©️2026 Fábio da Fonseca Jr.
Atenção não é apenas interesse
Todo professor conhece este cenário: chega para iniciar uma matéria nova, prepara uma abordagem para falar daquele assunto e, por vezes, trata-se de uma aula que já ministrou em outros anos e que deu certo. Mas, naquela turma, nada funciona. Alguns alunos olham para o nada; outros fingem que estão prestando atenção; alguns conversam entre si e, em determinados momentos, há alunos olhando para o celular.
O que aconteceu?, pensa o professor. Já dei esta aula em outras turmas e funcionou tão bem…
Eu já passei por isso e tenho certeza de que outros professores também. Será que estamos diante de uma geração desinteressada ou de uma geração que foi educada em um ambiente que tornou a atenção contínua cada vez mais difícil?
Esse episódio pode acontecer, inclusive, com alunos que têm interesse pelo conteúdo que está sendo desenvolvido. O aluno gosta do assunto, mas tem dificuldade em manter a atenção durante a explicação. Aqui temos um ponto importante a ser discutido: a capacidade de atenção.
O interesse pode até nos ajudar a direcionar a atenção para um determinado tema, mas manter a atenção e o foco são hábitos que precisam ser desenvolvidos. Prestar atenção durante determinado período exige tolerar momentos em que o conteúdo não é imediatamente estimulante. Talvez uma das coisas que a escola precise ensinar seja justamente a capacidade de permanecer diante de algo que não oferece uma recompensa imediata.
Afinal, existe uma diferença entre ter interesse por alguma coisa e ser capaz de sustentar a atenção sobre ela.
Um aluno pode gostar de História, por exemplo, e ainda assim ter dificuldade para acompanhar uma explicação mais longa. Pode gostar de ler, mas não conseguir permanecer concentrado durante várias páginas. Pode querer aprender, mas se distrair constantemente.
Talvez estejamos diante de uma habilidade que, como tantas outras, precisa ser desenvolvida. E isso nos leva a outra questão: em que tipo de ambiente estamos tentando ensinar nossos alunos a prestar atenção?
Vivemos em uma cultura da distração
A cultura atual é dispersiva. Celulares e toda sorte de telas nos rodeiam. Notificações chegam a todo instante. As redes sociais nos apresentam temas novos continuamente, enquanto os vídeos curtos e aleatórios devoram nosso tempo e nos expõem a uma sucessão incessante de estímulos.
Todas essas realidades competem pela nossa atenção. Informações, interações, sons e imagens são apresentados de maneira a manter o usuário conectado pelo maior tempo possível.
Não se trata simplesmente de dizer que a tecnologia é ruim. Ela trouxe possibilidades extraordinárias de comunicação, acesso à informação e aprendizagem. O problema está na maneira como nossa relação com ela pode afetar a capacidade de permanecer durante algum tempo diante de uma única atividade.
Se, fora da escola, o jovem está acostumado a receber estímulos novos a cada poucos segundos, o que acontece quando ele entra em uma sala de aula e precisa permanecer, durante vários minutos, concentrado em uma única explicação?
Talvez seja injusto esperar que o aluno simplesmente desligue essa lógica ao entrar na escola.
O celular é realmente o vilão?
Seria confortável colocar toda a responsabilidade sobre o celular. Bastaria proibi-lo e o problema estaria resolvido. Mas a realidade é mais complexa.
Os alunos acessam conteúdos e se comunicam de maneira diferente daquela de alguns anos atrás — e nós também mudamos nesse aspecto. O excesso de estímulos, a falta de hábitos de estudo, a ansiedade diante das tarefas da vida, questões emocionais, a falta de sono… Há uma série de outros fatores que podem contribuir para a dificuldade de manter a atenção e a concentração.
Por isso, as formas como engajamos nossos alunos em um tema precisam ser repensadas. O estímulo precisa ser maior e, cada vez mais, percebo que uma das primeiras coisas que devo ensinar aos meus alunos é como prestar atenção.
E aqui existe uma mudança importante de perspectiva.
Em vez de perguntar apenas "Como faço para conseguir a atenção dos meus alunos?", talvez precisemos perguntar:
"Como ensino meus alunos a desenvolver a própria atenção?"
Com isso, é importante dizer: o aluno tem responsabilidade sobre sua atenção, mas a escola também precisa refletir sobre como está tentando capturá-la.
"Essa geração não quer aprender"
Certamente, nos ambientes em que vocês atuam, a conversa na sala dos professores pode chegar a uma conclusão parecida com esta:
"Essa geração não quer aprender."
