©️2026 Michel dos Santos Reis
Quem já jogou Truco sabe que, às vezes, a partida deixa de ser sobre as cartas. O jogador passa a gritar, blefar e provocar para intimidar o adversário. Há momentos em que ninguém mais está preocupado com a mão que recebeu e o objetivo passa a ser simplesmente não deixar o outro ganhar. A política brasileira parece ter chegado a esse ponto.
As eleições de 2026 mostram um país ainda dividido entre Lula e Flávio Bolsonaro. O Datafolha[1] aponta Lula com 39% e Flávio com 33% no primeiro turno. No segundo turno, a diferença diminui para quatro pontos: 47% contra 43%. Esses números revelam uma disputa apertada, mas também revelam outra coisa: grande parte do debate continua organizada pela lógica do PT contra o PL e o eleitor é frequentemente convidado a escolher um lado antes mesmo de ouvir propostas. Quando isso acontece, a política deixa de ser instrumento de construção coletiva e se transforma em campeonato, torcida e, não raramente, em hostilidade. O problema já não é existir esquerda ou direita.
Democracias saudáveis precisam de posições diferentes, confronto de ideias e oposição. O problema aparece quando a identidade política se torna uma espécie de religião. Nesse ambiente, qualquer crítica ao próprio grupo parece uma traição e qualquer acerto do adversário precisa ser negado, diminuído ou ridicularizado. A pesquisa também mostra que esse cenário não é absolutamente imóvel - há diferenças importantes por região, religião, idade, gênero e posição política. Lula lidera entre alguns grupos, enquanto Flávio se destaca especialmente entre evangélicos. Isso deveria nos lembrar que o eleitor brasileiro é muito mais complexo que duas etiquetas.
Até o comportamento nas buscas do Google reforça a movimentação do cenário eleitoral.
Depois do debate da Band, realizado no último domingo, Renan Santos e Augusto Cury ultrapassaram Flávio nas buscas. Ainda assim, Lula permaneceu à frente (segundo os dados parciais do Google Trends)[2], ou seja, existe curiosidade, há espaço para outros nomes e a disputa está em movimento.
Mesmo assim, a velha lógica binária continua dominando boa parte da conversa pública. E o motivo, talvez, seja porque extremos políticos oferecem uma sensação confortável de certeza. Eles dividem o mundo entre bons e maus, patriotas e inimigos, salvadores e ameaças. O problema é que a realidade brasileira é muito mais complicada do que isso:
Até propostas de segurança pública precisam ser avaliadas com sobriedade, e não com slogans.
A BBC, ao discutir o chamado modelo Bukele, mostra justamente os limites de importar soluções prontas. Especialistas lembram que PCC e Comando Vermelho possuem estruturas muito diferentes das facções salvadorenhas. Contudo, é inegável que essas facções precisam ser combatidas e erradicadas para o bem da população. Porém, lembrar dessas diferenças e buscar uma solução para o problema brasileiro, serve para compreender esse momento da política: soluções simples podem soar fortes, mas nem sempre resolvem problemas complexos.
Por isso, começo a pensar que o Brasil precisa de uma espécie de tratamento contra a polarização. Uma das saídas, talvez, seja pensar numa terceira via que uma força e sobriedade. Após o debate no último domingo, segundo a BBC Brasil[3] e o portal Metrópoles, as buscas pelo nome do Dr. Augusto Cury têm crescido nessa tendência. Ele, que é psiquiatra de formação, escritor de atuação, renomado no país, nos mostra que, talvez, um psiquiatra seja a solução para os extremos políticos que adoeceram a mentalidade da população dividida entre PT x PL e que acharam os discursos de Caiado e Zema, rasos, e o de Renan extremista e sem amparo constitucional para boa parte de suas propostas sem um legislativo que o apoie. Não digo isso como diagnóstico médico da sociedade, mas como metáfora para a necessidade de recuperar o equilíbrio. Precisamos reaprender a discordar sem transformar o adversário em inimigo. Precisamos cobrar propostas, resultados, coerência e responsabilidade de qualquer candidato. Precisamos também aceitar que nenhum partido possui o monopólio da virtude.
Assim sendo, as eleições deveriam ser uma escolha racional entre projetos diferentes, não uma guerra entre torcidas. O eleitor não deveria votar movido apenas pelo medo de que o outro lado vença e nem deveria transformar candidato em herói, como se dele dependesse a salvação do país. O Brasil continuará existindo depois de outubro, independentemente de quem vencer e continuará precisando de cidadãos capazes de conversar, fiscalizar, criticar e cooperar. Talvez a maior vitória desta eleição seja sair dela menos doente de polarização.
No Truco, quem grita mais alto nem sempre tem a melhor carta. Às vezes, o blefe funciona; outras vezes, a realidade simplesmente revela o jogo. Na política, talvez esteja na hora de parar de gritar "Truco!" e começar a olhar as cartas.
REFERÊNCIAS
[1] DATAFOLHA, 1º turno: veja intenção de voto por região, gênero, idade, posição política e religião. G1, Política, Eleições 2026, 22 ago. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral/noticia/2026/08/22/datafolha-1o-turno-veja-intencao-de-voto-por-regiao-genero-idade-posicao-politica-e-religiao.ghtml. Acesso em: 25 de agosto de 2026;
[2] MATAIS, Andreza. Com debate, Renan Santos e Cury ultrapassam Flávio em buscas no Google.Metrópoles, Colunas, 24 ago. 2026
Disponível em https://www.metropoles.com/colunas/andreza-matais/com-debate-renan-santos-e-cury-ultrapassam-flavio-em-buscas-no-google. Acesso em: 25 de agosto de 2026 e
[3] BBC BRASIL. Quem é Augusto Cury, escritor que disputa a presidência nas eleições 2026. BBC News Brasil, 2026. Disponível https://www.bbc.com/portuguese/articles/c2kwj59yledo. Acesso em: 26 de agosto de 2026.
MICHEL DOS SANTOS REIS
- Graduado no Curso de Pesquisa e Extensão sobre combate ao Bullying pela Universidade Estadual Sudoeste da Bahia (2015);
- Graduado no curso livre de "Política Contemporânea , da plataforma SABERES, oferecido pelo Instituto Legislativo Brasileiro(ILB), do Senado Federal (2018) ;
- Graduando em HISTÓRIA pela UNOPAR EAD;
- Palestrante e escritor amador
Nota do Editor:
Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.


Nenhum comentário:
Postar um comentário