©️2026 Scheilla Regina Brevidelli
Eu sempre estudei em colégio estadual. Até que fui percebendo a abrupta queda da qualidade do ensino e reclamei disso para minha mãe.
Decidimos que eu e minha irmã iríamos estudar numa instituição privada. Era possível minha mãe arcar com as despesas e, assim, mudei para um colégio particular.
Eu me sentia deslocada logo no começo. Meus colegas eram de uma classe social acima da minha e, embora ninguém precisasse dizer isso em voz alta, havia vários marcadores que deixavam as diferenças escancaradas.
Aos poucos, fui me adaptando e me inserindo nas novas rotinas de aulas e provas, e confesso que gostei dos desafios que me foram propostos.
Mas uma experiência, em especial, me marcou profundamente.
Era verão e eu fui vestida com uma camiseta regata. Algo simples, natural para o calor daquele dia. Então o bedel veio até mim e me chamou a atenção pela minha vestimenta, dizendo que eu não poderia circular por lá sem estar com uma blusa de manga.
Fiquei revoltada com essa restrição, que me soava tão sem sentido e, ao mesmo tempo, tão invasiva. Era como se o meu corpo, de repente, tivesse se tornado um problema.
Comentei com uma colega, esperando algum consolo, alguma solidariedade. Mas ela me disse que aquela vestimenta era muito excitante para os homens e que ela julgava correta a atitude do bedel. Meu espanto aumentou ainda mais pelo fato de, sendo mulher, ela concordar com tal ingerência sobre nossos corpos.
Num outro dia, fui novamente com a mesma regata, mas já estava preparada com uma blusa de manga para vestir por cima. Ideia da minha mãe. Era a minha atitude de protesto, tímida talvez, mas carregada de revolta com algo que eu não concordava. O bedel veio novamente me chamar a atenção, dizendo inclusive que poderia me expulsar do ambiente.
Na época, eu desconhecia que aquele colégio era uma instituição protestante. Mas isso não diminui o gosto amargo da experiência de ver o machismo se impor sobre a minha vida e meu comportamento.
E o fato de tantas mulheres aceitarem isso sem crítica só mostra o quanto ele está disseminado em nossa cultura desde cedo, quase como se fosse natural.
É preciso refletir que a moda não é sobre auto afirmação, mas é sobre gênero. Ela pode ser usada como ferramenta de controle do corpo feminino. Além de ser a causa da responsabilização da mulher nas situações de assédio.
Minha regata, naquele momento, foi a minha bandeira de liberdade. E eu me orgulho profundamente disso.
SCHEILLA REGINA BREVIDELLI
Conforme suas próprias Palavras :
"Sou Servidora pública federal da Justiça do Trabalho da 2ª Região há mais de 36 anos, psicóloga e bacharel em Direito pela USP(2000), além de escritora, poeta e criadora do podcast de crônicas e memórias "Nem Te Conto".
Nota do Editor:
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