©️2026 Jonathan Souza Melo
Há bem pouco tempo (que podemos considerar, pela idade da humanidade, um certo "ontem"), iniciou-se um processo profundo de mudança nas identidades. O lugar cativo para cada pessoa dentro de uma família, antes muito bem delimitado, passou a ser abrandado e modificado na direção de uma liberdade autônoma e limitante, prazerosa e angustiante — se assim podemos definir o fenômeno por ambivalências.
O que se era esperado de cada pai, mãe, filho ou filha, hoje, passa a ser condicionado pelo direito de bradar pelo que se é — sem saber exatamente como se construir. Há um conflito inédito na nossa história como espécie entre os "sábios" e os "tricksters", que disputam o lugar do saber e da autoridade de maneira, em geral, amplamente antagônica: um não deseja ser o outro. Onde impera a experiência e a detenção de um certo poder, não podem existir ideias de liberdade que ameacem toda uma sólida construção de vida, engendrada por décadas e décadas de vivência; do outro lado, há a ideia inovadora e irresistível de mudar tudo que existe, em nome do progresso, ainda que se mantenham algumas tradições (não sem modificá-las para algum tipo de "novo normal").
Talvez seja o feminismo o maior pivô de grande confrontação entre esses dois grupos de pessoas que, naturalmente, não são absolutos (convém que sempre haja exceção à regra). Um movimento social que descola a mulher do desejo do homem é em si revolucionário, e toda uma estrutura fortemente enraizada em um patriarcalismo, que passou a ser progressivamente visto como arcaico, acaba por ter, inevitavelmente, que reagir a isso. Como supracitado, há ainda uma forte rejeição a um novo paradigma de relações sociais — que só pode se sustentar mediante pequenas concessões, as quais um movimento de igualdade de gênero jamais se dará por satisfeito. Contudo, há de se deparar com algumas considerações sobre como a hierarquia social é afetada por esse fenômeno, e como isso pode impactar na percepção de cada ser social e individual.
Em um mundo em que a sustentação de valor não é papel (e lugar) exclusivo do homem, inicia-se também uma disputa pelo rearranjo validável do ser. Inúmeras discussões em redes sociais podem nos falar sobre isso, nas quais o homem deseja manter para si o poder de atribuir importância às coisas do mundo, desvalorizando uma possível parceira que ouse querer igualar-se. Logo se vê todo tipo de desvalorização (mecanismo de defesa tão na moda) da figura da mulher independente, sempre que esta ouse trabalhar, estudar, ganhar repertório e, especialmente, ser minimamente dependente possível de qualquer coisa que caiba num discurso patriarcal. É a luta interna de um homem que se vê, socialmente, em um novo processo de interdição, no qual o desejo do mundo não gira em torno de sua figura, e que sequer sustenta seu papel como de praxe na história da nossa espécie. Nisso, vemos crescentes correntes de homens que procuram se unir em torno de criar, em bando, uma nova ideia de preservação de seu aspecto fálico, trazendo às vistas muitos episódios caricatos de um eu ideal, que se recusa sistematicamente a olhar e perceber os impedimentos que se impõem diante do próprio narcisismo. A perda do lugar de valorização e destaque faz com que o masculino regrida a um ponto exigente diante da ameaça percebida, o que, para todos os efeitos, devolve-o à necessidade de instituir uma autoridade pré-edípica, que é exercida sob forma de uma coerção que, neste período da infância, não era conscientemente necessária. O menino nada sabia sobre o seu desejo. Quando cresceu, aprendeu algo sobre ele — e agora já o desconhece.
A mulher, neste ínterim, precisa também rearranjar o próprio desejo, dado que se dispõe a uma maior sorte de possibilidades. Uma mulher que brada pela liberdade e pela igualdade não está apenas falando de uma desigualdade de gênero contra a qual lutar, mas também fala sobre o direito de se afirmar como indivíduo. De saída, é possível apontar muitos benefícios de tornar-se progressivamente independente (até mesmo de maneira moral), até que suas necessárias conquistas cheguem ao ponto existencial, em uma pergunta categórica: o que pode desejar alguém que sustenta o ideal de que tudo pode fazer? O que pode querer alguém que nutre a crença de que nada irá faltar, no que tange ao seu esforço individual? Rapidamente, reconheceremos que a capacidade laboral que o feminino vêm desenvolvendo sustenta esse abismo do repertório de desejo em comparação ao masculino, dado que a mulher ocupa cada vez mais um lugar que foi exclusivamente do homem, enquanto este último permanece trancado na própria ferida narcísica, recusando-se à conscientização nesse rearranjo social. Além do que, sempre houve no feminino um repertório específico de valorização entre mulheres, algo observado como tabu entre os homens. A solução teórica para as implicações trazidas no início deste parágrafo seria a sororidade: indivíduos autônomos se dão uns com os outros e se respeitam, tolerando a existência dos pares heterogênicos, perdidos na própria vertigem existencial. Mas sabemos que o desejo não funciona assim, de forma tão simples e mecânica.
Ainda vivemos em um mundo amplamente heteroafetivo (não apenas em relacionamentos amorosos). Sendo assim, ambos os gêneros ainda terão que se dar com o outro, por obrigação ou afinidade. Neste meio criam-se as exceções de visão de mundo, frestas pelas quais um homem consegue desejar algo em uma mulher que ouse escapar-lhe, ou uma mulher é capaz de reconhecer e requerer o valor de um homem, mesmo que pretenda a si própria como alguém a quem nada irá faltar. A recusa recíproca encontra sempre a exceção recíproca, pois o que há de mais recíproco entre homens e mulheres é a internecessidade do desejo um pelo outro. E nisto, esclareçamos que por "desejo" não devemos pensar apenas em prazer direto e imediato, em uma comunhão utópica e paradisíaca. Há desejo também no conflito. O que significa dizer, em última instância, que há prazer no conflito, ainda que seja de forma a estabelecer as diferenças "inaceitáveis" para reconhecer o valor da reconciliação. Há sempre no outro a tela para a projeção do valor pessoal de cada sujeito, logo, não é possível sustentá-lo destruindo por completo este outro — assim como em se permitir ser completamente destruído por ele.
A crise de identidade entre os gêneros acaba sempre por fazer-nos perceber duas coisas: não há crise sem uma forte cisão social que permita aos indivíduos o amadurecimento, lentamente, através de reducionismos primários; e que, mesmo com todo insistente esforço para garantir o próprio lugar ou posse fálicos, não há indivíduo que colabore com o supracitado amadurecimento para o qual não exista o vazio, a falta, a perda e a capacidade de continuar a verificar-se em seu próprio desejo.
- Psicólogo graduado pela FMU-SP (2019);
- Pós-graduado em Psicologia Hospitalar e da Saúde pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Psicologia e Saúde - CEPPS (2022);
- Pós-graduado em Neurociência, Comportamento e Psicopatologia pela PUC-PR (2025);
- Aperfeiçoando em Fundamentos da Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae
- São suas palavras:
"Sou entusiasta de artes escritas e e visuais,especialmente pinturas.Vejo o mundo sob viés psicanalítico/psicodinâmico, enriquecendo assim minha experiência na clínica psicológica e na vida."
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