Fonte: Google Imagens
Julgar e condenar são coisas muito diferentes.
Esse texto nasceu de uma analogia construída durante atendimentos clínicos. Ao longo dos anos, observei um sofrimento que aparece repetidamente nos consultórios: pessoas adultas que continuam submetendo suas escolhas ao julgamento de pessoas que não escolheriam como referência se as conhecessem hoje pela primeira vez.
Pais, mães, irmãos, amigos, ex-companheiros, professores e outras figuras importantes ocupam lugares internos que muitas vezes jamais foram questionados.
A questão não está em amá-los. A questão está em quanto poder ainda possuem.
Foi observando esse fenômeno que surgiu a analogia do Tribunal Interno. Imagine que existe, dentro de cada sujeito, uma grande sala de julgamento. Nela, diferentes personagens exercem funções diferentes. O problema é que raramente percebemos quem está ocupando cada cadeira. E mais raro ainda é percebermos que algumas pessoas continuam sentadas em lugares de autoridade que talvez nunca tenham merecido ocupar.
Comecemos pelo juiz.
O juiz não acusa, não defende, não toma partido de imediato. Ele escuta. Sua função é sustentar a complexidade. Precisa ouvir versões contraditórias, suportar dúvidas, analisar circunstâncias e, ao final, decidir. Mas existe algo muito difícil em ocupar essa posição: toda decisão produz consequências.
E o juiz é quem assina a sentença.
Ele pode acertar e pode errar. Pode descobrir mais tarde que não possuía todos os elementos. Mesmo assim, precisa decidir. Porque não decidir também é uma decisão. Talvez seja por isso que tantas pessoas tentem entregar esse lugar para os outros.
Quando alguém vive esperando aprovação para tudo, está terceirizando a função do juiz. Está pedindo que outra pessoa assuma a responsabilidade que pertence à própria vida.
No banco dos réus encontramos aquilo que frequentemente está sendo julgado: nossos desejos.
Desejos de mudar, de crescer, de discordar, de partir, de permanecer, de ser diferente do esperado.
Curiosamente, grande parte dos conflitos humanos não acontece porque o desejo é criminoso. Acontece porque ele ousou existir.
Ao lado dele está o advogado de defesa: a parte que conhece a história completa, que lembra o contexto, que recorda os limites, as dores, as tentativas e os aprendizados.
Do outro lado está o promotor: aquele que aponta incoerências, erros e responsabilidades.
Ambos são necessários. Sem defesa, existe crueldade. Sem acusação, existe irresponsabilidade. Mas nenhum deles deveria ocupar o lugar do juiz.
Existe ainda a polícia interna, formada pelas regras, pelos limites e pelos freios necessários para que a vida coletiva seja possível.
E existem as testemunhas: as lembranças, as experiências e as marcas deixadas pelas relações.
Mas nenhuma dessas figuras é tão interessante quanto o júri.
Porque o júri ocupa um lugar diferente. O juiz, a defesa, a acusação, as testemunhas e a polícia pertencem ao mundo interno. O júri faz fronteira entre o mundo interno e o mundo externo.
Quando somos crianças, não escolhemos quem está sentado ali. Chegamos ao mundo e as cadeiras já estão ocupadas por pai, mãe, avós, irmãos, professores, líderes religiosos e outras figuras de autoridade.
São essas pessoas que inicialmente nos ensinam quem somos. Através delas aprendemos o que merece orgulho, vergonha, admiração ou rejeição.
O problema é que muitas pessoas crescem sem nunca revisar a composição desse júri. Continuam prestando contas para as mesmas vozes. Continuam buscando aprovação das mesmas figuras. Continuam permitindo que pessoas sem maturidade emocional ocupem lugares de autoridade psíquica.
É aqui que uma distinção importante precisa ser feita: amor e autorização não são a mesma coisa.
Posso amar profundamente uma pessoa e não desejar que ela participe das decisões da minha vida. Posso reconhecer sua importância na minha história sem transformá-la em referência para meu futuro. Posso sentir gratidão sem entregar autoridade. Posso preservar o vínculo afetivo sem conceder poder de julgamento.
A análise frequentemente produz esse movimento. Ela não elimina as pessoas. Ela reorganiza os lugares.
Algumas permanecem no júri, outras descem para a plateia, continuam sendo amadas, continuam sendo importantes, mas deixam de ocupar a posição de quem determina o valor das nossas escolhas.
Porque existe uma diferença entre assistir ao julgamento e participar da sentença.
Nem toda pessoa que amamos está preparada para nos orientar e nem toda pessoa que participou da nossa história está preparada para construir o nosso futuro.
Talvez uma das maiores conquistas emocionais da vida adulta seja justamente essa: aprender a separar afeto de autoridade, amor de autorização, presença de influência.
Porque quando essas duas coisas se confundem, passamos a viver tentando agradar pessoas que sequer desejamos nos tornar.
E talvez a análise seja justamente o processo de reorganizar esse tribunal. Não para expulsar todos. Não para viver sozinho. Mas para que cada um ocupe o lugar que realmente lhe pertence.
RENATA DE MASI
-Psicóloga e Psicanalista com atendimento a crianças e adultos em consultório particular em Santo André/SP;
-Psicóloga graduada na UniABC (2011);
-Pós em Psicopedagogia pela UniABC(2012);
-Supervisora clínica;
-Coordenadora do Espaço Rêverie; e
-Coordenadora do ILPC ABC.
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