sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Crônica de uma escritora independente que paga os seus boletos


 ©️2026 Adriana Batista da Rocha


A inspiração é uma coisa linda. Chega sem avisar, senta na beirada da alma, pede um café e entrega um capítulo inteiro. Às vezes, traz um personagem, uma frase, uma história escondida em algum canto da existência. Outras vezes, aparece com uma ideia tão boa que a gente passa a noite escrevendo, convencida de que acaba de receber uma visita do Olimpo.

O problema é que os deuses não pagam a conta de luz.

E, ao que tudo indica, também não fazem Pix.

Sou escritora. Independente. Daquelas que acreditam que a palavra tem peso, que a literatura pode transformar alguém e que uma boa história não precisa de fogos de artifício para iluminar uma vida. Também sou uma mulher que conhece a diferença entre inspiração e faturamento. Uma coisa alimenta a alma; a outra compra o arroz.

Não que eu despreze o dinheiro. Seria uma contradição bastante inconveniente, especialmente quando chegam os vencimentos. O vil metal é necessário, sim. O artista precisa comer, morar, trabalhar e, de preferência, não descobrir que o fornecimento de energia elétrica foi suspenso enquanto escrevia uma metáfora sobre a luz interior.

A questão é outra.

Em algum momento, confundiram o valor da arte com o valor de mercado do artista. E, em certas rodas, a fama parece ter adquirido poderes milagrosos: transforma cachês em direitos divinos, aplausos em títulos de nobreza e questionamentos em provas irrefutáveis da ignorância alheia.

Experimente perguntar quanto custa determinado espetáculo, quem paga a conta e por que aquele artista foi escolhido. Dependendo de quem responde, você descobrirá que não entende de cultura, não compreende a importância da arte e provavelmente deveria voltar para a escola.

Curioso. O cidadão que paga impostos pode financiar o espetáculo, mas não parece ter competência intelectual para perguntar quanto custou.

É uma espécie de democracia cultural bastante peculiar: todos contribuem, alguns decidem, poucos recebem e quem questiona ainda corre o risco de sair da conversa levando uma aula gratuita de superioridade moral.

Naturalmente, a arte tem valor público. A cultura precisa de incentivo. Há projetos que jamais encontrariam financiamento no mercado e que, justamente por isso, merecem atenção especial. Uma obra pode ser excelente e não encontrar público suficiente para se sustentar comercialmente. É aí que o fomento cultural deveria cumprir seu papel: criar oportunidades para que a qualidade artística não dependa exclusivamente da capacidade de vender ingressos.

Mas existe uma diferença entre fomentar a cultura e financiar privilégios.

Não faltam escritores, músicos, artistas plásticos e produtores culturais talentosos que sequer conseguem tirar seus projetos do papel. Gente que escreve depois do expediente, ensaia sem estrutura, improvisa equipamentos, paga a própria impressão e aprende a fazer divulgação porque não há dinheiro para contratar quem faça. Enquanto isso, determinados nomes já consagrados circulam com a desenvoltura de quem descobriu uma fonte inesgotável de recursos.

Se há um milhão na conta, minha senhora, meu senhor, por que o artista precisa disputar com quem já tem condições de financiar a própria produção?

Para mim, o critério deveria ser simples: o incentivo precisa priorizar quem necessita dele para transformar um projeto em realidade. Se a finalidade é descobrir talentos, que se procurem talentos, inclusive aqueles que não têm assessoria de imprensa, sobrenome conhecido ou amizade nos corredores certos.

E isso só acontecerá quando as secretarias de Cultura e os ministérios responsáveis pela área contarem com pessoas preparadas, comprometidas com o interesse público e dispostas a realizar uma curadoria de alto nível. Gente que conheça a produção artística, saiba avaliar projetos e tenha disposição para olhar além dos nomes que já aparecem nas revistas, nas entrevistas e nos podcasts.

Fama não é sinônimo de qualidade. Prestígio não é certificado de relevância. E um projeto não se torna extraordinário só porque seu autor tem uma fotografia bonita na parede de algum gabinete.