Mas será que é só isso?
O velho Aristóteles já nos dizia que "todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer". Por isso, veja bem: meu propósito aqui não é dizer o que devemos ou não fazer, mas refletir sobre o fato de que a falta de interesse pode envolver diversas questões.
Há um ponto, porém, que precisamos destacar: não querer fazer uma atividade é diferente de não conseguir manter a atenção nela.
Talvez essa distinção seja importante para nós, professores. Quando interpretamos toda dificuldade de concentração como simples desinteresse, corremos o risco de deixar de perceber um fenômeno muito mais complexo.
A atenção também precisa ser educada
Ninguém nasce sabendo estudar. Essa é uma habilidade que adquirimos. Concentrar-se para ler ou ouvir longamente com atenção é algo que desenvolvemos ao longo da vida.
Sim, em épocas com menos tecnologias digitais, talvez fosse mais fácil consolidar essas habilidades. Mas o fato é que nascemos para aprender e, para isso, precisamos de atenção.
E se a atenção é necessária para aprender, talvez ela também deva fazer parte do processo educativo.
Isso significa que não devemos simplesmente esperar que o aluno chegue à escola sabendo concentrar-se durante longos períodos. Assim como ensinamos a ler, escrever, pesquisar, argumentar e resolver problemas, podemos também ajudá-lo a desenvolver hábitos que favoreçam a concentração.
Por isso, meu amigo professor, algumas coisas podem nos ajudar:
estabelecer limites claros para o uso do celular;
trabalhar progressivamente com períodos maiores de concentração;
propor atividades que exijam participação;
ensinar técnicas de estudo;
criar momentos de leitura prolongada;
ajudar o aluno a perceber quando sua atenção está sendo desviada;
alternar momentos de exposição, reflexão, diálogo e produção.
Não existe, evidentemente, uma fórmula mágica. Cada turma possui suas características e cada professor conhece melhor do que ninguém a realidade de seus alunos.
A escola precisa transformar toda aula em entretenimento?
Sem dúvida, aulas mais atraentes ajudam na atenção e na concentração dos alunos. No entanto, a escola não precisa transformar toda aula em entretenimento.
É fundamental entender que existe uma diferença entre tornar uma aula interessante e acreditar que toda aprendizagem precisa ser divertida o tempo inteiro.
Aprender também exige esforço. Exige silêncio, leitura, repetição, paciência, tentativa, erro e, algumas vezes, até mesmo tédio.
Nem tudo o que é importante será imediatamente interessante.
Talvez um dos grandes desafios da educação contemporânea seja justamente ensinar o aluno a permanecer diante de uma tarefa mesmo quando ela não oferece uma recompensa imediata.
Afinal, se ensinarmos nossos alunos apenas a se envolver com aquilo que imediatamente desperta seu interesse, como eles aprenderão a perseverar diante de algo difícil?
Ensinar a atenção é educar para a liberdade
Talvez nossos alunos não tenham simplesmente perdido a capacidade de prestar atenção. Talvez estejam vivendo em uma sociedade que disputa sua atenção o tempo inteiro.
Nesse cenário, a escola enfrenta um desafio que vai muito além de conseguir silêncio durante uma explicação. Ela precisa ajudar crianças e adolescentes a desenvolver uma capacidade cada vez mais valiosa: a capacidade de escolher onde colocar sua atenção e permanecer ali.
E talvez essa seja uma das questões educacionais mais importantes do nosso tempo.
Porque aquele que não consegue escolher para onde direcionar sua atenção acaba permitindo que outros escolham por ele. As redes sociais, os algoritmos, as notificações, os vídeos e as inúmeras informações que nos cercam estão constantemente disputando aquilo que temos de mais limitado: nossa atenção.
Por isso, ensinar alguém a prestar atenção não significa apenas ajudá-lo a aprender melhor Matemática, História, Filosofia ou Ciências. Significa ajudá-lo a desenvolver uma capacidade fundamental para sua própria autonomia.
Em uma sociedade que disputa nossa atenção a cada segundo, ensinar alguém a prestar atenção pode ser uma das formas mais importantes de educá-lo para a liberdade.
FÁBIO DA FONSECA JUNIOR
- Graduado em Filosofia pela Faculdade São Luiz - Brusque/SC (2008);
- Graduado em História pela Faculdade Paulista São José - Elói Mendes/MG (2017); e
- Mestrado em Educação pela Universidade Federal de Lavras/MG - UFLA (2019)
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