©️2026 Margarete Brito
Há uma frase que circula pela internet, atribuída a Mario Quintana, que diz: "Sempre preferi deixar dezenas de mulheres esperançosas do que uma só desiludida". Não importa, aqui, se ele realmente a escreveu. Importa que muita gente parece tê-la transformado em filosofia de vida.
É curioso como alguns homens colecionam mulheres da mesma forma que acumulam abas abertas no navegador: nenhuma é fechada, nenhuma é realmente acessada por inteiro. Mantêm conversas paralelas, promessas em suspenso, emojis distribuídos com precisão cirúrgica. Não constroem vínculos. Administram expectativas.
Chamam isso de liberdade. Eu me pergunto se não seria outra coisa.
Talvez exista, escondido sob essa sucessão de conquistas, um velho instinto de caça que nunca aprendeu a descansar. O caçador precisa da perseguição, não da chegada. O desejo mora na possibilidade, nunca na presença. Quando finalmente alcança o que queria, o encanto evapora. Então parte para a próxima presa, convencido de que o problema estava na mulher, quando talvez sempre tenha estado no vazio que ele carrega.
Será que amadurecer significa justamente abandonar essa necessidade de provar, a cada nova conquista, um valor que nunca consegue se sustentar sozinho?
Há quem diga que homens são mais racionais e mulheres mais emocionais. Nunca consegui comprar essa explicação. Porque administrar várias relações superficiais exige muito cálculo, é verdade. Mas também revela uma profunda dificuldade emocional. É preciso sentir muito pouco para naturalizar a ansiedade de quem espera uma resposta, o entusiasmo de quem acredita ser especial, a decepção silenciosa de descobrir que era apenas mais uma janela aberta.
Talvez não seja excesso de razão. Talvez seja falta de coragem.
Coragem para escolher uma pessoa e permitir que ela conheça as próprias fragilidades. Coragem para permanecer quando a novidade passa e a intimidade começa. Coragem para aceitar que profundidade exige renúncia, e que toda escolha verdadeira fecha outras portas.
É mais fácil seduzir do que ser conhecido.
Vivemos uma época em que as pessoas aprenderam a performar afeto. Curtem fotos, enviam mensagens de bom-dia, decoram preferências, fazem chamadas de vídeo, desaparecem, reaparecem. Tudo parece amor. Mas parece apenas. É um amor com filtro, algoritmo e prazo de validade.
Fake love.
Não porque as palavras sejam falsas. Muitas vezes elas são sinceras naquele exato minuto. O problema é que algumas pessoas só conseguem amar o instante. Não sabem amar a continuidade. Confundem intensidade com profundidade, química com compromisso, atenção com presença.
No fim, talvez o maior prejuízo não seja das mulheres que ficaram esperançosas. Esperança se refaz. Coração aprende.
O maior prejuízo é de quem passa a vida inteira colecionando começos e nunca descobre a beleza dos capítulos seguintes.
Porque existe um tipo de solidão que só alcança quem nunca permaneceu tempo suficiente para ser verdadeiramente amado.
MARGARETE BRITO
- Membro correspondente da Academia Itabaianense de Letras, é paulistana, apresentadora do Canal Caqui Literário no Youtube, integrante do Coletivo Di’versos e produtora cultural;
- É autora dos livros:A Busca de Luna: o cativeiro do ansioso é dentro de si mesmo (Profac 2019); Katarzze: os bastidores do sucesso (2020); Os cinco sentidos (2023) e Papo com pipoca e outras histórias (2025), Uma mensagem de amor pra você (2026), dentre outras participações em antologias; e
- Faz parte do selo Kuno Editorial, onde contribui na organização e divulgação de Antologias e projetos da editora
Instagram:
@margaretebritoautora e @caquiliterario
Nota do Editor:
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