível na Plataforma de Streaming Disney+
Jean Baudrillard,
A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 1970.
MARIA THEREZA POMPA ANTUNES
-Graduação em Administração pela PUC/RJ (1984), com especialização em Finanças pelo IAG/PUC/RJ (1985), e em Ciências Contábeis pela FEA/USP (2002);
-Mestrado em Ciências Contábeis pela FEA/USP (1999);
- Doutorado em Ciências Contábeis pela FEA/USP(2004);
Atualmente é professora de finanças do Curso Graduação em Administração na Escola Paulista de Política, Economia e Gestão (EPPEN) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e
Tem 27 anos de experiência na área da educação, atuando como docente, pequisadora e gestora.
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