©️2026 Jacqueline Ferreira de Souza
Introdução
A adolescência é uma das fases mais intensas do desenvolvimento humano. É nesse período que ocorrem transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais que influenciam diretamente a forma como o jovem percebe a si mesmo e o mundo ao seu redor. Embora seja uma etapa marcada por descobertas, crescimento e construção da identidade, também pode representar um momento de vulnerabilidade para a saúde mental.
Nos últimos anos, o aumento dos índices de sofrimento psicológico entre adolescentes tem despertado a atenção de profissionais da saúde, educadores e famílias. Questões como ansiedade, depressão, automutilação e comportamento suicida têm se tornado cada vez mais frequentes, reforçando a necessidade de compreender os fatores que colocam os jovens em risco, bem como aqueles que atuam como proteção.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2019), o suicídio está entre as principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos, tornando-se um importante problema de saúde pública. Diante desse cenário, promover saúde mental na adolescência é uma responsabilidade compartilhada entre família, escola, profissionais de saúde e sociedade.
O que são fatores de risco?
Os fatores de risco são condições ou situações que aumentam a probabilidade de desenvolvimento de sofrimento psíquico e comportamentos prejudiciais à saúde mental.
Entretanto, é importante destacar que a presença de um fator de risco não determina, por si só, que um adolescente desenvolverá um transtorno mental ou apresentará comportamento suicida. Conforme ressaltam Estanislau e Bressan (2014), cada indivíduo reage de maneira diferente às experiências vividas, sendo necessário analisar o contexto de forma ampla e individualizada.
Entre os principais fatores de risco encontrados na literatura estão:
- Baixa autoestima;
- Impulsividade e agressividade;
- Sentimentos de solidão e desesperança;
- Transtornos mentais, como depressão e ansiedade;
- Uso de álcool e outras drogas;
- Violência física, emocional ou sexual;
- Fragilidade dos vínculos familiares;
- Histórico de suicídio na família;
- Bullying e exclusão social;
- Baixo rendimento escolar; e
- Rompimentos afetivos e perdas significativas.
Esses fatores podem se acumular ao longo do tempo, aumentando a vulnerabilidade emocional dos adolescentes e comprometendo sua capacidade de enfrentar desafios cotidianos.
O impacto do bullying na saúde mental
Entre os diversos fatores de risco, o bullying merece atenção especial. Essa forma de violência pode ocorrer presencialmente ou por meio das redes sociais, sendo conhecida, nesse último caso, como cyberbullying.
De acordo com Andrade (2021), o bullying pode provocar queda na autoestima, dificuldades de aprendizagem, ansiedade, depressão e isolamento social. Em situações mais graves, pode contribuir para o desenvolvimento de pensamentos autodestrutivos.
Por isso, é fundamental que escolas e famílias estejam atentas às mudanças de comportamento dos adolescentes, criando espaços seguros de diálogo, acolhimento e intervenção precoce.
A importância dos fatores de proteção
Se os fatores de risco aumentam a vulnerabilidade, os fatores de proteção funcionam como recursos capazes de fortalecer a saúde mental e favorecer o enfrentamento das dificuldades.
Cecconello (2019) destaca três grandes categorias de proteção:
Características individuais
- Autoestima positiva;
- Habilidades sociais;
- Espiritualidade; e
- Capacidade de resolução de problemas.
Apoio familiar
- Comunicação saudável;
- Presença afetiva;
- Limites adequados; e
- Relações seguras e acolhedoras.
Apoio social
- Amigos;
- Escola; e
- Comunidade.
Os fatores de proteção ajudam o adolescente a desenvolver resiliência, ou seja, a capacidade de enfrentar situações difíceis sem comprometer significativamente seu equilíbrio emocional.
O papel da escola na promoção da saúde mental
Depois da família, a escola é um dos espaços sociais mais importantes na vida dos adolescentes. É nela que os jovens constroem amizades, enfrentam desafios, desenvolvem competências e passam grande parte do seu tempo.
Por esse motivo, a escola ocupa uma posição estratégica na prevenção do sofrimento psíquico e na promoção da saúde mental.
Segundo Ávila (2020), o ambiente escolar possibilita a identificação precoce de sinais de risco, favorecendo intervenções preventivas e encaminhamentos adequados quando necessário.
Além disso, a Lei nº 13.935/2019 garantiu a inserção de profissionais da Psicologia e do Serviço Social nas redes públicas de educação básica, fortalecendo a atuação multiprofissional no contexto escolar.