Não significa que todo desconhecido seja genial ou que todo consagrado seja dispensável. Significa estabelecer prioridades coerentes com a finalidade do fomento cultural. O talento precisa ser reconhecido, e a necessidade de apoio deve ter peso na seleção. Caso contrário, corremos o risco de chamar de política cultural aquilo que não passa de manutenção de privilégios.

Parece simples. Talvez seja justamente esse o problema: certas obviedades ficam muito complicadas quando alguém precisa abrir mão de uma vantagem.

Enquanto isso, a escritora independente segue trabalhando.

Escreve, revisa, pesquisa, estuda, organiza, divulga. Aprende sobre contratos, direitos autorais, distribuição, plataformas digitais e estratégias comerciais. Descobre que, além de inventar mundos, precisa entender de planilhas. Além de criar personagens, precisa atender clientes. Além de cultivar a inspiração, precisa aprender a administrar o negócio.

É uma vida fascinante.

Principalmente quando o boleto vence na segunda-feira e a inspiração resolve aparecer apenas na quinta.

Mas há uma recompensa que não depende de edital, patrocínio ou aprovação de comissão alguma. É o momento em que uma história encontra seu leitor. Quando alguém se reconhece em uma personagem, muda a maneira de enxergar uma situação ou simplesmente fecha um livro com a sensação de ter vivido algo que não viveria de outra forma.

Isso não paga todas as contas. Convém não exagerar na poesia. Mas lembra à escritora por que ela começou.

A arte não precisa ser inimiga do mercado. O artista pode e deve profissionalizar sua atividade, cobrar pelo trabalho, aprender a negociar e buscar sustentabilidade financeira. O problema começa quando a administração passa a valer mais do que a criação, quando a autopromoção substitui a obra e quando o artista se convence de que o mundo lhe deve uma vida de celebridade porque um dia teve uma boa ideia.

A inspiração pode ser um presente. A carreira, não. A carreira exige trabalho, escolhas, disciplina e, muitas vezes, a coragem de seguir sem aplausos.

Quanto a mim, continuo acreditando no Belo, na palavra e na capacidade que a arte tem de provocar uma espécie de metanoia, essa transformação interior que nos faz rever certezas e enxergar o outro de maneira diferente.

Continuo acreditando que a cultura não deve ser um clube fechado, com convites distribuídos entre os mesmos convidados. É preciso abrir portas, descobrir novos talentos e oferecer oportunidades a quem tem algo relevante a criar, mas ainda não encontrou meios de fazê-lo.

Enquanto isso não acontece, sigo sem coroa, sem séquito e sem a pretensão de morar no Olimpo dos outros.

Escrevendo, à frente da minha editora, cuidando da casa e, ultimamente, dedicando-me também aos cuidados do maridão, em recuperação de uma cirurgia na coluna. Este é o meu Olimpo.

Longe do coletivismo, do vitimismo e dos grupelhos de ególatras, construo e governo o meu próprio reino. Nele, sou, antes de tudo, mulher do lar, escritora e microempresária. Aqui, reino sem precisar de coroa, aplausos ou licença alheia.

Tenho manuscritos para revisar, projetos para tirar do papel, uma editora para administrar, uma casa para cuidar e contas para pagar.

A inspiração pode até ser divina, mas a vida cotidiana exige presença, trabalho e responsabilidade.

E, quando chega o vencimento, o credor costuma ser bastante terreno.

Não aceita arrependimento como forma de pagamento.

ADRIANA BATISTA DA ROCHA
























Segundo suas próprias palavras:

"Adriana Rocha é escritora, Doutora Honoris Causa em Literatura, premiada no Brasil e no exterior. Arteterapeuta por vocação, editora-chefe da Gira Livro por paixão — do lar por escolha e, nas horas vagas; filha, mãe, esposa, avó e…surtada com estilo quando é necessário…"

Nota do Editor:

Todos os artigos publicados no O Blog do Werneck são de inteira responsabilidade de seus autores.

Um comentário:

  1. Uma realidade crescente em todo mundo o talento a arte colocado na gaveta pois não há sustento ou oportunistas de talento alheios

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