Quando educadores recebem formação adequada em saúde mental, tornam-se mais preparados para reconhecer sinais de sofrimento emocional e contribuir para a construção de ambientes mais acolhedores e seguros.
Desenvolvendo habilidades socioemocionais
Uma das estratégias mais eficazes para a promoção da saúde mental é o desenvolvimento das habilidades socioemocionais.
Essas habilidades envolvem:
- Autoconhecimento;
- Autocontrole emocional;
- Empatia;
- Comunicação assertiva;
- Resolução de conflitos;
- Tomada de decisão; e
- Autoeficácia.
Segundo Mota (2021), a competência emocional está relacionada à capacidade de reconhecer, expressar e gerenciar emoções, contribuindo diretamente para o bem-estar psicológico e para a qualidade das relações sociais.
Investir nessas competências desde cedo significa oferecer aos adolescentes ferramentas importantes para lidar com frustrações, desafios e pressões típicas dessa fase da vida.
Conclusão
Promover saúde mental na adolescência exige um olhar atento para os fatores que aumentam os riscos, mas também para aqueles que fortalecem o desenvolvimento saudável.
Família, escola, amigos e profissionais da saúde desempenham papéis fundamentais na construção de ambientes que favoreçam o acolhimento, a escuta e o desenvolvimento emocional.
Mais do que prevenir problemas, investir na saúde mental dos adolescentes significa criar oportunidades para que eles desenvolvam autoestima, autonomia, senso de pertencimento e esperança diante do futuro.
Ao fortalecer fatores de proteção, contribuímos para a formação de jovens mais preparados para enfrentar desafios, construir relações saudáveis e desenvolver uma vida com mais significado e bem-estar.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Neusa da Silva Soares. Bullying escolar: contribuição do psicodrama para prevenção e intervenção psicopedagógica. 2021.
Disponível em:
Acesso em: 08 abr. 2023;
ÁVILA, Isabela Machado. Comportamento suicida entre estudantes: a escola como espaço de prevenção. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Universidade do Sul de Santa Catarina, 2020;
CECCONELLO, Alessandra Marques et al. Fatores de risco e proteção para o suicídio na adolescência: uma revisão de literatura. Revista Perspectiva: Ciência e Saúde, v. 4, n. 2, 2019;
ESTANISLAU, Gustavo M.; BRESSAN, Rodrigo A. (Org.). Saúde mental na escola: o que os educadores devem saber. Porto Alegre: Artmed, 2014;
MOTA, Helenice de Fátima Silva. Teatro e autoconhecimento: desenvolvendo saberes pessoais na educação básica. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Artes) – Universidade de Brasília, 2021;
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Suicide worldwide in 2019: global health estimates. Geneva: World Health Organization, 2021;
PALÁCIO, Diogo Queiroz Allen et al. Saúde mental e fatores de proteção entre estudantes adolescentes. InterAção, v. 21, n. 1, p. 72-86, 2021; e
SGANZERLA, Giovana Coghetto. Risco de suicídio em adolescentes: estratégias de prevenção primária no contexto escolar. Psicologia Escolar e Educacional, v. 25, 2021.
JACQUELINE FERREIRA DE SOUZA
Graduada em
Psicologia pela Faculdade Anhanguera - Teixeira de Freitas - BA ( 2023);
Atuação voltada para o desenvolvimento humano, saúde
mental e habilidades socioemocionais. Possui experiência no atendimento de
crianças autistas, desenvolvendo intervenções voltadas ao fortalecimento da autonomia,
comunicação e desenvolvimento emocional;
Atualmente, desenvolve
projetos e ações educativas relacionados à prevenção do bullying e à promoção
da saúde mental no contexto escolar, atuando com estudantes do 1º ao 9º ano do
Ensino Fundamental e, mais recentemente, no Ensino Médio;
Seu trabalho integra
conhecimentos da Psicologia e das artes cênicas, utilizando recursos do teatro
como ferramenta para o desenvolvimento do autoconhecimento, da empatia, da
comunicação e das competências socioemocionais;
Jacqueline acredita que a união entre
Psicologia, Educação e Teatro pode contribuir significativamente para a
formação de indivíduos mais conscientes de si mesmos, emocionalmente saudáveis
e preparados para os desafios da vida em sociedade.
Nota do Editor:
Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.
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